O que o samba pode te ensinar

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Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços

Por Stephanie Ribeiro, do site Alma Preta | Edição de Imagem: Vinícius de Almeida | Imagem: Elifas Andreato

(Um texto para o meu avô, que aos domingos
colocava um álbum do Martinho da Vila
e me tirava pra dançar)

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

Não precisamos sequer de um explicação tão grande, basta escutar as canções de Martinho da Vila “Batuque na Cozinha” ou “Segure Tudo” e identificar a batida de terreiro, que já entenderíamos de onde vem o samba. É uma música feita sobre nós negros numa época em que essa era uma forma de explicitar a vida cotidiana do preto pobre brasileiro, os marginalizados que viviam nas periferias formadas no pós-abolição. E como muita coisa não mudou, ainda hoje temos nossa realidade refletida em algumas canções.

Por exemplo, hoje muito se fala de apropriação cultural, mas o sambista Geraldo Filme na canção “Vai Cuidar da Sua Vida” já cantou:

“Crioulo cantando samba/ Era coisa feia / Esse é negro é vagabundo / Joga ele na cadeia / Hoje o branco tá no samba / Quero ver como é que fica / Todo mundo bate palmas / Quando ele toca cuíca.”

O mesmo sambista na canção “Garoto de Pobre” esmiuçou sobre a realidade do pobre brasileiro:

“Garoto de pobre / só pode estudar / em escola de samba / Ou ficar pelas ruas / jogado ao léu (…) Ele desce dos morros / ele vem das vilas / e chega a cidade / alegra os turistas / recebe os aplausos da sociedade”

Em tempos onde ficamos compartilhando em redes sociais fotos de crianças negras trabalhando nas ruas, com textos bonitos, precisamos escutar mais o que Geraldo Filme cantou.  E assim começar a questionar essa realidade na qual estamos inseridos para não acreditarmos que tais atos e “textos bonitos” são empatia.

Bezerra da Silva já mostrou como as pessoas quando não romantizam a pobreza, criminalizam-na, como na música “Vítimas da Sociedade”:

“Se vocês estão a fim de prender o ladrão / Podem voltar pelo mesmo caminho / O ladrão está escondido lá embaixo / Atrás da gravata e do colarinho (…) / Só porque moro no morro / A minha miséria a vocês despertou / A verdade é que vivo com fome / Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador / Se há um assalto à banco / Como não podem prender o poderoso chefão / Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão.”

Ele ainda conclui:

“Somos vítimas de uma sociedade / Famigerada e cheia de malícias / No morro ninguém tem milhões de dólares / Depositados nos bancos da Suíça.”

As letras denunciam situações até sobre a forma como o samba foi apropriado e seus cantores embranquecidos para que o gênero fosse aceito:

Samba / Negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba /Inocente, pé-no-chão / A fidalguia do salão / Te abraçou, te envolveu / Mudaram toda a sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você nem percebeu.”

A música acima “Agoniza Mas não Morre” de Nelson Sargento, facilmente explica o que aconteceu com o Blues, Rock e vem acontecendo com o Funk e até mesmo com o Rap.

É obvio que além de denunciar, os sambas também tomam como partido o enaltecimento da cultura negra. Uma das músicas que mais me emociona é “Orgulho Negro” da Jovelina Pérola Negra:

“Negro é raiz / Negro é raiz / Me orgulho por isso / me sinto feliz / Negro é raiz / Negro é raiz /Negro é raiz / Na senzala, o negro não tinha sossego / Ao ver a chibata / Tremia de medo / Fazia de tudo para não apanhar / Só sentia em seu rosto suor escorria / trabalhando embaixo do sol de meio-dia / Se sacrificando para se libertar / Recordando / O homem no tronco apanhando / os olhos dos outros só lacrimejando / pedindo clemência para ele descansar / É ou não é raiz?”

E nossa maravilhosa Dona Ivone Lara já cantou que o negro é a raiz da Liberdade, em “Sorriso Negro”:

“Um sorriso negro, um abraço negro / Traz….felicidade / Negro sem emprego, fica sem sossego / Negro é a raiz da liberdade/ (…) Negro que já foi escravo / Negro é a voz da verdade / Negro é destino é amor / Negro também é saudade.. (um sorriso negro!)”

