Miséria, teu nome é “austeridade”

Declínio social e cultural da Itália: 25% da população já vive sob risco de pobreza; novas medidas de desmonte dos serviços públicos ameaçam mais de cem jornais

A imagem deste post retrata uma edição histórica. Em 31 de dezembro, Liberazione, o jornal do Partido da Refundação Comunista (PRC) italiano lançou o que pode ser seu último número impresso. Depois de circular diariamente, durante vinte anos, mantendo redação de dezenas de pessoas e cobertura dos principais fatos nacionais e internacionais, Liberazione está ameaçado de fechar. As medidas de “austeridade” decretadas pelo governo de tecnocratas chefiado pelo primeiro-ministro Mário Monti cortaram 68,8% dos recursos destinados a subsídio para jornais e revistas que compõem a diversidade editorial do país. Nada menos de cem publicações estão ameaçadas de fechar as portas. Algumas delas têm grande tradição. Por exemplo, L’Unità, fundado por Antonio Gramsci; Il Manifesto, surgido das revoltas de 1968; Avvenire, diário católico.

Liberazione é o mais diretamente ameaçado. Diante do corte dos recursos públicos, a direção do PRC julgou-se sem condições de manter a circulação do jornal em bancas. A redação insurgiu-se. Considerou tal decisão “suicida”, ocupou a sede da publicação (OccupyLiberazione), iniciou campanha de coleta de fundos e decidiu conservar a edição internet.

Subsidiar publicações não-comerciais é uma política seguida, há décadas, por diversos países europeus. O welfare-state que garantiu uma redistribuição menos desigual da riqueza coletiva a partir do pós-guerra, incluía diversas ações em favor da cultura e da liberdade de expressão. O corte aplicado por Mário Monti havia sido decidido, meses atrás, pelo então premiê Silvio Berlusconi, ele mesmo o homem mais rico da Itália e um magnata da mídia comercial.

Na edição de 30/11, matéria publicada por Il Manifesto revelava outro lado das políticas de “austeridade”. Segundo o Istat, instituto público de estatísticas italiano, o percentual de italianos em risco de pobreza ou exclusão social subiu a 25%, no final de 2010 — ano em que foram iniciada a atual onda de cortes de direitos sociais e gastos públicos. Segundo o Istat, 16% das famílias declaram “chegar com muita dificuldade ao final do mês”; e 11,5% não são capazes de aquecer adequadamente suas casas no inverno.

Já na edição de hoje, o mesmo Il Manifesto expõe como os cortes de verbas públicas atingem de modo desigual os diversos setores da sociedade. Embora seja o 10º mais volumoso do mundo, o orçamento italiano para gastos militares não perdeu um centavo, em 2012. Continua fixado em 23 bilhões de euros. A cada dois dias, o Estado gasta, com armamentos e manutenção da máquina de guerra, o equivalente ao que foi cortado dos jornais não-comerciais.

TEXTO-FIM

4 ideias sobre “Miséria, teu nome é “austeridade”

  1. Ajudem-nos.
    A Toda Sociedade Brasileira.
    Abaixo, manifesto nacional por melhoria da condição de um povo com o estigma doloroso de vidas – 800000 pessoas, 90% analfabetos, segundo o IBGE – relegadas ao abandono e à execração pública diária. Resolvemos apelar para a compaixão e a responsabilidade civil de todos os segmentos da sociedade, por puro cansaço de anos de tentativa inglória de amenizar a dor do despertencimento.
    Estamos enviando-lhes este manifesto de pedido de socorro imediato ao Povo Cigano, para que todos se sensibilizem e interfiram junto aos órgãos competentes, para incluí-los nas políticas públicas de saúde, educação, erradicação da miséria e de comportamentos preconceituosos que causam tanto sofrimento a esses seres à margem da vida.
    Nós, voluntários do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, APAC, Casa de Passagem, e na cidade de Viçosa, Minas Gerais, além do Forum Mundial Social – Mineiro e diversas outras entidades requeremos as medidas emergenciais de inclusão destes brasileiros, que já nascem massacrados pelo fardo vitalício da dor do aviltamento e segregação atávica em nossa sociedade, desabrigados que são da prática do macroprincípio da dignidade da pessoa humana, telhado da Constituição.

