Questão agrária: movimentos sociais apontam ofensiva do governo Temer

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De Olho nos Ruralistas promoveu debate sobre governo Temer e questão agrária (Foto: TV Drone)

Greenpeace diz que bancada ruralista esperava um “padrinho” para emplacar agenda de retrocessos; ONG aponta 20 projetos prontos para aprovação no Congresso

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Trezentos projetos de lei que atingem diretamente o ambiente e os povos do campo aguardam na fila do Congresso, em uma agenda do retrocessos. Desses, 20 estão prontos para a aprovação. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (06/07) por Marcio Astrini, diretor de políticas públicas do Greenpeace, durante um debate em São Paulo sobre questão agrária e o governo de Michel Temer.

O evento foi organizado por um observatório do agronegócio chamado De Olho nos Ruralistas. Contou também com representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Eles foram unânimes em criticar as políticas agrárias e socioambientais dos governos anteriores, mas destacaram a ofensiva do governo interino. Continuar lendo

Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Por que a corrupção em Belo Monte não ganha o mesmo destaque que a da Petrobras?

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Porque não se trata somente de combate à corrupção; interesses econômicos na demonização da estatal são os mesmos que naturalizam modelo predador de usinas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quando veremos uma capa de revista sobre a corrupção na usina de Belo Monte?

Embora o projeto originado na ditadura militar seja uma das maiores obras de infraestrutura já feitas no país, as notícias sobre corrupção na hidrelétrica não chegam aos rodapés das notícias sobre corrupção na Petrobras. Por quê? Continuar lendo

Como assim, paralisar reforma agrária por fraudes? Vão parar o INSS também?

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Este vilarejo na Transamazônica era para ser um assentamento (Foto: Alceu Castilho)

TCU vai proibir o comércio de madeira até acabar o desmatamento? O Brasileirão até a limpeza da CBF? As obras em todo o país até o fim da corrupção nas empreiteiras?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Por meio de medida cautelar movida pelo Tribunal de Contas da União (TCU), a elite brasileira exerce seu escárnio contra o andar de baixo ao paralisar a reforma agrária no país. Alegação: fraudes. O Estadão informa que mais de 578 mil pessoas foram beneficiadas irregularmente nos últimos anos; entre elas, 1.017 políticos. Ótimo que se passe o pente-fino. Na reforma agrária, no Incra. Mas a paralisação prima pelo absurdo.

Todos sabem que há fraudes no INSS. Alguém imaginaria a interrupção da Previdência Social no país? Fraudes em bancos: existem. Vamos interromper a ciranda financeira? Corrupção das empreiteiras. Que tal paralisar todas as obras no país? Diante dos descalabros na CBF, cancelemos o campeonato brasileiro. Florestas destruídas? Aguardemos a interrupção do comércio de madeira. Violação sistemática de direitos humanos nos presídios? Que sejam todos derrubados, como fizeram com o Carandiru. Continuar lendo

Por que a imprensa ignorou dossiê da CPT sobre violência e destruição na Amazônia?

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Histórias reunidas pela Comissão Pastoral da Terra são de arrepiar; seriam pauta em qualquer jornal do mundo; aqui, ignoramos solenemente até mesmo “temas anti-PT”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não é um dossiê numérico – embora tenha números que poderiam motivar manchete em qualquer jornal do país. Está longe de ser superficial. Avança mais em algumas análises sobre a Amazônia que muito mestrado por aí. E está repleto de boas histórias: de gente expulsa por grileiros ou madeireiros, de comunidades inteiras ameaçadas, de vítimas da violência estrutural no maior bioma brasileiro, em pleno século 21. E, no entanto, as menções nos meios de comunicação – inclusive os alternativos – foram, no máximo, esporádicas. No geral, ausentes. Ignorou-se um dos documentos mais importantes do ano.

Amazônia, um bioma mergulhado em conflitos – Relatório Denúncia” é o nome do dossiê que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou na semana passada e, agora, está disponível para download. Ali temos um manancial de pautas. Até mesmo dados que apontam aberrações em iniciativas e programas criados na era petista, como o Terra Legal, o Sistema Nacional de Cadastro Rural e os planos de manejo florestal. Temos uma história sobre corrupção no Incra. Mas nem a imprensa que bate somente em Chico olha para Chico quando se trata dos abusos cometidos por madeireiras, grileiros ou pelo agronegócio. A regra geral é blindar os destruidores – com um ou outro espasmo de jornalismo para inglês ver. Continuar lendo

“Empresas”, 7, “vítimas”, 1 – uma análise do discurso de Dilma sobre Mariana

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Como Dilma enxerga a tragédia de Mariana? (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Pescadores e povos indígenas receberam uma menção cada durante a fala de 21 minutos da presidente; ela celebrou 24 vezes o acordo e não citou a palavra “crime”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que palavras a presidente Dilma Rousseff utilizou no discurso que anunciou o polêmico acordo com Samarco, Vale e BHP, na quarta-feira, relativo à catástrofe em Mariana (MG)? “Catástrofe”, por sinal, não foi um termo enunciado. Ela preferiu “tragédia” (5 vezes), “desastre” (8) e “acidente” (1). Mas uma oposição específica sintetiza o espírito do evento: aquela entre “empresas” e “vítimas”. O placar foi de 7 x 1.

