São Paulo começa a conquistar Tarifa Zero

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Depois de anos de luta, moradores do Extremo Sul e MPL obtêm da prefeitura linha regular de ônibus. Será gratuita: primeiro sinal de que também nas metrópoles a Mobilidade Urbana pode ser direito de todos 

Com informações do Movimento Passe Livre

Caiu no sábado passado (23/5), em São Paulo, um grande tabu que limitava o Direito às Cidades nas grandes metrópoles. Após anos de luta, os moradores dos bairros do Marsilac, Barragem, Bosque do Sol e Jusa, no extremo sul da cidade, conquistaram quatro novas linhas de ônibus, que garantirão pela primeira vez o acesso pleno ao transporte público. O transporte será gratuito, pela primeira vez na maior metrópole do país.

A vitória foi alcançada em reunião com o Prefeito Haddad, os secretário dos Transportes e do Verde e a SPTrans, operadora das linhas de ônibus no município. O encontro ocorreu na subprefeitura de Parelheiros. Enquanto representantes dos moradores e do Movimento Passe Livre (MPL) dialogavam com os governantes, a população protestava na avenida. Nessa reunião, foi decidido o seguinte:

  • Criação imediata de uma linha regular de transporte urbano no bairro do Bosque do Sol até o Varginha, com atendimento na Estrada do Jusa.
  • Criação de uma linha de ônibus rural no itinerário Mambu – Marsilac, com Tarifa Zero para os moradores e caráter experimental por 180 dias, após aprovação da Cetesb.
  • Estudo para a criação de duas linhas circulares na região da Barragem com o mesmo caráter rural, experimental e gratuito aos moradores.
  • Melhoria de todas as vias e construção de uma nova ponte sobre o Rio Mambu.

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Israel: Netanyahu terá uma vitória de Pirro?

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Belicoso e anti-palestino, primeiro-ministro só dialoga com extrema-direita. Podem estar surgindo uma frente política alternativa e uma solução surpreendente para o conflito

Por Sérgio Storch, em sua página no Facebook

Três fatos que sinalizam a possibilidade de uma reversão na política israelense. É acompanhar daqui pra frente:

1. O forte discurso de Isaac Herzog, líder da oposição no Knesset, denunciando a fragilidade da coalizão montada por Netanyahu, que chegou ao patético de entregar o Ministério da Justiça a Ayelet Shaked, um dos ícones do racismo mais repulsivo na extrema direita israelense. Explicitamente, Herzog se propõe a representar não só a esquerda sionista, mas também os 20% de árabes israelenses e as demais minorias. Íntegra aqui.

2. Vem à tona, depois de longa maturação, uma proposta para solução do conflito totalmente original: “Dois Estados no mesmo Território”, que inverte a conhecida solução Dois Estados negociada em Oslo em 1993, colocando como ponto chave a integração, em vez da separação. O conflito pelo Canadá resolveu-se assim, entre ingleses e franceses, no século 19. E é significativo quem traz a público essa proposta, em artigo no NY Times: Yossi Beilin, que foi idealizador dos acordos de Oslo e negociador dos acordos de Camp David, em 2000, que não frutificaram porque Clinton já não tinha mais tempo no seu mandato. É um retorno dos combatentes pela paz justa, no momento em que Netanyahu pode ter tido uma vitória de Pirro. Íntegra aqui. Continuar lendo

Polêmica: “Nunca fomos cordiais”

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Violência para nós, brasileiros, é um valor — e se confunde com nossa percepção do que é “ser homem”. É triste que Manuel Castells tenha de nos dizer isso

Por Wedencley Alves*

(Texto-resposta ao querido Theotonio de Paiva)

Hoje, mais cedo, um querido amigo me chamou a atenção para uma matéria da Folha, onde Manuel Castells afirma que não é a internet que nos faz violentos. Mas o próprio país, que tem um histórico longo de violências. Ele tem razão, mas não precisava, comentei, um estrangeiro nos dizer isso.

Violência para nós é um valor: desde as, aparentemente, ingênuas malhações de judas (e quem malhávamos, quer dizer, espancávamos “simbolicamente”? Os vizinhos, aqueles de quem não gostávamos, os maridos “traídos”, as mulheres que, supostamente, “não inspiravam respeito”, o gay, o devedor, o comerciante antipático etc.).

Somos violentos porque desde cedo o garoto é ensinado a não voltar pra casa “chorando”, para não apanhar “duas vezes”. Nossa violência se confunde com nossa percepção do que é “ser homem”. Sim, porque as mulheres brasileiras não são mais violentas — fisicamente, embora do ponto de vista “verbal”, tenho lá minhas desconfianças — do que qualquer outra mulher no mundo, mas os homens, sim, em relação aos outros. Continuar lendo

O dia em que Parelheiros andou em ônibus digno

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No extremo da periferia Sul, moradores garantem Tarifa Zero — e chamam atenção para precariedade do transporte público, que os obriga uma hora de caminhada, após último ponto…

Por Ruam Oliveira

Na última semana, moradores do extremo sul da capital paulista puseram em circulação uma linha de ônibus gratuita intitulada “Linha Popular”. O ônibus, alugado pela população, funcionou como circular entre o Barragem, Bosque do Sol e Marsilac – três bairros da região de Parelheiros com os piores serviços de transporte de São Paulo. A linha foi o protesto.

Diferente dos últimos acontecimentos de reivindicação que ocorreram na cidade, majoritariamente tomando avenidas ou em marchas e bater de panelas, a linha popular usou de sua própria causa para demonstrar as necessidades que os bairros possuem. Ou seja, reafirmar suas razões.

Fabrícia Bezerra, 27 anos, estudante, que mora na região do Marsilac conta que “a ação foi importante pra mostrar para a prefeitura que é possível”. Um dos problemas apontados por Fabrícia é a dificuldade que os moradores têm para chegar até mesmo à Unidade Básica de Saúde (UBS). “Eu tive que comprar uma moto, porque voltei a estudar e não tinha outro jeito. Quando saio deixo a moto na casa de um amigo perto do ponto e pego o ônibus. Na volta, a mesma coisa”, ela conta que de sua casa até o ponto mais próximo são cerca de 2,5 Km e por estudar à noite, comprar a moto foi a melhor solução. A moradora ecoa o discurso de muitos outros envolvidos: “é um protesto e eles precisam ver que é possível melhorar o transporte”. Continuar lendo

Para ampliar a campanha contra publicidade infantil

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Por apelarem a pessoas vulneráveis, certas propagandas estabelecem relação de dependência e cristalizam um modo de ver o mundo. Quais são. Como enfrentá-las. Por que mercado insiste em repeti-las

Por Desirée Ruas*

A proteção da criança aos apelos publicitários tem respaldo legal há quase 25 anos. Desde sua criação, o Código de Defesa do Consumidor estabelece, no artigo 37, que é abusiva e ilegal a publicidade que “se aproveita da deficiência de experiência e julgamento da criança”. Também desrespeita a legislação vigente toda publicidade discriminatória, que desrespeita valores ambientais, incita à violência, explora o medo ou a superstição, ou que induza o consumidor a se comportar de maneira prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. Mas, como determinar a infração concreta a estas normas, em imagens ou palavras nos milhares de comerciais que chegam às pessoas diariamente, no país?

Há pouco mais de um ano, em abril de 2014, entrou em vigor a resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que explicita os critérios para determinar o que é uma publicidade infantil e como ela tenta convencer a criança para o consumo. E o que há para comemorar nesse período? Para quem defende a reflexão sobre a infância e o consumo, a resolução inaugurou um debate importante, mas não gerou medidas concretas por falta de fiscalização e punição para os que desrespeitam a medida. E a dúvida persiste: até quando a criança vai continuar sendo alvo de mensagens comerciais nos diversos meios de comunicação? Continuar lendo

Outros Traços: Corpo

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De Carolina Ito, no Salsicha em Conserva

A sensibilidade da artista se revela em reportagens em quadrinhos e charges, mas também em suas tiras, publicadas em blog. Quase sem texto, estes desenhos revelam a percepção dos sentidos e ilustram sentimentos delicadamente. Veja mais abaixo: Continuar lendo

Redução da maioridade, Agamben e política da morte

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Violência contínua de tanques e soldados nas UPPs do Rio é exemplo da exceção que se faz regra, e se quer lei — agora com a imputabilidade da população mais jovem

Por Marcio de Souza Castilho*

Jovens negros, pobres, moradores de periferias e favelas, sem acesso ao sistema educacional, são o alvo preferencial do nosso sistema penal seletivo, excludente e depositário de uma parcela da população que se quer escondida ou mesmo eliminada pelas pessoas de “bem” da sociedade. As consequências desse estado-penitência (Wacquant) são os números do quadro carcerário brasileiro, que concentra a quarta maior população de presidiários no mundo, com mais de 500 mil confinados. As estatísticas tendem a crescer com a proposta da redução da maioridade penal.

Se aprovada, será a confirmação da lógica de um Estado que, para promover a vida, não em sua totalidade, adota mecanismos de uma violência depuradora de eliminação do outro, agora com a imputabilidade da sua população mais jovem. Materializa-se, portanto, a coexistência, para além dos regimes totalitários, da biopolítica com a tanatopolítica ou, como afirma Esposito, uma “morte necessária para conservar a vida, uma vida que se nutre da morte alheia”. Continuar lendo

Os velhos jornais suicidam-se no altar do Facebook?

