Amazônia: a “proteção” de Temer desvendada

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Floresta Nacional de Jamanxin, no Pará, uma das áreas ameaçadas

Presidente vetou Medida Provisória que elimina Floresta e Parques Nacionais; mas prepara-se a enviar ao Congresso projeto de Lei com idêntico sentido

Uma nota de organizações da sociedade civil

As Medidas Provisória 756 e 758 reduzem o nível de proteção de quase 600 mil hectares de unidades de conservação (UCs). A MP 756 transforma 480 mil hectares da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, em Área de Proteção Ambiental (APA) e reduz o Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, em 20% de sua extensão original. A MP 758 também transforma 100 mil hectares do Parque Nacional de Jamanxim em APA, também no Pará. A desproteção é incontestável porque a APA é uma categoria de UC que permite o desmatamento, mineração e a venda de terras. Isso vai resultar na regularização de todos que ocuparam terras em seu interior, inclusive alguns dos maiores grileiros e desmatadores da Amazônia.

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mais de 67% dos ocupantes da Flona entraram pouco antes ou logo após a criação da área. Devido ao desmatamento decorrente dessa ocupação irregular, a Flona do Jamanxim perdeu 117 mil hectares de floresta, entre 2004 e 2016, gerando uma emissão de 70 milhões de toneladas de CO2.

O clamor pelo veto dessas MPs foi amplo, reunindo pesquisadores, ambientalistas, artistas, governos, órgãos internacionais, setores do próprio agronegócio e o Ministério do Meio Ambiente. O Palácio do Planalto anunciou o veto integral à MP 756 e o veto parcial da MP 758.

Nos últimos dias, veio a público um vídeo onde o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, já anunciava que a Presidência vetaria a MP 756. O problema é que, de acordo com o ministro, será enviado um projeto de lei ao Congresso, em regime de urgência, propondo a transformação daqueles mesmos 480 mil hectares da Flona de Jamanxim em APA. Isso significa que o veto apenas serve para transferir do presidente para o Congresso, hoje dominado por parlamentares sem compromisso com a conservação ambiental, a responsabilidade de desproteger essa parcela significativa da floresta amazônica. Continuar lendo

Lembrança dos ventos no fundo do mar

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A atmosfera é uma camada tão fina que um sopro pode fazê-la desaparecer. A vida é grandiosa, mas mais precária do que lembramos todos os dias. Porque somos tão [email protected]….

Nota de Patrícia Cornils

Coisas do mundo… A primeira vez que me dei conta de que venta no fundo do mar foi quando estava mergulhando ao lado de um atol e, numa rachadura na parede de coral por onde a água entrava, ficamos nos segurando nas pedras do chão e sentindo, como bandeiras estendidas, que ela vinha em rajadas. “A água é como o vento!!”, eu sentia, conforme as rajadas nos empinavam e depois… paravam. Lindo, como um silêncio no movimento. Se eu nunca tivesse lido A Luz é Como a Água, um conto maravilhoso do Garcia Márquez, talvez não tivesse conseguido formular isso tão claramente.

Daí outro dia li este poema da Emily Dickinson (desculpem a má tradução):

I think that the Root of the Wind is Water —
It would not sound so deep
Were it a Firmamental Product —
Airs no Oceans keep —
Mediterranean intonations —
To Current’s Ear —
There is a maritime conviction
In the Atmosphere.

Acho que a Raiz do Vento é Água —
Ele não soaria tão profundo
Fosse um Produto do Firmamento —
Ares não soam Oceanos —
Toadas Mediterrâneas —
A Ouvidos de todo dia —
Há uma convicção marítima
na Atmosfera.

A primeira vez que me dei conta com clareza de como a Terra é frágil foi ao entrevistar Mark Shuttlewoth, criador do Ubuntu, milionário da internet que usou parte de sua fortuna para se tornar o primeiro civil a viajar até a Estação Espacial. A conversa era sobre tecnologia mas no final não resisti. Queria falar sobre o que importa… “Como é a Terra vista de lá?. É mesmo azul?”, foi o que consegui perguntar. “A atmosfera é uma camada tão, mas tão fininha, que parece que um sopro pode fazê-la desaparecer.” A vida é grandiosa mas mais precária do que lembramos todos os dias. Porque somos tão [email protected]….

Seriam os evangélicos novos ativistas digitais?

