Internet, o novo alvo do governo Temer?

Planalto ameaça alterar composição do CGI – o comitê que garante liberdade e direitos na rede. Veja quais os riscos

Por Antonio Martins

No vídeo acima, produzido por Outras Palavras em agosto de 2016, dois grandes estudiosos de Comunições e Redes – Rafael Evangelista e Refael Zanatta – descrevem o papel e a importância decisiva do Comitê Gestor da Internet brasileira, o CGI. O órgão, explicam eles didaticamente, tornou-se um garantidor da liberdade de expressão, da privacidade e da neutralidade da rede. Além disso, sua composição única tornou-se referência internacional. É formado por representantes do governo, do setor privado, da sociedade civil e por especialistas técnicos e acadêmicos. Muitos analistas, em todo o mundo, veem esta arquitetura como uma possível alternativa para a governança de toda a rede global.

Ontem, a Coalizão Direitos na Rede, divulgou um alerta. O governo Temer, adverte o texto, começou a preparar um ataque ao CGI. Tenta-se disfarçar ação, mas seus reais objetivos são claros. O Diário Oficial da União publicou ato abrindo “consulta pública” que visa alterar a composição, forma de eleição e atribuições do Comitê. Nâo há, no decreto, nenhuma indicação sobre como se fará esta “consulta”. O principal representante do governo federal no órgão, Maximiliano Martinhão tem defendido abertamente a captura dos dados pessoais dos internautas sem seu conhecimento e o fim da neutralidade na rede.

A luta está apenas começando. A Coalizão Direitos na Rede anuncia que questionará e tentará anular o decreto presidencial. Considera-o ilegal, por atropelar o Marco Civil da Internet. Anuncia que, além de mobilizar a sociedade civil, denunciará o atentado internacionalmente.

A entrevista provocara de Evangelista e Zanatta (“Internet Ameaçada”) debate, além do CGI, as ameças à rede em todo o mundo. Tornou-se mais atual que nunca. Além do trecho acima, você pode assisti-la na íntegra, em nosso canal do YouTube.

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Amor a Caetano, 75

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“A beleza salvará o mundo”, disse Dostoiéviski. Em tempos trágicos de Brasil em transe, é revigorante saber que, artista e belo, ele resiste a ditaduras, exílios, censuras e ódios

Por Juliana Magalhães

Era 1967 e o domingo ainda não era no parque. Era um Domingo de ventania que balança saias de seda das meninas em uma praça longe do mar, ainda que estivesse acesa a memória viva e líquida da atmosfera baiana: onde eu nasci passa um rio. Rio esse que não deságua apenas no mar. Atravessa e deságua no lirismo de Caetano Veloso. O disco de lançamento de Caetano e Gal Costa, Domingo, possui qualquer aspiração perene: brisa verde, verdejar/vê se alegra tudo agora. Há sol e há lua. Há o amor presente em sonho e em distância. Há Caetano num gesto de tamanha delicadeza, rogando ao sabiá para dizer o que precisa ser feito para não morrer de amor, em Zabelê. O suspiro pela saudade do mar e de todos os simbolismos que refletem a Bahia como um fim de tarde que nunca passa. Um domingo insólito, consumido não pela monotonia característica do dia, mas pelo sentimento afável em ritmo bossa-novista e por reflexões líricas.

Em 1968, distanciou-se da suavidade irretocável de Domingo, rompendo com o molde esférico e leve da bossa nova. São tempos de Terra em Transe do Gláuber Rocha e de leituras provocadoras de Brasil. A beleza agora é totalmente outra e o tropicalismo começa a dar o seu primeiro respiro no disco Caetano Veloso – 1968. No centro da capa vermelha há Caetano, rodeado de uma paisagem intrépida: uma mulher de cabelo laranja com folhas na cabeça com uma cobra do corpo; um dragão; bananas e mais folhas verdes. A faixa inaugural do disco não é só início do Tropicalismo, é um início do olhar primeiro de Brasil. Um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha: o primeiro registro histórico e literário do país. Nesse disco há Carmem Miranda, Iracema, Brigitte Bardot, Coca-Cola, Bahia, entre outros símbolos modernos que nos inserem num espaço-tempo. Caetano explode a linguagem e a música utilizando-se antropofagicamente de vários elementos. Navegar é preciso. E experimentar também.

