SP sem água, 17 e 18/11 – Os que devem poupar e os que podem esbanjar

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Setor industrial usa 40% da água disponível para Grande São Paulo e Baixada Santista, mas toda a campanha de economia é voltada ao consumidor residencial

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

18/11/14

– Comecei a fazer um curso online gratuito da ANA sobre política nacional de recursos hídricos; prometo compartilhar por aqui o que eu aprender de interessante. Para começar, deixo o link para a Lei das Águas (http://bit.ly/1xTRvrE) e listo seus seis fundamentos:

1. a água é um bem de domínio público;

2. a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico;

3. em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais;

4. a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; Continuar lendo

Os fundamentos do Direito à Água

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No período em que país vive crise hídrica, vale examinar conquistas da humanidade que, em teoria, proíbem Estados de interromper abastecimento 

Por Myriam Bahia LopesBruno de Oliveira Biazatti

Água potável é um recurso finito e vulnerável, fundamental à vida, ao desenvolvimento humano e ao meio ambiente. A sua essencialidade e a importância do acesso a este recurso garantem que a água seja um direito humano?

Hoje aproximadamente 884 milhões de pessoas não possuem acesso a água potável e cerca de 1,5 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem anualmente devido a falta de água. Além disso, por ano, a falta de água mata mais crianças do que a AIDS, a malária e o sarampo combinados. Continuar lendo

Marguerite Duras e o papel subversivo do desejo

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Coletivo Feminista exibe e debate amanhã (19/11) em SP, com redator de “Outras Palavras”, poema multimídia em que autora expõe conflito entre amor e estruturas que lutam por sua própria autopreservação


PARTICIPE:
Quarta-feira, 19/11, às 19h30, no 
Coletivo Feminista
Rua Bartolomeu Zunega, 44 – Pinheiros – Metrô Faria Lima – S.Paulo (veja mapa)
R$ 15,00
Inscrições: oficinas.coletivo@gmail.com
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O desejo como força motriz de rupturas políticas, sociais e morais, da liberdade e da afirmação da experiência vivida. Este será o tema abordado na palestra “O desejo que rompe estruturas”, concebida e apresentada por Maurício Ayer, a partir do curta-metragem Césarée, escrito e dirigido por Marguerite Duras. O evento é uma realização do Coletivo Feminista e acontece no dia 19 de novembro, quarta-feira, às 19h30, na sede do Coletivo, em Pinheiros.

Césarée (1977), que pode ser descrito como um “poema multimídia”, verdadeira dança de imagens, voz e música, será projetado no início da palestra para ser o motivador de uma discussão sobre a poética de Marguerite Duras, o desejo e seu poder transformador. Maurício Ayer explica que “Césarée se inspira na história do imperador romano Tito, que se apaixonou pela princesa judaica Berenice, mas teve que sacrificar seu desejo por uma decisão do Senado romano. Duras encontra neste episódio o núcleo de uma ruptura, o amor e o desejo que são castrados por razões de Estado. O amor livre é violento, ameaça estruturas que inercialmente lutam por sua autopreservação.” Continuar lendo

A grande chaga das prisões sem julgamento

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Estudo revela: 40% dos presos brasileiros não tiveram direito a ser julgados. Três mudanças legais poderiam reverter este atentado aos direitos humanos

Por Marcela Reis

O Brasil é o 11º país com maior número de encarcerados sem julgamento no mundo: a cada 100 mil brasileiros, 104 estão presos provisoriamente. Os dados são fruto da pesquisa mais recente da Fundação Open Society, organização do empresário húngaro-americano George Soros, que diz promover a defesa dos direitos humanos em mais de 70 países.

O total de presos detidos em delegacias de polícia e penitenciárias no Brasil cresceu cerca de 86% de 2005 a 2012, segundo o ministério da Justiça. A superlotação das cadeias poderia ser revertida a partir da aprovação do projeto de lei que institui a audiência de custódia, da reforma da lei das drogas e de o crime sem uso da violência ser punido com penas alternativas, propõe Rafael Custódio, coordenador do Programa de Justiça da Conectas – ONG de Direitos Humanos. “Essas alterações tirariam, por baixo, 20% a 25% dos presos das penitenciárias”, completa. Continuar lendo

SP sem água, 12 a 16/11 – Para blindar Alckmin, o eterno apelo a São Pedro…

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Enquanto governador deixa de planejar recuperação de mananciais, mídia insiste que causa da crise é da falta de chuva. E o santo, ainda que não responsável, será nossa única esperança…

Por Camila Pavanelli de Lorenzi | Imagem: Pompeo Batoni, “São Pedro”, século XVIII

15 e 16/11/14

– O diretor da Sabesp Paulo Massato disse que faltará água em São Paulo em 2015 e 2016, caso continue chovendo pouco (http://bit.ly/1q3ffsq). De lambuja, vai faltar energia também.

– Esse diretor é o mesmo que, naquele áudio que vazou de uma reunião da Sabesp, afirmou que a empresa teria de dar férias para 8,8 milhões pessoas em 2015 (número de consumidores atendidos pela Sabesp) (http://bit.ly/1wl1O8O).

– Não custa lembrar: estamos em novembro, está chovendo menos do que a média histórica (http://bit.ly/113EZZm) e o nível dos principais sistemas que abastecem a RMSP está caindo (http://bit.ly/11gyraa).

***

– Para não esquecer:

– (1) Enquanto alguns cavam buraco para obter água para cozinhar (http://bit.ly/1qIlmg8), outros compram água mineral para seus lulus da pomerânia (http://bit.ly/1sVEI2m).

– (2) Se em um bairro os bombeiros não encontram água no hidrante para apagar um incêndio (http://glo.bo/1xM5kbs), em outro uma pessoa provavelmente jogará fora 35 mil litros de água de sua piscina, por não ter como doá-los (http://bit.ly/1sZtVmR).

***

– Enquanto isso, o jornal O Estado de S. Paulo afirma em editorial (http://bit.ly/1xvnYpq) que a ministra do Planejamento fez uma afirmação que “não corresponde à verdade”, pois criticou a ausência de obras de longo prazo na proposta apresentada por Alckmin ao governo federal. Lembremos que ONGs especialistas no tema criticaram a proposta do pacote de obras (http://on.fb.me/1wZ5aNL) por não incluírem qualquer iniciativa de recuperação e proteção de mananciais (isso sim seria pensar no futuro); mas, para , pensar no futuro (i.e. no longo prazo) significa propor obras que ficarão prontas em 3 anos.

–  O editorial também desaprova uma fala da Ministra do Meio Ambiente, para quem a situação em São Paulo é “crítica”. Sim, pois como sabemos, a situação não é crítica e sim magnífica: afinal, não falta água em São Paulo (http://bit.ly/1ACEhCY).

– Além disso, o editorial critica a criação de um “grupo de trabalho para estudar o problema”, pois segundo o jornal “grupos de trabalho” não levam a nada.

– Quer dizer: para O Estado, não pode estudar o problema; aliás, não pode nem mesmo dizer que um problema, já que afirmar que a situação em São Paulo é “crítica” (termo, aliás, altamente eufemístico para descrever o que se passa no estado) é “deixar de lado o tom conciliador”.

– Para o jornal, o governador de São Paulo é mesmo um injustiçado: o presidente da ANA “atacou novamente, com a agressividade habitual”. Dizer que é necessário um dilúvio para que o nível do Cantareira volte ao normal configura, para O Estado de S. Paulo, uma agressividade inaceitável – ainda que rigorosamente a mesma coisa venha sendo dita há tempos pela própria presidente da Sabesp (http://glo.bo/1vwOEoN) (http://bit.ly/1otZ6Lw).

– O jornal acusa ainda o presidente da ANA de “disseminar o pânico na população, como afirmou com razão o governo paulista. Tratar coisas sérias, pelo menos no que se refere à crise hídrica de São Paulo, em tom de galhofa, com chocante irresponsabilidade, totalmente incompatível com o cargo que ocupa, virou hábito para Andreu.”

– Aqui eu só tenho uma coisa a dizer: “tratar coisas sérias em tom de galhofa, com chocante irresponsabilidade, totalmente incompatível com o cargo que ocupa” é afirmar que não falta água em São Paulo e que o abastecimento está garantido em 2015 (http://bit.ly/1BEP6VL) quando um dos diretores da empresa responsável precisamente por garantir esse abastecimento afirma que, tudo continuando como está, a água faltará não apenas em 2015 como também em 2016.

– Para concluir com “fecho de ouro”, para usar uma expressão do próprio editorial, o último parágrafo retoma um dos grandes Clássicos da Crise Hídrica™. Vamos lá, repitam comigo, todo mundo junto (mas sem pânico, por favor):

A

CULPA

É

DE

SÃO

PEDRO

***

– P.S. Um poço artesiano em São Paulo atualmente está na casa de R$50 mil (http://bit.ly/1sW34cm). Podemos esperar para breve um editorial d’O Estado de S. Paulo afirmando que a culpa pela falta d’água é dos consumidores que não perfuraram seu próprio poço.

– P.P.S. Nada muito diferente, aliás, do que já disse o Secretário de Recursos Hídricos de São Paulo, para quem a falta d’água é responsabilidade do povo que não tem caixa d’água em casa (http://bit.ly/1A4HEl0).

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Agenda: lançamento, no Rio, de O exílio de Augusto Boal

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Obra de Clara Andrade enxerga dramaturgo a partir do tempo em que ele, forçado a viver no exterior, desenvolveu um “teatro sem fronteiras”, voltado ao questionamento e à transformação 


Lançamento:
Quarta-feira, 19/11, 19 às 21h
Livraria da Travessa
Rua Voluntários da Pátria, 97 – Botafogo – Rio de Janeiro

Enquanto a maior parte das pesquisas sobre Augusto Boal concentra-se ou no Teatro do Oprimido, ou na fase do Teatro de Arena, Clara de Andrade elegeu um ângulo original para analisar a trajetória do dramaturgo e diretor de teatro brasileiro. Em O exílio de Augusto Boal, a pesquisadora se detém sobre o período de exílio político e sobre a obra teatral que ele desenvolve a partir desta experiência. Com base em entrevistas, reportagens, e na correspondência a que teve acesso, Clara retraça o percurso biográfico de Boal durante o tempo passado à força no exterior, examinando também a sua recepção pelo meio artístico no seu retorno.

Ao longo do livro, a autora expõe as tensões políticas, sociais e as transformações no teatro com as quais o artista dialogou ou contra as quais se rebelou. Mostra que, como um “teatro sem fronteiras”, a obra de Boal mapeia os fenômenos culturais e políticos que afetaram os diferentes países em que realizou seu trabalho. Revela como o texto do dramaturgo, mais do que artístico, ganhou uma função de crítica das pressões a que os mecanismos de produção artístico-cultural estavam submetidos naquele período.

Mais do que falar do silêncio, tortura e superação vividas por um artista que sempre ousou desafiar convenções, a obra dá voz a um entre tantos brasileiros submetidos ao exílio, à violência da ditadura e ao esquecimento. Dessa forma, o livro contribui para que a narrativa sobre este artista “que dedicou sua vida à busca de um teatro que fosse transformador da realidade possa iluminar também parte da nossa história”.

Operação Lava Jato: para defender a Petrobras ou sacrificá-la?

Executivos de grandes empresas chegam à Polícia Federal em Curitiba, para depor. Brasil finalmente punirá os corruptores?

Executivos de grandes empresas chegam à Polícia Federal em Curitiba, para depor. Brasil finalmente punirá os corruptores?

Prisão de executivos das grandes empreiteiras expõe corruptores e revela urgência da Reforma Política. Mas seu sentido estará em disputa — e o destino da Petrobras mora no centro do furacão

Por Antonio Martins


Leia também:
Petróleo: a virada nos mercados globais e o Pré-sal
Por que Arábia Saudita, aliada dos EUA, age para derrubar preços do combustível. Como isto afeta Petrobras, em meio à Operação Lava Jato
Por André Ghirardi

As prisões de presidentes e executivos de grandes empreiteiras que prestam serviço à Petrobras, efetuadas ontem (14/11) no âmbito da Operação Lava Jato, podem ter desdobramentos capazes de marcar, por meses ou anos, a vida brasileira. Pela primeira vez, foi exposta ao grande público a ação dos corruptores – sempre poupados pelo Judiciário e pela mídia, por razões tão fortes quanto sua potência financeira. Em breve, surgirão os elos entre grandes empresas e dezenas de políticos. O controle que o poder econômico exerce sobre o Parlamento ficará ainda mais escancarado.

Diante disso, emergirá por certo uma grande disputa de narrativas. Estará escancarada, para quem quiser enxergar, a necessidade imediata de uma Reforma Política – que, antes de tudo, proíba e puna severamente o financiamento, por corporações, dos partidos e campanhas eleitorais. Mas haverá, como no caso do “Mensalão”, a tentativa de sacrificar bodes expiatórios para, no fundo, preservar a promiscuidade entre o dinheiro e uma democracia cada vez mais esvaziada. A manobra consistirá em focar indivíduos (os deputados financiados pelas empreiteiras, que logo aparecerão) e fazer vistas grossas ao sistema político (que, no Brasil, praticamente obriga quem tiver pretensões de eleger-se a se associar a grandes grupos econômicos).