Muitas pessoas falam de letras que são machistas e eu reconheço que tem sim sambas que reproduzem ideias que inferiorizam as mulheres, assim como em todos os gêneros musicais. Mas duvido que alguém encontre uma música na década de 50 como a de Cartola “Vou Contar Tintim por Tintim”:

“Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada / Que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto / Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”

As sambistas mulheres negras também eram não só questionadoras como atemporais nas questões que envolvem o universo feminino. Chiquinha Gonzaga em “Dois Corações” já dizia:

“Dei o meu a aquele ingrato / Que não soube me amar / Conheci duas meninas / Todas as duas eu quero muito bem / Uma mais do que a outra / Uma mais do que a outra / E a outra mais do que ninguém”

E tem até trechos empoderadores como na canção “Luz do Repente” da já supracitada Jovelina Pérola Negra:

“Eu sou partideira da pele mais negra / Que venho, que chego para improvisar / Já vi partideiro que nunca vacila / Entrando na fila, querendo versar / Mas dou um aviso que meu improviso / É sério, é ciso, não é de brincar / Otário com aço, eu mando pro espaço / Versando, eu faço o bicho pegar”

Vamos entender que se fala na origem do samba atrelada a uma mulher, a tão citada por alguns sambistas: Tia Ciata. Ela seria a dona do quintal “Berço do Samba”, mas também segundo alguns, era uma das que cantavam sambas anteriormente à década de 50, por isso não coloquei nesse texto nada que fixe a origem do samba exatamente. Acredito que ele tem origens negras, portanto, me dói quando vejo pessoas dando a Noel Rosa um título de grande nome desse gênero musical num país onde Geraldo Filme já disse: “Sambista de rua morre sem glória”

Por fim:

“Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo sim senhor /Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei do terreiro / Eu sou o samba / Sou natural daqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem levo a alegria / Para milhões de corações brasileiros / Salve o samba, queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo de um país / Salve o samba, queremos samba / Essa melodia de um Brasil feliz”

Sim Zé Kéti, a “Voz do Morro” é o samba.

Eu cresci escutando sambas como os então citados, principalmente Martinho que era um dos grandes ídolos do meu avô Daniel. Foi “Canta Canta Minha Gente” que me inspirou para esse texto. E hoje eu percebo a importância de ter tido uma figura como ele na minha vida, que me tirava para dançar, que me fazia rir quando dançava miudinho, que me ensinou que nem todos os homens vão me tratar mal, enquanto meu pai se esquecia da minha existência… Meu avô foi também a minha referência negra dentro de casa. E hoje eu lamento muito não poder mostrar para ele a mulher, que ele também educou.

Nós negros crescemos acreditando num passado perdido e triste quando na verdade muitos lutaram por nós. Essas letras mostram uma intelectualidade ritmada, um pensar nosso. Para mim hoje é fácil saber que eu vou ser arquiteta, porque meu avô pintava paredes, porque minha bisavô lavava roupa para fora, porque alguém sobreviveu mesmo quando nós negros éramos tratados como escravos. Eu acho que temos que entender o passado para viver o presente e conquistar um futuro. Por isso busquei inspiração nas letras de samba, que são heranças que negros nos deixaram e precisamos usá-las…

Para o meu avô eu cantaria Cartola: “Você também me lembra a alvorada / Quando chega iluminando / Meus caminhos tão sem vida…”

E ele me responderia:

“Canta Canta, minha Gente / Deixa a tristeza pra lá / Canta forte, canta alto / Que a vida vai melhorar (…) Cantem o samba de roda / O samba-canção e o samba rasgado / Cantem o samba de breque, / O samba moderno e o samba quadrado.”

Stephanie Ribeiro é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, Capitolina, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.

É também uma das fundadoras do projeto Afronta – http://www.afronta.org/.

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Teatro Oficina: especuladores sofrem primeira derrota

Oficina: obra de Lina Bo Bardi, foi considerado “o teatro mais bonito do mundo”. Especuladores querem cercá-lo com quatro torres de cimento, e privatizar área diante dele | Foto de Jennifer Glass

Auê na audiência pública que debateu privatização do entorno. Subprefeito atônito diante das críticas. Tecnocratas ensaiam recuo – sem concretizá-lo, porém

Por Hugo Albuquerque

Visivelmente constrangido, o subprefeito Alcides Amazonas foi encolhendo em sua poltrona, à medida em que ouvia as críticas – até que se retirou do recinto, meia hora após iniciada a audiência pública. Alguns assessores, galhardos, tentaram defender a proposta em debate. Inútil. Dezenas de intervenções, vindas de integrantes da sociedade civil, reduziram o projeto a seu real tamanho. Ficou claro que a “requalificação urbanística” (disponível aqui) pretendida pela prefeitura de São Paulo para a área em torno do icônico Teatro Oficina é o que parece ser: mais uma tentativa de privatizar o espaço público, entregando-o, a preços módicos, a grandes corporações. Ficou tão claro, aliás, que os representantes do poder municipal recuaram – ao menos em palavras. Das duas ameaças que pairam sobre o Oficina (leia texto de Zé Celso Martinez Corrêa), uma saiu combalida, da tarde da última quarta-feira, 3 de fevereiro.

A audiência fora convocada às pressas, pela subprefeitura da Sé (que administra a maior parte do centro de S.Paulo) em virtude da pressão popular surgida pela maneira pouco democrática de como o edital foi construído. O processo licitatório prevê uma concorrência entre empresas e/ou consórcios pela concessão de uso dos baixios do Viaduto Júlio de Mesquita, defronte ao teatro. São mais de 11 mil metros quadrados. Os interessados terão de desembolsar no mínimo 12 milhões de reais. Quem dispuser destes recursos poderá servir-se, por dez anos, de vasto território, em área “nobre” da cidade. O vencedor da concorrência terá direito à exploração comercial e gestão do espaço.

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Como o Facebook tenta colonizar a internet

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Movimentos indianos reagem, com indignação, a ideia supostamente tentadora: assegurar acesso dos mais pobres à rede — mas só nos canais selecionados pela firma de Zuckerberg…

Por Gabriela Leite | Imagem: Pawel Kuczynski

O Facebook está prestes a sofrer um revés, graças aos ativistas pela liberdade da internet. A Índia definirá, nos próximos dias, se vai banir do país o Free Basics, atrevida iniciativa de Mark Zuckerberg, dono da rede social gigante. O projeto consiste em uma parceria com operadoras de telefonia móvel de países em desenvolvimento para fornecer internet gratuita a pessoas pobres, porém apenas a um número limitado de sites e conteúdos filtrados pela empresa de Zuckerberg — Facebook obviamente incluso. Desde dezembro, o serviço está bloqueado no país asiático, e acontecem fervorosas discussões sobre seu futuro e o que será da liberdade da internet para os indianos. O órgão local que regula as telecons, TRAI (Telecon Regulatory Authority of India), decidirá nos próximos dias se Free Basics será ou não permitido.

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“O Free Basics, do Facebook, é um primeiro passo para conectar um bilhão de indianos a empregos, educação e oportunidades online, e no final das contas a um futuro melhor. Mas o Free Basics está em risco de ser banido, desacelerando o progresso para a igualdade digital na Índia.” — outdoor pede para pessoas fazerem ligações para apoiar a iniciativa do Facebook

O que está em jogo, na Índia e em outros países onde o Free Basics já opera, é a neutralidade da rede. Garantida pelo Marco Civil da Internet, no Brasil, ela diz respeito ao conteúdo disponível: nenhum site deve ter privilégio de navegação, nenhuma operadora pode oferecer pacotes com apenas alguns sites disponíveis. Continuar lendo

Mulheres poetas, vibrantes porém ignoradas

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Elizandra Souza, em sarau na zona sul de SP: em legítima defesa

Breve panorama sobre vozes femininas que hoje fazem versos — mas permanecem à sombra por preconceito de editores. Uma realidade em rápida transformação

Por Inês Castilho

No ano 40 do feminismo brasileiro, já não se admitem atitudes que até outro dia, naturalizadas, passavam batido. No mundo das luzes inclusive. Por exemplo, circula por aí manifesto em que intelectuais e artistas se comprometem a não participar de mesas de debates ocupadas apenas por homens – mudando assim o conceito de normalidade. Outro exemplo: questionada na última edição sobre a ausência de homenageadas, a Flip escolheu louvar este ano a escritora Ana Cristina César, segunda em 14 anos de festival – a primeira foi Clarice Lispector, em 2005.

