Carta aberta a Bill Gates

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“O Windows 10 não me fará voltar aos braços da Microsoft. Não quero ser controlado por uma empresa ou a NSA. Aderi ao software livre, construído e compartilhado por milhares de seres humanos como eu”

Por André Solnik

Bill Gates,

Sei que você já largou a direção da Microsoft faz um tempo e agora paga de bom moço doando seus bilhões a causas sociais e pulando cadeiras de escritório (?), mas recentemente fiquei sabendo do lançamento do Windows 10 e seu nome rondou – e perturbou – a minha mente mais uma vez.

Também larguei a Microsoft faz um tempo e confesso que não estou por dentro das novidades da nova versão do seu sistema operacional, mas posso dar alguns palpites: mais rápido, mais bonito, mais intuitivo, mais seguro, mais integrado. Acertei? Bom, pelo menos é isso vocês vêm prometendo há um tempão…mas digamos que finalmente isso aconteceu. O Windows 10 é o suprassumo dos sistemas operacionais: estável, elegante, robusto, inteligente, veloz. Isso faria com que eu reconsiderasse a minha decisão e, finalmente, retornasse aos seus braços? Continuar lendo

Nabil Bonduki: um Plano Diretor contra a especulação imobiliária

Relator da lei que pretende mudar a face de São Paulo, favorecendo transporte coletivo e ciclovia, explica mecanismos que podem tornar tal transformação possível

Entrevista para o Coletivo Candeia

Em que metrópoles viveremos, no futuro? O Plano Diretor Estratégico de São Paulo define as metas para chegarmos a 2029, horizonte de validade do Plano, com uma cidade mais humana e menos desigual. Para isso, definiu como meta aproximar a moradia do emprego: estimulando a substituição do automóvel, incentivando o adensamento populacional próximo aos eixos de transporte coletivo de massa, levando mais emprego às periferias – hoje, quase 70% dos postos de trabalho estão concentrados no Centro Expandido, que reúne apenas cinco das 32 subprefeituras da cidade.

Desenhado a partir do projeto original, do Executivo, em audiências públicas e diálogo com urbanistas, ambientalistas, cicloativistas, ativistas culturais e movimentos de moradia, o novo Plano Diretor da cidade quer compatibilizar desenvolvimento com preservação de áreas culturais, e tem como eixos mobilidade e moradia. Para tanto, precisa de recursos financeiros. Parte deles virá de um mecanismo criativo. A prefeitura já cobra, das construtoras de imóveis que edificam acima do permitido pela Lei de Zoneamento, taxas de “outorga onerosa”. Agora, 60% dos recursos arrecadados serão dirigidos para habitação de interesse social (30%) e mobilidade por meio de transporte coletivo, ciclovias e vias para pedestres (30%).

Para falar sobre o que significam essas mudanças na vida dos cidadãos, o Candeia Blog entrevistou o vereador Nabil Bonduki (PT), relator do Plano Diretor Estratégico. Arquiteto e urbanista, Nabil explica em detalhes, no vídeo acima, o que estabelece a lei (sancionada no primeiro semestre); como foi elaborada; quais os seus impactos para a população.

O Quênia e a Revolução do Graffiti

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Em Nairóbi, onde o poder nunca muda de mãos e frequentemente instiga violência étnica, coletivos de jovens veem arte de rua como expressão estética e política 

No Afreaka

Em março de 2013, o Quênia viveu eleições gerais carregadas de tensão. Faltando poucas semanas para o pleito, o povo torcia para que o episódio ocorrido na votação anterior não se repetisse. Em 2008, o continente parou para tentar entender o que ficou conhecido como violências pós-eleição, que depois de um resultado com suspeitas de fraude, culminou em um conflito étnico e na morte de centenas de pessoas. Na época, muitas perguntas ficaram sem retorno e desde então se luta para que suas respostas cheguem aos cidadãos, uma luta que está sendo encabeçada pela arte, sobretudo a de rua. Nos muros da capital, os graffitis assumiram um papel de conscientização política, assumiram o papel de uma revolução.

