Teatro Oficina: especuladores sofrem primeira derrota

Oficina: obra de Lina Bo Bardi, foi considerado “o teatro mais bonito do mundo”. Especuladores querem cercá-lo com quatro torres de cimento, e privatizar área diante dele | Foto de Jennifer Glass

Auê na audiência pública que debateu privatização do entorno. Subprefeito atônito diante das críticas. Tecnocratas ensaiam recuo – sem concretizá-lo, porém

Por Hugo Albuquerque

Visivelmente constrangido, o subprefeito Alcides Amazonas foi encolhendo em sua poltrona, à medida em que ouvia as críticas – até que se retirou do recinto, meia hora após iniciada a audiência pública. Alguns assessores, galhardos, tentaram defender a proposta em debate. Inútil. Dezenas de intervenções, vindas de integrantes da sociedade civil, reduziram o projeto a seu real tamanho. Ficou claro que a “requalificação urbanística” (disponível aqui) pretendida pela prefeitura de São Paulo para a área em torno do icônico Teatro Oficina é o que parece ser: mais uma tentativa de privatizar o espaço público, entregando-o, a preços módicos, a grandes corporações. Ficou tão claro, aliás, que os representantes do poder municipal recuaram – ao menos em palavras. Das duas ameaças que pairam sobre o Oficina (leia texto de Zé Celso Martinez Corrêa), uma saiu combalida, da tarde da última quarta-feira, 3 de fevereiro.

A audiência fora convocada às pressas, pela subprefeitura da Sé (que administra a maior parte do centro de S.Paulo) em virtude da pressão popular surgida pela maneira pouco democrática de como o edital foi construído. O processo licitatório prevê uma concorrência entre empresas e/ou consórcios pela concessão de uso dos baixios do Viaduto Júlio de Mesquita, defronte ao teatro. São mais de 11 mil metros quadrados. Os interessados terão de desembolsar no mínimo 12 milhões de reais. Quem dispuser destes recursos poderá servir-se, por dez anos, de vasto território, em área “nobre” da cidade. O vencedor da concorrência terá direito à exploração comercial e gestão do espaço.

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Como o Facebook tenta colonizar a internet

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Movimentos indianos reagem, com indignação, a ideia supostamente tentadora: assegurar acesso dos mais pobres à rede — mas só nos canais selecionados pela firma de Zuckerberg…

Por Gabriela Leite | Imagem: Pawel Kuczynski

O Facebook está prestes a sofrer um revés, graças aos ativistas pela liberdade da internet. A Índia definirá, nos próximos dias, se vai banir do país o Free Basics, atrevida iniciativa de Mark Zuckerberg, dono da rede social gigante. O projeto consiste em uma parceria com operadoras de telefonia móvel de países em desenvolvimento para fornecer internet gratuita a pessoas pobres, porém apenas a um número limitado de sites e conteúdos filtrados pela empresa de Zuckerberg — Facebook obviamente incluso. Desde dezembro, o serviço está bloqueado no país asiático, e acontecem fervorosas discussões sobre seu futuro e o que será da liberdade da internet para os indianos. O órgão local que regula as telecons, TRAI (Telecon Regulatory Authority of India), decidirá nos próximos dias se Free Basics será ou não permitido.

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“O Free Basics, do Facebook, é um primeiro passo para conectar um bilhão de indianos a empregos, educação e oportunidades online, e no final das contas a um futuro melhor. Mas o Free Basics está em risco de ser banido, desacelerando o progresso para a igualdade digital na Índia.” — outdoor pede para pessoas fazerem ligações para apoiar a iniciativa do Facebook

O que está em jogo, na Índia e em outros países onde o Free Basics já opera, é a neutralidade da rede. Garantida pelo Marco Civil da Internet, no Brasil, ela diz respeito ao conteúdo disponível: nenhum site deve ter privilégio de navegação, nenhuma operadora pode oferecer pacotes com apenas alguns sites disponíveis. Continuar lendo

Mulheres poetas, vibrantes porém ignoradas

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Elizandra Souza, em sarau na zona sul de SP: em legítima defesa

Breve panorama sobre vozes femininas que hoje fazem versos — mas permanecem à sombra por preconceito de editores. Uma realidade em rápida transformação

Por Inês Castilho

No ano 40 do feminismo brasileiro, já não se admitem atitudes que até outro dia, naturalizadas, passavam batido. No mundo das luzes inclusive. Por exemplo, circula por aí manifesto em que intelectuais e artistas se comprometem a não participar de mesas de debates ocupadas apenas por homens – mudando assim o conceito de normalidade. Outro exemplo: questionada na última edição sobre a ausência de homenageadas, a Flip escolheu louvar este ano a escritora Ana Cristina César, segunda em 14 anos de festival – a primeira foi Clarice Lispector, em 2005.