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Ana Cristina César, segunda mulher a ser homenageada na Flip

No mundo editorial, a provocação veio de uma jovem poeta, Ana Rüsche, ao jogar na rede o texto Mulheres escrevem poesia e desaparecem, em que questiona a invisibilidade da “intensa produção de poesia feita por mulheres” no país. Ana cita livros e artigos recentes em que o placar é tremendamente desfavorável às poetas. Volta às publicações da virada do século e constata: a coisa é grave. “O que me espanta é que qualquer análise lúcida e cuidadosa dos dias de hoje iria apontar o evidente protagonismo feminino na poesia!” E então lança o dado avassalador: em todos esses livros e artigos não encontrou uma única poeta negra. Continuar lendo

Michael Moore: por que apoio Bernie Sanders

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Para cineasta, elites agem de forma baixa, ao “acusar” candidato de socialista. E pode ser inútil: número crescente de norte-americanos opta por“partilha”, diante da “cobiça”

Tradução: Henri Figueiredo, editor do site Tempus Fugit

Meus caros amigos,

Quando eu era criança, eles disseram que não havia nenhuma maneira deste nosso país de maioria protestante eleger um católico como presidente. Em seguida, John Fitzgerald Kennedy foi eleito presidente.

Na década seguinte, disseram que a América não elegeria um presidente do “Sul profundo”(¹). O último a conseguir isso por si mesmo (e não como vice-presidente) foi Zachary Taylor em 1849. E então nós elegemos Jimmy Carter presidente.

Em 1980, eles disseram que os eleitores nunca escolheriam um presidente divorciado que casou novamente. O país tinha modos muito religiosos para isso, disseram. Bem-vindo, presidente Ronald Reagan, 1981-1989.

Eles diziam que você não poderia ser eleito presidente se não tivesse servido nas Forças Armadas. Ninguém conseguia se lembrar de alguém que não servira eleito Comandante-em-chefe. Ou quem tinha confessado fumar (mas não tragar!) drogas ilegais. Presidente Bill Clinton, 1993-2001. Continuar lendo

Uma oferenda para Iemanjá

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O mar não está pra peixe nestes tempos de morte de imigrantes, poluição, guerras, aquecimento global. Oferenda, para a rainha, é esperança num futuro sem medo

Por Marcelino Freire

Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.

Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pinguins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.

Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.

Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.

Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.

Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.

Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.

Assim agem os mega-bilionários

Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número já havia caído para 58

Gráfico da Oxfam revela crescimento acelerado da desigualdade. Em 2010, eram necessários 388 mega-bilionários para igualar a riqueza de metade da população do planeta. Em 2015, este número caiu para 62

Retrato de um sistema em degradação moral: nove das dez pessoas mais ricas do mundo estão envolvidas com trabalho escravo e infantil, superexploração, espionagem e patrocínio de golpes de Estado

Por Mauro Lopes, editor do blog Caminho pra casa

Teve grande repercussão o estudo divulgado pela OXFAM segundo o qual 1% das pessoas mais ricas do mundo detêm mais riqueza que as demais 99%. No mesmo estudo, indicou-se que apenas 62 multimilionários têm riqueza equivalente à da metade da população do planeta. Veja aqui a íntegra do estudo em português. Agora, um conselheiro da entidade, que reúne 17 organizações não-governamentais, o russo Mikhail Maslennikov demonstrou como essa concentração é fruto de ação meticulosa das elites globais – veja a entrevista em português, veiculada pelo Outras Palavras clicando aqui.

A BBC Brasil apresentou em reportagem quem são os 62 multimilionários que controlam metade da riqueza mundial – leia aqui se quiser. Na reportagem da BBC há algo que é uma febre nas redes: listas. O texto apresentou os “Top Ten”, os 10 mais ricos. É uma lista reveladora do caráter do capitalismo. Da dezena listada, nove são conhecidos por práticas que incluem uso de mão de obra escrava, superexploração de trabalhadores e espionagem a serviço da agência americana de segurança (NSA). Continuar lendo

E se outro jornalismo for viável?

