Europa: adeus à democracia?

A maneira como a crise financeira vem sendo combatida pelos governos europeus demonstra que a democracia ficou reduzida à mínima expressão do exercício periódico do voto

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

O anunciado “fim da história” liberal capitalista está ficando bem mais tumultuado do que os apologistas do proclamado sistema do “livre mercado” poderiam ter imaginado. E, se for para se falar em “fim”, mais parece que se trata só do início do fim, mais dos centros do poder econômico e político dos últimos dois séculos, especialmente da Europa.

O capital, sem inimigos e dançando sozinho à vontade pelo mundo afora, longe de achar o equilíbrio que deveria garantir a justa e “natural” distribuição dos recursos e bens (o trabalho da chamada de “mão invisível”) e levando democracia e liberdade para todos os cantos do globo, está, ao contrário, destruindo tudo — e, primeiro, as velhas democracias europeias.

Quem imaginaria apenas quatro anos atrás uma situação como a atual: “Caídos pelo euro”, reza o título da capa do jornal de Barcelona El Periódico. Na foto: o italiano Berlusconi, o grego Papandreu, o espanhol Zapatero, o português Sócrates e o irlandês Brian Cowen. O euro, a moeda que até parecia destinada para substituir a hegemonia do esgotado dólar, pode até desaparecer — o que ainda não aconteceu porque pensá-lo produz mais medo do que qualquer outra opção.

Tudo indica que a decisão, seja qual for, só vai ser tomada na marra mesmo. Porque, na verdade, ninguém hoje é capaz de adivinhar qual é o sacrifício exigidos pelos “mercados” para acalmar a sede infinita de lucros rápidos e crescentes. “Cúpula para nada”, é a manchete do Economist do dia 27 de outubro, depois do encontro de urgência dos países da União Europeia (UE) para tratar das soluções à crise na zona.

Entretanto, materializam-se com contornos nítidos novas realidades políticas e institucionais no “velho continente”. Alguns governos nacionais passaram a ser, no melhor dos casos, meros administradores ou gestores das contas que decide o conluio constituído pela denominada de “troika”: Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu e a direção efetiva da UE (o capital e os governos alemão e francês). Assim, delegados desta troika se deslocam para a Grécia e a Itália (ainda membro do G-7, ou seja uma das sete maiores economias do mundo), onde vão dirigir e supervisar que os administradores façam corretamente o que já foi decidido nas sedes centroeuropeias.

A democracia, nem é preciso falar, fica reduzida à mínima expressão do exercício periódico do voto — e vai ficar, no melhor dos casos, apenas como ritual legitimador das decisões já tomadas pelos autênticos donos do pedaço. Na corrida, a política fica pelo caminho, os chamados “mercados financeiros” já não respeitam nem as formas, e mesmo na hora que o parlamento italiano aprova todas as medidas cobradas e o primeiro ministro anuncia sua demissão e a convocação de novas eleições, eles continuam a exigir mais e mais. Que dizer do anúncio de referendo feito há uma semana pelo primeiro ministro grego e sua posterior desistência, consequência direta das pressões de governos e “mercados”?

Até o governo de uma economia como a francesa, com toda sua propalada “grandeur”, vai aprovar o orçamento com maior recorte do gasto público desde 1945: “O país que sentou as bases da Ilustração e a Revolução burguesa que acabou com a monarquia absolutista deve demonstrar agora ao resto de sócios comunitários que é um bom aluno e que também impõe recortes para a sua economia, que em muitas ocasiões passou dos limites da União Europeia em matéria de dívida pública e déficit”, afirma o jornal conservador La Vanguardia, no dia 7 de novembro.

Neste contexto, por mais que com as lógicas contradições, conseqüência das duras políticas fiscais, a prioridade da UE continua sendo o apoio ao setor financeiro. Vem se falando da taxação das transações financeiras, assunto que aparentemente teria apoio de vários países, entre eles a própria Alemanha, mas a coisa parece ainda muito verde. E, por enquanto, a diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, adverte do risco de que a economia global “perca uma década” de crescimento por causa da crise da dívida da eurozona.

Assim, nada permite pensar que as medidas aprovadas pela troika devam melhorar a situação. Bem ao contrário. As populações da Europa, porém, e na aparente falta de opções ou alternativas, talvez ainda acreditem ou tenham disposição para suportar por algum tempo sacrifícios e sofrimentos.

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