Aquela de que (sempre) falamos

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Já é hora de pensarmos Educação como projeto coletivo libertador; um direito e não privilégio; não homogênea, porque democrática

Por Carlos Eduardo Rebuá* | Imagem: Projeto Âncora

De todos os nomes evocados pelos discursos hegemônicos, seja no âmbito da pequena ou da grande política; do foro privado, público ou privilegiado; seja no Brasil ou na Guiné Equatorial, a educação é sem dúvida a “entidade” mais popular e eficaz. Para ficarmos apenas no exemplo mais recente e mais citado na grande mídia e nas redes sociais, temos o lema da “Pátria Educadora”, encampado pelo governo após a mais acirrada disputa presidencial desde 1989: “Ao bradarmos ‘Brasil, pátria educadora’, estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades (…) só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero (…)” [1].

Se pegamos como panorama apenas as últimas duas décadas, como não lembrar da irmã do piloto Ayrton Senna, no mesmo ano de sua morte (1994), anunciando a criação do Instituto que leva o nome do ídolo brasileiro, ONG que integra o Movimento Todos pela Educação [2] e que busca produzir conhecimentos“para melhorar a qualidade da educação, em larga escala”? Quem não se recorda do senador Cristovam Buarque, primeiro ministro da Educação de Lula, em sua candidatura própria à presidência em 2006, contra Lula, empunhando a bandeira da “Revolução da Educação”, encarada como a solução imediata para todas as mazelas sociais da nação (e por isso virando piadas virais internet afora)? Continuar lendo

Poemas destinados a surpreender

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Obra de Solange Padilha “trabalha o corpo e o movimento das palavras, como um dançarino num palco em brasas — e não queima os pés”

Por Inês Castilho

Chega a São Paulo Escrita Labial, um livro com “finas doses de poesia”. A autora, Solange Padilha, nasceu em Belém do Pará e vive no Rio de Janeiro. Feminista, participou dos primeiros coletivos de mulheres no exílio durante a ditadura militar, em Paris, e de volta ajudou a fundar o jornal Nós Mulheres, em São Paulo. Formada em Ciências Sociais pela Sorbonne e doutorada em Antropologia pela PUC-SP, publicou dois livros de poemas: Saphographia (1987) e Dadaandaainda ( 1992).

No Rio, onde foi lançado, Escrita Labial mereceu comentários elogiosos e uma rara resenha de Elias Fajardo (O Globo, 27.12.14), “Convite a uma viagem rumo ao desconhecido”. Continuar lendo

Brasil: um país impossível?

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São muitas as medidas necessárias para enfrentar a crise civilizatória em que nos metemos. Investigar os donos dos 20 bilhões de dólares do HSBC seria um bom começo

Por Alessandra Nilo

Enquanto o mundo enfrenta uma combinação de crises sem precedentes: de produção, de padrões de consumo, de relações financeiras e sociais, aqui no Brasil os ‘líderes’ não saem do palanque. A contagem do planeta é regressiva, e prefere-se ignorar a derrocada de princípios que são essenciais para a própria condição humana. Mas não adianta fingir-se de cegos: todos correm juntos e de mãos dadas para um tamanho desastre ético que, num mundo globalizado, não terá fronteiras nem limites.

É verdade que o aumento das informações circulando torna as desigualdades e violências mais evidentes e dificulta justificar o porquê, com tantas tecnologias e com tanto conhecimento disponíveis, as iniquidade persistem enquanto corporações e interesses privados se fortalecem. Hoje é mais fácil entender como os grupos que controlam armas, alimentos, energia, medicamentos, drogas (inclusive as legais) e o setor financeiro transformaram-se em grandes ‘famílias’ de transnacionais com poderes maiores até do que a maioria dos países. Continuar lendo

Outros Quinhentos propõe nova forma de sustentar a mídia livre

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Programa de sustentação autônoma de “Outras Palavras” oferece contrapartidas a quem contribui com jornalismo de profundidade. Em breve, canal alternativo para circulação de produtos da Economia Solidária