No começo da madrugada, os gatos da noite se reuniam e coloriam, em algumas horas, uma arte que normalmente demoraria dias para ser constituída. Eram ilustrações que denunciavam a corrupção política, o uso do povo, a compra de votos, os ‘políticos abutres’. Eram graffitis que davam nome aos grandes bois, acusavam os culpados e questionavam, sobretudo, os principais líderes do país. A ideia era fazer com que as pessoas parassem de culpar umas às outras e percebessem que a dimensão do problema não era étnica, mas estava atrelada diretamente à corrupção política. O dia acordava e os muros brancos ganhavam novas caras. A denúncia vinha de dentro da cultura urbana e encontra suava mais refinada expressão nas cores lançadas pelas latas de tinta.

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Será que o Armínio Fraga “abjurou”?

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Leitora de “Outras Palavras” sugere pesquisa: ao assumir cidadania norte-americana, “candidato” a ministro da Fazenda de Aécio terá renunciado à condição de brasileiro? 

Por Raquel Praça

Meu marido de 75 anos é americano. Um dia ele quis que eu virasse cidadã americana porque nossas vidas ficariam mais fáceis assim nos Estados Unidos. Tudo bem, concordei. Estivemos num advogado para isso. Preenchi um formulário até ler no parágrafo final que tinha que “abjurar” o Brasil, jurar lealdade aos EUA. Rasguei o formulário e disse ao advogado que nunca assinaria aquilo. Ele me disse que era só uma coisa pró forma, que existiam muitas pessoas com dupla nacionalidade. Me recusei terminantemente a “abjurar” meu país e nunca mais fui atrás disso, mesmo depois de me dizerem que essa tal de abjuração tinha sido abolida do texto.

Minha pergunta agora é: Quando foi que Armínio Fraga virou cidadão americano? Será que foi no tempo do “abjurar”? Imagina ter alguém no governo brasileiro que tenha assinado embaixo um “abjurar” daqueles. Por, isso sugiro que os leitores e colaboradores do Outras Palavras façam uma pesquisa a respeito. Acho que valia a pena publicar o documento antigo do “abjurar” (não deve ser muito difícil consegui-lo, há muitos brasileiros com dupla cidadania que devem ter cópia do que assinaram) e descobrir em que ano — e, especialmente, em que condições — que Armínío tornou-se cidadão americano.

 

Xico Sá explica por que deixou a Folha

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“É muito desequilíbrio. É praticamente jornalismo de campanha. Não cobertura. (…) Esse episódio, aliás, não é político — é ridículo se pensamos na grandeza da vida

Por Xico Sá, em sua página no Facebook

Caríssimos amigos & leitores, pretendia nem mais falar desse assunto, mas devido à forma como se alastrou – rizomáticos riachos e riachinhos delleuzianos & gonzaguianos em busca do velho Chico em anos de bom inverno no Navio e no Pajeú –, creio que devo alguma satisfação na praça, além dos “pinduras” morais e existenciais de sempre. Valha-me meu bom Deus, viver é dívida, canelada e dividida de bola.

Como só os galãs vencem por nocaute, procurarei, mal-diagramado por natureza que sou, triunfar nessa luta por pontos, minando, nas cordas do ringue ideológico, vosso juízo emprenhado pelas redes sociais. Vamos lá; Continuar lendo

Sem Pena experimenta o personagem coletivo

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Focado na Justiça e sistema prisional, documentário de Eugênio Puppo inova ao renovar linguagem e também ao debater, muito mais que pessoas, as instituições que oprimem 

Por Jean Claude Bernardet, em seu blog

Já se comentou que os entrevistados de Sem pena, de Eugênio Puppo, não aparecem. É sem dúvida um esforço bem sucedido para escapar ao modelo desgastado das “cabeças falantes”. Mas o filme vai mais longe.

Há vários planos nas cadeias e arredores em que as cabeças são cortadas. Para preservar a identidade, as pessoas são filmadas do pescoço para baixo. Ou em plano aberto que não permita a identificação. Ou em plano desfocado. Ou em primeiro plano de costas (presídio feminino). Duas exceções: portas de cela em que presos se amontoam de frente e em foco.

Esses procedimentos, que desvinculam a cena ou a fala de um rosto, de uma expressão, de uma entonação, provocam um efeito de despersonalização fundamental para o filme. Ele gera o que podemos chamar de personagem coletivo. Contribui também para a construção desse personagem o depoimento de uma presa montado com planos de um arquivo com uma imensidão de caixas anônimas (tipo arquivo morto) cada uma remetendo a um preso ou processado. Continuar lendo

Brasil e nova imigração: estamos abertos aos não-brancos?

