Banksy: agora contra o Estado de vigilância?

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Surge misteriosamente, na cidade-sede dos serviços de espionagem britânicos, um sugestivo grafite. Mercado de arte se alvoroça com artista anti-mercado…

Por Gabriela Leite

Um novo grafite do artista inglês Banksy parece ter aparecido na cidade de Cheltenham, no Reino Unido. A pintura retrata três agentes do serviço de inteligência britânico escutando as chamadas de uma cabine telefônica, ligados a um satélite. O local não foi escolhido ao acaso: Cheltenham, cidade de cerca de 110 mil habitantes e a 150 quilômetros a noroeste de Londres, é sede do Quartel General das Comunicações do Governo inglês (Government Communications Headquarters, ou GCHQ), serviço responsável pela espionagem nas comunicações e fornecedor de informações sobre os cidadãos ao Estado e forças armadas.

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A autoria da obra ainda não foi confirmada por Banksy, pseudônimo do um artista britânico cuja identidade permanece incógnita — mas que é conhecido mundialmente por sua arte de rua. Seus stêncils (técnica de grafite feita com desenhos recortados em máscaras e gravados com spray) satirizam a sociedade capitalista, consumista e violenta e começaram a aparecer pelas ruas de Bristol e Londres nos anos 90. A mais recente, com os agentes da GCHQ — equivalente da norte-americana NSA no Reino Unido –, expõe a indignação com a espionagem em massa de cidadãos, por parte dos governos e empresas, que foi revelada nos últimos anos. Continuar lendo

Mafalda, à beira dos 50

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Nasceu para que seu criador, de olhar estrábico e delicado, suportasse aridez e banalidade da vida. Não se adapta. Meio século depois, tornou-se mais inspiradora que nunca

Por Cibelih Hespanhol

O mundo, como se apresentava para as retinas de Joaquín Salvador Tejón, sempre esteve um pouco desfocado. Algo não estava certo naquelas aparências e formas – naquela maneira de se ajeitar do mundo – que espiava em seu olhar estrábico o argentino de Mendonza; a ponto de parecer inevitável àquele homem, de palavras secas e pensamento ateu, que com o passar do tempo e a permanência das coisas sua visão se tornasse, afinal, delicada demais para esta vida estranha.

Esta visão delicada, problema que não se resolvia, só teve uma cura, por fim: foi para o papel. Nos anos 60, Joaquín, o Quino, via nascer de seu ofício de desenhista uma filha que nunca planejara ter – Mafalda, a menina de fita vermelha, língua afiada e ideias anticonformistas, que neste ano de 2014 torna-se una niña de cinquenta anos. Continuar lendo

Um Robin Hood contemporâneo e suas alternativas

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Ativista perseguido por desviar meio milhão de euros dos bancos, para projetos comunitários, fala sobre sua visão de pós-capitalismo

Por Taís González

Em 2008 um jovem catalão desafiava as temerosas e poderosas forças bancárias. Depois de ter conseguido empréstimos de instituições financeiras de quase meio milhão de euros e distribuir a quantia entre movimentos anti-capitalistas, Enric Duran ficou conhecido como “Robin dos Bancos”. Sua desobediência civil com desdobramentos anti-sistema financeiro renderam-lhe uma sentença de oito anos de prisão e o título de rebelde pelo Estado Espanhol. Em recente entrevista ao site da Fundação Peer2Peer, organizado por Michael Bawens, Duran fala sobre a desobediência civil, o (pós-)capitalismo e seu novo projeto: a Cooperativa Integral Catalana.

