Nunca antes na história dos Estados Unidos

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Uma pesquisa explica a porquê do fenômeno Bernie Sanders: agora, 51% da juventude norte-americana rejeitam o capitalismo. Mas.. isso basta?

A campanha meteórica de Bernie Sanders à presidência dos EUA surpreendeu o mundo. Num país em que o espírito capitalista é visto quase como parte da própria nacionalidade, um candidato que se declara “socialista democrático” e defende o controle social sobre os mercados financeiros chegou a desafiar Hillary Clinton. Como isso foi possível?

Uma pesquisa da Universidade de Harvard, divulgada nesta segunda-feira (2/5) pode ajudar a encontrar as respostas. Ela revela que 51% dos “jovens adultos” — a população entre 18 e 29 anos — rejeitam o capitalismo em sua forma atual (o “capitalismo realmente existente”, em outros palavras). Apenas 42% o apoiam. Além disso, quase 50% dos entrevistados nesta faixa de idade defendem a Saúde com um serviço público, a ser custeado pelo Estado — o que é um anátema, nos EUA. E mesmo entre os mais idosos, e eleitores do Partido Republicano, diminuiu sensivelmente a porcentagem dos que defendem as lógicas do sistema.

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E se a União Europeia perder a Inglaterra?

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Faltando sete semanas para plebiscito crucial, há um quebra-cabeças a resolver: Londres quer “exceções” que nem a Alemanha, nem os países do Leste, parecem dispostos a aceitar

Marcado para 23 de junho próximo, o referendo em que os eleitores do Reino Unido decidirão permanecer na União Europeia (UE) ou abandoná-la, tem importância global. A eventual deserção britânica enfraquecerá gravemente o bloco econômico mais rico do planeta e terá consequências políticas e simbólicas profundas. A UE expressou, no passado, o ideal de uma Europa menos desigual e não-beligerante. Com o passar do tempo, passou a ser vista como uma estrutura burocrática, de dirigentes não submetidos aos votos, que assumem papeis e poderes antes concentrados nos Estados nacionais e tornam impotentes os governos e instituições eleitos democraticamente. Qual será seu futuro, após 23/6?

Um artigo de Bernad Cassen, publicado pelo Le Monde Diplomatique francês, ajuda a enxergar o quebra-cabeças britânico. Eis suas peças principais:

> A disputa está extremamente incerta e será resolvida por margem estreita (veja o gráfico acima, no qual permanecer é representado pela curva verde, sair é a vermelha e indecisos são os azuis);

> Em tal ambiente, pode ser decisiva a posição do primeiro-ministro conservador Deavid Cameron. Ele foi eleito, por larga margem, para um novo mandato no ano passado. Só pode fazê-lo, porém, porque comprometeu-se com o plebiscito sobre a eventual retirada da Grã-Bretanha (Brexit). Convocou a consulta o mais cedo que pôde, por temer que o tempo jogue a favor da saída.

> Cameron ainda não definiu sua posição. Mantém negociações intermináveis com os demais governantes europeus; Busca obter deles exceções que lhe permitam defender, junto ao eleitorado conservador, a permanência do bloco. As duas principais são: a) aumento da soberania relativa dos Estados nacionais, diante da UE, na definição das politicas internas; e b) direito de legislar sobre imigrantes, restringindo o ingresso inclusive daqueles proveniente de países europeus.

> Estas exigências chocam-se contra dois interesses poderosos: a) os da Alemanha, altamente interessada em impor, aos demais membros do bloco, as políticas de ataque aos direitos sociais (“austeridade”) que vitimam, por exemplo, a Grécia; de todos os governantes do Leste Europeu. Eles não teriam condições de defender, junto a suas populações, a permanência numa Europa que restringe a circulação, o trabalho e a busca de oportunidades por parte de seus habitantes mais pobres.

Em meio aos dilemas, Bernard Cassen avalia que Cameron hesita demais e enerva seus parceiros de UE. Esta vacilação pode corroer tanto as chances de evitar o Brexit quanto a própria sobrevivência política do primeiro-ministro.

