Mostra apresenta Jerzy Skolimowski, cineasta original

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“A Classe Operária”, com Jeremy Irons, é um dos filmes presentes na Mostra

Sátira ao stalinismo e ao conformismo polonês custou censura e exílio de mais de vinte anos ao cineasta — colaborador de Polansky e Wadja e uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague


“O cinema de Jerzy Skolimowski”
De 24 de maio a 12 de junho de 2017
CCBB São Paulo
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) | 5,00 (meia)
Veja programação completa ao final do post

Ele é pouco conhecido no Brasil, embora tenha colaborado com cineastas poloneses que encontraram grande público por aqui, como Andrzjev Wajda e Roman Polanski – com este, colaborou no roteiro de Faca na água, uma das obras-primas do cinema internacional e tremendo sucesso no país nos anos 1960. Mas agora os paulistanos poderão entrar em contato com a obra de Jerzy Skolimowski, uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague polonesa ainda em atividade. A mostra “O cinema de Jerzy Skolimowski” exibirá 19 filmes do cineasta, entre curtas e longas-metragens, a maioria inédita no país, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo entre 24 de maio e 12 de junho.

O impulso de renovação trazido pelos assim chamados cinemas novos nos anos 1960 conjugava invenção formal, engajamento político e afirmação de um estilo particular. Esse impulso se manifestou em toda parte, da Europa ocidental à América Latina, e não foi diferente na Europa do Leste, sobretudo na Tchecoslováquia e na Polônia, de cujo cinema novo Jerzy Skolimowski emergiu como o cineasta mais emblemático e original. Em razão da multiplicidade de seus talentos – de poeta, pintor, roteirista, boxeador, dramaturgo e ator – e da contínua transformação de seu cinema face às circunstâncias práticas e políticas, Skolimowski construiu uma filmografia cujo estilo é de difícil classificação. Seus filmes se caracterizam pela vitalidade das encenações, amparadas no uso da improvisação. Seu cinema é sobretudo físico, movido pelas ações e gestos intempestivos dos personagens, sublinhados pela invenção na montagem.

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Moysés Pinto Neto: Esquecer a esquerda

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“Desde 2013, lulismo descaracterizou-se — mas seus apoiadores tornaram-se, paradoxalmente, cada vez mais sectários. Precisamos do contrário: propor transformações muito efetivas na vida da maioria, sem exigir credenciais”

Por Moysés Pinto Neto


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Vejo que há um redemoinho que suga a maior parte das energias políticas para falsas questões. Por exemplo, a questão da esquerda. “Quem é de esquerda? Qual a esquerda legítima? Como unir a esquerda?” E se o problema não for a resposta, e sim a pergunta? E se, em vez de construir um campo de força dentro da dinâmica política, está-se pensando o que precisa ser feito em termos de “quem pode frequentar o meu clube?”

Vou fazer um comentário bastante arriscado, mas me parece que é bem possível pensar que a mudança no cenário político, com a crise atual, se dá a partir da virada do primeiro lulismo para um segundo, sobretudo a partir de 2013, com as manifestações, e 2014, com as eleições. No primeiro cenário, a esquerda discursava como centro, no máximo centro-esquerda, mas promovia efetivas transformações sociais. Qual foi o principal símbolo do sucesso do lulismo? O Bolsa-Família, política que muitos nem associavam à esquerda. O Bolsa-Família foi defendido de um modo muito simples e banal: todo mundo precisa comer, independentemente de qualquer coisa. Isso convence qualquer um. E assim foi com uma série de outras questões. Continuar lendo

Casé Angatu: “Nossas vidas opõem-se ao capitalismo”

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“A luta indígena é também a luta por uma nova sociedade que já carregamos naturalmente em nossos corpos, anga (alma) e resistência. É o que podemos oferecer aos movimentos sociais”

Por Casé Angatu


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Nossos anciões ensinam que é bom sonhar, mesmo quando estamos acordados. Estes sonhos oferecem força e horizonte (perspectiva) à nossa luta de resistência, que já dura mais de 500 anos. Uma luta, acima de tudo, ritual e sagrada. É a luta pelo Território onde moram os Ancestrais e as/os Encantadas/Encantados da natureza. Como costumamos dizer: “não éramos e nem somos donos da terras … somos a própria terra”. Esta é a energia vital que nos faz resistir há cinco séculos contínuos de genocídios e etnocídio.

O Índio, em sua natureza profunda, mesmo quando violada pelas tentativas de etnocídio, carrega o sentimento de desejar a terra não como propriedade, mercadoria e para exploração de riquezas. Sentimos que este é um dos significados mais profundos da luta e dos sonhos indígenas, que também podemos chamar de utopia: o desejo pelo Território para nele vivermos e compartilharmos com os de anga (alma) livre.

