Haverá “desenvolvimento” sem Reforma Política?

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Brasil está maduro para um novo ciclo de reformas, capaz de enfraquecer oligarquia e ampliar participação popular. Mas haverá disposição de enfrentar as resistências?

Por Ricardo L. C. Amorim*

“a garantia final de êxito de um caminho entrevisto dependerá sempre
da ação humana coletiva, que pode falhar.”
Fernando Henrique Cardoso (1964)

Nestes dias, o Brasil acordou diferente, orgulhoso. Não foi o futebol. As pessoas andavam de cabeça erguida e alguns políticos conhecidos, herdeiros da velha UDN, pareciam preocupados. As televisões falavam, com sua isenção peculiar, sobre um fenômeno aparentemente novo, mas que, na verdade, o país havia olvidado: o protesto e o povo nas ruas. A reivindicação era explícita: pedia-se desenvolvimento.

O que é, no entanto, desenvolvimento? A resposta não é imediata e envolve tantos temas quantos os gritos das manifestações. Os economistas, claro, não ajudam com nenhum consenso. Para a população, o desenvolvimento surge difuso, misturando o desejo de uma vida melhor com as imagens dos países ricos. A inquietação passa, então, a solicitar mais e melhor educação, tratamento de saúde digno, transporte urbano adequado, democracia para além do voto, justiça para todos, igualdade de oportunidades, punição dura para a corrupção de políticos e empresários e fim da desídia dos governos para com os graves problemas nacionais. Enfim, um leque amplo de desejos que reflete a visão popular sobre o que é um país desenvolvido e seu povo. Continuar lendo

Entre sensacionalismo e ética: produzindo imagens de guerra

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Fotojornalista premiado, o brasileiro André Liohn sustenta: vale a pena colocar-se em risco — para mobilizar os atores certos, não para agradar os donos de jornal

Por Camila Alvarenga

O fotojornalista André Liohn esteve na guerra civil da Somália e da Líbia, na Primavera Árabe e no terremoto do Haiti. Em 2011, foi preso na Síria. Paulista de Botucatu, ganhou o prêmio Robert Capa de 2011 por sua cobertura da guerra civil na Líbia.

O que levaria um profissional a arriscar a vida para trabalhar em áreas de guerra e zonas de conflito? O motivo de colocar-se em risco, para ele, é informar e mobilizar os atores certos, aqueles que podem buscar solução para os conflitos. E, para não cair no sensacionalismo e garantir cobertura de qualidade, é imprescindível ética e discernimento. Continuar lendo

Uma proposta radical para o “Minhocão”

João Whitaker sugere eliminar elevado sem permitir aburguesamento do entorno. Para isso, solução pode ser transporte coletivo. Entrevista abre parceria entre “Outras Palavras” e site Candeia

Um vídeo do Coletivo Candeia

Uma dúvida espalha-se por São Paulo, no rastro do debate, cada vez mais intenso, sobre o futuro da metrópole. Que fazer com o “Minhocão”, a via elevada de 3,4 km. que se estende, como cicatriz, do Centro à Barra Funda, na Zona Oeste? Após anos de pressões dos que lutam pelo Direito à Cidade, a Câmara Municipal decidiu que ele será desativado. Os automóveis já não circularão a poucos palmos das janelas de apartamentos. Mas que destino terá a obra, batizada com nome de ditador (“Presidente” Costa e Silva)? As opiniões dividem-se. Demoli-lo? Convertê-lo em jardim suspenso? Em meio à polêmica, os partidários do atual modelo agitam-se e sugerem deixar tudo como está.

Vale a pena conhecer, na entrevista acima, uma ideia que desafia de modo radical o modelo de cidade associado ao “Minhocão”. Professor livre-docente na Faculdade de Arquitetura da USP, o arquiteto e urbanista João Whitaker quer eliminar o elevado promovendo ao mesmo tempo o transporte coletivo — e bloqueando a especulação imobiliária. Ele explica que o jardim suspenso promoveria o aburguesamento instantâneo do bairro; e a simples demolição deixaria sem alternativas milhares de pessoas que se servem da via. Continuar lendo

Pós-capitalismo no Festival de Brasília?