Os bancos tenta humilhar a Grécia de novo

O primeiro-ministro Tsipras, de quem os credores esperam uma nova humilhação

O primeiro-ministro Tsipras, que os credores querem ver rendido mais uma vez

Menos de um ano após a primeira capitulação de Atenas, outro ultimato: a aristocracia financeira nunca está saciada

Um novo terremoto financeiro, com epicentro em Atenas, pode dar-se em algumas semanas. No final do mês passado, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, rejeitou um pedido do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, para convocar um encontro de urgência dos governantes da União Europeia (UE). Além disso, ele advertiu que a eventual incapacidade dos gregos em saldar uma parcela da dívida que vence em julho poderá deflagrar novas sanções contra o país.

As pressões são um novo sinal de que são inúteis as concessões à poderosa minoria de bancos e mega-empresas que controlam os mercados financeiros do mundo. Em julho último, o governo de Tsipras, ligado ao partido de esquerda Syriza, contrariou um plebiscito e aceitou firmar, com a União Europeia e FMI, um acordo tenebroso. Em troca de um empréstimo de 86 bilhões de euros — todo ele destinado a pagar os próprios banqueiros –, Atenas aceitou reduzir direitos sociais e elevar impostos regressivos, que incidem sobre o consumo.

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Um punho erguido contra os názis

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No gesto solitário de Tess Asplund diante da marcha nazista na Suécia, mais um sinal do novo protagonismo das mulheres e negras

Por Antonio Martins

Assim como o vídeo da garota brasileira que desafia o Coronel Telhada, na Assembleia Legislativa (ocupada!) de São Paulo, a imagem de Tess Asplund, acima, viralizou — em especial nos países nórdicos. No 1º de maio ao deparar, na cidade de Borländ, com uma marcha do partido neonazista Movimento de Resistência Nórdica (NRM), ela postou seu corpo negro e magro diante de trezentos homens uniformizados, ergueu o punho esquerdo, manteve o olhar muito altivo e os encarou. Escapou ilesa.

Hoje, o Guardian londrino a entrevista. Tess, que tem 42 anos e se define como afro-sueca e integra a organização Afrophobia Focus, em defesa de imigrantes negros, conta que agiu por impulso. Pensou: “estes nazistas não podem desfilar impunemente aqui”. Agora, sente-se dividida. Tem algum medo, é claro. Mas diz: “Espero que algo positivo surja da foto. Talvez o que eu fiz possa ser um símbolo de que qualquer um pode fazer algo contra a xenofobia”.

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Breve nota sobre a merenda escolar em São Paulo

1460065823_737538_1460066899_noticia_normalAntropóloga relata seu espanto ao deparar casualmente com pobreza da comida servida aos estudantes e desânimo dos funcionários que deveriam produzi-la

Por Íris Morais Araújo*, editora do site Iricota

Em 2008, por conta de uma pesquisa freelancer, Daniela Perutti e eu almoçamos em duas escolas de São Paulo. A discrepância entre o que comemos nos chocou. No estado, arroz, nuggets e purê de batata em flocos. Eu não me recordo perfeitamente, e não tenho nenhuma anotação para conferir, da refeição da escola municipal. Mas sei que era bem mais fresca e rica, com polenta cozida, legumes e frutas.

A diferença entre as conversas com as merendeiras também nos marcou. A trabalhadora do município detalhou seu trabalho e suas experiências gustativas. Nascida em um engenho em Pernambuco, lembrava-se da quantidade de sabores – até do muçum, peixe em formato de cobra – de sua terra natal, em contraste com a monotonia do pão, o único alimento a que tinha acesso quando migrou para São Paulo. Já a merendeira do estado mal falou: lembro-me apenas da ênfase que deu do pouco que podia fazer para melhorar a qualidade daquela comida pré-pronta.

A política do Estado tornou-se a nós indefensável, pela má qualidade da refeição e pela desvalorização da trabalhadora responsável por produzi-la. Porque é política que empobrece – muito além de escândalos de corrupção – o gosto, o gesto e a fala.

* Antropóloga e professora da UNIFESP-Campus Baixada Santista.

