Outro olhar sobre a periferia

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Coletivo fotografa quebradas de São Paulo e cria banco colaborativo de imagens. Trabalho revela vida social e cultural intensa e diversa, ignorada pela classe média

Por Thalita Monte Santo


Veja mais imagens do Coletivo DiCampana ao final do texto

Partindo da percepção de que as periferias e favelas são registradas pelos mesmos meios e da mesma forma estereotipada há décadas, cinco jovens fotógrafos de São Paulo decidiram criar o Foto Coletivo DiCampana.

A ideia do grupo é apresentar ao mundo uma imagem das “quebradas” que a mídia tradicional não mostra, além de formar um banco de imagens para contribuir com a criação de um imaginário, que contemple os múltiplos recortes dos bairros mais afastados dos grandes centros. Continuar lendo

TEXTO-FIM

A crise do governo e a ausência da esquerda

Moreira Franco, Alexandre de Moraes e Marcela Temer colocam Planalto na defensiva. Mas faltam um projeto de país e uma narrativa consistente sobre o cenário político. Direita ameaça ocupar espaço

Por Antonio Martins | Realização: Gabriela Leite

Não se engane com as aparências: a conjuntura política é e continuará instável com a economia mergulhada em crise, o desemprego e os riscos de convulsão social. O governo Temer apanhou como boi ladrão ontem no Jornal Nacional – por onde se informa (ou desinforma) a maior parte dos brasileiros. A edição levantou, com viés muito desfavorável para o Planalto, os três fantasmas que tiram o sono do presidente: a nomeação de Moreira Franco (“gatinho Angorá” citado 30 vezes na lista da Odebrech) para o ministério; indicação de Alexandre Moraes (envolvido em denúncias de plágio e fraude) para o STF; e o estranhíssimo caso de chantagem contra Marcela Temer, que envolveria seu marido e que está sob censura judical na Folha e no Globo, a pedido da Presidência.

Crises como esta ocorreram outras vezes no governo Temer. Por exemplo, em maio passado, quando o então ministro Romero Jucá foi flagrado tramando o abafamento da Lava Jato. Ou em novembro, quando o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, gravou as pressões que sofreu de Geddel Vieira Lima – e do próprio Temer – para liberar a construção de um empreendiamento imobiliário em área de preservação. No entanto, passado o primeiro susto, o governo golpista recupera-se, recompõe o apoio no Congresso e na mídia e prossegue em sua agenda de retrocessos. Por quê? Continuar lendo

A era dos muros?

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Passados 28 anos de Berlim-1989, surgiram 70 barreiras para impedir a imigração dos mais pobres. Milhares morrem ao ano tentando barrá-los. E há os muros invisíveis — inclusive no Brasil

Por Karina Quintanilha

Em meio a protestos de massa que tem sacudido os Estados Unidos e vários países pelo mundo desde a posse de Donald Trump, o presidente norte-americano anunciou que pretende seguir com seu plano de construir um muro ainda mais extenso do qual já existe para isolar completamente a fronteira entre Estados Unidos e México.

Nas palavras de Trump: “Não é apenas política. O muro é necessário, é bom para o coração da nação. As pessoas querem proteção e o muro protege. Basta perguntar a Israel. Tinham um absoluto desastre do outro lado”. Continuar lendo

Trump já tropeça em seus próprios limites

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Plano para atrair a Rússia e isolar a China parece pueril. E o Estado Profundo dos EUA começa a sabotar seu presidente — agindo na Ucrânia

Por Antonio Martins

Em teoria, o plano é ótimo. Como um Nixon ao contrário — porém igualmente poderoso –, o novo presidente dos EUA irá se aliar à Rússia, para afastá-la da China, vista hoje (com razão) como a principal ameaça à dominação global norte-americana. A estratégia tem até um padrinho: Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado que articulou, nos anos 1970, a aproximação de Washington com Pequim (além de apoiar o golpe de Pinochet e outras estrepolias…).

Mas a execução é que são elas. Dois fatos, nas últimas semanas indicam tanto os limites para a ação de Trump (muito maiores que os de Nixon, há três década) quanto as contradições e mesmo sabotagens crescentes que o presidente encontra no aparato de Estado dos EUA. Continuar lendo

Em resposta ao neoliberalismo, o Comum. Por que caminhos?

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George Monbiot aposta em redes adensadas, autônomas em relação ao Estado. Mas como promover a redistribuição e as políticas públicas?

Por Antonio Martins

O escritor e jornalista britânico George Monbiot, que iniciou em dezembro passado uma série de artigos sobre o Comum acaba de publicar um novo texto a respeito do tema. Trata dos caminhos para construir e manter *redes comunitárias*.

Elas são essenciais, diz Monbiot, porque o neoliberalismo destruiu e dispersou, “como poeira lançada ao vento”, os antigos laços de sociabilidade, baseados em emprego duradouro, família, religião. O sistema atomizou as sociedades. E — avança o texto — atomizados e amedrontados, os seres humanos são incapazes de cultivar valores como a empatia, a conectividade e a generosidade. Buscam, ao contrário, poder individual, riqueza, status: é a lei da selva. Continuar lendo

São Paulo prepara festival de culturas imigrantes

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El Pepino, espécie de rei momo da Bolívia, abre as festividades

Em tempos de xenofobia crescente, um contraponto: neste fim de semana projeto Visto Permanente exibe expressões dos povos que nos formam: da poesia à performance, da música ao teatro, da fotografia à dança
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Território Artístico Imigrante – Festival de expressões culturais de imigrantes
Sábado e domingo, 11 e 12 de fevereiro
Praça Coronel Fernando Prestes, Bom Retiro, São Paulo — metrô Tiradentes
(veja programação ao final)

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Trazer a cultura para a rua é uma reivindicação pelo direito imigrante de viver em paz e ver respeitadas sua cultura e cidadania. Partindo dessa ideia, o projeto Visto Permanente, um acervo digital de expressões artísticas de imigrantes em São Paulo, e outros coletivos ligados à questão da imigração organizaram um festival que acontece no próximo sábado e domingo, dias 11 e 12 de fevereiro, no tradicional bairro do Bom Retiro.

Expressões culturais de países como Angola, Bolívia, Cuba, Palestina, R.D. do Congo, Colômbia, Argentina, Guiné-Conacri, Chile ou Uruguai fazem parte da programação, uma amostra de como os imigrantes seguem construindo a cidade. Da poesia à performance, da música ao teatro, da fotografia à dança, o Território Artístico Imigrante é um momento de conexão criativa de artistas e grupos culturais com linguagens e propostas artísticas diferentes, que transformam e reinventam São Paulo – esse território imenso que é também de artes e culturas dos povos que se juntam a nós. Continuar lendo

Futebol: “názi não joga em nosso time”

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“Melhor cair para a segunda divisão!”. Como a torcida de um pequeno clube de Madri rejeitou atacante ucraniano envolvido com as milícias fascistas de seu país

Por Nuno Ramos de Almeida

O clube desportivo de um conhecido bairro operário de Madrid contratou um craque ucraniano. Os adeptos e trabalhadores do clube insurgiram-se, motivo? Acusam Roman Zozulya de ser nazi e no Rayo Vallecano não há lugar para ele

