Cachaça: diversa e macunaímica como o Brasil

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“Outras Palavras” apresenta, em curso com degustação, origens, sabores e estilos de destilado cuja riqueza é enfim reconhecida, após séculos de preconceitos e menosprezo 

Por Maurício Ayer

MAIS:
Curso-degustação na sede de Outras Palavras
R. Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – São Paulo (mapa) – Metrô S. Joaquim ou Brigadeiro

Sábado, 15/8, das 13h30 às 19h30
Clique para mais detalhes

A diversidade da cachaça não tem igual no mundo dos destilados. Ela é produzida praticamente em todo o território brasileiro, com diferentes culturas locais de variedades de cana, fermentação, destilação e armazenamento/envelhecimento em madeira. Ao contrário de se restringir ao carvalho, como acontece de modo quase universal mundo afora com outros destilados, a produção de cachaça utiliza dezenas de madeiras diferentes, tanto importadas como nativas.

Com base nessa diversidade, naturalmente surge a questão: é possível se falar em “territórios da cachaça”, como se fala em “terroir” do vinho? Há argumentos favoráveis e contrários a essa denominação, a depender dos critérios adotados.

A julgar apenas pelas características da geografia física (terra, clima, topografia, etc.) não é seguro afirmar que sim, e há quem argumente que se pode produzir cachaça em qualquer lugar – seria mais uma questão de tecnologia do que de natureza e arte, digamos assim. No entanto, há quem procure provar o contrário, e use variedades de cana e leveduras em função da geografia local em busca de aromas no produto final que dariam fundamento a essa tese. Continuar lendo

Desenvolvimento Sustentável, entre intenções e gestos

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Conferência Internacional do Financiamento para o Desenvolvimento (FpD3), em Adis Abeba, Eitópia. Encontro não foi capaz de definir mecanismos para reduzir inequidades, enfrentar poder financeiro ou apontar fontes para viabilizar os “ODS”

Acordo da ONU prevê erradicar pobreza e alterar padrões de produção e consumo. Mas não estabelece meios para financiar mudança, nem fala em enfrentar perversidades do sistema

Por Alessandra Nilo

Enquanto no Brasil estamos às voltas com crises econômicas e políticas e a falta de ética que constrange o país, e nos noticiários internacionais circulam manchetes sobre a Grécia ou o acordo americano com o Irã, na Organização das Nações Unidas (ONU) entra na reta final uma negociação histórica para solucionar alguns dos grandes problemas do mundo, inclusive com mandato de erradicação da pobreza: a dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que substituirão, a partir de 2016, as Metas do Milênio.

Desde a Conferência da Rio+20, em 2012, iniciou-se a negociação intergovernamental dos ODS que, com 17 Objetivos e 169 metas, se tudo correr bem será concluída em 31 de Julho e aprovada na 70ª Assembleia Geral da ONU, em setembro. O acordo já é considerado um marco para a diplomacia global, por ter forçado o debate sobre o que significa desenvolver-se de forma sustentável, interligando relações dos campos econômico, social e ambiental, e por afirmar, de forma ambiciosa, que já não é suficiente erradicar a pobreza e precisamos, de uma vez por todas, diminuir desigualdades e mudar os padrões de produção e consumo globais.

Sem dúvida a Agenda Pós-2015, mesmo pouco acompanhada pela mídia, teria tudo para se transformar no compromisso multilateral mais revolucionário dos últimos tempos, não fosse o fato de que esbarra na questão essencial – e ainda sem resposta – sobre quem pagará sua conta. Por isso, mesmo sabendo que os novos objetivos e metas estão praticamente acordados, falta bater o martelo, nesta última rodada de debates, sobre como, quem e de que forma essa agenda, que inclui tantos e tão complexos temas, será de fato implementada até 2030.

