Há algo autêntico em “Velho Chico”

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Um participante histórico das lutas pelo semiárido relata sua relação com atores da novela — e se confessa surpreendido por ela

Por Roberto Malvezzi (Gogó)

Quando surgiu a notícia que haveria uma novela chamada “Velho Chico”, nós por aqui ficamos de orelha em pé. Nossa pergunta era: que abordagem irão fazer do rio São Francisco?

Depois os autores passaram por aqui – Edmara Barbosa e o filho Bruno -, conversaram com muita gente, inclusive comigo por umas cinco horas, e pareciam dispostos realmente a ouvir, a fazer uma novela que transparecesse a realidade do Velho Chico. Continuar lendo

Livro e Leitura em risco

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Biblioteca pública de Manguinhos, no Rio de Janeiro

Exonerações no ministério da Cultura apontam para extinção de programa que quase atingiu a meta de uma biblioteca por município brasileiro. Deixaremos sem protesto essa insensatez?

Por José Castilho Marques Neto

Com uma extensa lista de exonerações de cargos comissionados no MinC, o Diário Oficial da União (DOU) publicou hoje, 26/7, a exoneração dos Coordenadores Gerais de Literatura e Economia do Livro (Lucília Helena Craveiro Soares) e de Leitura (José Roberto Silva) da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do MinC (DLLLB). As duas exonerações de hoje finalizam o desmonte da Diretoria, que já se encontra sem Diretor desde maio com a saída de Volnei Canonica e sem a Coordenadora Geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), Veridiana Negrini, exonerada em 1/7. O Diretor e as três Coordenadorias Gerais compõem a estrutura de comando da Diretoria e são os cargos responsáveis pelos programas do setor no MinC.

Juntamente com a exoneração dos coordenadores gerais anunciada para esta terça-feira foram igualmente exoneradas duas importantes funcionárias da DLLLB (Ana Lúcia Ferreira de Castro e Célia Jeane dos Santos), que acompanham os trabalhos da diretoria praticamente desde seu surgimento em 2008 e dão suporte ao seu bom funcionamento. Com essas exonerações a Diretoria está totalmente acéfala e se desconhecem nomes que irão substituí-los. Soma-se às exonerações a informação de que haverá a transferência da DLLLB da Secretaria Executiva para a Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC), que hoje é comandada pela Senhora Renata Bittencourt. Percebam que a SCDC não tem nenhuma ligação imediata com o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas e igualmente nenhuma tradição de trabalho com a área do livro e leitura no âmbito do MinC. Continuar lendo

Memória e resistência: Mestre Ananias vive

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Mestre de capoeira, Ogã do candomblé, sambista de roda, Ananias Ferreira ajudou a dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro

Por Inês Castilho

A Conselheiro Ramalho estava enegrecida. Ocupada por homens, mulheres e crianças, a maioria morena, negra, cabelos crespos, turbantes. Uma cena da Bahia no Bixiga, bairro incomum de São Paulo, nascido de um quilombo. Mestre Ananias, cuja Casa e Ponto de Cultura é vizinha da redação de Outras Palavras, havia falecido na noite anterior e estava sendo velado.

O corpo chegou às 8 da manhã de quinta-feira, 21 de julho. Ao meio-dia, a rua fervia. Roupas brancas, dreadlocks, crianças no colo, no chão. Alguns brancos e brancas. Muitos capoeiras órfãos: mestres, contramestres, professores, aprendizes. O povo do bairro, curiosos se amontoavam na homenagem. Abraços, palavras de consolo, sorrisos, vozes baixas – a atmosfera não era exatamente triste, havia alguma alegria no encontro daquela comunidade.
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Dentro da sala, ali onde tantas vezes tocou seu atabaque de Capoeira e Ogã do Candomblé nas festas e rodas de samba, deitado no caixão, o rosto e as mãos muito negras brilham no branco das flores, no branco do véu, no terno branco que vestia. Quatro velas acesas.

Na parede amarela atrás do caixão, cinco coroas de flores ladeando a bandeira do Brasil e berimbaus alinhados. Bandeirolas coloridas de São João pendem do teto.

Ao lado do caixão, Brasília, mestre dos meus filhos, fecha os olhos, abaixa a cabeça, faz uma oração. Emoção. (Fotografia não.)

– Era meu amigo-irmão, camarada. Nos ensinou a ser mais tolerantes, deixa o exemplo do grande artista que era.

No chão de cimento queimado, uma estrela marcada em madeira.

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Contramestre Rafael: “Tchau, Mestre, obrigado por tudo!”

– Como é que posso te chamar? – pergunto.
– Rafael – responde.
Vestido de branco, contramestre formado pelo Mestre, Rafael fala.

– Mestre Ananias trouxe um grande legado da terra dele, o Recôncavo Baiano. Conviveu com os melhores da capoeira – se formou com mestre Canjiquinha depois que mestre Valdemar morreu. Com grandes nomes do samba de roda do Recôncavo e baluartes do candomblé. Era um Ogã feito de santo, um Ogã do Candomblé de Angola.

Sentado num canto, de branco – pés descalços, olhos cerrados –, turbante alto sobre as dreads, entre indiano e africano, um “orixá” balança o tronco devagar, pra lá, pra cá. Como encantado, em contato com a passagem entre a vida e a morte. Na passagem, acompanhando o Mestre.

Agora ao lado do caixão, Rafael faz sorrir até a neta do vô Ananias, olhos vermelhos. Fala dele, conta histórias.

O motorista do carro funerário da prefeitura quer ir embora, é hora de fechar o caixão.
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– Tchau, Mestre, obrigado! Obrigado por tudo! – a voz de Rafael soa por todos.
Na salinha lotada, uma salva de palmas irrompe e mantém a emoção no ar durante alguns minutos. A tampa desce até o caixão e um canto fúnebre de candomblé é puxado pela voz serena de Rafael. Um choro, um grito: Pai!

Sob aplausos do povo na rua, o carro funerário da prefeitura sai devagar às duas e meia, meia hora atrasado, para o cemitério de Itaquera.

Algumas pessoas saem atrás. Um povo fica ali, conversando. Mais abraços. A casa do Mestre já está fechada. Logo logo a rua estará novamente só a serviço dos carros.

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Rodrigo Minhoca e Mestre Ananias: a riqueza da cultura afro-brasileira

E da memória. A Casa Mestre Ananias – Centro Paulistano de Capoeira e Tradições Baianas – Associação Capoeira Angola Senhor do Bonfim, mantida com a luta incansável do sempre sorridente Rodrigo Minhoca, continua aqui. Viva no som do berimbau, do atabaque, do pandeiro e da viola, no jogo, no canto e na dança das crianças, nos projetos sociais, nas festas do bairro, nas bandeirolas que insistem em colorir a rua e embalam nosso fazer jornalístico. Apesar de tudo.

Embaixador da cultura afro-brasileira
A capoeira em São Paulo foi conduzida por mestres baianos como Ananias Ferreira, nascido em São Félix, no Recôncavo Baiano, em 1924, e aqui chegado em 1953. O Mestre manteve viva a ancestralidade africana no coração da cidade, a Praça da República, onde instituiu uma roda de capoeira dominical que acontece há mais de 50 anos. “Uma autêntica ágora, espaço de resistência, de confronto e diálogo dos talentos e dos estilos mais diversos, e também de aprendizagem. Poucos capoeiristas na cidade de São Paulo não conheceram de perto esta roda ou estiveram cientes da oportunidade de entrar livremente nela”, como diz em seu site.

Contribuiu para dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro, que durante tanto tempo foi criminalizado. Em São Paulo, onde conheceu o poeta e ativista Solano Trindade e o dramaturgo Plínio Marcos, passou a integrar o elenco de peças de teatro que apresentavam o candomblé, o samba e a capoeira ao grande público. Atuou na peça Balbina de Iansã, em 1970, e em Jesus Homem, em 1980, de Plínio Marcos, e participou do elenco da primeira encenação de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes dirigida no TBC por Flávio Rangel em 1960 – em cujo filme (aqui, completo), dirigido por Anselmo Duarte e premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962 – fez parte da trilha sonora.

Referência para diversas gerações da capoeira e do samba de roda na capital, Mestre Ananias conviveu, neste mais de meio século, com grandes capoeiristas baianos que viveram e passaram por São Paulo, tais como Zé de Freitas, Limão, Valdemar (do Martinelli), Hermógenes, Gilvan, Silvestre, Paulo Gomes, Suassuna, Brasília, Joel.
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Viciei em Novos Baianos, por Priscila Tieppo

Em 1971, fase mais sombria da ditadura, um grupo de músicos muito jovens refugiou-se num sítio-comunidade e compôs “Acabou Chorare”, um dos álbuns mais criativos da música brasileira. Que ele pode dizer ao Brasil de hoje?

Curadoria e narração: Alexandre Machado

 

Por que defender a Eletrobrás

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Criada por Getúlio, esvaziada em parte após FHC, empresa é essencial para autonomia energética do país. Dilma e agora Temer ameaçam entregá-la a setor privado. Seria enorme retrocesso

Por Roberto Bitencourt da Silva

“Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas
através da Petrobras. Mal começa esta a funcionar,
a onda de agitação se avoluma.
A Eletrobras foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente”
(Carta-Testamento do Presidente Getúlio Vargas)

Importância estratégica e um pouco de história

A Eletrobras é uma empresa estratégica para o Brasil. Ela é fundamental para o domínio e a formação técnico-científica nacional e para a tomada de decisões soberanas sobre o desenvolvimento. Igualmente decisiva para o controle e o uso nacional dos nossos excedentes econômicos.

De acordo com os dados disponibilizados pelo relatório de sustentabilidade da estatal de 2014, a Eletrobras é, em nossos dias, “a maior companhia de capital aberto do setor de energia elétrica da América Latina” (1).

