Um roteiro para a Arena Net Mundial

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Aberta ao público, programação terá debates com Manuel Castells e Gilberto Gil, dezenas de oficinas e shows de Tom Zé, Emicida e Jorge Mautner

Por Gabriela Leite

Tem início hoje, em São Paulo, o Arena Net Mundial, evento que pretende ampliar os debates sobre a internet, suas possibilidades, liberdade e democracia. De forma mais ampla, acontece paralelamente ao Net Mundial, evento mais restrito e formal que reunirá diversas lideranças relacionadas com a governança da internet. Gratuito e aberto a todos, inclusive por participação online, acontece no Centro Cultural São Paulo, no bairro do Paraíso.

A programação é vasta, e já teve início na manhã de hoje (22), mas a abertura oficial acontece às 19h, com um diálogo sobre o Marco Civil da Internet. Até a quinta-feira (24), haverá conversas, oficinas e shows que abrangem diversos temas e gostos, que vão desde as possibilidades criativas da internet até sua segurança. Para amanhã, por exemplo, estão marcadas atividades e debates sobre inclusão digital, democracia na sociedade em rede (com o criador do termo, o filósofo Manuel Castells), feminismo 2.0 e a arquitetura da internet. Nas oficinas, serão ensinados, entre outras coisas, o fotojornalismo 2.0, rádio digital, e técnicas antivigilância. Continuar lendo

África do Sul: CNA deve superar morte de Mandela

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O presidente Jacob Zuma (à direita), ao lado de Nelson Mandela

Nas eleições gerais de 7/5, partido que liderou luta anti-apartheid pode perder parte do eleitorado — mas manterá provavelmente presidência e participação do país no BRICS 

Por Nicolas Chernavsky, editor do culturapolitica.info

O Congresso Nacional Africano (CNA), partido de Nelson Mandela, possivelmente vencerá as eleições gerais no próximo dia 7 de maio. Mas a tendência histórica, especialmente após a morte do líder anti-apartheid, é uma diminuição na porcentagem de votos da agremiação. Essa queda não tem necessariamente como causa o desempenho do CNA no governo, mas sim o fato do sistema eleitoral do país ser parlamentarista por voto proporcional. Nesse sistema, é raro que um único partido obtenha, em quatro eleições seguidas, mais de 60% dos votos. Se o CNA alcançou o feito, foi graças a fatores excepcionais: júbilo prolongado pelo fim do “apartheid” e a existência de um líder muito carismático.

É muito difícil prever quando, e com que intensidade, o CNA começará a perder força eleitoral. Isso não significará, necessariamente, que a política do país ficará menos progressista. Pode indicar que os setores mais progressistas estarão se repartindo em vários outros partidos. Quanto às eleições do próximo 7 de maio, o atual presidente, Jacob Zuma, tem grandes possibilidades de continuar mais cinco anos no cargo. O país tem um parlamento bicameral, no qual é a câmara baixa que escolhe o presidente. Ela é composta de 400 representantes e, além de escolher o presidente, tem ligeiramente mais poder no processo legislativo que a câmara alta, com 90 cadeiras. Continuar lendo

Drogas: comércio eletrônico seria saída?

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Para evitar redes criminosas e produto adulterado, usuários de substâncias psicoativas migram para compras na internet. Movimento expõe fracasso do proibicionismo 

Por Henrique Antero

Divulgados há cerca de uma semana, os resultados da maior pesquisa mundial sobre uso de drogas proscritas podem ser um novo golpe contra as já cambaleantes políticas proibicionistas. A versão 2004 da Global Drug Survey – que entrevistou 80 mil usuários, em 43 países, inclusive o Brasil — revelou o rápido crescimento do comércio de substâncias psicoativas via internet. Diversos fatores explicam a mudança: dribla-se a polícia, o crime organizado e a má qualidade da droga que ele comercializa. Mas não se resolve o problema central.

Os dados da pesquisa são eloquentes. A maioria dos usuários de substâncias psicoativas ainda as compra de vendedores de rua; mas um número cada vez maior deles tem feito uso da internet para obter tais drogas. Sobre as compras online, observou-se que o Reino Unido é o que mais utiliza a ferramenta: 22% dos usuários entrevistados já fizeram. No Brasil, o número também é grande, apesar de a amostragem ser menor (1088 entrevistados): 11% já compraram drogas pela internet.  Continuar lendo

Marcha da Maconha 2014: a um passo da legalização?

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Em SP, debates no Grajaú e Casa FdE abrem programação, que tem presença luxuosa de Zé Celso. Caminhadas multipĺicam-se pelo país, em 26/4 

Por Gabriela Leite

Anos antes de as manifestações e atos serem frequentes no cotidiano dos moradores de São Paulo da maneira como acontece desde junho de 2013, a Marcha da Maconha já reunia milhares de pessoas na avenida Paulista. Sua reivindicação vai muito além de simplesmente fazer uso livre de droga popular: diz respeito às políticas públicas proibicionista, violência e liberdades individuais. O grupo que a organiza se formou em 2007, em rede e por todo o Brasil. Em 2014, a moblilização acontece no dia 26 de abril, mas haverá também intensa programação entre os dias 19 e 26, na Semana Pela Legalização da Maconha.

Com os processos de legalização da maconha em curso no Uruguai e nos Estados Unidos, e em discussão em distintas partes do planeta e do Brasil, a Marcha da Maconha sairá às ruas não mais de forma defensiva, como fazia em épocas em que era inclusive proibida de existir, mas em um contexto de iminente fim da guerra, de florescimento de alternativas de políticas públicas mais respeitosas das liberdades individuais e dos direitos humanos. Continuar lendo

A tarde em que Gabo tornou a Morte mais banal

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Que é o corpo, para um contador de histórias? A folha impressa, talvez. Mas a palavra, esta não tem fins – e regozija-se por não ter casa

Por Cibelih Hespanhol

Nesta quinta-feira, 17, Gabriel García Márquez surpreendeu o mundo – não por sua morte, destino tão banal e nada inédito a todos os homens, mas por nos avisarmos, justamente, contrário às notícias que saem na tevê, de que permanece alheio a estas circunstâncias: em verdade, apesar de morto, Gabo não pode e nem pretende morrer.

O corpo de 87 anos, carregado pelo câncer nos pulmões, gânglios e fígado, e fragilizado por uma pneumonia repentina, não impôs esforços para que a Morte o levasse, cumprindo com seu ofício cansativo e monótono do dia. Talvez Gabo tenha até mesmo soltado um suspiro, aliviado pelo encontro. Como Remedios, de Cem anos de Solidão, a ascensão à outra vida pode ter sido um leve abandono, e da cama de hospital o escritor pálido, com suas mãos descansadas, sentiu parar de correr o sangue nas veias como um romance que chegasse ao fim: em pausa abrupta mas acolhida, Gabo esteve, de barbas brancas, suspenso pelos ares da mesma tarde em que o mundo se lamentava. Continuar lendo

Banksy: agora contra o Estado de vigilância?

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Surge misteriosamente, na cidade-sede dos serviços de espionagem britânicos, um sugestivo grafite. Mercado de arte se alvoroça com artista anti-mercado…

Por Gabriela Leite

Um novo grafite do artista inglês Banksy parece ter aparecido na cidade de Cheltenham, no Reino Unido. A pintura retrata três agentes do serviço de inteligência britânico escutando as chamadas de uma cabine telefônica, ligados a um satélite. O local não foi escolhido ao acaso: Cheltenham, cidade de cerca de 110 mil habitantes e a 150 quilômetros a noroeste de Londres, é sede do Quartel General das Comunicações do Governo inglês (Government Communications Headquarters, ou GCHQ), serviço responsável pela espionagem nas comunicações e fornecedor de informações sobre os cidadãos ao Estado e forças armadas.

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A autoria da obra ainda não foi confirmada por Banksy, pseudônimo do um artista britânico cuja identidade permanece incógnita — mas que é conhecido mundialmente por sua arte de rua. Seus stêncils (técnica de grafite feita com desenhos recortados em máscaras e gravados com spray) satirizam a sociedade capitalista, consumista e violenta e começaram a aparecer pelas ruas de Bristol e Londres nos anos 90. A mais recente, com os agentes da GCHQ — equivalente da norte-americana NSA no Reino Unido –, expõe a indignação com a espionagem em massa de cidadãos, por parte dos governos e empresas, que foi revelada nos últimos anos. Continuar lendo

Mafalda, à beira dos 50

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Nasceu para que seu criador, de olhar estrábico e delicado, suportasse aridez e banalidade da vida. Não se adapta. Meio século depois, tornou-se mais inspiradora que nunca

Por Cibelih Hespanhol

O mundo, como se apresentava para as retinas de Joaquín Salvador Tejón, sempre esteve um pouco desfocado. Algo não estava certo naquelas aparências e formas – naquela maneira de se ajeitar do mundo – que espiava em seu olhar estrábico o argentino de Mendonza; a ponto de parecer inevitável àquele homem, de palavras secas e pensamento ateu, que com o passar do tempo e a permanência das coisas sua visão se tornasse, afinal, delicada demais para esta vida estranha.

Esta visão delicada, problema que não se resolvia, só teve uma cura, por fim: foi para o papel. Nos anos 60, Joaquín, o Quino, via nascer de seu ofício de desenhista uma filha que nunca planejara ter – Mafalda, a menina de fita vermelha, língua afiada e ideias anticonformistas, que neste ano de 2014 torna-se una niña de cinquenta anos. Continuar lendo