Parque Augusta, nova esperança

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Em São Paulo, ação do Ministério Público pode tornar vitoriosa uma das grandes mobilizações contemporâneas pelo Direito à Cidade e a Reforma Urbana

Por Daniel Biral e Hugo Albuquerque

Graças à mobilização dos ativistas pela criação do Parque Augusta, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE-SP) pode, enfim, fazer com que a Justiça acabe com o imbróglio que há décadas impede a abertura do espaço — talvez a última área de Mata Atlântica localizada no centro da capital paulista. Ainda que seja uma disputa que já dura muito tempo, essa luta recentemente ganhou enorme destaque em virtude da mobilização espontânea e em redes em prol do parque, ocorrida na esteira dos eventos de 2013.

Os promotores do Núcleo de Patrimônio Público e Social do MPE-SP ingressaram, em 12/4, com uma ação civil pública (que pode ser lida na íntegra neste link) contra os atuais proprietários da área onde se localiza o Parque Augusta. Há uma semana, essa ação foi admitida pela juíza Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi, que determinou audiência de conciliação para o próximo dia 19 de maio, realizando posterior julgamento.

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“Plano industrial” de Temer é… inviabilizar as cidades

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Velho incentivo à produção de automóveis, que entusiasma vice, pode vir com dose extra de crueldade: aumentar IPVA dos carros usados, para forçar obsolescência programada

Por Antonio Martins

Ao encontrar-se há uma semana, com dirigentes da Força Sindical e de outras centrais envolvidas no golpe contra Dilma, o vice Michel Temer não escondeu sua preferência. Entre as propostas que ouviu de seus interlocutores, a que mais o entusiasmou foi, segundo relato da Agência Brasil, a “renovação da frota automobilística do Brasil”. O interesse na ideia vinha de antes e cresceu nos últimos dias. O programa econômico de Temer, que vai se tornando cada vez mais claro, inclui privatizações, concessões de serviços públicos, (contra-)reformas da Previdência e das relações trabalhistas. Será preciso temperá-lo com algo que possa ser apresentado à sociedade como capaz de “gerar empregos”. A “renovação da frota” cai como uma luva, dada a importância econômica e simbólica da indústria automobilística. Vale examinar proposta em profundidade – atentando, em especial, para um detalhe “inovador”.

Denominada Programa de Renovação de Frota e Reciclagem Veicular, ela foi apresentada oficialmente, no final de 2015, ao ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio de Dilma, Armando Monteiro Neto, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria. Não é de autoria de sindicalistas, mas de entidades empresariais como Anfavea (da indústria automobilística), Fenabrave (das revendedoras de carros) e Confederação Nacional de Transportes. Surge num contexto de crise. A produção automobilística brasileira caiu 22,8% em 2015, e deve recuar mais este ano. Pretende enfrentar as dificuldades intensificando a obsolescência programada – com o auxílio da mão do Estado. Continuar lendo

Para Clara Eliza, médica cubana

Interior do município de Bom Jesus da Lapa (BA): aqui atuou Clara Eliza

Interior do município de Bom Jesus da Lapa (BA): aqui atuou Clara Eliza

Vítima do H1N1, ela não voltará a pisar o Malecón de Havana. Mas sua presença no sertão baiano diz muito sobre solidariedade — e também sobre elitismo e preconceitos de certos grupos sociais

Por Roberto Malvezzi (Gogó) | Imagem: Carlos Moura

Faleceu em Bom Jesus da Lapa a médica cubana Clara Eliza, 46 anos, vítima do H1N1. É imperdoável que aqueles que lutam para pôr um limite na crueldade do sistema capitalista, expresso na saúde pública, não digam uma única palavra.

Quando cheguei para morar no sertão, Campo Alegre de Lourdes, Bahia, junto com outros colegas, o índice de desenvolvimento humano sequer era calculado. Em 1990 era de 0,27. Em 2000 era de 0,32. Em 2010 era de 0,56. Ainda um dos mais pobres do Brasil, mas já não índice de miséria absoluta.

Um prefeito do PCdoB, alguns anos atrás, quis contratar um médico permanente para o município. Dispunha-se a pagar 22 mil reais ao mês, e nunca conseguiu um brasileiro que se encarasse morar naquele sertão.