Na disputa de narrativas, um capítulo crucial envolverá a Petrobras. Maior empresa brasileira, responsável sozinha por cerca de 10% da arrecadação de impostos no Brasil (como se lê aqui), ela não poderia passar incólume, num sistema político em que a corrupção institucionalizada é a regra. Mas será grande a pressão para convertê-la em mais um bode expiatório. Estará em jogo a imensa riqueza petroleira do pré-sal. Ela tornou-se, nos últimos meses, especialmente cobiçada. Continuar lendo

SP sem água, 10 e 11/11 – Da interminável limpeza do Rio Tietê

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Hipótese de recursos federais para obras de Alckmin leva a perguntar: por que, prevista para 2003, despoluição não avançou? Quais as razões para não ouvir sociedade civil sobre crise?

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

11/11/14

– No estado cujo governador afirma que não falta água, quarenta pessoas compareceram à CPI da Sabesp na Câmara de SP para dizer que falta água em suas casas (http://bit.ly/1qDeUHv).

– A Sabesp achou importante informar que uma das quarenta pessoas que depôs na Câmara, o presidente da Sociedade de Amigos do Bairro Parque Edu Chaves, é do mesmo partido que o presidente da CPI (http://bit.ly/1qDeUHv).

– Obrigada, Sabesp, o recado foi dado: agora já estamos sabendo que essa CPI é coisa de petralha (ainda que o partido do presidente da CPI seja o PHS).

– E por falar em CPI, por favor acompanhem meu raciocínio um instante. Ontem, comentei que a proposta apresentada por Alckmin ao governo federal não incluía a recuperação florestal e de mananciais (http://bit.ly/10TDv3R), mas isso obviamente não significa que o governo estadual não tenha obras de recuperação ambiental. Vejamos, por exemplo, o caso do Rio Tietê.

– Em 2003, Alckmin prometeu entregar o Rio Tietê limpo e navegável até o segundo semestre de 2004 (http://bit.ly/10Xn1bs).

– Em 2014, Alckmin prometeu entregar o Rio Tietê limpo até 2019 (http://bit.ly/1pP7gPx).

– Ao renovar a promessa este ano, Alckmin disse que houve avanços na despoluição: segundo o governador, a “mancha de poluição” do rio retrocedeu 130km de Barra Bonita para Salto.

– De fato, há bastante poluição no rio na altura de Salto, conforme verificou a repórter Laura Capriglione. Ela esteve em Itu (a menos de 8km de Salto) e viu um rio completamente poluído, “espumando sabões e detergentes” e com as margens cheias de lixo (http://bit.ly/1AXEhxz).

– Não consegui descobrir o quanto a situação do rio melhorou de 2003 para cá na altura de Barra Bonita, mas o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Tietê afirmou o seguinte em setembro deste ano: “O rio Tietê ainda recebe uma grande carga de poluidora. Existe um grande número de cidades que não tratam os seus esgotos e lançam esse esgoto in natura e esse esgoto, obviamente, causa poluição” (http://glo.bo/1zL5Usa).

– Se um projeto que:

– deveria ter sido concluído há uma década e não o foi;

– permanece em andamento com nova previsão de término para daqui a cinco anos;

– tem investimentos previstos de U$2bi (R$5,1bi) entre 2009 e 2016 (http://bit.ly/10TCUz6) (bem mais, portanto, do que os R$3,5bi pedidos ao governo federal para as obras de infraesturutura);

– apesar de todo esse investimento, não apresentou resultados positivos no ano de 2013 (http://bit.ly/10TCUz6)…

– … se esse projeto não merece ser investigado em uma CPI – com ampla divulgação para a sociedade do quanto foi investido nos últimos dez anos, de onde vieram esses recursos, quais os resultados obtidos, o que funcionou, o que fracassou etc –, então não sei o que merece.

(- Essa CPI teria de ser instaurada preferencialmente na Alesp, já que diz respeito a todo o estado de São Paulo.)

***

– Que mais? O nível de todos os sistemas que abastecem a Grande São Paulo continua caindo (http://bit.ly/1qDeJfl).

– A água que está sendo distribuída em áreas públicas de Itu está contaminada (http://bit.ly/1tEVDpc).

– Diz a Folha: “devido à escassez de chuva, a população de Itu enfrenta racionamento de água” (http://bit.ly/1tEVDpc).

– Pobre São Pedro; depois de tudo o que aprendemos sobre Itu (http://outraspalavras.net/brasil/reportagem-agua-em-itu/), ainda há quem o considere culpado.

10/11/14

– Começo o boletim de hoje com uma notícia que, se não chega a ser boa, sem dúvida é um alento: foi publicada hoje a melhor reportagem já feita sobre a crise da água em Itu (http://outraspalavras.net/brasil/reportagem-agua-em-itu/). Tentarei resumi-la aqui, mas fica minha mais enfática recomendação para que ela seja lida na íntegra:

– O serviço de água e esgoto de Itu foi privatizado em 2007, quando a Águas de Itu venceu a concorrência da Prefeitura prometendo acabar com os problemas de abastecimento enfrentados pela cidade no passado.

– Este ano, em alguns bairros as torneiras já estão secas há 55 dias.

– Apenas após o protesto de 22/09 a Prefeitura e a Águas de Itu anunciaram a construção de uma adutora para trazer água de um rio próximo da cidade – garantindo, assim, o abastecimento de 100 mil dos cerca de 163 mil habitantes de Itu.

– Além disso, foi só na semana passada que a Águas de Itu anunciou o desassoreamento dos reservatórios que abastecem a cidade, o que aumentará sua capacidade de armazenamento em 30%.

– Estas medidas só estão sendo implementadas AGORA. Em janeiro, quando já se sabia que a seca era grave, nada foi feito. Se a construção da adutora tivesse sido iniciada em janeiro, em maio já estaria pronta e os problemas hoje não seriam tão graves.

– São inúmeros os casos de idosos, doentes e crianças sem água em Itu (http://bit.ly/1uriKKM). Para alguns, porém, há água em abundância: a Brasil Kirin, fabricante da cerveja Devassa e outras bebidas, capta 64,25% dos 3,250 bilhões de litros de água que utiliza por ano diretamente dos lençóis freáticos da cidade, através de poços artesianos.

– Tampouco falta água para os moradores de condomínios de luxo da cidade. Para os *moradores*, bem-entendido: a reportagem da Ponte constatou que um funcionário de um desses condomínios, responsável pelos cuidados com a piscina, estava há 22 dias sem água em casa.

(- Pausa para associação livre (1): minha avó sempre me disse que “a gente pode até ser pobre, mas porco jamais”. Segundo ela, pobreza não era desculpa para deixar a casa suja e descuidada: mesmo a pessoa mais pobre tinha condições de manter a casa limpa. Essa lição de vida de minha avó obviamente não vale mais: experimente manter uma casa limpa sem água nas torneiras há 22 dias.)

((- Pausa para associação livre (2): bons tempos aqueles em que se media a riqueza de uma pessoa pela quantidade de objetos que ela era capaz de adquirir: pobre era quem tinha pouco ou nenhum dinheiro para comprar bugigangas, rico era quem tinha dinheiro suficiente para adquirir mais bugigangas do que era capaz de utilizar. A diferença agora, como mostra esta reportagem sobre a privatização da água em Itu, é que a água entrou definitivamente para a categoria de coisas que o dinheiro pode comprar. Próximo item a entrar para essa categoria: o ar – http://bit.ly/10O1nWw.))

– Um último spoiler do texto: já está rolando TRÁFICO DE ÁGUA em Itu. (E tem gente preocupada com o tráfico de maconha.)

***

– Mas a principal notícia de hoje, claro, é a reunião (http://bit.ly/10SPbEi) em que Alckmin propôs ao governo federal a realização de oito obras com efeitos de curto e médio prazo para melhorar o abastecimento de água em São Paulo (muito embora me seja difícil compreender como é possível *melhorar* um sistema de abastecimento que já é perfeito – afinal, segundo o governador, não falta água em São Paulo – vimeo.com/109652047). Deixemos, porém, essa questão retórica de lado; agora é #FocaNaObra

– As obras vão custar caro – R$ 3,5 bi –, mas o governo federal vai ajudar, então tá dibôua (http://bit.ly/1swVxka). A proposta é construir e interligar reservatórios, construir estações de produção de água de reúso e construir poços artesianos.

– As obras de construção e interligação de reservatórios e as estações de produção de água de reúso são obviamente bem-vindas; já sobre os poços artesianos para captar água do aquífero Guarani, há controvérsias (http://bit.ly/146wiQe).

– Comparemos a proposta do governo estadual com a Agenda Mínima (http://aguasp.com.br/#agenda) da Aliança pela Água (http://bit.ly/1ys7U4y), uma coalização de ONGs ambientais que propõe soluções para a crise da água em São Paulo.

– Das 20 ações sugeridas pelas ONGs, apenas UMA foi contemplada pela proposta levada por Alckmin ao Planalto: a construção de estações de água de reúso.

– Destaco quatro ações fundamentais – duas de curto e duas de longo prazo – elencadas pela Aliança pela Água que não foram propostas pelo governo estadual (nem sugeridas pelo governo federal): multa para usos abusivos; ações para grandes consumidores (indústria e agronegócio); recuperação e proteção dos mananciais; recuperação florestal.

– Isto posto, não posso deixar de perguntar: é pedir muito que o governo estadual tenha uma abertura maior à sociedade civil? Em termos práticos: o que impede o governo de estabelecer um diálogo efetivo com essas ONGs (WWF, SOS Mata Atlântica, ISA, dentre outras), que obviamente entendem do assunto e teriam muito a colaborar?

***

– De resto, nada mudou: reservatórios caem (http://bit.ly/1ugQokw); represas sofrem (http://bit.ly/1GJMl5m); bispos oram (http://bit.ly/1oEaioP).

E este foi o boletim de hoje. Pode entrar em pânico que amanhã tem mais.

SP sem água, 1º a 9/11 – As pernas muito curtas da mentira

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Nova queda no nível das represas, em meio a chuvas, desmascara argumentos do governador e demonstra: causa essencial da crise é gestão criminosa do sistema de abastecimento

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

08 e 09/11

– Se até outubro a manchete sobre a falta d’água mais repetida em todos os jornais paulistas foi alguma variante de “Nível do Cantareira continua a cair”, em novembro isto mudou: agora, a manchete que vemos todo dia nos jornais é “Nível do Cantareira continua a cair *apesar das chuvas*” (http://bit.ly/1EjjvVz) (http://bit.ly/1tSlXj7).

– Recordar é viver (1): um especialista já disse que só depois de um mês de muita chuva o sistema voltará a encher (http://bit.ly/1wnDalo).

– Recordar é viver (2): o sistema está demorando a encher justamente porque já avançamos sobre o volume morto, o que provocou o aumento da absorção de água pelo solo (vide link acima).

– Conclusão óbvia e nada brilhante mas que precisa ser dita: se o governo do estado, já no começo do ano, tivesse implementado medidas como racionamento, fim dos descontos para grandes consumidores, multas por consumo excessivo etc., hoje poderíamos a) ter preservado o volume morto dos reservatórios; b) ter manchetes “nível do Cantareira volta a subir”.

– Mas o que temos para hoje é: como convencer as pessoas de que é preciso continuar economizando água mesmo que esteja chovendo (http://glo.bo/10JYqGK)? Em outras palavras – de que adianta especialistas alertarem que “a estiagem vivenciada é só uma mostra do que virá pela frente” quando o governador de São Paulo afirma que “o período mais crítico da estiagem já passou e (…) a crise hídrica está com seus dias contados” (http://bit.ly/1EmTlmS)?

– Embora a crise esteja com os dias contados, só por via das dúvidas Alckmin se reunirá com Dilma amanhã para juntos buscarem “uma saída para a crise hídrica em São Paulo” (http://bit.ly/1uUwxd5). Oremos para que esta saída não seja o aeroporto. Continuar lendo

SP: começa mobilização pela Reforma Política

Na foto Manifestantes protestam e GoiâniaCrédito: Renan Accioly
Organizadores da consulta popular sobre plebiscito e Constituinte exclusiva convocam manifestação nesta terça, no vão do MASP


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Um dos coordenadores da consulta que mobilizou sociedade esta semana sustenta: foi apenas primeiro passo – porque não haverá novo país sem nova democracia
Jose Antonio Moroni, entrevistado por Antonio Martins

O comitê estadual do Plebiscito Popular por uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para a Reforma Política, com legisladores eleitos especificamente para promover a reforma das instituições políticas brasileiras, convida a população a participar de ato de apoio ao Plebiscito nesta terça-feira, 4 de novembro, às 18 horas, no vão livre do MASP.

A consulta popular está prevista no projeto legislativo protocolado dia 30 de outubro, na Câmara, pelos deputados Renato Simões (PT-SP) e Luiza Erundina (PSB-SP), com 185 assinaturas; e no Senado pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).  Continuar lendo