O jogador Roman Zozulya foi emprestado pelo Betis de Sevilha ao Rayo Vallecano. É atacante e da seleção nacional da Ucrânia. À partida parecia um excelente negócio para um modesto clube de Madrid. Mas no bairro operário da capital espanhola a opinião é diferente. Passam de mão em mão fotografias do jogador com uma camiseta nacionalista ucrãniana e diz-se que ele apoia os contingentes armados da extrema-direita nazi na Ucrânia.
Javier Ferrero, presidente da claque Planeta Raysta e vice-presidente da plataforma Associação Desportiva Rayo Vallecano (ADRV), que inclui a quase totalidade dos gupos de torcedores que apoiam o clube é peremptório: “Sou sócio do Rayo desde que nasci, mas prefiro cair à segunda divisão do que ver Zozulaya jogar com a nossa camiseta”. A mesma opinião, expressa ao El País, o presidente das torcidas do clube, conhecido por Gelo entre os adeptos, “hoje na internet há uma radiografia completa das pessoas. Ao conhecer uma contratação que queriam fazer, avisamos a diretoria que este jogador não encaixa com os valores que o nosso clube sempre defendeu, que são a solidariedade e a ajuda às pessoas mais desfavorecidas.Trazer um futobolista que se ufanava de pertencer a um grupo nazi da Ucrânia, choca com os nossos princípios”.
As principais torcidas do clube acusam o jogador de ter colocado no Twitter fotografias de Stefan Bandera, nacionalista ucraniano assassinado pelos serviços secretos soviéticos em 1959 e que durante a Segunda Guerra Mundial colaborou com os nazis. Gelo também afirma que o jogador posou em fotografias com o batalhão Azov (destacamento militar názi ucraniano) e com símbolos de partidos de extrema-direita como o Pravy Sektor. Tudo características que são odiadas pelos adeptos do clube do mais famoso bairro operário de Madrid. Não é por acaso que a principal torcida, os Bukaneros, é conhecida pelos seus confrontos com agrupamentos de extrema-direita no futebol espanhol, tendo morrido adeptos seus nesses confrontos.Como Jimmy morto por neonázis do Atlético de Madrid em novembro de 2014.
Roman Zozula em pose com milícia

Roman Zozula em pose com milícia názi

O Rayo Vallecano é conhecido pelas suas campanhas políticas e sociais que envolvem clube, jogadores e adeptos: são frequentes as jornadas anti-racistas, os dias contra a homofobia e a coleta de alimentos para auxiliar as famílias mais probres e os desempregados.O presidente do clube, o empresário Martín Presa, que tem 98% das ações, não nega este ADN social, mas defende a contratação do jogador afirmando que o caracteriza o Vallecas é ser um clube “tolerante”, em que todos podem jogar futebol, “independentemente da ideologia, religião, raça ou cor de pele”. O mesmo entendimento não têm as centenas de adeptos que no último jogo da equipe exibiram cartazes que diziam: “Valleca não é lugar para nazis / Nem para ti, Presa / Vão-se embora”.

O jogador enviou uma carta à comunicação social e aos sócios do clube desmentindo ser nazi. Acusa um jornalista de ter confundido a camiseta que tinha com o escudo da Ucrânia, com o símbolo de um partido nazi. “Cheguei ao aeroporto de Sevilha com uma camiseta com o escudo do meu país e uns versos do poeta Taras Shevchenko, estudado em todas as escolas da União Soviética”. O jogador não nega ter estado com grupos armados, mas dá uma outra versão: “Não estou vinculado a nenhum grupo názi. Realizei uma importante tarefa de colaborar com o exército para proteger o meu país, ajudando também as crianças desfavorecidas. Tudo isto em tempos muito difíceis de guerra. Acho que este trabalho coincide plenamente com os valores sociais que defende o Rayo Vallecano e os seus adeptos incondicionais”.

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Quem ganha com o Déficit Público

Velha mídia cala-se diante do pior rombo de todos os tempos nas contas públicas. Por que o desastre ocorreu se estamos, supostamente, economizando e corrigindo os erros do passado? Como os números ajudam a pensar novas políticas?

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

Que falta fazem o bom jornalismo e a boa política. Passou quase despercebido, ontem o relatório em que Banco Central apontou um rombo fiscal inédito nas contas públicas, em 2016. O resultado primário – que compara a arrecadação de impostos com os gastos típicos de governo (sociais, infraestrutura, pagamento dos servidores) foi um déficit recorde de 156 bilhões de reais, ou 2,47% do PIB. Quando se incluem os juros pagos aos banqueiros e à aristocracia financeira, os números saltam: 562 bilhões de reais, ou 8,93% do PIB. A deterioração rápida do cenário é ainda mais impressionante. Ainda em 2014, último ano antes do início do “ajuste fiscal”, o déficit primário era cinco vezes menor – apenas 0,56% do PIB.