Atuando na geração, na distribuição, na transmissão e na comercialização por meio de 16 empresas, a Eletrobras possui uma participação, majoritária, de 33% da capacidade de geração de energia elétrica do país. Responde por 48% do total de transmissão de energia e, na distribuição, “cobre uma área correspondente a 31% do território brasileiro”.

A história da formação desse gigante nacional envolveu muitos atores sociais e políticos, individuais e coletivos, civis e militares, bem como diferentes lutas do povo brasileiro a favor da emancipação econômica em relação aos espoliativos grupos estrangeiros.

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Agora na França, a “democracia” sem povo

Durante cinco meses, sindicatos e juventude fizeram dezenas de manifestações. Opinião pública opôs-se firmemente à lei. Tudo em vão

Durante cinco meses, sindicatos e juventude protestaram, muitas vezes sob repressão brutal . Opinião pública opôs-se firmemente à lei. Tudo em vão

Lei que achata direitos trabalhistas acaba de ser aprovada, mesmo enfrentando 70% de rejeição popular e sem maioria no Parlamento. Como isso foi possível?

Por Antonio Martins

Em 1930, John Maynard Keynes, o economista que mais intensamente lutou por um capitalismo reformado previu que seus netos trabalhariam 15 horas por semana. O sistema, imaginou ele, promoveria incessantes avanços tecnolócios e aumento da produtividade do trabalho; também seria suficientemente sábio e generoso para distribuir estes ganhos com o conjunto da sociedade. Há poucas horas, a França, somou-se ao conjuntos dos países do capitalismo “desenvolvido” e aprovou a chamada Lei El Khomri. Na contramão do que previa Keynes, ela permite estender a jornada a 46 horas semanais, além de eliminar inúmeros direitos trabalhistas relacionados à irredutibilidade dos salários, descanso entre as jornadas, indenizações em caso de demissão, gozo das férias e proteção dos que sofrem acidentes laborais.

O retrocesso atinge, além dos direitos sociais, a própria democracia. Desde que apresentada, há cinco meses, a lei foi alvo constante de protestos. Os sindicatos promoveram seguidas jornadas de luta contra ela — algumas vezes reprimidas pela polícia com ferocidade. A juventude ergueu-se no movimento Noites Despertas (“Nuits Debout”). Além disso, todas as sondagens de opinião feitas no período revelaram: ao menos sete, em cada dez franceses, eram contrários às mudanças propostas.

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Debate: a fotografia como olhar político

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Que dizer de um tempo em que as imagens difundem pelo mundo a emoção das lutas e protestos — e em que os fotógrafos são alvejados pelas balas da polícia?

Por Tadeu Breda


A fotografia como olhar político

Debate com Luiz Baltar, Sérgio Silva e Verena Glass
No Ateliê do Gervásio. Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo
Quinta-feira, 21 de julho, às 19h30
Grátis!

No dia 21 de julho, o Ateliê do Gervásio – espaço que abriga Outras Palavras e outras iniciativas de mídia independente de São Paulo – será palco de um debate sobre a fotografia como olhar político. Na ocasião, a Editora Elefante e a Fundação Rosa Luxemburgo organizam lançarão dois livros – Cidade em jogo e Memória Ocular – que se encontram em temas como fotografia, manifestações públicas e violência de Estado. O bate-papo será conduzido por dois fotógrafos — Luiz Baltar e Sérgio Silva e moderdo por Verena Glass. Continuar lendo

São Paulo, território indígena?

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Curso de extensão, troca de saberes e artesanato indígena em São Paulo. Sob camadas de história, os rios, colinas e povos originários do Planalto de Piratininga

Por Redação


História e Cultura Indígenas em São Paulo
Sábado, 30/7, das 9 às 16h (aula conceitual) e domingo, 31/7, das 14h às 16h (aula de campo, partindo do Páteo do Colégio, Sé).
Na casa de Outras Palavras – Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – Metrô S. Joaquim ou Brigadeiro (mapa)
R$ 150 – Gratuidades e descontos para membros de Outros Quinhentos
Programa e ficha de inscrição ao final do texto

“Piratininga é uma das maiores cidades indígenas e nordestinas: sabe por que?” Com essa pergunta, Casé Angatu Xukuru Tupinambá convida para o curso “Histórias, Culturas, Protagonismos Indígenas e a Cidade de São Paulo”, a ser realizado nos dias 30 e 31 de julho no espaço do Outras Palavras. Adverte, contudo, que não pretende oferecer uma resposta, mas a construção de formas de reflexão sobre essa pergunta.

Grande narrador, o indígena Casé (de nome não-índio Carlos José Santos), morador da aldeia Gwarini Taba Atã do Território Tupinambá em Olivença, Bahia, é também profundo conhecedor do assunto. É historiador, doutor pela FAU-USP, mestre pela PUC-SP e docente da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus.

Combinadas, essas duas qualidades conferem ao curso uma vivacidade que permite enxergar, sob as camadas da História, a São Paulo de Piratininga que nasce com um colégio de jesuítas para catequizar índios, fundado entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Continuar lendo