O começo é modesto. Quem acessar, a partir de hoje, a página de contrapartidas de Outros Quinhentoso programa por meio do qual os leitores de Outras Palavras participam da sustentação autônoma do site – encontrará quatro ofertas. Gratuidade em eco-bolsas e camisetas, assinadas pela cartunista Laerte Coutinho e a fotógrafa Mariana Caldas. Gratuidade e descontos em livros das editoras N-1 e Perseu Abramo. Descontos nos doces surpreendentes produzidas pelo empreendimento social Mermeleia. Em breve, descontos nos cursos do programa Outros Saberes (aguarde detalhes, após o Carnaval) e nas formações (sobre Feminismo, Alternativas ao Sistema Prisional e Diversidade de Gênero) oferecidas pelo Instituto Innana. Mas apesar da variedade ainda limitada de propostas, o projeto é inovador e, em certa medida, ambicioso.

Lançado há pouco mais de um ano, Outros Quinhentos busca assegurar a continuidade do jornalismo produzido por Outras Palavras. Há três meses, o programa foi retomado, agora direcionado à sustentação do site em 2015. Queremos arrecadar até o final de março, junto a dezenas de milhares de pessoas que leem e consultam nossos textos (15 mil páginas lidas ao dia, em média, em 2014), R$ 160 mil. Estes recursos permitirão manter a equipe com que contamos no ano passado – e direcionar eventuais receitas suplementares para a expansão de nosso projeto editorial. Do total previsto, já arrecadamos 32% – R$ 52.220

Mas Outras Palavras quer ir além de sua própria sustentação autônoma. Outros Quinhentos foi criado para se converter, aos poucos, num canal alternativo de circulação de produções culturais independente e produtos da Economia Solidária. A proposta é substituir a lógica alienante da publicidade tradicional por relações de informação e reciprocidade. Funciona assim: Continuar lendo

A Grécia decide não retroceder

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

Pressionado pela União Europeia, primeiro-ministro Tsipras anuncia ao Parlamento que implementará “integralmente” programa que o elegeu — a começar da Reforma Tributária

No Ekathimerinide Atenas | Tradução: Vila Vudu

Com semana difícil pela frente para a Grécia, e sob pressão crescente dos credores, o primeiro-ministro Alexis Tsipras apresentou ontem ao Parlamento seu programa político de governo, prometendo implementar as promessas pré-eleitorais de revogar medidas de austeridade, embora não todas ao mesmo tempo. “Temos um único compromisso – servir aos interesses do povo e ao bem da sociedade” – disse Tsipras, acrescentando que é decisão irrevogável de seu governo implementar “integralmente” as promessas de campanha.

O premiê disse que o governo não tentará qualquer prorrogação do “resgate” da Grécia. Disse que seria “prorrogar os mesmos erros e o mesmo desastre”; reiterou que os gregos exigem um acordo “ponte” a ser firmado até que se alcance “acordo mutuamente aceitável” com os credores. “Não temos nenhuma intenção de ameaçar a estabilidade na Europa”, disse ele, acrescentando que, contudo, não “negociaria” a soberania do país. Continuar lendo

Yemen: balança um aliado de Washington

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Rebeldes cercam, em sua casa, presidente que autoriza os assassinatos seletivos praticados com drones, pelos EUA. Ocupado o palácio do governador

Por Antonio Martins

Uma peça importante no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio pode estar se movendo neste instante. Na manhã de ontem, combatentes do grupo político-religioso houthi, de tendência muçulmana xiita, tomaram o palácio presidencial do Yemen em Sana’a, a capital. Como o presidente, Abdu Rabbu Mansour Hadi, encontrava-se em sua residência particular, esta foi cercada pelos rebeldes — e assim permanece. Um automóvel da diplomacia norte-americana foi incendiado. O líder dos houthis anunciou, num discurso pela TV, que não pretende destituir o governo, mas que adotará “todas as medidas necessárias” para que as reivindicações políticas de seu grupo sejam atendidas.

Os novos atos indicam a retomada de uma ofensiva houthi, iniciada em setembro e motivada por duas questões. A primeira é econômico-social. As condições de vida já precárias (o Yemen é o 157º colocado, numa lista de países segundo seu Índice de Desenvolmento Humano — IDH) agravaram-se em agosto, quando o governo de Abdu Hadi eliminou subsídios e provocou alta de 100% no preço dos combustíveis. Os houthis, que existem como movimento há 25 anos e adquiriram força militar em período recente, ocuparam pontos estratégicos da capital — inclusive estações de rádio e TV. Continuar lendo

Passe Livre: o exemplo emblemático de Maricá

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Ao adotar Tarfifa Zero, cidade do interior fluminense desmente mito de que proposta é “inviável” e alimenta manifestações contra aumento das passagens em SP e RJ

Pelo Movimento Passe Livre – SP

Enquanto agora em São Paulo e dezenas de cidades a população é obrigada a lutar contra os aumentos nas tarifas, em Maricá, município do Rio de Janeiro, a história é diferente.Desde dezembro a prefeitura da cidade resolveu enfrentar a máfia dos transportes, criou uma empresa pública e novas linhas de ônibus com tarifa zero. A perspectiva é que todas linhas operem com tarifa zero até 2016. Maricá passou a ser o município brasileiro com maior número de habitantes, pouco mais de 100 mil, a oferecer tarifa zero. No próprio estado do Rio de Janeiro também oferecem tarifa zero as cidades de Porto Real e Silva Jardim, que contam em média com 40 mil habitantes.

Mas se engana quem acredita que isso significa que Maricá tem maior facilidade para ter um sistema de transporte com tarifa zero se comparado a São Paulo: apesar do sistema ser evidentemente mais barato, a capacidade de arrecadação do município também é evidentemente muito menor. Vamos lá: o orçamento anual de Maricá é de R$ 616 milhões, com uma população de 143 mil. O orçamento de São Paulo é de R$ 50,6 bilhões, com uma população de 11 milhões. Isso significa que o valor do orçamento dividido para cada habitante em São Paulo é R$ 4.496, enquanto em Maricá é de R$ 4.304.

Qual a diferença, portanto? Para nós é a vontade política de retornar ou não à população a riqueza que ela mesma produz. Em Maricá, de forma muito surpreendente, a prefeitura decidiu que a população deve ser beneficiada e ter seu direito de ir e vir assegurado. Em São Paulo, os interesses dos empresários de transporte e dos grandes empresários da cidade ainda falam mais alto.

Isso irá mudar a partir da nossa luta.

>> sexta-feira, às 17h: 2º Grande Ato #ContraTarifa na Pça. do Ciclista (av. Paulista):
https://www.facebook.com/events/339469232912789/

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Aborto: criminosa é a lei


Rosangela Talib, das Católicas pelo Direito de Decidir, sugere olhar para Uruguai — que legalizou interrupções da gravidez, ampliou educação reprodutiva e teve número de abortamentos reduzido oito vezes

Um vídeo do Coletivo Candeia

Toda mulher que recorre ao aborto, como último recurso frente a uma gravidez indesejada, o faz com sofrimento. Em países onde precisa fazê-lo clandestinamente, por ser criminalizado, o sofrimento é ainda maior. É o caso do Brasil, onde anualmente cerca de 250 mil mulheres são socorridas nos hospitais do SUS em decorrência de aborto inseguro, e estima-se que um milhão sejam praticados. Já em países onde é legalizado o número de abortamentos cai verticalmente.

“Descriminalizar o aborto significa excluí-lo do Código Penal e deixar de ser crime. Mas é preciso que seja legalizado, para que se tenha a possibilidade de atendimento nos serviços de saúde.” Quem fala é Rosângela Talib, psicóloga e mestra em Ciências da Religião (Umesp), da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, que defende a legalização do aborto, a igualdade de gênero e o Estado laico. Continuar lendo