Yemen: balança um aliado de Washington

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Rebeldes cercam, em sua casa, presidente que autoriza os assassinatos seletivos praticados com drones, pelos EUA. Ocupado o palácio do governador

Por Antonio Martins

Uma peça importante no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio pode estar se movendo neste instante. Na manhã de ontem, combatentes do grupo político-religioso houthi, de tendência muçulmana xiita, tomaram o palácio presidencial do Yemen em Sana’a, a capital. Como o presidente, Abdu Rabbu Mansour Hadi, encontrava-se em sua residência particular, esta foi cercada pelos rebeldes — e assim permanece. Um automóvel da diplomacia norte-americana foi incendiado. O líder dos houthis anunciou, num discurso pela TV, que não pretende destituir o governo, mas que adotará “todas as medidas necessárias” para que as reivindicações políticas de seu grupo sejam atendidas.

Os novos atos indicam a retomada de uma ofensiva houthi, iniciada em setembro e motivada por duas questões. A primeira é econômico-social. As condições de vida já precárias (o Yemen é o 157º colocado, numa lista de países segundo seu Índice de Desenvolmento Humano — IDH) agravaram-se em agosto, quando o governo de Abdu Hadi eliminou subsídios e provocou alta de 100% no preço dos combustíveis. Os houthis, que existem como movimento há 25 anos e adquiriram força militar em período recente, ocuparam pontos estratégicos da capital — inclusive estações de rádio e TV. Continuar lendo

Passe Livre: o exemplo emblemático de Maricá

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Ao adotar Tarfifa Zero, cidade do interior fluminense desmente mito de que proposta é “inviável” e alimenta manifestações contra aumento das passagens em SP e RJ

Pelo Movimento Passe Livre – SP

Enquanto agora em São Paulo e dezenas de cidades a população é obrigada a lutar contra os aumentos nas tarifas, em Maricá, município do Rio de Janeiro, a história é diferente.Desde dezembro a prefeitura da cidade resolveu enfrentar a máfia dos transportes, criou uma empresa pública e novas linhas de ônibus com tarifa zero. A perspectiva é que todas linhas operem com tarifa zero até 2016. Maricá passou a ser o município brasileiro com maior número de habitantes, pouco mais de 100 mil, a oferecer tarifa zero. No próprio estado do Rio de Janeiro também oferecem tarifa zero as cidades de Porto Real e Silva Jardim, que contam em média com 40 mil habitantes.

Mas se engana quem acredita que isso significa que Maricá tem maior facilidade para ter um sistema de transporte com tarifa zero se comparado a São Paulo: apesar do sistema ser evidentemente mais barato, a capacidade de arrecadação do município também é evidentemente muito menor. Vamos lá: o orçamento anual de Maricá é de R$ 616 milhões, com uma população de 143 mil. O orçamento de São Paulo é de R$ 50,6 bilhões, com uma população de 11 milhões. Isso significa que o valor do orçamento dividido para cada habitante em São Paulo é R$ 4.496, enquanto em Maricá é de R$ 4.304.

Qual a diferença, portanto? Para nós é a vontade política de retornar ou não à população a riqueza que ela mesma produz. Em Maricá, de forma muito surpreendente, a prefeitura decidiu que a população deve ser beneficiada e ter seu direito de ir e vir assegurado. Em São Paulo, os interesses dos empresários de transporte e dos grandes empresários da cidade ainda falam mais alto.

Isso irá mudar a partir da nossa luta.

>> sexta-feira, às 17h: 2º Grande Ato #ContraTarifa na Pça. do Ciclista (av. Paulista):
https://www.facebook.com/events/339469232912789/

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Aborto: criminosa é a lei


Rosangela Talib, das Católicas pelo Direito de Decidir, sugere olhar para Uruguai — que legalizou interrupções da gravidez, ampliou educação reprodutiva e teve número de abortamentos reduzido oito vezes

Um vídeo do Coletivo Candeia

Toda mulher que recorre ao aborto, como último recurso frente a uma gravidez indesejada, o faz com sofrimento. Em países onde precisa fazê-lo clandestinamente, por ser criminalizado, o sofrimento é ainda maior. É o caso do Brasil, onde anualmente cerca de 250 mil mulheres são socorridas nos hospitais do SUS em decorrência de aborto inseguro, e estima-se que um milhão sejam praticados. Já em países onde é legalizado o número de abortamentos cai verticalmente.

“Descriminalizar o aborto significa excluí-lo do Código Penal e deixar de ser crime. Mas é preciso que seja legalizado, para que se tenha a possibilidade de atendimento nos serviços de saúde.” Quem fala é Rosângela Talib, psicóloga e mestra em Ciências da Religião (Umesp), da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, que defende a legalização do aborto, a igualdade de gênero e o Estado laico. Continuar lendo

“Ajuste fiscal”, vitória da oligarquia financeira

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Belluzzo polemiza: principal decisão de Dilma-II não foi técnica; se mantida, pode arruinar governo e futuro do lulismo

Por Antonio Martins

Em 31 de dezembro, a Rede Brasil Atual publicou excelente entrevista em que o repórter Eduardo Maretti dialoga com o economista Luiz Gozaga Belluzzo, sobre o “ajuste fiscal” iniciado pelo governo Dilma. O texto repercutiu muito menos que merecia, por motivos previsíveis. A mídia conservadora procura apresentar o “ajuste fiscal” como uma necessidade técnica – portanto, um tema que não pode ser submetido ao debate político. Parte dos defensores de Dilma torce para o mesmo. Assusta-se com as medidas já anunciadas ou em estudos – mas prefere vê-las como um recuo temporário, uma pausa incômoda e inesperada, porém necessária para cumprir, mais adiante, o governo de “Mais Mudanças” prometido pela presidente na campanha à reeleição. Belluzzo desmonta ambas hipóteses: por isso, vale examinar seus argumentos com atenção.

O “ajuste fiscal” não pode ser visto como “medida técnica” em especial porque… não funciona! — dispara o economista. Servindo-se de um exemplo de enorme atualidade, ele questiona: “Acham que devemos adotar as políticas que foram executadas na Europa e não deram certo – mas que aqui, vão funcionar. Estamos em Marte?”. Belluzzo refere-se aos programas que os europeus conhecem como de “austeridade”. Continuar lendo

Retratos de um governo acuado

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Quando presidente quiser deixar o “ajuste” recessivo, estará no final de seu mandato. Congresso não lhe dará ouvidos; mídia se encarregará de ridicularizá-la

Dois fatos ocorridos neste sábado expõem a cilada que Dilma, reeleita, armou muito cedo para si mesma, quando renunciou a aprofundar programa de mudanças

Por Antonio Martins

Como se previa, 2015 começou tenso e árido, no cenário brasileiro. As ruas do pós-reveillon ainda estão vazias e duas polêmicas já ocupam as manchetes dos jornais, noticiários de TV e sites de notícias. Ambas colocam o governo Dilma em situação delicada. Envolvem dois novos ministros: Nelson Barbosa, do Planejamento, e Ricardo Berzoini, das Comunicações.

Barbosa foi forçado a um recuo desgastante, depois de ouvir uma descompostura de Dilma. Ontem (2/1), ao tomar posse, ele acenara com a possibilidade de mudança – para pior – na fórmula de aumento do salário-mínimo. Foi lançada em 2008, como parte das medidas do governo Lula contra a crise econômica global. Garante tímida recuperação do valor real do salário. A cada 1º de janeiro, ele é reajustado por um percentual que soma a inflação registrada no anterior (medida pelo INPC) mais o aumento do PIB de dois anos atrás. Esta sistemática permitiu que, em 2014, o valor real suplantasse o de 1983, último ano do regime militar e equivalesse a mais que o dobro de 1995 (veja gráfico). Continuar lendo

Aconteceu em Kampur

Dois pequenos primatas protagonizam, num tempo de indiferença, uma cena do que poderia ser chamado de “ativismo humano, permanente e intenso”

Por Antonio Martins

Bilhões de pessoas comemoram hoje, em todo o mundo, o Natal. Acreditam sinceramente em valores e sentimentos como solidariedade, compartilhamento e amor. Às vezes, associam-nos a religiões. Outras vezes, esquecem-se — ou não chegam a enxergar — que preservar tais sentimentos e valores exige uma espécie de ativismo humanista, permanente e intenso; que eles estão em xeque sempre que alguém é destroçado pelo disparo da metralhadora de um drone, nos confins do Yemen, e não fazemos nada.