Para o ativista, o capitalismo é um sistema de dominação baseado em uma minoria que ostenta o poder econômico e, com ele, controla o acesso aos recursos e aos meios de produção. Já o mercado é uma forma de comércio baseado na liberdade e na igualdade de oportunidades que, ao longo da história, foi manipulado em função dos sistemas de dominação. “O mercado, no contexto do Estado e do capitalismo, tornou-se uma desculpa para promover e ampliar as desigualdades”, diz Duran. Continuar lendo

Uma Holanda contra o racismo

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Boa surpresa: parte de Amsterdam reage, em passeata, contra políticos que tentam marginalizar imigrantes pobres

Por Marília Arantes

Um dos tiros disparados pela ultra-direita na Europa pode sair pela culatra. Na Holanda, as pressões e os preconceitos contra imigrantes estão despertando crescente oposição e resistência – inclusive, entre parte da população branca. Uma nova onda de oposição ao racismo refletiu-se na participação de 8.000 pessoas, em marcha realizada em Amsterdam, em 22 de março, e relatada por Bryan Van Hulst, no site alternativo Waging Nonviolence.

A mobilização foi deflagrada em resposta a um comício odioso de Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade (PVV), ultra-conservador e xenófobo. Em discurso, ele perguntou a seus apoiadores se queriam ter “mais ou menos marroquinos” no país. Escutou-se de um público entusiasmado: “menos, menos, menos!” A fala despertou polêmica. O próprio ministro da Justiça, Ivo Opstelten, classificou-a como inescrupulosa e inaceitável. O mote de campanha de Wilders era: “por uma cidade com problemas menores, e na medida do possível, um pouco menos de marroquinos”. Continuar lendo

Twitter anti-Cuba: uma gota d’água no oceano?

Mulher usa celular no "Malecón" de Havana. Apresentado como serviço comercial, "twitter cubano" era controlado por agência norte-americana

Mulher usa celular no “Malecón” de Havana. Apresentado como serviço comercial, “twitter cubano” era controlado por agência norte-americana

Documentos de Edward Snowden revelam: EUA e Reino Unido promovem manipulação incessante da internet, para desestabilizar governos “inimigos”

Por Cauê Seignemartin Ameni

No início de abril, a agência de notícias Associated Press fez a mais recente revelação envolvendo ações encobertas dos EUA para promover o dissenso em Cuba. A ferramenta, chamada de ZunZuneo, é uma espécie de Twitter que disparava mensagens de celular (SMSs). Chegou a ser utilizada por cerca de 40 mil cubanos. Na aparência, visava promover a troca de notícias sobre esportes, música e clima. Mas tinha como objetivo original corroer a credibilidade do regime, instigando uma “primavera cubana” . Foi criado pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), organização supostamente voltada para ajuda humanitária. Era, contudo, apresentado como plataforma privada, isenta de vínculos com Estados — especialmente o norte-americano…

Há uma semana (em 7/4), a trama complicou-se. De acordo com os documentos revelados pelo jornalista Glenn Greenwald, esta prática não se restringe apenas à ilha caribenha. As agências de inteligência norte-americana (NSA) e britânica (GCHQ) trabalham há anos num esforço conjunto para manipular opinião pública nas principais redes sociais de alcance mundial como Twitter, Facebook e Youtube. “Esse tipo de operação é frequente nas agências de inteligência ocidentais, que se infiltram secretamente nas mídias sociais para disseminar ‘propaganda’, ‘mensagens em massa’, e ‘promoção de notícias’ (…) difundindo disfarçadamente pontos de vista amigáveis aos interesses ocidentais e espalhando informações falsas ou prejudiciais contra alvos”. Isso aparece repetidamente em todos os documentos da NSA vazados pelo ex-agente Edward Snowden, relata Greenwald na nova publicação digital onde é editor, The Intercept. Continuar lendo

1964: o artigo que O Globo recusou-se a publicar

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Jornal encomenda, e depois veta, texto que expunha aspecto pouco conhecido do golpe: a repressão aos trabalhadores e sindicatos

Por Paulo Fontes

[Outras Palavras publica, aqui, o texto de Paulo Fontes censurado por “O Globo”]