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Campanha de financiamento autônomo de Outras Palavras começa veloz. Novas parcerias com produtores culturais ampliam contrapartidas a quem contribui. Em meio à crise da velha mídia, parece haver esperanças

Por Antonio Martins, editor de Outras Palavras

Escrever sobre a hipótese teórica de um novo jornalismo é mobilizador – mas viver concretamente esta possibilidade é incomparável. Em sua primeira semana, os resultados da campanha para assegurar a existência e ampliação de Outras Palavras em 2016 superaram largamente nossas previsões. Entre 20 e 27 de janeiro, 159 leitores somaram-se ao programa Outros Quinhentos. Sua participação projeta entrada, ao longo do ano, de R$ 29,4 mil, e sugere que poderemos alcançar ou mesmo superar a meta fixada. Além disso, novas parcerias com produtores culturais permitem ampliar, agora, as contrapartidas a quem nos apoia. Os resultados são ainda mais expressivos porque contrastam com a crise aguda vivida pela velha mídia brasileira – apesar da farta publicidade corporativa e das benesses incessantes do governo federal.

Este ano, o programa de financiamento autônomo de Outras Palavras precisa arrecadar R$ 210 mil. O valor corresponde a 85,8% de nosso orçamento, que é público. Aberta em 20/1, a fase final do esforço estende-se até os feriados da Páscoa. Em dez semanas, precisávamos arrecadar R$ 161,7 mil. Os R$ 29,4 mil dos primeiros sete dias correspondem a 18,2% deste valor. Faltam, agora, R$ 132,3 mil. Um número expressivo (e crescente) de leitores compreende a necessidade de apoiar voluntariamente um trabalho que fazemos questão de oferecer sem catracas.


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Outros Quinhentos oferece 25 livros grátis

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Programa de sustentação autônoma de Outras Palavras propõe obras que examinam temas contemporâneos cruciais. Oferta é possível graças a parceiras não-mercantis com produtores culturais

Por Antonio Martins


MAIS:
Para participar de Outros Quinhentos, o programa que garante a independência e a ampliação constante deste site, entre aqui

Marilena Chauí comparece com Conformismo e Resistência, coletânea de ensaios famosos, totalmente revisados à luz dos anos recentes. Do economista negriano Maurizio Lazzarato, propomos Signos, Máquinas, Subjetividades. Os riscos implícitos na atual conjuntura brasileira estão expostos em Direita, Volver, série de artigos que tem despertado intenso debate. Para um exame a fundo sobre os dilemas da esquerda, há Rosa Luxemburgo ou o preço da Liberdade. São apenas quatro, entre 25 títulos queOutras Palavras oferece grátis, até 25 de janeiro, a quem aderir a Outros Quinhentoso programa de sustentação autônoma do qual virão, neste ano, 85,8% de nossos recursos. Veja aqui como obter os livros.

A oferta é possível por dois motivos. Primeiro, procura impulsionar a segunda e última fase de nosso esforço de captação de recursos junto aos leitores, em 2016. Começamos muito bem: já obtivemos, na virada do ano, R$ 67,2 mil. Porém, precisamos levantar, nas próximas dez semanas, R$ 142,8 mil. (veja nosso orçamento). Os livros são uma retribuição simbólica – porém significativa – a quem participa da manutenção e ampliação de nosso trabalho editorial. Continuar lendo

Quem tem almoço grátis em São Paulo

COL; (c) City of London Corporation; Supplied by The Public Catalogue Foundation

COL; (c) City of London Corporation; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Ou: algumas verdades sobre concentração de riquezas e injustiça tributária no Brasil, sobre as quais o prefeito Fernando Haddad deveria refletir, antes de dar entrevistas citando Milton Friedman

Por Leonardo Gomes Nogueira | Imagem: Luke ClennelO banquete dos soberanos aliados (1814)

O cada vez mais debochado prefeito Fernando Haddad, ao atacar os manifestantes que pedem a revogação do aumento da tarifa de ônibus, metrô e trem disse (imitando os defensores mais ardorosos desse modelo) que não existe “almoço grátis”. E inovou: ao invés de mandar pra Cuba, mandou pra Disney.

Mas tem muito almoço grátis por aí. Ainda mais em um país, como o nosso, no qual a carga tributária pesa mais para os pobres e classe média do que para os ricos (há vários estudos, de diferentes instituições, que demonstram isso). Pagando menos impostos, obviamente, fica mais fácil acumular mais recursos e ampliar (ainda mais) a desigualdade vigente.

Vou dar apenas um exemplo esdrúxulo: você paga IPVA no seu carrinho e motinho. Ok. Os ricos não pagam nenhum impostinho do tipo para os seus iates e jatinhos. Isenção total.

O Imposto de Renda (IR) é outra baba para os ricos.

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