Criadores dos seis longas-metragens concorrentes leem, na cerimônia de encerramento do festival, a Carta de Brasília

Carta de Brasília, lida na cerimônia de encerramento do 47º Festival

Gesto dos seis concorrentes que dividiram prêmio revela: todos podemos explorar, em atos quotidianos, as brechas do sistema. Para tanto, é preciso ir além da crítica retórica

Por Graziela Marcheti


MAIS:

Carta de Brasília, um manifesto do cinema brasileiro
Criadores das obras que concorreram ao festival mais antigo do país defendem diálogo entre arte e sociedade, ao anunciar decisão inédita de dividir prêmio. Leia íntegra.

Aconteceu no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e faz acreditar no poder das brechas do mundo. E, mais ainda, que podemos e devemos ocupar os lugares de forma reflexiva e política.

Depois de vários dias de encontros e trocas intensas, os seis concorrentes da Mostra Competitiva optaram por repartir em seis partes iguais o prêmio único de 250 mil reais, oferecido ao vencedor. Eles poderiam “apenas” criticar a organização do Festival por gerar uma condição de intensa competição e (por que não?) inveja entre os concorrentes – já que o valor é bastante alto e concentrado em apenas um ganhador. E, assim, o vencedor seria “crítico” e certamente faria bom uso da bolada. Mas, eles foram um pouquinho além. Os seis escolheram partilhar o dinheiro, antes do resultado do prêmio. Isso muda, de fato, a condição de competição, desigualdade e falta de cooperação que o formato do festival incentiva. Isso muda a experiência. E é a partir dela que formamos nossos mais arraigados entendimentos de mundo.  Continuar lendo

De Menor: o avesso da justiça

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Preciso e minimalista, longa exibe pulso firme da diretora ao expor falência da justiça, referida apenas à letra fria da lei

Por Jean-Claude Bernardet, em seu blog 

Vi na televisão uma entrevista com a juíza que assinou o alvará de soltura de Cadu, assassino confesso do cartunista Glauco e seu filho. Em liberdade, ele teria voltado a matar. A juíza disse que agiu de conformidade com a lei baseando-se em dois laudos que justificavam sua decisão. Tive a impressão que a juíza não tinha contato com a realidade mas só com a papelada.

É o que o filme de Caru Alves expressa com precisão. A narrativa trabalha duas séries: de um lado audiências em um juizado de menores em que são acusados adolescentes pobres. Eles são defendidos por uma advogada que assume a defensoria pública. A outra série é composta pelas relações dessa mesma advogada com um rapaz que acabamos descobrindo ser seu irmão. O contraponto entre as audiências (que lembram cenas de Juízo de Maria Augusta Ramos) e a intimidade dos irmãos salienta que a justiça não tem acesso às pessoas e se pauta pelo texto da lei e pelo que está escrito nos autos. Continuar lendo

Em SP, novos protestos contra falta de água

Primeiras manifestações ocorreram segunda-feira 22/9), em Itu. Agora, sem-teto afirmam: cortes de abastecimento decididos pelo governo atingem periferia e poupam bairros "nobres"

Primeiras manifestações ocorreram segunda-feira (22/9), em Itu. Agora, sem-teto afirmam: cortes de abastecimento decididos pelo governo atingem periferia e poupam bairros “nobres”

MTST convoca população a reagir, denuncia lógica mercantil que levou abastecimento ao caos e parece disposto a firmar-se como movimento social cada vez mais destacado. Ação começa hoje, às 15

Pelo MTST-SP

Desde dezembro de 2013, a população assiste calada, anúncio atrás de anúncio, às sucessivas quedas nos níveis dos reservatórios no Sistema Cantareira e Alto do Tietê.

Inicialmente queriam que acreditássemos que o único culpado era o clima. São Paulo enfrentava uma das piores estiagens de sua história e isso prejudicava diretamente nosso principal reservatório. Somado a isso vivíamos um dos verões mais quentes, com temperaturas acima de 30ºC, o que levava a um aumento no consumo de água. Continuar lendo

O duro caminho para reciclar lixo no Brasil

LIXO SAO PAULO 13.01.2010 JT GERAL Lixo acumulado na calçada da Avenida Pacaembu, na altura do memorial da América Latina. FOTO TIAGO QUEIROZ/AE

Coleta seletiva volta a avançar em S.Paulo, depois de abandonada por quase uma década. Há pouco, maior cidade do país reciclava apenas 1,8% dos resíduos gerados