Nos últimos anos, três médicos cubanos, alocados no “Mais Médicos”, não só foram morar em Campo Alegre, mas habitaram o interior do município, onde só íamos nós e quando havia a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, Sucam.

A solidariedade é uma das mais belas virtudes de alguns seres humanos. É a capacidade de se colocar no lugar do outro, assumir suas dores e problemas e se comprometer com os mais vulneráveis ao preço da própria vida.

Bom Jesus da Lapa, cidade santuário do Bom Jesus e de Nossa Senhora da Soledade, nas grutas às margens do rio São Francisco, conhece agora essa solidariedade ao extremo.

Em tempos de mesquinharia total, de almas pequenas, de disputas mortais pelo poder, Clara Elisa é o sinal que as virtudes do ser humano ainda subsistem em alguns corações.

Zé Celso convida: “dar um Golpe no Golpe”!

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: "Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura"

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: “Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura”

Diretor reencena este fim de semana, em S.Paulo, peça de Antonin Artaud. Quer transformá-la em “Carnaval delicioso”, em “festa de justiça teatral somada a outras Milhares de Manifestações”

Por José Celso Martinez Correa


“PARA DAR UM FIM NO JUÍZO DE DEUS”
De Antonin Artaud e Teatro Oficina

Duas apresentações em São Paulo
Dias 30/4 (sábado) às 21h e 1º/5 (domingo)
Rua Jaceguai, 520 – Bixiga (mapa)

Retorna a SamPã neste fim de semana, depois de passar as duas últimas semanas em Brasília, com o ineditismo de uma peça que re-existe no quente da hora, sintonizada com os acontecimentos tragicômicos da Farsa Política do Golpe.

Nos meus 58 anos de Teatro, raramente viví o Poder Político Cultural do Teat®o tão intenso no prazer de Chanchar a Trágédia Golpista.

Um Público inspiradíssimo, ligado aos acontecimentos de cada dia, que lotava o Teatro da Caixa Econômica, nos fez virar a peça de Artaud, agora com as Máscaras dos Protagonistas armando o Golpe em nome de deus, num Carnaval delicioso.

Nem nos anos 60, com “Rei da Vela”, “Roda Viva”, sentí o Poder do Teat®o revelar uma peça como “pra dar um FIM NO JUIZO de deus” do Momo, do Palhaço de deus: Antonin Artaud, como um Jogo Tão desmistificador da Farsa que estamos vivendo no Brasíl.

Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura.

Queremos fazer neste fim de Semana a peça no Teat®o Oficina, pois nosso desejo de justiça teatral é correr agora todo o Brasil enquanto o Golpe não se consolida, por termos a humilde pretensão de que “pra dar um Fim no Juizo de deus” pode, pelas Gragalhadas, ser um dos pontos somados a todas as outras Milhares de Manifestações.

dar um Golpe no Golpe!

Agenda: hoje, em SP, lançamento de Párias da Terra

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Deni Rubbo, colaborador de “Outras Palavras” produziu um livro essencial sobre a mundialização das lutas do MST. Leia a seguir a opinião do sociólogo Ruy Braga


LANÇAMENTO:
Párias da Terra, de Deni Rubbo
Terça, 19/4, a partir das 18h30, em São Paulo

Livraria Martins Fontes
Avenida Paulista, 509 – Centro – Metrô Brigadeiro (mapa)

“O livro de Deni Rubbo consiste na primeira grande análise sociológica da internacionalização do mais importante e dinâmico movimento social da história recente do país: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Apenas por essa razão, este livro já mereceria ser lido e debatido. No entanto, Deni Rubbo vai além e nos brinda com uma exemplar pesquisa de campo e com uma arguta reflexão teórica e crítica acerca do atual modelo de desenvolvimento capitalista latino-americano. Por tudo isso, este livro não apenas deverá seduzir os leitores que se interessam pela trajetória e destino histórico do MST, como também aqueles que se ocupam dos atuais dilemas enfrentados pelas sociedades e governos em nosso subcontinente”.

Ruy Braga, professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP).