Em Brasília, novo sinal da estupidez rodoviária

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Antes livres, vias da capital entupiram-se na última década, devido à obsessão pelo automóvel. Uma obra do governo do Distrito Federal pode tornar o cenário ainda pior

Pelo Movimento Nossa Brasília

Nas últimas décadas, cidades de todo o mundo sofreram com os problemas gerados pelo excesso de automóveis e buscaram alternativas para reduzir e desestimular o seu uso. Diversas soluções foram tentadas, como o rodízio na cidade de São Paulo, a tarifa por congestionamento em Londres, o estímulo ao uso da bicicleta em Amsterdã, as áreas livres de automóveis em Freiburg. Mas, no Distrito Federal, a lógica foi outra.

Na cidade modernista, pensada para os automóveis, acreditou-se que ele, nas palavras de Lúcio Costa, “domesticou-se”, que era necessário apenas abrir grandes vias, com rodovias rasgando a cidade e estacionamentos por todos os lados que o convívio seria pacífico. Ledo engano.

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TEXTO-FIM

A surpreendente Bienal de Cinema Indígena

london-as-a-village-still2São Paulo exibe, no início de outubro, 57 produções realizadas exclusivamente por índios. Elas mostram intensidade, força e a poesia de um cinema quase desconhecido

Por Pedro Alexandre Sanches

“A imagem já está pastel demais. Hollywood pasteurizou a imagem. Nós queremos despasteurizar, estamos fazendo uma espécie de revolução do olhar. É mais uma revolta do olhar que uma revolução. É um olhar que não aguenta mais a mesmice.” Assim o líder indígena brasileiro Ailton Krenak define a segunda edição da Aldeia SP, agora Bienal de Cinema Indígena, que acontecerá entre os dias 7 e 12 de outubro em São Paulo, no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e nos Centros Educacionais Unificados (CEUs)/Circuito Spcine.

Os realizadores dos 57 filmes que integram a mostra têm, sem exceção, origem indígena. “É gente que vem numa plataforma ancestral chamada cinema de índio, com as visões do ayahuasca, outras visões”, explica Ailton, mineiro nascido na região do médio rio Doce e idealizador da mostra. “Os caras estão acostumados a ver um outro tipo de cinema, um cinema transcendental. É gente que está acostumada com imagens que não são controladas. Eles se relacionam com imagens descontroladas. É uma revolta do olhar”, define Krenak. Continuar lendo

Um outro lado da guerra na Síria

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Embora omita envolvimento dos EUA, documentário destaca algo de humanidade em meio ao conflito: os cidadãos comuns que, arriscando a pele, decidem salvar o máximo de vidas do inferno

Por João Fernando Finazzi

A guerra civil na Síria vêm atingindo seu ápice com os acontecimentos recentes. A crise internacional aprofundou-se com o bombardeio dos EUA sobre as tropas sírias no último sábado e a convocação pela Rússia de uma reunião emergencial no Conselho de Segurança. Nesse contexto, as narrativas muitas vezes se situam na divisão entre a acusação ou a relativização de um dos dois lados do conflito, algo que em muito lembra as chamadas proxy wars, ou guerras por procuração, do período da Guerra Fria. O lançamento pelo Netflix do documentário sobre os White Helmets, grupo que busca executar trabalho humanitário em meio ao conflito, pode ajudar a desconstruir, em parte essa divisão.

Apesar de o filme, assim como outros da marca, silenciar completamente sobre o papel dos EUA, tendo como as únicas referências do bombardeio indiscriminado de civis a Rússia e o governo sírio, ele possui o mérito de mostrar ao longo de seus 40 minutos o trabalho in loco dessas pessoas de carne e osso, sob a mira dos incessantes bombardeios e das câmeras de foto e vídeo. Continuar lendo

Vem aí nova ditadura?