O vídeo acima pode ser visto como um elogio deste ativismo pemanente e intenso. Foi feito numa estação ferroviária em Kampur, Índia. Não tem, como protagonistas, seres humanos Trata de dois pequenos macacos. Um deles foi eletrocutado, ao passar por fios desencapados junto aos trilhos. Parece moribundo. Mas é resgatado por seu companheiro, que o retira da fenda em que caíra, bate-lhe na cara para que desperte, banha-o em água e, depois de vinte minutos, completa o salvamento com um tapinha nas costas — um “estamos juntos”. Talvez haja, nas cenas, uma lição política exemplar.

 

Sobre juros bancários silêncios nos jornais

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Roberto Setúbal (Itaú, à esq.) e Pedro Moreira Sales (Unibanco, incorporado ao primeiro), em rara aparição midiática de banqueiros no Brasil

 

Taxas podem chegar agora a 268,83% ao ano. Capturam renda da população, ampliam desigualdade e… provocam curiosas decisões editoriais na velha mídia

Por Antonio Martins

Um estudo do Procom (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) de São Paulo, divulgado nesta segunda-feira (22/12) demonstrou que subiram novamente — e estão em níveis estratosféricos — as taxas de juros que os maiores bancos cobram de seus clientes, em operações como crédito pessoal e utilização do cheque especial. Podem chegar a 268,83%.

Tais juros têm, como explicou o professor Ladislau Dowbor num artigo recente, consequências sociais e econômicas dramáticas. Eles capturam parte significativa dos salários e outras rendas dos trabalhadores, obrigados frequentemente a recorrer a crédito. Ao fazê-lo, limitam o próprio crescimento da produção e do emprego — já que parte do que seria consumido pela sociedade é entesourado pelos banqueiros, muitas vezes em “paraísos fiscais”. No entanto, você certamente não teve notícia do estudo do Procom nem na cada dos jornais impressos, nem nos destaques dos noticiários da TV. O assunto seria de importância menor? Ou seriam maiores os poderes dos que desejam evitar o debate sobre o tema? Continuar lendo

Grécia: mais próxima do poder, nova esquerda mantém seu programa

Tsipras: se o mundo anulou dívida da Alemanha, em 1953, por que não a da Grécia, agora?

Tsipras: se o mundo anulou dívida da Alemanha, em 1953, por que não a da Grécia, agora?

“Fim das políticas de ‘austeridade’ é inegociável”, diz Alexis Tsipras, do Syriza. Se eleições forem antecipadas para janeiro, sua eventual vitória sacudiria Europa

Por Antonio Martins

O líder da Frente de Esquerda Radical (Syriza), Alexis Tsipras, concedeu entrevista à Agência Reuters ontem (18/12), em Atenas. Tinha atrás de si, em seu gabinete na sede do Syriza, uma pintura grega recém-instalada — dois touros sobre um fundo vermelho. “Representam força e otimismo”, explicou. Em seguida, expôs em mais detalhes o que seu movimento-partido fará, caso chegue ao governo em janeiro. Em parte, seu discurso é o oposto ao de Lula, na “Carta aos Brasileiros”, de 2002. Está mantido (“é inegociável”) o compromisso de romper o acordo com a União Europeia, que exigiu dos gregos, há três anos, um pacote de renúncia a direitos sociais, redução de salários e desmonte de programas sociais. O orçamento do Estado será reequilibrado: os impostos pagos pela população não serão desviados para cumprir compromissos com os mercados financeiros.

Por outro lado, Tsipras evitou dar brechas às alegações — cada vez mais frequentes, na mídia de seu país e de todo o mundo — segundo as quais seria um “incendiário”, ou “populista”. Frisou que não romperá nem com o euro, nem com os credores da Grécia. Espera renegociar a dívida. Recorreu a um exemplo histórico, que coloca na berlinda a chanceler alemã Angela Merkel, partidária mais intransigente das políticas de “austeridade” na Europa. Em 1953, lembrou, dezoito países credores (entre eles, a Grécia…) concordaram em perdoar totalmente a dívida externa da Alemanha, por razões humanitárias. O país havia sido destruído por uma guerra que provocara. A população não deveria ser obrigada a sofrer ainda mais intensamente.