Nossos corpos, rituais, cosmologias e formas de viver são, em conjunto, natural e espontaneamente uma oposição ao capitalismo e um incômodo ao seu estado, que precisa nos negar direitos e combater. Os donos do poder econômico negam há mais de 500 anos o nosso Direito Congênito e Natural ao Território. Recusam também nossa autonomia enquanto Povos. Mesmo a própria Constituição de 1988, apesar de avançar no sentido de não mais nos encarar como em extinção, em seus artigos 231 e 232 não oferecem garantias definitivas à demarcação de nossos Territórios e à nossa autonomia.

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Hugo Albuquerque: Retomar um espaço de convivência geral

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“É preciso romper com o aparente paradoxo que opõe o institucional (estatal) ao absolutamente espontâneo, o objetivismo de Estado versus o subjetivismo de movimento.”

Por Hugo Albuquerque


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Evidentemente, não é um problema simples. O Brasil tem um potente e virtuoso setor que deseja alternativas à normalidade do capitalismo nas suas implicações sociais, morais, psíquicas, afetivas etc., mas hoje ele não tem um meio, uma rede, uma plataforma para poder partilhar e assim se expressar e, sobretudo, atuar no jogo político – na verdade, já há algum tempo ele não tinha, mas talvez 2013 tenha sido a grande expressão disso, só que agora essa ausência tem se feito sentir pesadamente.

O que vivemos em 2015 e 2016, com todos aqueles movimentos verde-amarelistas e panelaços, foi um misto de surto coletivo com organização voltado a suprimir o assombroso levante da multidão em 2013. Este significou, a um só tempo, um dado negativo e um dado positivo. Por um lado, o esgotamento da Nova República e dos partidos de esquerda – PT à frente – no sentido de empurrar o grande pacto dos anos 1970-80 um pouco para frente. Mas também, um certo acúmulo de forças da juventude e de movimentos de novo tipo, capazes de convocar e executar protestos sem depender de partidos ou sindicatos. Continuar lendo

Paulo Kliass: Conservar a unidade, sem esquecer autocrítica

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“Estamos pagando hoje o preço do abandono do trabalho popular e de massas, que foi substituído pela ilusão de ter chegado aos postos da máquina do governo federal”

Por Paulo Kliass


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Estamos a um ano da operação de impedimento de Dilma Rousseff. A consolidação do golpeachment e o período que se seguiu apenas vieram a confirmar uma tendência de aprofundamento autoritário dos grupos que se apropriaram de forma ilegítima do governo federal.

A continuidade da política do austericídio, no entanto, só fez aumentar ainda mais a impopularidade de Michel Temer junto à maioria da população. Além disso, confirmou-se a falácia de que bastaria tirar Dilma para que o espetáculo do crescimento tivesse início. O desemprego é fenomenal, a falência de empresas é generalizada e a crise socioeconômica reduz as margens de manobra do governo no interior de sua própria base aliada no Congresso Nacional.

O sucesso da greve geral de 28 de abril abre uma nova fase na luta contra as medidas de desmonte patrocinado pelo governo ilegítimo. O governo tem recuado a cada dia que passa em sua proposta inicial da “reforma” da Previdência na Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades para votar a “reforma” trabalhista no Senado Federal. Continuar lendo

Mauro Lopes: tempo de plantar

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“É tempo de resistência, de tecer redes de solidariedade e partilha, de combinar mobilizações de rua com ações pontuais, vigorosas, de estabelecer novas relações.”

Por Mauro Lopes, do blog Caminho Para Casa


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Não me é possível responder à pergunta “a frio”, como um cientista de laboratório, absorto em planilhas e cálculos. O sangue nas cidades e campos, as mortes, a liquidação da justiça, o desmantelamento da Previdência Social, a selvageria as relações de trabalho, ao ponto de tentarem impingir a escravidão aberta no mundo rural, a humilhação dos pobres, a arrogância violenta dos ricos. É este o campo de batalha sobre o qual se deve pensar em virar a página.

Não devemos nos reduzir ao ódio, mas é impossível pensar sem indignação, sem raiva contra a impostura, os massacres a destruição do país –uma ira santa, como a dos profetas de todos os tempos. Continuar lendo

Célio Turino: “Falta-nos um Programa de Unidade Cidadã”

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“Ou nos colocamos este desafio e o enfrentamos com a devida urgência, ou seguiremos nesta espiral negativa, em um labirinto de infelicidades, depressão e ódio.”

Por Célio Turino


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Programa, programa, falta-nos programa; e clareza para identificar os pontos cruciais; e coragem para executa-lo; e amplitude e organização e desprendimento para se unir em uma Frente Ampla e Cidadã. Ou nos colocamos este desafio e o enfrentamos com a devida urgência, ou o Brasil não irá virar a página e seguiremos nesta espiral negativa, em um labirinto de infelicidades, depressão e ódio.