No ano em que o compositor completa 75 anos de vida, seria possível discorrer e fazer infinitas análises críticas sobre mais discos geniais de Caetano Veloso: Tropicália ou panis it Circense (1968); Transa – 1972; Jóia- 1975; Muito (Dentro da estrela azulada) (1978); Cinema Transcendetal (1979) entre tantas obras intocavelmente bonitas, lúdicas, políticas e inteligentemente pensadas por Caetano Veloso para o ‘terceiro mundo’. Mas não quero falar sobre isso. Quero falar da beleza viva de Caetano. Em tempos trágicos de Brasil em transe, é significativo e revigorante saber que Caetano Veloso respira e pensa brilhantemente há 75 anos. E resiste: à ditaduras, exílios, censuras, ódios. E mais uma vez, resiste a golpes. Artista e belo. O canto de Caetano há 75 anos faz ecos e mais ecos em diversos mundos dentro de um só Brasil e em diversos mundos dentro da gente. ”A beleza salvará o mundo” disse Dostoiévski. Eu acredito nesses dizeres porque acredito, sobretudo, em Caetano Veloso. Tempo, ouve bem o que te digo: que a beleza de Caetano resista por mais 75 anos a você e a todo o resto: golpes, ruídos, ódios, e outras coisas a mais – que infelizmente – não são tão belas assim.

Reforma Política – a nova disputa

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Brasília ameaça tornar ainda piores o sistema eleitoral e seu financiamento. Ativistas e cientistas políticos buscam uma saída de sentido oposto – e convidam para um debate, nesta segunda-feira


DEBATE:
> O que fazer para reformar a política: 1. Financiamento eleitoral e partidário
Segunda, 7/8, às 19h
Com Vigência, Nova Democracia, Outras Palavras, MTST, Arrua, Bancada Ativista
E mais: Ladislau Dowbor (PUC-SP), Oswaldo Amaral (Unicamp), Wagner Mancuso (USP)
> Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – São Paulo (mapa) – Metrô São Joaquim ou Paulista
Entrada grátis – ajude a divulgar
aqui

Mal acabou a última sessão macabra – em que o presidente Temer ofertou R$ 17 bilhões aos deputados, para bloquear a investigação das propinas que teria recebido da JBS – e já começa, em Brasília, um novo show de horrores. Na próxima semana, o Congresso começará a fechar, de costas para a sociedade, o pacote do que chama de “Reforma” Política. Nada, no que está em debate, permitirá que a sociedade tenha algum controle sobre o que é decidido em seu nome.

Ao contrário: no momento em que se multiplicam os cortes de verbas para serviços públicos essenciais, deputados e senadores preparam-se para contemplar seus próprios partidos com um presente. Um fundo eleitoral poderá destinar R$ 3,5 bilhões para o financiamento das campanhas eleitorais – que alguns já consideram as mais caras do mundo. O valor saltaria para R$ 6 bi, já em 2018.

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A canção cubano-gaúcha de Pássaro Poeta

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Poemas de Tony Guerreiro, um dos Cinco Cubanos que EUA aprisionaram até 2015 são musicados por compositores brasileiros e lançados em CD

Por Kátia Marko


MAIS
Para ouvir algumas das canções, tocadas no lançamento do CD: aqui
Para comprar o CD: aqui, via internet;
ou, presencialmente, em Outras Palavras:

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – sala 2 – Bixiga – São Paulo

No dia 13 de junho foi lançado em Porto Alegre o CD Pássaro Poeta, com poemas de Antônio (Tony) Guerrero, musicados pelos músicos gaúchos Dão Real e Zé Martins (Grupo Unamérica), Pedro Munhoz e Raul Ellwanger.