    Cliquem no link abaixo, no artigo da SEPPIR, que confirma a situação deles. E, por favor, leiam o anexo.
    http://noticias.r7.com/brasil/noticias/falta-de-politicas-publicas-para-ciganos-e-desafio-para-o-governo-20110524.html
    Se nosso país tornou-se referência em crescimento econômico, certamente conseguirá sê-lo também em compaixão e acolhimento dessa causa universal.
    DE GENTE ESTRANHA, em caravana.
    Dolorosamente incômoda.
    Ciganos. Descobrimos, perplexos, que suas famílias são excluídas dos programas de bolsa-família, saúde, educação, profilaxia dentária, vacinas etc. Sua existência se torna mais dramática, pois não conseguem os benefícios do governo por não terem endereço fixo. Segundo o IBGE, são cerca de 800.000, 90% analfabetos.
    Há seis anos, resolvemos visitar um acampamento em Teixeiras, perto de Viçosa. E o que vimos foi estarrecedor: idosas, quase cegas, com catarata. Pais silenciosamente angustiados, esperando os filhos aprenderem a ler em curto espaço de tempo, até serem despejados da cidade. Levamos ao médico crianças que “tinham problema de cabeça”. E eram normais. Apenas sofriam um tipo diferente de bullyng, ignoradas, invisíveis que são. Chefes de família com pressão altíssima e congelados pelo medo de deixarem os seus ao desamparo.
    Vida itinerante. Numa bolha, impermeável. Forasteiros no próprio país. Dor sem volta. Passamos a visitar todos que aqui vem. E a conviver com o drama de mulheres grávidas, anêmicas e sem enxoval. Crianças analfabetas aos dez, onze anos.
    Sugeriram-nos que eles precisam se organizar e reivindicar. Ora, alguém já viu seqüestrado negociar com sequestrador? Como pessoas reféns do analfabetismo, execradas publicamente todos os dias de suas vidas, amordaçadas pelo preconceito e com filhos para alimentar conseguirão lutar por algo? Vide a Pirâmide de Maslow. Quem tem que gritar somos nós. Para eles não sobra tempo de aprender o ofício da libertação, já que são compulsoriamente nômades – sempre partem porque os donos dos terrenos ou algum prefeito pressionado expede a ordem de saída.
    A gente descobre, atordoada, que desde a primeira diáspora, quando passaram a viver à deriva, sempre expulsos, eles vivem numa cápsula do tempo. Conservam os mesmos hábitos daquela época, ou seja, sociedade patriarcal, vestuário, casamento prematuro, a prática de escambo e a mesma língua dos antepassados. Tudo isto PORQUE NÃO PARTICIPAM DAS TRANSFORMAÇÕES DA CIVILIZAÇÃO. Jamais tem acesso às benesses das pesquisas tecnológicas e científicas, aos programas governamentais de erradicação da miséria, às celebrações civis agregadoras ou sequer a proposta de ao menos um olhar de compaixão.
    E, então, “civilizados” que somos, cristãos ou não, que gritamos por nossos direitos, que votamos a favor ou contra, que existimos, continuaremos a dormir em paz?
    Agradecemos a todos que se sensibilizarem com a causa.
    Respeitosamente,
    Profª.Bernadete Lage Rocha
    [email protected]
    031-88853369
    Voluntariado:
    APAC – Viçosa-MG
    Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente
    Conselho de Segurança Alimentar
    MULHERES PELA PAZ
    PASTORAL NÔMADE

    • Obrigada, Professora! Vou partilhar o seu texto. Conheço os ciganos evangélicos portugueses, da denominação “Cristo para Todos”. Nunca vi gente cantando tão bem na igreja, a experiência mais enriquecedora que já tive! Povo extrordinário! Temos que ser a sua voz, sim!

      Música tradicional dos ciganos do leste europeu

  2. Pois é, esta história de “austeridade”…Como são terríveis,insidiosos e negativistas estes repelentes “teóricos” do monetarismo, do conservadorismo reacionário que nos infestam, pelo menos desde quando Getúlio iniciou a sua tentativa de reabilitação como estadista, ao tentar criar um capitalismo nacional, brasileiro,conduzido por brasileiros soberanamente,sem subserviências e agachamentos perante o capital financeiro internacional,nocomeço dos anos 50. Chegamos ao fim de 2011 e finalmente ficamos sabendo, pela voz da Presidente, o que nenhum destes calhordíssimos supostos centros jornalísticos do país foi capaz de informar com clareza e isenção: que o Brasil tem todas as condições de atravessar a crise, que não é nossa, para a qual não contribuimos com nada, mas que com toda a certeza, na primeira oportunidade, os responsáveis por ela vão tentar nos envolver e prejudicar nossa vida econômica interna, para se desafogarem. Disse a Presidente: o crédito será mantido para grandes e pequenos aplicadores,o consumo estará garantido para amplos segmentos que conseguiram transpor recentemente as fronteiras da miséria absoluta,e assim os empresários faturarão, terão o seu lucro, pagarão seus impostos e o Governo redistribuirá parte da arrecadação em favor dos atuais e futuros redimidos economicamente. Estávamos assim concertados até sexta-feira, e bastaram um ou dois dias úteis e a charanga dos reacionários,eternamente de sobreaviso para coibir toda tentativa de pensamento inovador e anti-elitista, já se faz sentir na imprensa de hoje, dia 3 : “Economistas prevêem escalada nos juros até o final do ano” . Já vão soltando balões de ensaio para ir minando o campo, para já ir semeando na mente dos pascácios de classe média a “inevitabilidade” de tão “sábias” assertivas.Textualmente:”Com o esforço fiscal mais fraco (em 2012), economistas afirmam que é inevitável uma nova escalada na taxa de juros no fim deste ano e ao longo de 2013, colocando em xeque a promessa da Presidente Dilma Rousseff de baixar os juros reais a 2% até o fim do mandato”. Quanta empulhação! Quanta vilania a título de “jornalismo”! Como conseguem publicar tanta falsidade maliciosa? Que “economistas” são esses? Fizeram mesmo um levantamento sério e abrangente,pelo menos junto ao Corecon e mais da metade de seus filiados se manifestaram neste sentido? Eu absolutamente duvido! Recorreram,isso sim,quando muito,aos dois ou três cumpinchas da Dona Miriam Leitoa,musa máxima no Brasil do difícil mister de desinformar e de ludibriar a opinião pública em assuntos de Economia. O Eugênio Gudin que o Destino nos deu, com correção monetária, sem ao menos um centésimo da cultura do finado e nada saudoso oráculo.E assim vão eles semeando o terreno, a cada mínima manifestação que outras categorias de economistas,permanentemente amordaçadas,conseguem fazer chegar ao público. Desgraçado país! Ley de Medios nestes crápulas e o quanto antes!

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