Kabengele Munanga: vida e ideias de um pensador anti-racista

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

Por Jean Mello

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

Nela, revelam-se detalhes da atuação do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, junto aos movimentos negros. Também escancaram-se as estruturas que sustentam o preconceito silencioso brasileiro. Além de trazer a tona sua vida enquanto cientista social, Kabengele relata episódios de preconceito consigo e com seus filhos, num país que até pouco tempo atrás anunciava ao mundo harmonia entre as diferentes pessoas de cores de pele distintas.

Um dos episódios de polêmica mais ácida em sua carreira foi o debate que travou, em 2009, com o geógrafo Demétrio Magnoli. Este o acusou, num artigo intitulado Monstros Tristonhos, de ser um dos líderes do projeto de racialização do Brasil. Além disso, sustentou que duas universidades federais — as de Santa Maria e São Carlos, haviam criado tribunais raciais e cancelado as matrículas de jovens mestiços.

Na réplica, Kabengele apresenta-se como alguém que milita intelectualmente para que outros negros, índios e brancos pobres tenham as mesmas oportunidades que ele. O texto foi reproduzido por uma infinidade de sites alternativos. Nele, o antropólogo sustenta que “um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça”. Considera, ainda que “não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo”. O debate reacendeu a polêmica em torno das cotas raciais.

No vídeo anterior e em sua continuação, a seguir, está recente entrevista cedida ao programa Trajetória, da TV USP, que procura tornar público o pensamento de professores e pesquisadores da instituição, fazendo um paralelo entre vida acadêmica e pessoal.

Kabengele não nasceu no Brasil. Porém, conhecer seu pensamento e o que viveu no continente africano é valioso para enxergar melhor a complexidade e particularidades da sociedade brasileira.

TEXTO-FIM

7 ideias sobre “Kabengele Munanga: vida e ideias de um pensador anti-racista

  1. Jean Mello, muito boa a sua leitura sobre o assunto. Concordo com nosso amigo Kobengele Munanga quando ele diz: ““um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça.”
    Em minha opinião, O racismo é a tendência do pensamento, ou o modo de pensar, em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras, normalmente relacionando características físicas hereditárias a determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais. É um preconceito contra um “grupo racial”, geralmente diferente daquele a que pertence o sujeito, e, como tal, é uma atitude subjectiva gerada por uma sequência de mecanismos sociais. Para se chegar ao ideal, ainda há muito trabalho a ser feito. Mas acredito que, se realmente houver uma mudança de pensamento, haverá uma mudança de atitude.

    Abraços.

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  3. O colega de profissão Demétrio deveria poupar suas palavras para por em seus livros desajeitados… Justamente a resposta que o Prof Kabengele orgnaiza é uma das fontes de sustento da minha dissertação. Tenho admiração e apreço por essa figura que luta pela igualdade de direitos, jamais de indivíduos. Somo pessoas singulares, com culturas diferentes e ninguém tem o direito de suprimir uma ou outra, seja pelo argumento que quiser.

  4. Poucos sao os homens que abrem a boca pra falar e falam com conhecimento de causa, kabenguele munanga com seus textos bem refletidos, e que vao ao foco das questoes raciais no brasil mostra que para existir mudanças nas leis que punem o crime de racismo e necessario antes perceber melhor as origens do preconceito e formas de combatelo de forma inteligente e articulada.

    • Valeu valeria bezerra, recomendo a todos que conheço ler pelo menos uma pagina do que kabenguele munanga escreve, mesmo que nao concorde mos com ele nao podemos ignorar o problema e a dificuldade que os afrodescendentes sofrem em nossa sociedade dita "sociedade democratica de direito" e bom ouvirmos oque falam pensadores como o kabenguele. fika na paz valeria..

  5. O racismo a brasileira” é de fato um grande problema a ser resolvido nessa moderna sociedade brasileira. Isto exige um posicionamento firme por parte daqueles que tem consciência da emergente mudança de visão sociorracial que promova uma equidade entre os jovens brasileiros, que representam a esperança de uma sociedade renovada para o futuro brasileiro.

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