Para responder a estas questões, desde o ano passado os capítulos sobre o “Meios de Implementação e Seguimento” foram mantidos em suspense, na expectativa do resultado da terceira Conferência Internacional do Financiamento para o Desenvolvimento (FpD3), realizada entre 13 e 16 de julho na Etiópia, que tinha entre seus objetivos indicar o caminho do financiamento dos ODS. E sim, fazia muito sentido convergir os processos, já que ambos tratavam do futuro do desenvolvimento.

Mas a Agenda de Ação de Adis Abeba, resultante da FpD3, não acordou, como esperado, mecanismos para reduzir as inequidades das relações assimétricas de poder financeiro, e muito menos apontou fontes adicionais para financiar os ODS. Depois de muita tensão, conseguiu-se apenas renovar o compromisso de que 0,7% do PIB dos países desenvolvidos serão usados para Assistência Oficial ao Desenvolvimento (OAD, na sigla em inglês), acordo de 1969 e hoje cumprido por apenas cinco deles: Noruega, Suécia, Luxemburgo, Dinamarca e Reino Unido.

Adis tampouco tratou da regulação do sistema financeiro, ignorando o caráter globalizado dos mercados de capital, negando a necessidade de democratização da governança de instituições como o Banco Mundial e o FMI, cujas políticas ortodoxas baseadas em mitos econômicos obsoletos têm escalpelado, em série, países em todo o mundo. Assim, ao que parece, a conta do desenvolvimento continuará a ser paga via apropriação tributária e endividamento dos Estados, com recursos executados por parcerias público-privadas que, por sua vez, continuarão sem mecanismos que alinhem o setor privado, incluindo as corporações transnacionais, aos direitos humanos e ambientais, às regras da OIT ou às políticas de gênero. A equalização da questão do financiamento dos ODS é, portanto, o elefante na sala da ONU no momento.

A queda de braço entre Norte e Sul continua, frente à clara a necessidade de encontrar recursos previsíveis e adicionais às fontes filantrópicas oficiais. Estima-se que a agenda pós-2015 custará cerca de US$ 6 trilhões /ano. Se a OAD arrecadou US$134 bilhões em 2013 e o mercado global de câmbio movimenta US$4 trilhões/dia, a alternativa óbvia seria regular melhor o sistema financeiro, o que, além de gerar os recursos necessários, garantiria transparência. Mas esta carta, por enquanto, foi eliminada do baralho.

Assim, aguardamos as propostas da diplomacia nos próximos dias, pois, sem mudanças nas regras do jogo financeiro e sem mexer em questões estruturais da economia, a implementação dos ODS será uma missão quase impossível para os países pobres ou em desenvolvimento. A equação é até fácil de entender. O problema é que a conta, no momento, não fecha.


Alessandra Nilo, obervadora da sociedade civil nas negociações dos ODS na ONU, é coordenadora geral da Gestos (Soropositividade, Comunicação e Gênero) e diretora da ABONG-PE

Sobre a velocidade dos automóveis e a potência da bicicleta

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Andar sobre pedais permite outra forma de se relacionar e integrar com o mundo — oposta à do motorista que, escondido atrás do parabrisa, aliena-se da realidade.

Por Maurício Ayer

Neste texto, da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), há uma explicação inteligente e informada do porque de se baixar as velocidades máximas das Marginais. Não vou falar do conjunto da ideia aqui, mas comentar um aspecto que me interessa em particular.

Vi hoje dois vídeos (1 e 2) mostrando ciclistas andando a 50km/h na Marginal, e os motoristas, que filmavam com seus celulares, sendo um deles em uma moto, apontavam este absurdo em plena revolta.

Nem vou comentar o fato de um cidadão dirigir uma moto ou um carro na Marginal filmando com o celular. Ainda mais que o faz no exato instante em que acusa um outro de descumprir alguma regra, quando não é o caso. A bicicleta é um meio de transporte reconhecido como tal e pode usar todas as vias da cidade. Continuar lendo

Brasil: Outro Desenvolvimento é possível?

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Livro-reportagem provoca: país não precisa oscilar entre neoliberalismo e mega-projetos. Esboçada em experiências locais, alternativa existe — e precisa ser sistematizada em novo projeto nacional


MAIS:
Lançamento do livro Caminhos para um Desenvolvimento Justo
Hoje (29/7), às 19h30
Ateliê do Gervásio: Rua Conselheiro Ramalho, 945 (veja
mapa), Bixiga, S.Paulo — Metrô São Joaquim ou Brigadeiro
Transmissão ao vivo, por Internet — aguarde o link aqui

É possível imaginar um modelo de sociedade que propicie qualidade de vida, justiça social e preservação do meio ambiente ao mesmo tempo e, que para isso, valorize o saber dos povos e comunidades locais? A questão é tema da nova reportagem especial do Observatório da Sociedade Civil: Caminhos para um Desenvolvimento Justo – A sociedade civil na linha de frente da luta socioambiental (clique aqui para baixar em PDF).

Livro.inddEscrita pela jornalista Bianca Pyl, a publicação reúne quatro reportagens que abordam regiões e meios sociais distintos. Da Amazônia ao semiárido, vemos desde a luta dos povos indígenas e comunidades tradicionais contra o desmatamento e as grandes obras de energia até as lições dos/as sertanejos/as que aperfeiçoam a convivência com o clima. Já o cerrado evidencia os impactos da expansão do agronegócio e a esperança na agricultura familiar, enquanto, nas grandes cidades, se salienta a luta da população pobre contra a gentrificação e pela garantia de direitos como moradia e transporte. Continuar lendo

A supreendente ascensão do feminismo negro

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1a Marcha do Orgulho Crespo, dia 26 de julho em São Paulo

Marcha do Orgulho Crespo. Virada Feminista. Oficinas de Tranças e Turbantes. Julho das Pretas. Multiplicam-se iniciativas que afirmam: democracia feminista será preta, pobre e periférica – ou não será

Por Inês Castilho | Imagem Paulo Ermantino

São evidentes os sinais de maturidade e crescimento da onda do feminismo negro. Nas ruas já se fazem notar os cabelos crespos ou trançados e turbantes coloridos, na contracultura do alisamento que marcou os penteados femininos, das brancas inclusive, nos últimos tempos. Décadas de luta do movimento negro, somadas às políticas públicas inclusivas nas universidades, à multiplicação de saraus pela periferia e de blogueiras negras na rede já exibem seus frutos.

Neste segundo semestre, eventos se sucedem com grande velocidade em São Paulo: da primeira Virada Feminista, 4 e 5 de julho na Zona Norte, à 1ª Marcha do Orgulho Crespo pelo dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, 25 de julho, em preparação à Marcha sobre Brasília pela Consciência Negra, em novembro, de caráter nacional, anunciada com um Manifesto contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. E ainda o lançamento do livro didático e fotobiografia da antropóloga e ativista Lélia Gonzalez, que encarna grande parte dessa história. Continuar lendo

Debate: O impasse brasileiro e uma possível saída

País estará condenado a oscilar entre “ajustes fiscais” regressivos e “desenvolvimento” capitalista desigual e devastador? Haverá alternativas? Observatório da Sociedade Civil e Outras Palavras convidam a debater, em 29/7


Quando: Quarta-feira, 29/7, a partir das 19h30
Onde: Ateliê do Gervásio: Rua Conselheiro Ramalho, 945 (veja mapa), Bixiga, S.Paulo — Metrô São Joaquim ou Brigadeiro
Informações completas aqui

O Brasil vive hoje um impasse político, econômico e social. Pressionado pelo prolongamento da crise internacional, o governo Dilma Rousseff adotou um “ajuste fiscal” regressivo, ao mesmo tempo em que mantém um modelo de desenvolvimento calcado em obras faraônicas e apoio ao agronegócio predatório, colocando em risco o meio ambiente e atacando os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Por outro lado, a oposição de direita, cuja visão econômica é uma ameaça ainda mais perigosa para os direitos sociais, utiliza as investigações de corrupção em curso para tentar inviabilizar o governo, com amplo apoio da grande mídia.

Há alternativas – ainda que ocultas pela imprensa – a esse falso dilema. Em todo o país, organizações e movimentos sociais desenvolvem projetos que demonstram: existem outros caminhos para um desenvolvimento socialmente justo, que respeite as tradições dos povos originários e promova uma relação responsável com a natureza. São ações que estão em linha com a Carta de Santa Cruz, documento final do Encontro Mundial de Movimentos Populares, que defende a superação de um “modelo social, político, econômico e cultural onde mercado e o dinheiro se converteram nos reguladores das relações humanas em todos os níveis”. A preocupação também aparece na encíclica Laudato Si, em que o Papa Francisco adota uma postura importante em defesa da justiça social e da preservação do meio ambiente. Continuar lendo

Software livre: por que usar formatos abertos?

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Vale substituir extensões patenteadas, como “docx”, “xls” e “mp3″ por alternativas livres. Você resiste a monopólios e garante uso pleno e longevidade de seus dados

Por André Solnik*, na coluna Código Aberto | Imagem: Paula Vio


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Software Livre: você também pode migrar

Domingão, família reunida, e você resolve resgatar das profundezas do seu HD aquela apresentação de slides com as melhores fotos dos anos 90. Ansiosos, todos se reúnem em volta da tevê. O show já vai começar! É só abrir o PowerPoint, selecionar o arquivo e… PAM!

Um alerta salta na tela: o formato do arquivo é muito antigo e já não é mais suportado pelo programa. Você fica com aquela cara de tacho e por um instante considera seriamente a hipótese de esganar o Bill Gates em praça pública. Salvo pelo gongo: o caçula da família chama a responsabilidade, baixa o LibreOffice e consegue ressuscitar os slides.** Continuar lendo

Países ricos bloqueiam, de novo, luta contra evasão fiscal

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Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU e Nkosazana Dlamini-Zuma, presidente da Comissão da União Africana, em Adis Abeba, Etiópia

Em conferência da ONU na Etiópia, EUA e Reino Unido lideram sabotagem a proposta que puniria sonegação de impostos pelas multinacionais

Por Karim Lebhour

As fortes pressões do Norte fizeram com que os países do Sul desistissem de criar um organismo apoiado pela ONU (Organização das Nações Unidas) para lutar contra a evasão fiscal, no último dia da conferência internacional sobre financiamento do desenvolvimento realizada em Adis Abeba, na Etiópia.

Essa evasão fiscal priva os países todos os anos de bilhões de dólares em rendas.

A criação desta nova instância, que teria por missão fixar novas regras fiscais internacionais na luta contra os fluxos ilícitos e a evasão fiscal, em particular das multinacionais, dividiu o Norte e o Sul durante esta terceira conferência. Continuar lendo

No Xingu, o desafiador povo do céu

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Reportagem fotográfica mostra como, no norte de Mato Grosso devastado por soja e gado, os índios Wauja preservam suas aldeias, cheias de beleza e arte

Texto e fotos de Hélio Carlos Mello, integrante de Jornalistas Livres

De encanto meus olhos já se enxugavam há tantos dias entre rios, mas eis que o Xingu se revela novamente e surpreende meus sentidos

Estou no Estado de Mato Grosso, entre os municípios de Paranatinga e Gaúcha do Norte, região essa que viu suas florestas caírem na engorda do gado e a soja florescer em poucas décadas. Sobraram intactas apenas a área do Parque Indígena do Xingu e outras terras indígenas no Mato Grosso.

 

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Nina Simone e a música como expressão dos direitos civis

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No rastro do documentário “What happened, Miss Simone”, vale refletir sobre vida, música e lutas da compositora negra que dizia: “É obrigação artística refletir meu tempo”  

Por Kauê Vieira, no Afreaka

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os fatos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais cotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategistas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades. Continuar lendo