A ideia de produção deste CD acompanhado de um livreto como encarte, surgiu no Fórum Social Temático 2010, no evento Casa Cuba, realizado na cidade de São Leopoldo/RS. Na ocasião, o músico cubano Vicente Feliú entregou aos quatro músicos gaúchos poesias inéditas de Antônio Guerrero, compostas dentro de uma prisão nos Estados Unidos em novembro e dezembro de 2009.

Antônio (Tony) Guerrero é um dos “Cinco Cubanos” que se encontravam presos nos EUA até o início de 2015, condenados por espionagem, desde 1998. Juntamente com Gerardo Hernández, Ramón Labañino, René González e Fernando González, atuavam combatendo e denunciando ações terroristas de grupos extremistas de origem cubana em Nova Jersey e na Flórida.

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Jeanne Moreau e a ira contra os indiferentes

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Atriz que marcou a “nouvelle vague” do cinema francês era também crítica e provocadora. A seguir, a leitura dramática de duas cartas que condenam a passividade europeia diante do drama dos refugiados

Tradução: Cauê Ameni

Senhor ministro, uma das características fundamentais dos seres humanos é que eles se movimentam. Hoje, 175 milhões de homens e mulheres residem fora de seu país de origem. Vivemos num país onde as pessoas têm tanto medo das policias que saltam pela janela para escapar, mesmo quando não fizeram nada de errado. Isso aconteceu seis vezes em menos de 3 meses e continua acontecendo. Estas pessoas vieram aqui para fugir da guerra, da repressão e da miséria. O único crime delas é ter a coragem de deixar tudo para ter uma vida melhor e, em lugar de ajudá-las, protegê-las, nosso país as persegue e expulsa. Tenho vergonha. Somos certamente muitos que têm vergonha dessa violência cotidiana feita em nosso nome contra os estrangeiros. Essa violência desonra aqueles que decidem, aqueles que a executam, mas também aqueles que a deixam ocorrer e permanecem em silêncio. Todos deveriam berrar, para que tais tragédias não aconteçam na França ou em qualquer lugar no mundo. Para que jamais vivamos o inaceitável. Cada um deve gritar para que nossa sociedade não vire, definitivamente, as costas para a solidariedade e a fraternidade. (Brigitte Wieser)

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“Senhor ministro Hotefeux, faz frio, é inverno. Tenho vergonha do frio, desse inverno que o senhor luta para prolongar até a infâmia. Já faz mais de um ano que, dia após dia, o frio desse inverno invade as cidades e os campos de nosso país, outrora um país de esperança e vida. Em minha condição de cidadã francesa, mais agarrada que nunca à liberdade, igualdade e fraternidade, tenho o dever de recordar, senhor ministro, que o senhor não tem o direito sobre a vida ou a morte dos homens e mulheres, ou das crianças, que trabalham, vivem, estudam na França, país hoje desonrado. Minha vergonha e nossa desonra, pela qual o senhor é um grande responsável, tornam-se mais profundas quando me lembro do momento fraternal sobre sobre uma doca em Marselha, após a guerra na Argélia. Fazíamos filas para embarcar no Eldjazaire. Eu conheci esse país. Na minha frente, um trabalhador voltava para passar as férias em seu país quando virou-se para mim, abriu seus braços e disse: ‘seja bem-vinda a Argélia’. Senhor ministro, a vergonha diz respeito ao coração; a desonra é um assunt civil. Quando penso nesse argelino fico com vergonha. Tenho vergonha do senhor, por ter impedido seu filho ou sua filha de serem meus vizinhos. O senhor desonrou, por meio de leis furtivas, a senso da República e de minha civilização. Eu não o saúdo. Faz muito frio nesse inverno. (Paula Albouz)

Uma vigília em favor de Rafael Braga

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Hoje, no Rio de Janeiro e em São Paulo, atos exigem liberdade para catador que é símbolo do racismo do sistema penal brasileiro