Alguns comentaristas estão vendo como inevitável uma onda de repressão brutal contra a esquerda, após as eleições. Pensar assim é entregar os pontos, antes da partida começar

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

[Leia a seguir a versão textual do comentário] Continuar lendo

Uma rebelião na Inglaterra

Como Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, está desafiando a mídia, as estruturas do velho Labour e o bom-mocismo para demonstrar que, em tempos de crise da política, a radicalidade é bem-vinda

Por Antonio Martins

[Leia a seguir a versão textual do comentário]

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Para ler Guimarães Rosa criativamente

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No 70º aniversário de Sagarana, grupo examinará os contos que compõem primeira obra do grande escritor. Participantes de Outros Quinhentos pagam meia

Por Maurício Ayer

Há 70 anos, João Guimarães Rosa lançava seu primeiro livro, Sagarana. A efeméride é um pretexto para a abertura de um Grupo de Leitura no Espaço Cultural B_arco, em Pinheiros, São Paulo, que se inicia oficialmente nesta sexta-feira, 19/09. Serão 8 encontros semanais, sempre às 20h.
Quem contribui com o Outras Palavras, por meio do Outros Quinhentos, tem um desconto especial de 50%. Mas as vagas são limitadas. Ao invés de R$ 620,00, R$ 310,00.

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Novo impulso na luta contra os agrotóxicos

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Fórum reunindo movimentos, universidades e Ministério Público aprofundará debate sobre venenos agrícolas e mobilização por um novo projeto para o campo

Por Inês Castilho

Os agrotóxicos foram responsáveis por mais de 25 mil pessoas intoxicadas entre 2007 e 2014, no Brasil. Calcula-se que a subnotificação seja de 50 para cada caso, o que soma 1.250.000 pessoas. São responsáveis por mortes, malformações, contaminação de bebês e de leite materno. Por inúmeros casos de câncer. O que mais precisamos saber a respeito desses venenos para a saúde humana, animal e do ambiente?

“É uma questão de misericórdia”, disse o médico Paulo Saldiva, presidente do IEA – Instituto de Estudos Avançados da USP, na audiência pública Exposição aos agrotóxicos e gravames à Saúde e ao Meio Ambiente. “As evidências são mais que suficientes. Trata-se agora de criar um espaço permanente, com reuniões regulares, onde se construa uma narrativa que sensibilize tanto a sociedade quanto os governantes.” Continuar lendo

Jean-Claude Bernardet escreve a Eduardo Cunha

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Rei Ricardo III, um dos mais fascinantes vilões de Shakespeare

“Muitos amigos meus exultam com a tua cassação. Eu não. O sistema político continua intacto. Mas se soltar a língua, você derruba a República e se torna shakespeariano”

Por Jean-Claude Bernardet

Cunha, cê fez o trabalho sujo e agora eles te cospem. Eles são assim mesmo.
Muitxs amigxs meus minhas exultam com a tua cassação. Eu não.
Porque o sistema que te levou ao poder continua intacto.

Pela sua sede enlouquecida de poder, seu espírito de vingança, suas mentiras, suas traições, sua desonestidade. sua arrogância e desfaçatez, você pode ter as dimensões de um personagem shakespeariano. Você tem de ir até o fim.

A vassoura da história vai varrer os Temer, os Renan.

Se soltar a língua, você derruba a República e se torna verdadeiramente shakespeariano, a História não te esquecerá.

É já. Não haverá outra oportunidade. Se perder essa chance, vassoura…

As palavras que a direita teme ouvir

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Sinal dos tempos: “Clarin” argentino pede artigo a jornalista brasileira e depois engaveta-o, Motivo: em tempos de Macri e Serra, ela ousou mencionar a “submissão aos EUA”…

Por Eleonora de Lucena

Fui censurada pelo “Clarín”. O jornal argentino me encomendou um artigo sobre o impeachment. Escrevi e enviei. Pediram para eu “amenizar” trechos. Especificamente não queriam que eu falasse em “submissão aos EUA”. Recusei fazer qualquer modificação no texto. Há duas semanas ele está numa gaveta virtual em Buenos Aires.