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Ana Cristina César, segunda mulher a ser homenageada na Flip

No mundo editorial, a provocação veio de uma jovem poeta, Ana Rüsche, ao jogar na rede o texto Mulheres escrevem poesia e desaparecem, em que questiona a invisibilidade da “intensa produção de poesia feita por mulheres” no país. Ana cita livros e artigos recentes em que o placar é tremendamente desfavorável às poetas. Volta às publicações da virada do século e constata: a coisa é grave. “O que me espanta é que qualquer análise lúcida e cuidadosa dos dias de hoje iria apontar o evidente protagonismo feminino na poesia!” E então lança o dado avassalador: em todos esses livros e artigos não encontrou uma única poeta negra. Continuar lendo

Michael Moore: por que apoio Bernie Sanders

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Para cineasta, elites agem de forma baixa, ao “acusar” candidato de socialista. E pode ser inútil: número crescente de norte-americanos opta por“partilha”, diante da “cobiça”

Tradução: Henri Figueiredo, editor do site Tempus Fugit

Meus caros amigos,

Quando eu era criança, eles disseram que não havia nenhuma maneira deste nosso país de maioria protestante eleger um católico como presidente. Em seguida, John Fitzgerald Kennedy foi eleito presidente.

Na década seguinte, disseram que a América não elegeria um presidente do “Sul profundo”(¹). O último a conseguir isso por si mesmo (e não como vice-presidente) foi Zachary Taylor em 1849. E então nós elegemos Jimmy Carter presidente.

Em 1980, eles disseram que os eleitores nunca escolheriam um presidente divorciado que casou novamente. O país tinha modos muito religiosos para isso, disseram. Bem-vindo, presidente Ronald Reagan, 1981-1989.

Eles diziam que você não poderia ser eleito presidente se não tivesse servido nas Forças Armadas. Ninguém conseguia se lembrar de alguém que não servira eleito Comandante-em-chefe. Ou quem tinha confessado fumar (mas não tragar!) drogas ilegais. Presidente Bill Clinton, 1993-2001. Continuar lendo

Uma oferenda para Iemanjá

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O mar não está pra peixe nestes tempos de morte de imigrantes, poluição, guerras, aquecimento global. Oferenda, para a rainha, é esperança num futuro sem medo

Por Marcelino Freire

Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.

Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pinguins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.

Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.

Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.

Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.

Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.

Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.

Assim agem os mega-bilionários

Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número já havia caído para 58

Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número caiu para 62

Retrato de um sistema em degradação moral: nove das dez pessoas mais ricas do mundo estão envolvidas com trabalho escravo e infantil, superexploração, espionagem e patrocínio de golpes de Estado

Por Mauro Lopes, editor do blog Caminho pra casa

Teve grande repercussão o estudo divulgado pela OXFAM segundo o qual 1% das pessoas mais ricas do mundo detêm mais riqueza que as demais 99%. No mesmo estudo, indicou-se que apenas 62 multimilionários têm riqueza equivalente à da metade da população do planeta. Veja aqui a íntegra do estudo em português. Agora, um conselheiro da entidade, que reúne 17 organizações não-governamentais, o russo Mikhail Maslennikov demonstrou como essa concentração é fruto de ação meticulosa das elites globais – veja a entrevista em português, veiculada pelo Outras Palavras clicando aqui.

A BBC Brasil apresentou em reportagem quem são os 62 multimilionários que controlam metade da riqueza mundial – leia aqui se quiser. Na reportagem da BBC há algo que é uma febre nas redes: listas. O texto apresentou os “Top Ten”, os 10 mais ricos. É uma lista reveladora do caráter do capitalismo. Da dezena listada, nove são conhecidos por práticas que incluem uso de mão de obra escrava, superexploração de trabalhadores e espionagem a serviço da agência americana de segurança (NSA). Continuar lendo

E se outro jornalismo for viável?

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Campanha de financiamento autônomo de Outras Palavras começa veloz. Novas parcerias com produtores culturais ampliam contrapartidas a quem contribui. Em meio à crise da velha mídia, parece haver esperanças

Por Antonio Martins, editor de Outras Palavras

Escrever sobre a hipótese teórica de um novo jornalismo é mobilizador – mas viver concretamente esta possibilidade é incomparável. Em sua primeira semana, os resultados da campanha para assegurar a existência e ampliação de Outras Palavras em 2016 superaram largamente nossas previsões. Entre 20 e 27 de janeiro, 159 leitores somaram-se ao programa Outros Quinhentos. Sua participação projeta entrada, ao longo do ano, de R$ 29,4 mil, e sugere que poderemos alcançar ou mesmo superar a meta fixada. Além disso, novas parcerias com produtores culturais permitem ampliar, agora, as contrapartidas a quem nos apoia. Os resultados são ainda mais expressivos porque contrastam com a crise aguda vivida pela velha mídia brasileira – apesar da farta publicidade corporativa e das benesses incessantes do governo federal.