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Forte presença na política brasileira, pentecostais são agora protagonistas nas redes sociais. Despertam controvérsias. Pesquisadora sustenta: nem todos são conservadores, ao contrário do que se pensa

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“Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital”
De Magali do Nascimento Cunha, Editora Prismas
Pré-lançamento, via internet, em 19/06, às 20h, ao vivo, aqui
Lançamentos em agosto e setembro

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A presença dos evangélicos na sociedade e na política aumentou significativamente no país, nas últimas décadas. Nas mídias sociais, sua visibilidade como ativistas políticos surge especialmente a partir de 2010. Contudo, ao contrário do que se imagina, eles não são um grupo uniforme, e sim um segmento formado por uma variedade de grupos, de distintas origens, práticas e doutrinas, com diferentes posturas e projetos no campo político.

Mais abertas à participação pública, as mídias digitais deixam clara esta diversidade, negada pelas grandes mídias – afirma Magali do Nascimento Cunha, professora da Universidade Metodista de São Paulo, que está lançando o livro Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital. “O conservadorismo, marca com que esse segmento religioso foi estabelecido no Brasil a partir do século 19, é intenso nas redes. Mas grupos progressistas também fazem parte do mosaico que compõe a diversidade evangélica no Brasil e encontram nas mídias sociais um espaço de expressão que os tira da periferia do segmento e da invisibilidade que lhes é destinada pelas grandes mídias religiosas e não-religiosas. Estes são os grupos que mais merecem atenção nesta atual dinâmica da presença dos evangélicos na política”, afirma a autora.

Por meio de pesquisa no Facebook e no Twitter, Magali levantou os perfis mais atuantes entre ativistas digitais evangélicos e traçou um quadro com suas características em termos de influência nas mídias. “Não é mais possível ignorar o lugar das subjetividades e de práticas coletivas delas decorrentes, como as religiões, na construção de novas formas de reação às demandas tão diversas e plurais na contemporaneidade. E aí está incluída a esfera política”, afirma.

“A presença de evangélicos e de outros grupos religiosos na arena política é parte da dinâmica democrática, e por isso não deve ser criticada com a alegação de que o Brasil é um Estado laico”. Estado laico não é sinônimo de Estado ateu, lembra ela. “Um Estado laico deve ser espaço de liberdade de crença, o que significa espaço para a manifestação pública dos que têm algum tipo de crença e dos que não têm.”

Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital trabalha na interface entre as áreas de mídia-religião-política e pode ser um ponto de partida para novas pesquisas que aprofundem a dinâmica da presença religiosa na esfera pública do Brasil de hoje. Magali do Nascimento Cunha é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) (Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura/MIRE), com estágio pós-doutoral em Comunicação e Política pela Universidade Federal da Bahia.

Sobre golpes e atos falhos

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Eles queriam mesmo era afastar a presidenta. Mas o impiche tão descarado foi, foi se revelando tão deslavado golpe, que de vergonha, tadinhos, se precipitaram a demolir a Constituição

Por Airton Paschoa

Era só esperar 18 que não precisava nem de campanha. A oposição levava por aclamação, e sabia disso. O governo Dilma (reeleito raspando, bom lembrar) caminhava do desastroso pro catastrófico. Então por que o golpe? Demolir a Constituição de 88, sim, mas isso foi pensado a posteriori… até porque o que estão fazendo se podia fazer após a eleição, e com a legitimidade do voto. Medo do Lula? Mas o Lula, na hipótese remota de ganhar depois da catástrofe Dilma e da campanha sistemática de destruição do PT, podia até legitimar a reforma da previdência, da CLT etc., com nova epístola ao povo brasileiro.

O golpe, na verdade, sucesso à parte, foi um grande ato falho. Talvez o maior da nossa história, o mais revelador. Eles só queriam afastar uma presidenta empedernida, politicamente inábil. E, não podendo esperar, pedalaram um impiche. Mas o impiche tão descarado foi, foi se revelando tão deslavado golpe, que de vergonha, tadinhos, se precipitaram a demolir a “Cidadã”.

Então iam admitir a incapacidade congênita de conviver com a democracia? Eis o ato falho histórico. Não queriam nada disso, civilizados que são, e sempre foram, aliás, com a ideia sempre no lugar. Por isso os compreendo, e tenho até pena deles. O que não faz a vergonha! Não era nada disso, nada disso…

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

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Outras Palavras e Coletivo Elviras debatem, nesta segunda-feira, um filme instiga a refletir sobre o papel feminino no audiovisual brasileiro, e a necessidade de ampliá-lo


Cinedebate
MULHERES NO CINEMA
Com exibição do makig of de “Mulher do Pai”
Presença de Cristiane Oliveira (diretora), Heloisa Passos (diretora de fotografia), Samanta do Amaral (colorista) e Isabel Whittmann (do coletivo Elviras)