Sou professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e historiador especializado em história social do trabalho. Em meados de março, fui procurado pela assistente da direção da instituição na qual trabalho, questionando se eu teria interesse em publicar um artigo sobre o golpe de 64 para O Globo. Como em outros momentos de aniversário de eventos históricos, o jornal solicitava então aos pesquisadores do CPDOC artigos de avaliação e opinativos. Apesar de mergulhado em outras atividades, concordei em fazer um curto artigo sobre o papel dos trabalhadores no golpe e na ditadura, por julgar ser este um tema de grande relevância acadêmica, política e social. Acredito que o texto  aborda a questão por um ângulo bem pouco explorado nas análises que estão sendo publicadas nos vários órgãos de imprensa.

Entreguei o artigo em 20 de março. Para minha surpresa, ele não foi publicado. Segundo informou o jornal, a não publicação baseia-se em uma série de decisões editoriais que dizem respeito a espaço, a prioridades temáticas com o surgimento de novas notícias ou contribuições não previstas etc. Continuar lendo

Outros Traços: Politicamente espinhoso

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De Ócio Sobre a Tela, em seu tumblr

Numa época de extremismos e obviedades políticas, os desenhos e charges de Caetano Patta se destacam por tratar assuntos públicos com mais sutileza. De forma eclética, seu traço varia conforme a temática. O ilustrador também contribui com textos e imagens para o site O Gusmão. Continuar lendo

EUA: um retrato da aristocracia financeira

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Novo livro revela como se forjou aliança entre banqueiros e Casa Branca, em trama que envolve casamentos “sangue azul” e relações especiais nas universidades

Por Vinícius Gomes

Existe uma máxima no jornalismo investigativo, criada no livro Todos os Homens do Presidente. Diz: “siga o dinheiro”. Significa, basicamente, que as “pegadas” deixadas pelo interesse material mostram o caminho que levará a todos os envolvidos numa trama.

A jornalista Nomi Prins fez exatamente isso em seu novo livro — chamado, não por acaso, Todos os Banqueiros do Presidente: As Alianças Secretas que Comandam o Poder Americano [disponível, em inglês, na Amazon] Prins, que já trabalhou em grandes bancos como Bear Stearns, Goldman Sachs, Lehman Brothers e Chase Manhattan – investiga como um pequeno número de banqueiros desempenhou um papel decisivo na modelação das políticas financeiras, domésticas e externas dos EUA, nos últimos cem anos. Eles criaram, segundo a autora, um “cordão umbilical” entre os centros financeiro e político norte-americano (Nova York e Washington). É tão resistente que será muito difícil cortá-lo, em um futuro próximo. Continuar lendo

Por mais parques — e menos cinzentos

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Surgem, em S.Paulo, coletivos dispostos a lutar pelos espaços públicos e a geri-los de modo não burocrático. Mídia, enquanto isso, torce por espigões 

Por Breno Castro Alves

Em tempos de voracidade do capital imobiliário, o Parque Augusta — última área livre de mata atlântica no centro de SP — sofre a ameaça real de ser transformado em duas torres de 100 metros. A Folha de São Paulo atuou, esses dias, como porta voz das incorporadoras Setin e Cyrella.

Apesar de o jornal afirmar que ali haverá torres, o prefeito Fernando Haddad sancionou, em dezembro de 2013 a a Lei 345/2006, que determina a criação do parque público na área disputada. Há resistência engravatada. Dois dias depois da aprovação dessa lei, as incorporadoras Setin e Cyrella, sócias do proprietário e ex-banqueiro Armando Conde, fecharam ilegalmente os portões de acesso ao parque, que se mantém assim há 90 dias.

Em resposta a essa restrição ilegal à circulação de pessoas em espaço público, um movimento social — o Organismo Parque Augusta — articulou-se e iniciou diálogo formal com a prefeitura, em 25 de março. Publicamos aqui uma carta pública com nosso posicionamento a partir deste encontro. Continuar lendo