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O que mais merece atenção, porém, é o que o governo e a velha mídia mais tentam ocultar. A piora se deu exatamente no período em que estaríamos, segundo a narrativa oficial, corrigindo os erros do passado, fazendo os sacrifícios necessários para entrar nos trilhos novamente. O que há de errado com esta narrativa? Por que quanto mais economizamos, mais mergulhamos em déficit e dívida? Que interesses provocam o silêncio dos jornais e das TVs? Mais importante: quais seriam as políticas alternativas? Continuar lendo

Alcântara: começa mobilização contra entrega da base

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Entidades nacionais propõem: é preciso exigir debate público e frear acordo que transfere soberania sobre base de foguetes e bloqueia desenvolvimento tenológico do país. Leia nota


LEIA MAIS:
O ZUMBI DE ALCÂNTARA
Governo tenta retomar acordo para ceder aos EUA base de lançamento de foguetes. Conheça as cláusulas que vetam desenvolvimento tecnológico e ferem dignidade do país. Por Marcelo Zero

Entre os absurdos políticos que o Brasil está enfrentando hoje, destaca-se a continuidade da submissão às imposições neoliberais do Consenso de Washington, aplicadas pelo Banco Mundial e FMI desde os anos 90 do século passado aos “países em desenvolvimento” da periferia do capitalismo, por parte do governo brasileiro ilegítimo e corrupto, que usurpou a Presidência da República através de um golpe implementado pelo Congresso Nacional, legitimado pelo Judiciário e pela grande mídia.

A notícia de que o Sr. José Serra, Ministro das Relações Exteriores, retomou contatos para “oferecer” o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, é mais uma comprovação do DNA entreguista desse governo. Este acordo já se mostrou não apenas desvantajoso ao Brasil do ponto de vista econômico e tecnológico, mas completamente ofensivo à soberania nacional ao permitir controle total ou parcial dos EUA sobre parte do território nacional, o que por si só o torna inaceitável. Continuar lendo

O jornalismo insensível e a banalização do desemprego

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Que a velha mídia oriente-se pelos dogmas de mercado, já não se estranha. O grotesco é não enxergar o drama humano de 12,3 milhões de pessoas

Por Cristina Fróes de Borja Reis e Fernanda Graziella Cardoso

A estatística recém-divulgada da pesquisa PNAD contínua do IBGE é desoladora: 12,3 milhões de pessoas desocupadas no país no último trimestre de 2016. Em relação ao mesmo período de 2015, o crescimento foi de 36%, ou seja, três milhões de pessoas desocupadas a mais. Quando se compara a 2014, a quantidade de pessoas desocupadas simplesmente dobrou.

Números tão expressivos, envolvendo tantas pessoas e famílias, demandam uma reflexão cuidadosa e responsável. O que teria acontecido com a economia, a política e a sociedade brasileira em apenas dois anos para implicar tal catástrofe socioeconômica? Mas, ao contrário, as manchetes da mídia de massa são análises superficiais, banalizando tais acontecimentos. Milhões de desempregados adicionais são tratados pela grande mídia com a mesma negligência e irresponsabilidade com que defendem as reformas conservadoras em marcha desde que Temer se tornou presidente interino.

Não é de hoje que no Brasil o jornalismo econômico tem uma lógica tacanha de funcionamento, via dois gatilhos principais. De um lado, aguardam as estatísticas (especialmente as de inflação, produção, emprego, balança comercial e, diariamente, da cotação do dólar e dos movimentos das bolsas de valores) para tratar da conjuntura superficialmente, sem refletir sobre as raízes estruturais que as implicam. Ou de outro, aguardam novidades da política econômica que pretendam enfrentar aquela conjuntura superficialmente analisada. Tais políticas são apresentadas seletivamente e com viés favorável aos interesses de grupos específicos (que também controlam a grande mídia), sempre preocupados com o humor do mercado. Entrevista-se meia dúzia de “especialistas”, fracamente diversificados em termos de abordagem e ocupação. Pertencem, quase que invariavelmente, a instituições como consultorias, bancos e universidades correlacionadas àqueles mesmos grupos no poder. Em meio às frases entrecortadas, propõem parcamente o contraponto (para validar a “ética” da notícia), geralmente encaixado de forma obscurecida e deturpada.

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