Segunda-feira, 12/6, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945 — Bixiga — S.Paulo (veja mapa) — Metrô S.Joaquim (700m) ou Brigadeiro (1km)
Grátis — Veja página do evento para detalhes e compartilhar

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas. Continuar lendo

Jacques e a Revolução, uma obra premonitória

170525_Jacques e a revolução - Ana Luiza Accioly e Katia Iunes - Foto Flávia Fafiães

Em cena, as atrizes Ana Luiza Accioly e Katia Iunes

Criadores e equipe convidam público a colaborar com o financiamento coletivo para a peça de Ronaldo Lima Lins retornar, em nova temporada, no Teatro Ziembinski, no Rio

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Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot
Peça de Ronaldo Lima Lins, dirigida por Theotonio de Paiva
Reestreia dia 9 de julho | Teatro Municipal Ziembinski
End: Rua Heitor Beltrão, s/no – Metrô São Francisco Xavier
Tel. (21) 3234.2003
Dias: 9, 16, 23 e 30 de julho de 2017
Horários: 19h30
Duração: 80 min
Valor do ingresso: 40 (inteira) 20 (meia) 15 (lista amiga)
Para apoiar, acesse aqui 

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Uma nova temporada de um espetáculo teatral, montado com financiamento coletivo, é a proposta da equipe de Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot. O êxito da peça é o que levou seus realizadores a pedir a colaboração do público para que ela volte aos palcos cariocas, em julho, desta vez no Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca.

Durante dois meses, Jacques e a Revolução foi apresentada com grande sucesso em Lonas e Arenas Culturais – equipamentos disponibilizados pela prefeitura para apresentação de espetáculos culturais nas periferias cariocas. O mesmo sucesso de crítica e público foi alcançado na temporada do Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, no tradicional bairro de Santa Teresa, em maio.

“O financiamento coletivo para a nova temporada do Jacques e a Revolução destina-se a cobrir custos da montagem, reciclagem de material e pagamento de atores e criadores do espetáculo”, explica o dramaturgo Theotonio de Paiva, diretor do espetáculo. “O teatro é público e tem a infraestrutura necessária.” O financiamento é de 8 mil reais, e na página do Catarse é possível conhecer melhor o projeto.

A peça

“É por natureza que a maioria dos seres comanda ou obedece”, propugnava Aristóteles em sua Política. E esta dicotomia – dominados e submissos – capaz de colocar uns acima e outros abaixo, feitores e escravos, patrões e criados, maridos autoritários e mulheres ‘domesticadas’, sexualidades passivas ou ativas, torturadores ou vítimas, continua como uma marca cínica do processo evolutivo civilizatório.”

Assim tem início a crítica da peça Jacques e a Revolução escrita por Wagner Correa de Araújo. E termina: “Quem é mais digno de pena? O que bate ou o que apanha?”…

A peça não se passa em nenhum lugar específico – o mundo está em foco. Desenrola-se através do diálogo entre dois personagens: o patrão, um empresário, e seu empregado Jacques, numa conversa que os coloca em confrontos bem humorados.

Apesar de escrito no início do processo de democratização do país, em 1989, à época da queda do muro de Berlim, o texto dialoga intensamente com os tempos que correm. É como se estivéssemos diante de uma espécie de expressão premonitória das sucessivas crises hegemônicas e representativa dos poderes.

Foi escrita na esteira das comemorações de 200 anos da revolução de 1789, espelhando-se na obra de Diderot Jacques o Fatalista e o Seu Amo, dos anos de aproximação da Revolução Francesa, como em 1971 havia feito o escritor Milan Kundera com Jacques e Seu Amo. O texto guarda proximidade, ainda, na relação entre patrão e empregado, com a comédia política O Senhor Puntila e Seu Criado Matti de Bertolt Brecht.

Para examinar um conjunto de ideias delineadas pelo iluminista francês, a peça reinaugura questões antigas na dinâmica dos últimos séculos da modernidade.
O “tema da viagem”, conforme aparece em Diderot, aqui se concentra num único eixo, no coração de um império econômico, metáfora do próprio sistema. Nessa condição, Jacques e o Empresário passam em revista as suas próprias histórias, ambições e derrotas.

Somos colocados diante de uma dialética envolvendo dominador e dominado, na qual há trânsito e alternância de posições. Quem estava por baixo vê-se por cima e vice-versa.

A direção de Theotonio de Paiva acentua esse jogo de espelhos, numa encenação que exercita o poder da síntese, ao trabalhar com dois naipes de personagens: dois homens e duas mulheres. Essa composição permite revelar mais claramente o jogo presente no próprio texto, favorecendo a construção dramático-narrativa entre atores e público.

A peça recebeu o Prêmio Maurício Távora – 1989 / Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, e foi contemplado com o Viva a Arte!, da Prefeitura do Rio /Secretaria Municipal de Cultura. No decorrer de 2016 foi encenada em diversas Lonas e Arenas Culturais, para público dos bairros cariocas. Em outubro realizou temporada no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, com sucesso de crítica e público.

Ficha Técnica
Direção – Theotonio de Paiva
Elenco – Abílio Ramos, Ana Luiza Accioly, Katia Iunes e Luiz Washington.
Trilha sonora original – Caio Cezar e Christiano Sauer criaram a da peça.
Direção de arte – Marianna Ladeira e Thaís Simões assinam a e Carmen Luz a Direção de movimento – Carmen Luz
Iluminação – Renato Machado
Designer gráfico – Nicholas Martins
Fotos – MarQo Rocha e Flávia Fafiães
Assessoria de Imprensa: Monica Riani
Direção de produção – Katia Iunes
Realização – Todo o Mundo Cia de Teatro
Produção – Nonada – Arte e cultura contemporânea.

Facebook://www.facebook.com/jacquesearevolucao/

SP debate estado de exceção, investida da direita e alternativas à esquerda

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Salão do Livro Político começa hoje, no teatro da PUC-SP, um dos palcos de resistência democrática na ditadura. Evento trará Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Reginaldo Nasser, Ciro Gomes e muitos outros

Por Célia Demarchi

O Salão do Livro Político, organizado por um grupo de editoras independentes de esquerda, chega à sua terceira edição. Este ano será realizado no Tucarena, teatro ligado à PUC-SP. A Universidade e seu teatro tiveram um papel importante na democratização do país: confrontaram a ditadura abrigando intelectuais perseguidos pelo regime, como Paulo Freire e Florestan Fernandes, como também foram um dos palcos que ousou exercer a democracia nos anos de chumbo — quando escolheram na sua primeira eleição, em 1977, por votos diretos a reitora Nadir Kfouri. Em retaliação, a repressão tentou destruir o teatro, incendiando-o 3 vezes.

Mesmo assim, a chama democrática continuou acesa e brilha até hoje. Como nos anos anteriores, o Salão terá uma programação extensa que perpassa os temas sociais e políticos mais candentes da atualidade. Da gravidade da atual crise política brasileira aos ciclos de poder na América Latina. Da resistência indígena à revolução em curso das mulheres e à questão dos refugiados. Da pertinência de falar sobre Marx e o marxismo hoje à discussão dos 100 anos da Revolução Russa e da primeira greve geral no Brasil. Da proposta de privatização de bibliotecas às perspectivas do mercado editorial. Tudo intercalado com uma diversificada programação cultural.

Entre os convidados já confirmados estão: Dilma Rousseff, Ciro Gomes, Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Amelinha Telles, Eleonora Menicucci, Pedro Serrano, Fabio Luis Barbosa dos Santos e Pedro Fassoni, Rafael Valim, Reginaldo Nasser, Tércio Redondo, Antonio Rago Filho, Lidiane Soares Rodrigues, João Quartim de Moraes, José Arthur Giannotti e Osvaldo Coggiola. Veja todos os convidados aqui. Continuar lendo

Torturra: as diretas-já em SP e as novas formas de política

Criolo, que estará presente no ato de São Paulo. Buscar novas formas é despolitizar?

Criolo, que estará presente no ato de São Paulo. Buscar novas formas é despolitizar?

É grosseiro dizer que as pessoas que estão produzindo o evento são apolíticas. Ou ainda: que um ato protagonizado por músicos e blocos — e não lideranças partidárias ou sindicais — seja uma micareta. Sério mesmo?

Por Bruno Torturra, em sua página no Facebook

Não estarei em SP amanhã. Uma pena. Queria estar presente no ato e shows por Diretas Já. Torço por um grande sucesso no Largo da Batata.

Acompanhei de longe muitas críticas – e alguma desqualificação gratuita – à suposta rejeição aos partidos e sindicatos. No geral não achei justo com os organizadores e artistas envolvidos. Até porque não houve rejeição alguma. Só li declarações de respeito e abertura aos movimentos supostamente “expulsos” do ato (li isso algumas vezes).