Este ano, o programa de financiamento autônomo de Outras Palavras precisa arrecadar R$ 210 mil. O valor corresponde a 85,8% de nosso orçamento, que é público. Aberta em 20/1, a fase final do esforço estende-se até os feriados da Páscoa. Em dez semanas, precisávamos arrecadar R$ 161,7 mil. Os R$ 29,4 mil dos primeiros sete dias correspondem a 18,2% deste valor. Faltam, agora, R$ 132,3 mil. Um número expressivo (e crescente) de leitores compreende a necessidade de apoiar voluntariamente um trabalho que fazemos questão de oferecer sem catracas.


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Outros Quinhentos oferece 25 livros grátis

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Programa de sustentação autônoma de Outras Palavras propõe obras que examinam temas contemporâneos cruciais. Oferta é possível graças a parceiras não-mercantis com produtores culturais

Por Antonio Martins


MAIS:
Para participar de Outros Quinhentos, o programa que garante a independência e a ampliação constante deste site, entre aqui

Marilena Chauí comparece com Conformismo e Resistência, coletânea de ensaios famosos, totalmente revisados à luz dos anos recentes. Do economista negriano Maurizio Lazzarato, propomos Signos, Máquinas, Subjetividades. Os riscos implícitos na atual conjuntura brasileira estão expostos em Direita, Volver, série de artigos que tem despertado intenso debate. Para um exame a fundo sobre os dilemas da esquerda, há Rosa Luxemburgo ou o preço da Liberdade. São apenas quatro, entre 25 títulos queOutras Palavras oferece grátis, até 25 de janeiro, a quem aderir a Outros Quinhentoso programa de sustentação autônoma do qual virão, neste ano, 85,8% de nossos recursos. Veja aqui como obter os livros.

A oferta é possível por dois motivos. Primeiro, procura impulsionar a segunda e última fase de nosso esforço de captação de recursos junto aos leitores, em 2016. Começamos muito bem: já obtivemos, na virada do ano, R$ 67,2 mil. Porém, precisamos levantar, nas próximas dez semanas, R$ 142,8 mil. (veja nosso orçamento). Os livros são uma retribuição simbólica – porém significativa – a quem participa da manutenção e ampliação de nosso trabalho editorial. Continuar lendo

Quem tem almoço grátis em São Paulo

COL; (c) City of London Corporation; Supplied by The Public Catalogue Foundation

COL; (c) City of London Corporation; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Ou: algumas verdades sobre concentração de riquezas e injustiça tributária no Brasil, sobre as quais o prefeito Fernando Haddad deveria refletir, antes de dar entrevistas citando Milton Friedman

Por Leonardo Gomes Nogueira | Imagem: Luke ClennelO banquete dos soberanos aliados (1814)

O cada vez mais debochado prefeito Fernando Haddad, ao atacar os manifestantes que pedem a revogação do aumento da tarifa de ônibus, metrô e trem disse (imitando os defensores mais ardorosos desse modelo) que não existe “almoço grátis”. E inovou: ao invés de mandar pra Cuba, mandou pra Disney.

Mas tem muito almoço grátis por aí. Ainda mais em um país, como o nosso, no qual a carga tributária pesa mais para os pobres e classe média do que para os ricos (há vários estudos, de diferentes instituições, que demonstram isso). Pagando menos impostos, obviamente, fica mais fácil acumular mais recursos e ampliar (ainda mais) a desigualdade vigente.

Vou dar apenas um exemplo esdrúxulo: você paga IPVA no seu carrinho e motinho. Ok. Os ricos não pagam nenhum impostinho do tipo para os seus iates e jatinhos. Isenção total.

O Imposto de Renda (IR) é outra baba para os ricos.

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Protestos: como age a PM em São Paulo

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Caso do cinegrafista Juliano Vieira é típico: um cordão policial cerca pela frente, outro atira por trás. Bomba provocou queimaduras de segundo grau. Dezenas de manifestantes feridos em 22/1

Pela TV Drone

Na noite de quinta-feira, dia 21, o cinegrafista Juliano Vieira cobria, pela TV Drone, o 5º Ato Contra o Aumento das tarifas de ônibus e metrô de São Paulo. Trabalhava devidamente identificado como jornalista.

Na esquina da Praça da República com a Rua Basílio da Gama, por volta de nove e quarenta da noite, ele foi atingido por uma bomba de efeito moral da Polícia Militar de São Paulo. Foi atingido em um momento em que um cordão de policiais barrava o avanço da manifestação e, de outro lado, no espaço em que estavam os jornalistas, outro pelotão avançou jogando bombas. Foi atingido porque estava fazendo seu trabalho de comunicação. Continuar lendo