Para registro, aí vai o que o “Clarín” não quis publicar.

Um golpe à democracia e à soberania na América Latina

O julgamento de Dilma Rousseff atropela a democracia e expõe de maneira crua o embate de interesses antagônicos na América Latina. De um lado, um projeto de integração regional sem submissão aos Estados Unidos; de outro, a volta das conhecidas “relações carnais” com o império do Norte.

O governo de Michel Temer mostra que quer esvaziar o Mercosul. Repetindo ardis usados internamente no país, manobra para golpear essa construção da união sul-americana que vai muito além de acertos comerciais.

De supetão, dá início a uma onda de privatizações, vendendo um naco do pré-sal brasileiro, onde estão valiosas reservas de petróleo. Tenciona desidratar e esquartejar a Petrobras, ícone de uma proposta independente de desenvolvimento e objeto de desejo de companhias estrangeiras.

Temer anuncia cortes em gastos em saúde, educação e previdência. Planeja desmantelar conquistas trabalhistas obtidas desde meados do século 20. Almeja transferir renda dos mais pobres para os mais ricos: projetos sociais serão podados para garantir o pagamento dos juros estratosféricos pagos à elite.

É a reedição de um enredo já desenhado no Paraguai e em Honduras: um golpe sem tanques que corrói as instituições para minar a independência. Num ritual kafkaniano, políticos acusados de corrupção votam a cassação de uma presidente que todos reconhecem ser honesta.

Nos anos 1990, com governos neoliberais, a América Latina experimentou uma combinação de concentração de renda, desindustrialização, privatizações selvagens e perda de soberania. A Argentina viveu com radicalidade esse processo. Nas ruas, o derrotou.

Agora, as mesmas armações daquele tempo tentam ressuscitar no continente. Aproveitam a situação adversa na economia e disseminam um discurso de ódio, preconceito e intolerância. Conquistam, assim, fatias das classes médias, muitas vezes refratárias à ascensão que os mais pobres obtiveram nos últimos anos.
O movimento precisa ser entendido dentro da atual crise capitalista e das mudanças na geopolítica mundial. O capital financeiro busca garantir ganhos na América Latina. Necessita derrubar barreiras de proteção na região _o que é mais viável com governos dóceis, também dispostos a vender ativos a preços baixos.

Enquanto se atolavam na guerra do Iraque e adjacências, os EUA viram a influência da China crescer de forma exponencial no continente sul-americano. O petróleo, os minérios, a água, os mercados internos, as empresas inovadoras _tudo é alvo de interesse externo.

Nesse contexto de disputa é que devem ser analisadas as intenções norte-americanas de instalar bases militares na Argentina _na tríplice fronteira e na Patagônia. O império volta a se preocupar com o que considera o seu eterno quintal.

O impeachment de Dilma é peça chave no xadrez de poder da região. Afastar quem não se submete a interesses dos EUA será uma advertência aos países. O processo, que deixa as instituições brasileiras em farrapos, demonstra, mais uma vez, como a voracidade dos mercados e a força imperial são incapazes de conviver com a democracia.

ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha de S. Paulo. Foi editora-executiva do jornal de 2000 a 2010.

Para manter uma revista digital sobre a América Latina

Um ano depois de surgir,”Calle 2″ lança crowdfunding para seguir contando boas histórias sobre um continente que a velha mídia teima em desconhecer

Por Tatiana Cavalcanti

A revista digital Calle2 lançou seu crowdfunding nesta segunda-feira, dia 5 de setembro, quase um ano depois de nascer. A campanha pretende arrecadar R$ 30 mil (primeira meta) e R$ 50 mil (segunda meta) para seguir contando boas histórias da América Latina.

A revista digital foi lançada no dia 25 de novembro do ano passado com uma entrevista exclusiva com o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica. Continuar lendo