O estranho esbravejar do governador

130815-Alckmin Pressionado por sinais de que escândalo da Siemens atingirá seu governo, Alckmin distanciou-se da empresa. Mas há indícios muito fortes dos vínculos entre ambos. Veja quais são Por Vinícius Gomes O governador paulista, Geraldo Alckmin, reagiu de forma criativa, terça-feira (13/8), diante do agravamento do escândalo de corrupção que ameaça seu governo e respinga sobre os anteriores. Confrontado com sinais de que quatro corporações transnacionais manipularam preços de equipamentos e serviços vendidos à Companhia do Metrô (controlada pelo Estado), mostrou-se indignado. Afirmou que processará a corporação alemã Siemens, uma das envolvidas: “É ré confessa. (…) Vai indenizar centavo por centavo. As outras empresas, [se for] concluído que participaram de um cartel, também serão processadas”, disse ele. As empresas têm sido capazes de constituir um cartel e elevar artificialmente os preços, por cerca de duas décadas, sem conhecimento dos dirigentes do Metrô ou dos governadores? A hipótese que Alckmin sugere é verossímil? Diversos indícios sugerem o contrário. Acompanhe: > Desde 2008, a ação criminosa de formação de cartel e superfaturamento em obras, serviços e equipamentos era objeto de investigação. Mesmo assim, as empresas envolvidas com as denúncias (principalmente a alemã Siemens e a francesa Alston) continuaram a participar de licitações e a vencê-las. Esta permissividade absoluta não é sinal de que o governo sabia do esquema e o manteve por confiar que permaneceria oculto? > Analisadas friamente, as práticas ilegais nem eram tão complexas e elaboradas. As empresas encontravam-se e combinavam preços a serem apresentados ao governo, superfaturando a licitação. Uma das empresas (nos casos já examinados, a Siemens) ganhava a licitação e, ato contínuo, subcontratava as demais, que haviam acabado de ser “derrotadas”. > As investigações realizadas até o momento, pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), já identificaram um esquema de pagamento de propina a autoridades paulistas. Tudo indica que seria impossível fraudar tanto tempo grandes licitações sem participação do governo. Segundo o CADE, após ganhar uma licitação, a Siemens recompensava membros da Companhia do Metrô ou do Executivo envolvidos por meio de uma subcontratação simulada. Essa empresa era quase sempre a MGE Transportes. Ela tinha como função basicamente, sacar na boca do caixa as quantias depositadas pela Siemens, e repassar para funcionários do alto escalão do Metrô, da CPTM e políticos do PSDB. Eram muitos saques, sempre em valores abaixo de R$ 10 mil, para não despertar atenção do Banco Central. > O site Caso Alstom e os Tucanos traz, por sinal, uma vasta coleção de matérias, publicadas na mídia tradicional, sobre a ligação PSDB-Alstom. Os textos vêm de 2008. Não constituem, porém, uma investigação jornalística intensa. São matérias esparsas, como se não houvesse preocupação, em cada jornal, de seguir o assunto ou aprofundá-lo. Ao reunir o conjunto dos textos, o site torna visível a existência do esquema. > Outro esquema para o pagamento de propinas, durante os governos de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin (todos do PSDB) fluía a partir de operações internacionais. A propina circulava em contas de pessoas físicas e jurídicas, em paraísos fiscais. Isso já era conhecido há pelo menos dois anos, como demonstra este texto, do site R7. > A linha de defesa do governo fica completamente desacreditada quando se verifica que um estudante de jornalismo da Universidade Berkeley, nos EUA realizou um projeto de mestrado sobre o caso de corrupção, em 2012. A pergunta obvia é: como um estudante norte-americano tinha, no ano passado, acesso a emails e cartas trocadas, denunciando a corrupção da Siemens em São Paulo e o governo estadual diz que irá investigar o caso agora? Certamente, não se pode afirmar ainda que o pagamento de propina tenha envolvido a própria pessoa de Covas, Serra e Alckmin. Mas a manobra primária do atual governador revela uma impressionante intenção de abafar o caso, antes que as investigações se aprofundem.

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