Mas achei especialmente injusta a comparação com o antipartidarismo oportunista que contaminou Junho e gerou movimentos sombrios nas ruas a partir de então.
Você pode preferir formas clássicas de organização política. Você pode preferir uma manifestação com o léxico e estética da esquerda. Você pode até não simpatizar com pessoas e grupos puxando esse ato de amanhã. E tudo certo. Mas é forçar a barra dizer que as pessoas que estão produzindo o evento são antipolîticas. Biograficamente isso não é verdade. Ou ainda: que um ato protagonizado por músicos e blocos – e não lideranças políticas ou sindicais – seja uma micareta. Sério mesmo?

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Existirmos – a que será que se destina?

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Nova peça de Nelson Baskerville sugere, na forma de um jogo teatral denso e imprevisível, que não é suportável viver sem sentido

Por Simone Paz Hernández


MAIS:
A Vida, de Nelson Baskerville
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e (hoje) 2 de junho a 9 de julho
Sextas às 21 | Sábados às 20h | Domingos às 18h
Ingressos: de R$7,50 a R$25,00
(também pela internet)
SESC Santo Amaro
Rua Amador Bueno, 505 (mapa) – São Paulo – Metrô Largo Treze (650m)

Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca”
Milan Kundera

A experiência inicial, como primeira janela ao espetáculo, é de um cenário velado, coberto por tule branco, como névoa em um sonho. A Vida não se deixa ver de forma nítida, porque a vida é nebulosa desde o nascimento.

A impressão é de que só veremos a vida, numa visão completa e panorâmica, depois que ela acabar. Estando dentro dela tudo é muito confuso, rocambolesco e surreal – e sim, é ela que imita a arte.

Mas a vida só é vida graças a uma sucessão de mortes. Neste ponto, precisamos entender que só seguimos vivendo porque deixamos pedaços de nós morrerem; e que para nossa evolução, é preciso desapegar de faces que não nos pertencem mais. Ao mesmo tempo, refiro-me à peça A Vida, do aclamado diretor Nelson Baskerville (Luis Antônio-Gabriela), que brinca de forma astuta com o necessário exercício do teatro e com a morte de cada cena.

No teatro existem os inevitáveis nascimento e morte, que trazem, a cada encontro com o público, a surpresa, o inesperado. É isto o que torna cada apresentação uma “vida” única, sem repetição e sem registros.

Em A Vida, Baskerville não só utiliza esta condição do teatro a seu favor, como potencializa a experiência por meio de um jogo de probabilidades, a partir de uma roleta composta por várias fases e 27 possíveis cenas, resultando sempre numa peça diferente para o público, por contar com milhares de combinações possíveis. Quase um cortazariano Jogo da Amarelinha nos palcos. Porém, em A Vida o principal ator é o acaso ou a sorte, nenhum mortal possui as rédeas da trama, nem o poder de definir o que virá na sequência. Ao não poderem escolher com precisão qual será a próxima cena, giram a roleta para que a magia continue acontecendo.

A partir dos traumas e dores pessoais de cada ator e do diretor, o texto perambula entre realidade e ficção – nunca saberemos o que é autobiográfico e o que pertence ao plano do delírio – e entre a leveza de sua estética que remete a shows populares de televisão e a cassinos versus o peso das histórias encenadas.

A cada fase, a vida vai ficando mais densa e a carga mais pesada.

Mas o que é o peso, se não o que nos aproxima do verdadeiro? Como bem definiu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser: “O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.”

O mundo superficial do espetáculo encontra-se com as angústias mais cotidianas possíveis, e que, por isso mesmo, nos afetam e socam o estômago. A morte de nossas vontades porque ninguém quer ouvir-nos, a morte do desejo e do corpo por causa de uma violação, a morte de um animal, a morte de um ser querido, a morte de um grande amor. Mortes e mais mortes, a cada segundo, compõem o motor que nos impulsiona.

A Vida é uma verdadeira homenagem ao teatro, por escancarar como ele é uma metáfora da existência humana, onde simplesmente entramos em cena, sem saber o que virá. É também uma homenagem à dor e à delícia de viver, é filosofia para encarar cicatrizes na alma como vitórias, afinal de contas, Vinícius de Moraes já cantava: “porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.

As referências passam por Nietzsche e Violeta Parra, mas A Vida é, sobretudo, um trabalho raro na cena teatral brasileira, por ir na contramão daquilo que estamos cansados de ver: clássicos reencenados e o trabalho muitas vezes vazio de grupos experimentais. Nelson Baskerville volta aos palcos afiado e vanguardista, e encarnando um Tennessee Williams contemporâneo e brasileiro, ao fazer, novamente, a verdade parecer mentira e a arte nos salvar do terrível.