Por que a Grécia de hoje — que não instigou guerra alguma e já vive seis anos de recessão e declínio social — não teria direito a idêntico tratamento? Tsipras procurou colocar seus adversários na defensiva. Não queremos terremoto algum, disse ele. Mas a hipótese de uma crise europeia, provocada por um eventual não-pagamento da dívida grega, pode se converter numa “profecia que se auto-realiza”, caso não haja abertura para negociações…

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Luciana Genro fala sobre novo cenário brasileiro


Fragmentação da esquerda pode levar ao fortalecimento da direita, aponta ex-candidata presidencial pelo PSOL — que simpatiza com experimentos inovadores, como Podemos

Um vídeo do Coletivo Candeia

É preciso construir uma oposição de esquerda ao governo do PT, caso contrário a oposição de direita vai se fortalecer. Essa é a grande disputa a nos desafiar no próximo período, na visão da advogada e ex-candidata à presidência da República Luciana Genro (PSOL-RS), “porque a oposição vai crescer, com certeza”. Com uma pauta a favor das demandas populares, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) foi um dos poucos do campo da esquerda que puderam comemorar o resultado destas eleições, ao ampliar as bancadas estaduais e federal.

Para Luciana Genro, a quem mais de um milhão e meio de brasileiros confiaram seu voto no primeiro turno das eleições – o dobro do que o PSOL recebeu em 2010 –, as Jornadas de Junho expressaram-se, sim, na campanha presidencial. “Junho mostrou que o PT já não tem o controle dos movimentos sociais. Houve principalmente um movimento espontâneo da juventude, e essa espontaneidade tem sua força e sua debilidade, pois as vitórias foram muito aquém das possibilidades daquele movimento magnífico.” Continuar lendo

Tortura: Obama prende quem denunciou…

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Estado norte-americano não puniu nenhum membro da CIA envolvido em sevícias contra prisioneiros — mas encarcera quem as revelou ao mundo

Por Cauê Seignemartin Ameni

O reatamento de relações diplomáticas com Cuba, anunciado pelo presidente norte-americano, Barack Obama, na quarta-feira (17), varre para as sombras do noticiário uma injustiça em curso. Ninguém será responsabilizado pelas torturas praticadas pela CIA durante o governo Bush, relatadas num relatório de 6.700 páginas, divulgado semana passada pelo Comitê de Inteligência do Senado dos EUA. A única pessoa presa que responde a um processo relacionado ao programa de tortura é John Kiriakou, ex-funcionário da agência que revelou a existência de métodos medievais utilizados pela CIA para obter informação. Barack Obama, sucessor de Bush, é responsável pela impunidade — um sinal de que o chamado “complexo industrial-militar” tem poder cada vez maior nos Estados Unidos, seja qual for o ocupante da Casa Branca.

O vazamento das informações sobre tortura, ocorrido graças a Kiriakou, estimulou uma investigação de três anos. Um resumo de seu relatório, com 500 páginas, foi publicado semana passada. Relata em detalhes o programa de “reforço de interrogatórios” usado pela CIA. Entre as barbaridades, pode-se encontrar técnicas medievais como: manter prisioneiros em celas escuras obrigando-os a ficar acordados por 180 horas; práticas de “quase afogamento”, conhecidas como waterboarding, só que perpetradas com repetições; ameaças de abusos sexuais com cabos de vassoura e furadeiras; e entre outras atrocidades, a sujeição a “alimentação retal” sem razão médica aparente.

Em 2012, o governo Obama processou Kiriakou por ter vazado informações confidenciais sobre as torturas praticadas contra Abu Zubaydah – suposto membro da Al Qaeda. O próprio Kiriakou, veterano com 15 anos de CIA, participou da operação de captura de Zubaydah em 2002, e resolveu desabafar cinco anos depois à ABC News. Ele foi o primeiro funcionário da agência a falar publicamente sobre as práticas de afogamento simulado. Ameaçado a pegar décadas de prisão em retaliação, Kiriakou se declarou culpado em 2012 e aceitou uma pena de 30 meses. Descobriu-se posteriormente que o torturado Zubaydah não tinha, de fato, fortes ligações com a al-Qaeda. Continuar lendo