Por Inês Castilho

O governo Fernando Haddad entregou à cidade de São Paulo, nesta terça-feira (23/9), 11 novos caminhões para coleta seletiva de lixo. Com eles, a prefeitura promete implantar até outubro coleta seletiva em todas as ruas de 17 distritos (que já recolhem recicláveis em algumas ruas) e iniciar coleta parcial em outros dez: Jardim São Luís, Cidade Dutra, Grajaú, Socorro, Campo Limpo, Capão Redondo, Cidade Ademar, Ermelino Matarazzo, Ponte Rasa e Tucuruvi.

Os 17 distritos que já eram atendidos parcialmente e agora terão todas as ruas atendidas com o serviço são: Tucuruvi, Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília, Sé, Jaguara, Jaguaré, Lapa, Perdizes, Vila Leopoldina, Barra Funda, Mandaqui e Santana. Continuar lendo

Comissão da Verdade: por que calam os militares?

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Hipótese perturbadora: e se as Forças Armadas — onde já quase não há envolvidos com a ditadura — tiverem assumido o regime de exceção como parte de seu papel institucional?

Por Keytyane Medeiros

Em vias de concluir o relatório final de atividades, com entrega prevista para 16 de dezembro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) ainda encontra dificuldades para apurar documentos sobre o regime militar. A colaboração das Forças Armadas tem sido questionada pelo Ministério Público Federal e pelo coordenador da CNV, Pedro Dallari, que acredita que “até hoje [as Forças Armadas] não reconheceram a sua responsabilidade institucional pelas graves violações de direitos humanos”, como disse em entrevista concedida à Carta Capital.

Responsável pelo Centro de Comunicação Social do Exército, o general Rêgo Barros alega que “o Exército tem atendido as demandas da Comissão Nacional da Verdade dentro dos ditames legais vigentes” e que as Forças Armadas nunca se colocaram contra os trabalhos da Comissão. No entanto, em 25 de fevereiro de 2014, o comandante geral do Exército, general Enzo Peri, encaminhou ofício a todos os quartéis do país determinando que qualquer pedido de informação sobre o período que compreende a ditadura militar, de 1964 a 1985, seja respondido exclusivamente por seu gabinete. Para o general Rêgo Barros, a decisão de Peri “trata-se de [medida de] gestão administrativa da Força, não de uma decisão pessoal”. Continuar lendo

Saudável (e invisível) desconfiança diante das PMs

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São Paulo, 19/9: população pinta protesto no asfalto, depois do assassinato frio de um ambulante pela Polícia Militar

Dado ocultado pela velha mídia indica: 70% da população não confia nas polícias. Violência — constante nas periferias, agora visível no centro — pode ser causa principal

Por Maiara Barbosa

Desde as manifestações populares que varreram o país em junho de 2013, ficaram evidenciados os abusos cometidos pelas Polícias Militares. A repressão policial, antes vista com maior frequência em bairros periféricos, ganhou repercussão ao ser flagrada nos centros das grandes cidades brasileiras.

Os protestos, com uma ampla agenda de reivindicações, deixaram vários feridos e presos arbitrariamente. Apenas no dia 13 de junho, 240 pessoas foram encaminhadas à delegacia para esclarecimentos. Nem mesmo os profissionais da imprensa foram poupados. Continuar lendo

Se esta rua, se esta rua fosse nossa…

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Na véspera do Dia Mundial Sem Carros, coletivos que agem pelo Direito à Cidade em SP tentam ocupar Avenida Paulista e abrir suas pistas para seres humanos

Por Carolina Gutierrez

“Será Avenida Paulista, em homenagem aos paulistas”, declamou Joaquim Eugênio de Lima, engenheiro uruguaio, responsável pela construção da via, que hoje, diferente do projeto inicial, é um dos principais centros financeiros da capital.

A avenida, inaugurada em 8 de dezembro de 1891, tinha entre seus objetivos o aumento da área residencial e a descentralização do crescimento urbano. A ideia inicial era abrigar paulistas que desejavam ter seu espaço na cidade. O público para essa nova área era formado principalmente por barões do café cafeeiros, os quais construíram seus palacetes na primeira via asfaltada da Pauliceia. Continuar lendo