Por Douglas Belchior e Campanha pela Liberdade de Rafael Braga

Nesta terça-feira, dia 01/08, será julgado o Habeas Corpus de Rafael Braga na 1º Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Rafael foi condenado em 20 de abril de 2017 pelo juiz Ricardo Coronha Pinheiro a 11 anos e três meses de reclusão e ao pagamento de R$ 1.687,00. No dia 1º de junho a defesa entrou com pedido de Habeas Corpus para que Rafael aguarde a apelação da sentença em liberdade.

A Frente Alternativa Preta e a Campanha 30DiasPorRafaelBraga organiza um ATO-VIGÍLIA na noite desta segunda, dia 31 de Julho, a partir das 18h, nas escadarias do Teatro Municipal de SP, exigindo a liberdade de Rafael. No Rio de Janeiro e Distrito Federal também haverá Vigílias. Continuar lendo

Urgente: para enfrentar a violência no campo

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Número de mortes dispara. “Corumbiara, caso enterrado”, que trata do tema, será relançado hoje, com debate, na casa que abriga “Outras Palavras”

Por Tadeu Breda


Segunda-feira, 31/7, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – São Paulo – Metrô São Joaquim ou Paulista (mapa)

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação: João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Minha irmã, que o machismo matou

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Mayara Amaral, violonista com uma dissertação incrível sobre mulheres compositoras. Desde a semana passada, vítima de uma violência que parece cada vez mais banal 

Por Pauliane Amaral

Minha irmã caçula, mulher, violonista com mestrado pela UFG e um dissertação incrível sobre mulheres compositoras para violão. Desde ontem Mayara Amaral também é vítima de uma violência que parece cada vez mais banal na nossa sociedade. Crime de ódio contra as mulheres, contra um gênero considerado frágil e, para alguns, inferior e digno de ter sua vida tirada apenas por ser jovem, talentosa, bonita… por ser mulher.

Mais uma vez a sociedade falhou e uma mulher, uma jovem professora de música de 27 anos, foi outra vítima da barbárie de homens que não podem nem serem considerados humanos. Foram três, três homens contra uma jovem mulher.

Um deles, Luis Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, por quem ela estava cegamente apaixonada, atraiu-a para um motel, levando consigo um martelo na mochila. Lá, ele encontrou um de seus comparsas.

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Crise: há alternativas, além dos partidos?

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Rede de organizações da sociedade civil prepara, em agosto, grande seminário sobre a construção de um novo projeto de país

Por Inês Castilho

Um momento de reflexão coletiva sobre as crises, as resistências e as alternativas para o Brasil, na visão de organizações populares do campo e da cidade. Esse é o objetivo do seminário nacional “A agenda das resistências e as alternativas para o Brasil: Um olhar desde a sociedade civil”, que acontece em São Paulo de 16 a 18 de agosto. A organização é da Abong – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais, Iser Assessoria,  Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Centro de Assessoria Multiprofissional (Camp),  Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil e Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese).

“Será uma oportunidade para reunir movimentos e diversidade. Esta atividade está articulada com todos os processos que as frentes [Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo e Frente pelas Diretas Já] vêm fazendo. Pretendemos reconstruir uma estratégia de enfrentamento”, afirma Mauri Cruz, diretor executivo da Abong.

Entre os temas sobre as resistências estão, entre outros, a agricultura urbana e o Bem Viver (pela FASE Amazônia, Instituto Polis e RUA/BH), práticas agroecológicas e bens comuns (pela Articulação Nacional de Agroecologia — ANA), os corpos políticos das mulheres nas cidades (pela Frente Nacional contra a criminalização das Mulheres e pela legalização do aborto), a luta contra o extermínio das juventudes (pela Coalizão Nacional das Juventudes) e a diáspora dos povos de matriz africana (pela Frente de Defesa dos Povos de Matriz Africana). Continuar lendo