A man is silhouetted against a video screen with an Facebook logo as he poses with an Dell laptop in this photo illustration taken in the central Bosnian town of Zenica

Ao publicarem matérias inteiras numa plataforma que mistura propositadamente informação e entretenimento, “New York Times”, “Guardian” e outros podem estar chocando o ovo da serpente

Por Bruno Torturra, em sua página no Facebook

Comercialmente talvez – nada mais que talvez – faça sentido o NYT e outros grandes veículos entrarem nessa de fornecer conteúdo direto ao Facebook. Ainda espero os detalhes das condições e fontes de receita para os jornais para fazer um juízo menos precipitado.

Mas por enquanto me parece um erro grave.

Em parte entendo a capitulação. “Una-se a eles”, diz quem entende que já não pode vencê-los. Mas ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.

Porque para mim a arquitetura do Facebook é a exata corrosão de muitos fundamentos jornalísticos – justamente os que instituições como NYT e Guardian deveriam preservar – em prol de uma dinâmica que dissolve as barreiras do entretenimento e do jornalismo, da mera distração e da notícia, da relevância social e dos interesses estritamente pessoais.

E isso tem efeito especialmente nefasto, me parece, no papel mais importante do jornalismo. Que não é gerar audiência ou tráfego. Mas impacto. E é justamente isso que tenho sentido ultimamente. Um acelerado processo de erosão do impacto que o jornalismo causa na sociedade. E a ascensão do ruído, da falta de contexto, do buzz e da cultura de trends e hashtags como os maiores influenciadores da opinião pública. Isso muda a forma como público entende e consome jornalismo. E tende, a curto prazo, a transformar tudo nessa palavra leve, porém perigosa: conteúdo.

Claro que o processo é bem mais complexo do que isso. Mas o Facebook é protagonista nisso. E sua estrutura não indexada, sem mecanismo de busca, compulsiva e impermeável, tende a aprofundar esse cenário.

Claro que posso – e no fundo espero – estar errado. Mas ao abraçar o Facebook como parceiro, o NYT e grande elenco podem estar cometendo um erro equivalente, digamos, ao do PT dando os braços ao PMDB. Você pode até chamá-lo de parceiro. Mas quando você olhar pro lado… eles tomaram algo que não estava no contrato: a sua alma.

Agora, pronto. Dá um like aí.

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II Guerra: o conflito visto em pôsters soviéticos

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Em dezenas de cartazes — muitos deles ricos esteticamente — uma narrativa que ficou esquecida após o fim do socialismo primitivo e da URSS 

Por Cauê Seignemartin Ameni

Às 2 da manhã, horário de Moscou, em 9 de maio de 1945, o locutor de rádio Yuri Levitan declarava: “A Alemanha foi totalmente vencida”. Completam-se hoje setenta anos da derrota nazista na II Guerra Mundial — um conflito em que a antiga URSS exerceu papel crucial. Para se ter uma noção, suas baixas foram 30 vezes maiores que as dos EUA e Grã-Bretanha, somados. A URSS perdeu 25,5 milhões de pessoas, enquanto Inglaterra e EUA, cerca de 450 mil cada (num total de 55 milhões de mortes em toda a guerra).

Até meados dos anos 60, ainda se lembrava do papel fundamental do “exército vermelho” na vitória sobre as tropas do III Reich. O esquecimento é tido por historiadores como reflexo da parceria entre o Pentágono e Hollywood. No final do mandato, o presidente Franklin Roosevelt institucionalizou essa relação com a criação do Office of War Information e convidou os cineastas John Ford e Frank Capra a colocarem seus talentos a serviço das ambições militares norte-americanas, traçando uma linha estratégica para disputar a narrativa simbólica no pós-Guerra. Mas se os alemães dominavam o rádio e os Estados Unidos a sétima arte, a URSS era a rainha dos pôsters. Seguem alguns deles: Continuar lendo

Cinco filmes sobre o fim da II Guerra Mundial

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Há exatos setenta anos, terminava o conflico que marcou a derrota do nazismo e mudou a história do século XX. Nossa seleção de documentários e ficções propõe uma visão não-hollywoodiana do confronto

Neste 8 de Maio, comemoram-se, na Europa e EUA, setenta anos do fim da II Guerra Mundial. Já os russos apontam o fim da guerra em 9 de maio. Não existe um consenso quanto à data exata. Na verdade a rendição das forças remanescentes do III Reich aos aliados ocidentais se deu dia 8 de Maio, e ao Exército Vermelho na madrugada do dia seguinte 9 de Maio. Findava-se o pesadelo nazista. Hoje poucos se lembram do papel fundamental que a antiga União Soviética jogou no episódio. Muitos atribuem a vitória aos EUA e a relacionam a episódios menores, porém intensamente dramatizados por Hollywood — como o “Dia D”. Nossa seleção de filmes é mais heterodoxa. Conheça a seguir cinco grandes obras cinematográficas sobre um confronto que mudou a História. Veja também, em outro post, os posters soviéticos. Na foto, cena que marca a contra-ofensiva anti-nazista na Batalha de Stalingrado, a mais importante da guerra

A Queda: As Últimas Horas de Hitler
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