Mas antes de mais nada, cabe reconhecer que a crise em que nós, brasileiros (em graus diferentes de responsabilidade), nos metemos, é crônica e aguda ao mesmo tempo. É uma crise profunda, resultado de injustiças, iniquidades, violência e roubos, praticada ao longo de séculos; é uma crise de ordem econômica, política, social, cultural, ética e moral. Para além de qualquer conjuntura e desvios éticos e morais de alguns, é uma crise sistêmica, e, se não for entendida como tal, não conseguiremos supera-la. Também não será possível superar esta crise mantendo no comando os mesmos de sempre, quem errou que pague pelos erros e seja afastado da condução do país, e que o povo seja ressarcido; mas este afastamento tem que ser em relação a todos os envolvidos, não podendo ser seletivo, como acontece até o momento, em que apenas um lado é punido e outros seguem poupados e até recompensados. Por isso não podemos nos deixar distrair com a espetacularização que está havendo no combate à corrupção e precisamos romper com este círculo vicioso de dominação por parte das oligarquias econômica, midiáticas, políticas e de corporações do Estado. Continuar lendo

Nalu Faria: Não basta votar e voltar para casa

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“As pessoas que trabalham apenas com o calendário eleitoral não entenderam o tamanho do problema que a gente tem, não entenderam que sequer este calendário é uma certeza. Queremos Diretas Já para garantir que haja eleição”

Por Nalu Faria*


Outras Palavras” está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

A maneira de virar a página no Brasil é para ampliar nossa mobilização, para que ela seja capaz de modificar a correlação de forças políticas no país. O maior exemplo disso foram as mobilizações [1] [2] do mês de março e como elas contribuíram para a greve geral de 28 de abril. O sucesso da greve foi consequência do envolvimento de muitas organizações, algo mais amplo que sindicatos, partidos e suas frentes. Precisamos reforçar e ampliar as frentes de esquerda, na mobilização e na luta. Foi assim que conseguimos parar 45 milhões de trabalhadores, é assim que vamos falar com a classe trabalhadora do país: aprofundando a mobilização e a luta. Nossa saída é a mobilização, não é a negociação por cima! Manifestações de rua, assembleias, debates, políticas de comunicação, ações diretas. Então parte de nossa estratégia de construção é tornar a mobilização permanente e não eventual.

Nossa reação será mais efetiva se tiver uma pauta política. Precisamos reivindicar Diretas Já e a recuperação da democracia no Brasil. As pessoas que trabalham com o calendário eleitoral não entenderam o tamanho do problema que a gente tem, não entenderam que sequer este calendário é uma certeza. Queremos Diretas Já para garantir que haja eleição. Precisamos também de uma Assembleia Nacional Constituinte para realizar mudanças que precisam de legitimidade para serem feitas. Hoje temos mais gente comprometida com o processo de mudanças do que com a normalidade do calendário eleitoral. E não é com esse parlamento que vamos conseguir fazer reforma agrária, reforma urbana, tributária, política e democratização dos meios de comunicação no Brasil. Continuar lendo

Ladislau Dowbor: Retomar as conquistas e controlar as finanças

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“O setor financeiro desvia, da sociedade e do Estado, 1,5 trilhão de reais por ano — quase o mesmo que todo o Orçamento da União. Os rentistas, que viveram e vivem do trabalho dos outros, precisam seguir o conselho que dão aos pobres que encontram pelas ruas”

Por Ladislau Dowbor


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Há um pano de fundo na crise que vivemos que pode ser resumido no tripé ambiental, social e financeiro. O nosso triângulo das Bermudas, para os que gostam de imagens. Resumidamente é o seguinte.

No plano ambiental, estamos literalmente destruindo o planeta, através do aquecimento global, da perda de biodiversidade (destruímos 52% da fauna do planeta entre 1970 e 2010 segundo o WWF), da liquidação das florestas, da contaminação generalizada das águas e assim por diante. Tecnologias de século XXI, que permitem extração de recursos naturais de forma quase ilimitada, e leis do século passado geram uma combinação insustentável. O planeta não aguenta.

No plano social temos as cifras estarrecedoras de 8 famílias que detêm mais patrimônio do que a metade mais pobre da população mundial. Apresentado de outra forma, 1% dos mais ricos detêm mais riqueza do que os 99% seguintes. Somos 7,45 bilhões de pessoas no mundo, e 80 milhões a mais a cada ano. Entre dois e três bilhões estão em condições econômicas dramáticas, presas na chamada armadilha da pobreza, em que a própria miséria trava as possibilidades de dela sair. E esses bilhões não são ignorantes nem resignados, sabem hoje que se pode viver melhor, e muros na fronteira mexicana ou em Israel, frotas da marinha no Mediterrâneo, ou as cercas eletrificadas na Europa não vão resolver o assunto. Vivemos um universo explosivo. Já não se fazem pobres como antigamente. Um New Deal planetário está na ordem do dia. Continuar lendo