No escurinho do cinema, a desigualdade perpetuada

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Cineastas do Coletivo Vermelha e secundaristas do Virgília em selfie feito por Ellen Tejle (à esq.)

Ativista sueca vem ao Brasil conversar sobre teste que mede sexismo e racismo nos filmes. Com secundaristas, fala sobre a importância das imagens na formação das crianças: “o que elas podem ver, elas podem ser”

Por Inês Castilho
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Palestra com Ellen Tejle sobre igualdade de gênero e raça/etnia no audiovisual, a convite do Coletivo Vermelha, no Festival internacional de curtas de São Paulo. Domingo, 28 de agosto, às 19h00, no MIS, Avenida Europa, 158, São Paulo. A palestra será feita em inglês com tradução consecutiva para o português.
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O que dizer de um país que desde 1970 dá ao casal, no nascimento do filho, 16 meses de salário para cuidar da criança? Onde o príncipe, o ministro da educação e os pais em geral saem às ruas carregando seus bebês? De fato, a Suécia é considerada o país onde há a menor desigualdade de gênero no planeta. Lá, as mulheres votam desde 1921, o aborto foi legalizado em 1938 e o Ministério de Gênero foi criado em 1954. O próprio governo, orgulhoso, declara-se feminista.

Um paraíso para as mulheres? Não exatamente. Entre outras coisas, as mulheres ainda recebem cerca de 500 mil dólares a menos que os homens no decorrer da vida. E o mesmo texto é avaliado como bem escrito, forte e convincente, se assinado por um homem; e bagunçado, antipático, incompreensível, se assinado por uma mulher – segundo pesquisa feita na Suécia e em outros países europeus. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Outro Brasil: Quem tem medo dos BRICS?

Direita com complexo de vira-lata teme ver país co-liderando bloco que se opõe à ordem dominada pelos EUA. Ex-chanceler Celso Amorim polemiza: sem enfrentar esta hegemonia, jamais construiremos mundo mais justo

Entrevista a Antonio Martins

[Este é o quarto vídeo temático produzido a partir da entrevista de Amorim a “Outro Brasil” — um programa feito em parceria por Outras Palavras e o Canal Mova. A íntegra da entrevista (1h20) está aqui;  os dois vídeos temáticos anteriores, aqui (1 2 3). Acompanhe a assine, também, nosso canal no YouTube

Aldous Huxley pergunta: “Seres humanos ou meros cidadãos”?

O autor de Admirável Mundo Novo contraria o senso comum e alfineta: A educação e a sociedade industrial buscam apenas “qualidades socialmente valiosas”. Porém, “quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, homens imperfeitos e depois homens indesejáveis”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado?


Trecho da obra Sobre a Democracia e outros Estudos, de Aldous Huxley. Edições em português esgotadas. Disponível em sebos em todo o país (consulte aqui)

“A educação atual e as atuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.

“A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O atual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.

 

Outras Manhãs: Galeano zomba dos procuradores de Deus

O Corão, que condena o álcool e o adultério na Terra, promete belas virgens e vinho no Jardim das Delícias. A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel

Curadoria e Narração: Alexandre Machado


“Notas do Além”, trecho do livro O Teatro do Bem e do Mal (L&PM pocket). A obra está disponível na internet (aqui) ou, no site da editoras, em versão impressa (R$ 16,90) e ebook (R$ 7)

A tradição islâmica proíbe tomar vinho na Terra, mas o Corão promete vinho incessante no Céu. O Corão, que condena o adultério na Terra, também promete belas virgens e gentis mancebos, disponíveis em quantidade, para o gozo eterno no Jardim das Delícias que aguarda os mortos virtuosos. A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel. E segundo o ditame do Papa João Paulo II, no Paraíso os homens e as mulheres estarão juntos, mas “serão como irmãos”. Por influência da vida ultraterrena ou por outros motivos, há trezentos muçulmanos a mais do que os católicos. Mas quem conhece melhor o Céu não é muçulmano nem católico. O telepastor evangelista Billy Graham, cujas luzes orientam o presidente Bush nas trevas deste mundo, é o único ser humano que foi capaz de medir o reino de Deus. A Billy Graham Evangelistic Association, com sede em Minneapolis, revelou que o Paraíso mede mil e quinhentas milhas quadradas. No fim do século XX, uma pesquisa do Gallup indicou que oito de cada dez estadunidenses acreditam que os anjos existem. Um cientista do American Institute of Physics (College Park, Md) assegurou ser impossível que mais de dez anjos pudessem dançar ao mesmo tempo numa cabeça de alfinete, e dois colegas do Departamento de Física Aplicada na Universidade de Santiago de Compostela informaram que a temperatura do inferno é de 279 graus. Enquanto isso, o serviço de telecomunicações de Israel divulgou o número do fax de Deus (00972-25612222) e o endereço do site dele (www. kotelkam.com).

 

O surrado argumento do “terror”

deputados

Justiça Federal renova, por um mês, prisão arbitrária de supostos simpatizantes do ISIS. Nada de novo: governos autoritários do continente — como o de Alberto Fujimori — brandiram “ameaça terrorista” para conservar poder

Por João Vitor Cardoso e Konstantin Gerber

A duas semanas das Olimpíadas, dez pessoas, jovens de diferentes Estados brasileiros, foram presas acusadas de fazer parte de uma célula do Estado Islâmico e planejamento de atos terroristas nas Olimpíadas. Ignorou-se publicamente a arbitrariedade e a antijuridicidade destas prisões bem como a presunção de inocência, enfim, toda a ignomínia do butim. Os fatos já estavam consumados e não houve tempo para a opinião pública formular qualquer juízo sobre esta empreitada ultraje da agência de (pseudo-) inteligência brasileira.

O ministro da Justiça pronunciou-se no sentido de que as prisões foram significativas por serem as primeiras aplicadas conforme a Lei Antiterror, de 2016. O Supremo silenciou. No Estado de Exceção, o tribunal constitucional não tem mais função alguma, os problemas colocados já não são de sua competência. A versão oficial é de que tais prisões foram realizadas para efeito dissuasório. O governo Temer insiste em ações militares e diplomáticas completamente atabalhoadas que, ao invés de afastar o risco de atentados, só o fortalece. Cresce um discurso jurídico-político que explicita a configuração legal do terror de Estado, como “medida de segurança” cujo substrato é geralmente formado por policiais recrutados nos estratos pauperizados e “que dispõe seu corpo para garantir a propriedade que não é sua1”. Enquanto isso, todos são vistos e monitorados como “terroristas em potencial”. Afinal, não seria conveniente para um governo ilegítimo ter um inimigo tão amedrontador?

No Chile, esta discussão subsiste quando se trata da luta travada pelo povo indígena Mapuche. Entre 2000 e 2013, o Ministério Público Chileno formalizou um total de 19 acusações sob a Lei Antiterrorista Chilena (Ley 18.314), das quais 12 se relacionam a reivindicações de terras ancestrais de grupos mapuche. A este respeito, vários organismos internacionais têm manifestado sua preocupação pela aplicação da Lei Antiterrorista em relação a delitos cometidos no contexto de protestos ou constataram uma aplicação “desproporcional” desta lei aos Mapuche.

Conforme o Caso Norín Catrimán y otros vs. Chile, a Corte Interamericana ordenou ao Estado Chileno “[a]decuar la legislación antiterrorista consagrada en la Ley 18.314, de manera que sea compatible con el principio de legalidad establecido en el artículo 9 de la Convención Americana”, e indicou que a reforma de 2010 à Lei Antiterrorista não implicou uma modificação substancial que a compatibilizou com a Convenção, já que se tratou apenas de remanejamento de vocabulário, em que se conservou a lógica anterior a respeito da hipótese da finalidade terrorista. Ademais, há algumas semanas, o cidadão basco Iban Gartzía foi detido pela Polícia de Investigações chilena. Ele tinha histórico de vinculação a movimentos de esquerda e anarquistas bascos, sendo esse o motivo formal de sua expulsão. Estas articulações surpreendentes de movimentos sociais entram em estágio de compressão pelas forças repressoras do Estado. Estas, à sua vez, definem como conduta criminosa certas atitudes admiráveis. É este o risco da instrumentalização política das acusações de terrorismo.

Em diversos casos, sobretudo, aqueles envolvendo as leis do período Fujimori no Peru, a Corte Interamericana de Direitos Humanos entendeu que os jueces sin rostro, os tipos penais de terrorismo muito abertos e a falta de respeito a garantias penais mínimas no combate ao terrorismo violam a Convenção Americana2. O terrorismo de Estado na América Latina está associado aos desparecimentos forçados no período das ditaduras de nosso continente. Caberia a nós a expressão de Pierre-Joseph Proudhon, em Carta ao Ministro da Justiça da França, anos após a Comuna: “Na nossa pátria sempre existiu exceções a todo tipo de direito”. E assim caminhamos: agora, vem o overlap da guerra global contra esta “violência”. O mercado de armas agradece às leis anti-terror em vigor na Americana Latina. Esse regime de violência política e simbólica não pode confluir para nada mais que o reconhecimento do direito da força, da segurança policial. Não é difícil identificarmos o inimigo atual da nossa sociedade.


João Victor Cardoso. Formado em Direito pela PUC-SP, onde integra o Grupo de Pesquisa em Direitos Fundamentais. Mestrando no Programa Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades na FFLCH-USP.

Konstantin Gerber. Advogado Consultor em São Paulo, mestre e doutorando em filosofia do direito pela PUC-SP, onde integra o Grupo de Pesquisa em Direitos Fundamentais. Professor convidado do curso de especialização em Direito Constitucional da PUC-SP.

1 PASSETTI, Edson. As liberdades e o projeto de lei do terrorismo. Disponível em Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 22/02/2014.

2CARRASCO, Salvador Herencia. El tratamento del terrorismo en la organización de los estados americanos y en el sistema interamericano de derechos humanos. In: AMBOS, Kai & MALARINO, Ezequiel & STEINER, Christian. Terrorismo y derecho penal. Edpal, Konrad Adenauer, Bogotá: 2015, p. 61

O Livro, por Jorge Luís Borges

Polêmico e genial, o escritor argentino — que morreu há trinta anos, quando nascia a internet — sustenta: “dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[Trechos do ensaio “O Livro”, parte da obra Borges Oral. O texto completo, no original em castelhano, pode ser lido aqui. Borges Oral foi publicado, no Brasil, no volume Oral & Sete Noites, traduzido por Heloisa Jahn e publicado pela Companhia das Letras. Pode ser encontrado aqui]

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Um guia para examinar o sequestro da democracia

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Publicação de grupo de ativistas, a ser lançada nesta sexta, no espaço do Outras Palavras, traça radiografia de um Brasil dominado pelas corporações e ajuda a entender que mecanismos tornaram isso possível
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“A Privatização da Democracia: Um Catálogo da Captura Corporativa no Brasil”
Lançamento: sexta-feira, 19 de agosto, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo — Metrô São Joaquim ou Brigadeiro
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Um cenário de “privatização da democracia”, em que grandes empresas controlam os fundamentos da dinâmica democrática, tais como eleições, trabalho parlamentar e poder judiciário, impondo leis e políticas públicas de seu interesse. Esse é o retrato traçado pelo coletivo de ativistas Vigência no relatório “A Privatização da Democracia: Um Catálogo da Captura Corporativa no Brasil”, a ser lançado em parceria com Outras Palavras, em São Paulo. Uma versão resumida e ilustrada do relatório, o “Guia Ilustrado da Privatização da Democracia” será distribuída entre os presentes.

Com prefácio do economista Ladislau Dowbor, a publicação traz estudos de caso relativos a oito setores da economia brasileira: alimentos, com destaque para biossegurança; educação; finanças e juros; meio ambiente; mídia; saúde; segurança; e setor imobiliário. O objetivo é fornecer informações e subsídios para indivíduos e organizações que atuem na defesa do interesse público e no combate à crescente desigualdade econômica no Brasil.

Entre os mecanismos utilizados pelas empresas brasileiras e transnacionais para influenciar o processo de tomada de decisões estão o financiamento de campanhas eleitorais, o lobby, as portas giratórias – ou seja, a contratação de ex-funcionários do governo para trabalhar em empresas e vice-versa – e o financiamento de estudos e pesquisas.

“O poder das empresas não é uma novidade, mas conseguimos identificar exemplos concretos dos mecanismos que elas utilizam para influenciar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário no país”, afirma o cientista político Gonzalo Berrón, um dos organizadores da publicação. “Esse círculo vicioso perverso produz sociedades mais pobres, tanto no sentido econômico quanto em termos de soberania”.

Na área de biossegurança, por exemplo, a geógrafa Yamila Goldfarb destaca que, apesar de muitos questionamentos, não foi negado nenhum dos 72 pedidos de liberação de transgênicos de empresas do setor à Comissão Nacional Técnica em Biossegurança (CNTBio), desde sua criação. A razão seria a proximidade de parte de seus integrantes às empresas de biotecnologia e financiamento de pesquisas de cientistas. Outro mecanismo que ocorre na CTNBio é o das “portas giratórias”: um dos responsáveis por elaborar a Lei de Biossegurança, que dispõe sobre a comissão, teria trabalhado para a Monsanto. Hoje, o Brasil tem a segunda maior área plantada com transgênicos do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, e é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta.

Outro exemplo é o financiamento de campanhas eleitorais. A consequente formação da bancada ruralista foi responsável, em 2015, pelo abrandamento da definição de trabalho escravo no Código Penal, pela aprovação em comissão do mecanismo de demarcação de terras indígenas, pela terceirização de atividades-fim das empresas e pela tramitação da lei que permite a compra de terras por estrangeiros.

Na mídia, a combinação entre os diferentes mecanismos de captura leva à manutenção de um cenário de concentração de propriedade dos meios de comunicação que encontra poucos similares no mundo. O Grupo Globo controla mais da metade do mercado de comunicação, cuja receita líquida é 3 vezes maior do que a soma das receitas dos grupos Abril, RBS, O Estado de São Paulo e SBT. Além da Globo, há dois outros conjuntos de atores econômicos no setor, sendo o primeiro formado por grupos religiosos, notadamente católicos carismáticos (Rede Vida, TV Século XXI e Rede Canção Nova) e evangélicos neopentecostais (Record, SBT); e o segundo de grupos estrangeiros, que controlam a distribuição no mercado cinematográfico e, somados à Globo, o mercado de TV paga.

Exemplos das áreas de educação, saúde, meio ambiente, segurança, finanças e setor imobiliário são igualmente espantosos e preocupantes – o que confere grande importância ao trabalho do Vigência.

Vigência é um grupo de ativistas cujo foco de atuação é a denúncia dos efeitos sociais do capitalismo extremo no Brasil, com ênfase na captura dos espaços democráticos por empresas nacionais e transnacionais e dos mecanismos que permitem e perpetuam a altíssima concentração de riqueza no país. O grupo promove a cooperação entre os afetados pela atuação de grandes empresas e pesquisadores acadêmicos, profissionais e militantes, contribuindo para a articulação de ideias e iniciativas que busquem combater a concentração de riqueza/renda e a captura corporativa de espaços democráticos no Brasil.

A publicação está disponível na íntegra em: http://www.vigencia.org

Theodor Adorno e o triunfo da ignorância

Em tempos marcados por brutalidade, o filósofo alemão, expoente da Escola de Frankfurt, escreveu: os estúpidos “já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência” — porque “a debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida”.

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[Este é um trecho de Minima Moralia (1951). A obra completa está disponível (em formato digital) aqui. O livro, em português, é encontrado aqui].

As relações privadas entre os homens formam-se, parece, segundo o modelo do bottleneck (gargalo) industrial. Até na mais reduzida comunidade, o nível obedece ao do mais subalterno dos seus membros. Assim, quem na conversação fala de coisas fora do alcance de um só que seja comete uma falta de tato. O diálogo limita-se, por motivos de humanidade, ao mais chão, ao mais monótono e banal, quando na presença de um só “inumano”.

Desde que o mundo emudeceu o homem, tem razão o incapaz de argumentar. Não necessita mais do que ser pertinaz no seu interesse e na sua condição para prevalecer. Basta que o outro, num vão esforço para estabelecer contato, adote um tom argumentativo ou panfletário para se transformar na parte mais débil. Visto que o bottleneck não conhece nenhuma instância que vá além do factual, quando o pensamento e o discurso remetem forçosamente para semelhante instância, a inteligência torna-se ingenuidade, e isso até os imbecis entendem.

A conjura pelo positivo atua como uma força gravitatória, que tudo atrai para baixo. Mostra-se superior ao movimento que se lhe opõe, quando com ele já não entra em debate. O diferenciado que não quer passar inadvertido persiste numa atitude estrita de consideração para com todos os desconsiderados. Estes já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência. A debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida. O expediente formalisto–administrativo, a separação em compartimentos de tudo quanto pelo seu sentido é inseparável, a insistência fanática na opinião pessoal na ausência de qualquer fundamento, a prática, em suma, de reificar todo o traço da frustrada formação do eu, de se subtrair ao processo da experiência e de afirmar o “sou assim” como algo definitivo, é suficiente para conquistar posições inexpugnáveis. Pode estar-se seguro do acordo dos outros, igualmente deformados, como da vantagem própria. Na cínica reivindicação do defeito pessoal pulsa a suspeita de que o espírito objetivo, no estágio actual, liquida o subjetivo. Estão down to earth, como os antepassados zoológicos, antes de se alçarem sobre as patas traseiras”