Em S.Paulo, secretaria de Direitos Humanos tenta integrar latino-americanos, africanos e asiáticos — que trabalham e enriquecem o mosaico cultural brasileiro, mas são discriminados por parte da sociedade

Um vídeo do Coletivo Candeia

Amortecida desde o fim da II Guerra Mundial devido à reconstrução da Europa e, mais tarde, às crises econômicas que atingiram o país, a imigração para o Brasil voltou a crescer, desde o final da década passada. Quase 600 mil estrangeiros buscaram trabalho aqui, só entre 2010 e 2011. Em pouco tempo, os imigrantes passaram a representar um percentual da população só superado na última década do século XIX.

Este fluxo já não tem as caras e cores do “branqueamento” — a política de europeização étnica que as elites brasileiras praticaram ativamente, há pouco mais de cem anos. O mosaico cultural é enriquecido agora com os rostos indígenas de bolivianos e peruanos em suas feiras de rua; a malemolência de africanos e haitianos; os olhos puxados de coreanos e chineses.

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O incerto destino das organizações humanitárias

141001_ataque de Israel à ONU em Gaza
Cresce número de ataques a abrigos e hospitais em zonas de conflito, vitimando civis e profissionais de saúde. Israel e milícias de oposição sírias estão entre principais agressores

Por Thiago Garcia

As recentes crises humanitárias têm trazido consigo outro agravante, além do horror que carregam. Trata-se de um grande desafio, ainda que pouco se comente: os ataques à assistência à saúde em zonas de conflito. As agressões a instalações médicas e sanitárias, incluindo os profissionais dessas organizações, vêm sendo reportadas com maior frequência nos últimos anos.

Os ataques de que foram alvos funcionários de organizações humanitárias sofreram um novo recorde em 2013: foram 155 mortos, de acordo com dados da Humanitarian Outcomes. Além dos mortos, 177 foram feridos gravemente e 134, raptados. Continuar lendo

Quem fiscaliza as polícias de São Paulo?

141001_policia-na-uspSecretaria de Segurança Pública, que comanda os policiais, controla também a Ouvidoria — órgão que deveria apurar os abusos e ilegalidades cometidos por eles…

Por Letícia Ferreira

Balas de borracha disparadas diretamente contra o rosto de manifestantes ou jornalistas, levando vários à cegueira. Espancamentos. Execuções. Chacinas. Para cada novo caso de atentado das polícias paulistas contra os Direitos Humanos, o governador Geraldo Alckmin tem uma resposta-padrão: “A Ouvidoria já está apurando”, diz ele invariavelmente. Será verdade?

A Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo foi criada em 1997, para receber informações sobre ilegalidades cometidas por policiais civis, militares ou da polícia científica e acompanhar as investigações. Deveria ser “a voz do cidadão” na área de segurança pública. Sem orçamento próprio e subordinada à secretaria estadual de Segurança Pública, contudo, não consegue cumprir esse papel. Continuar lendo

Haverá “desenvolvimento” sem Reforma Política?

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Brasil está maduro para um novo ciclo de reformas, capaz de enfraquecer oligarquia e ampliar participação popular. Mas haverá disposição de enfrentar as resistências?

Por Ricardo L. C. Amorim*

“a garantia final de êxito de um caminho entrevisto dependerá sempre
da ação humana coletiva, que pode falhar.”
Fernando Henrique Cardoso (1964)

Nestes dias, o Brasil acordou diferente, orgulhoso. Não foi o futebol. As pessoas andavam de cabeça erguida e alguns políticos conhecidos, herdeiros da velha UDN, pareciam preocupados. As televisões falavam, com sua isenção peculiar, sobre um fenômeno aparentemente novo, mas que, na verdade, o país havia olvidado: o protesto e o povo nas ruas. A reivindicação era explícita: pedia-se desenvolvimento.

O que é, no entanto, desenvolvimento? A resposta não é imediata e envolve tantos temas quantos os gritos das manifestações. Os economistas, claro, não ajudam com nenhum consenso. Para a população, o desenvolvimento surge difuso, misturando o desejo de uma vida melhor com as imagens dos países ricos. A inquietação passa, então, a solicitar mais e melhor educação, tratamento de saúde digno, transporte urbano adequado, democracia para além do voto, justiça para todos, igualdade de oportunidades, punição dura para a corrupção de políticos e empresários e fim da desídia dos governos para com os graves problemas nacionais. Enfim, um leque amplo de desejos que reflete a visão popular sobre o que é um país desenvolvido e seu povo. Continuar lendo