Claro que análises de discurso qualitativas são mais do que bem-vindas. Mas essa abordagem quantitativa traz algumas informações no mínimo curiosas. Outras, bastante representativas. Seja pela quantidade de vezes que a palavra foi utilizada – ela enunciou 24 vezes o termo “acordo” -, seja pela absoluta ausência ao longo dos 21 minutos de fala. Por exemplo: Dilma não mencionou a palavra “crime”. Continuar lendo

Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

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Reivindicações justas do movimento negro da USP são prejudicadas pela humilhação a um professor que sempre estudou os excluídos; métodos são autoritários

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

José de Souza Martins não nasceu em família rica. Trabalhava como operário  enquanto, à noite, cursava Ciências Sociais na USP. Décadas depois tornou-se professor emérito, com extensa contribuição ao estudo das dinâmicas da exclusão, especialmente no campo. Bastaria mencionar um clássico: “O Cativeiro da Terra” (1979). Ou suas contribuições mundiais à reflexão sobre escravidão contemporânea. Nada disso contou na hora de ser enxovalhado por ativistas do movimento negro, no dia 17, em plena Universidade de São Paulo. Ele foi impedido de proferir a aula magna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O método de calar a boca alheia não deveria nem ser qualificado como estratégia possível. E sim como puro autoritarismo. É condenável em qualquer situação – de Eduardo Suplicy a Yoani Sánchez, de Lula a FHC. Tamanha truculência combina melhor com atitude de fascistas. E não de movimentos sociais com causas nobres, no caso o Ocupação Preta, com o aval do DCE Livre da USP. A dificuldade de perceberem que repetem métodos opressores preocupa duplamente, já que os ativistas parecem comemorar algo que não significa nem uma vitória de Pirro. Fosse uma vitória, os fins (repito, necessários) não justificariam os meios. Continuar lendo

Não só no Rio Doce, não só em Belo Monte: a incrível história dos peixes dizimados

Notícia sobre morte de toneladas de peixes no Rio Xingu convida país a refletir sobre  uso de seus recursos hídricos; matança e contaminação não são excepcionais

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em Altamira e Vitória do Xingu (PA), 16 toneladas de peixes morreram durante a formação do reservatório da Usina de Belo Monte. A multa para a Norte Energia – consórcio formado por Eletrobras, Chesf, Eletronorte, Petros, Funcef, Cemig, Vale – foi de R$ 8 milhões. A notícia foi divulgada no sábado: “Belo Monte é multada em R$ 8 milhões por morte de peixes“. Os pescadores estão entre os mais afetados pelo megaprojeto desenvolvimentista no Rio Xingu.

Alguém notou o nome Vale entre os acionistas da Norte Energia? (Vivemos em um país onde os meios de comunicação não citam os nomes de acionistas.) Pois a maior catástrofe socioambiental do país no Século 21 também leva a assinatura indireta da Vale, dona de 50% da Samarco. Assim como em Belo Monte, o problema na bacia do Rio Doce não se restringe aos peixes. Mas estes também foram vítimas em grande escala do rompimento da barragem em Mariana (MG). Quantas toneladas? No fim de novembro, onze. (Quem atualizará esse cálculo?) Continuar lendo

Em vídeo com trabalhadores, Samarco faz o que não deve ser feito: escárnio

Mineradora subestima inteligência dos brasileiros e utiliza de forma torpe imagem de funcionários para tentar salvar a pele; e troca pagamento de multas por publicidade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Bastaram cem dias após a catástrofe socioambiental em Mariana para a Samarco (Vale, BHP Billiton) apostar na falta de memória e subestimar a capacidade de inteligência de cada brasileiro, em uma série de vídeos com trabalhadores que participam da recuperação – ou do que a empresa quer que a gente acredite que seja um esforço de recuperação – do Rio Doce. As peças publicitárias, veiculadas em TV aberta, revistas e jornais de grande circulação, assustam pela alta dose de escárnio.

Em um deles [ver acima], o pescador Zé de Sabino tem sua imagem utilizada para que a mineradora minimize a poluição do rio. Ele aparece em Regência (ES), no início de dezembro, dizendo as seguintes palavras: “Não tem nenhum tipo de poluição na água, porque os peixes estão todos vivos. Não existem coisas ruins como o pessoal anda dizendo”. Ao fundo, o rio enlameado de resíduos da barragem. (O que o cineasta contratado pela Samarco pensa que somos? Cegos?) Continuar lendo

Combate ao zika em imóveis abandonados mostra função social da propriedade

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Piscina abandonada no Rio (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Cinismo das elites em relação ao “sagrado direito à propriedade” cai por terra diante das ameaças do Aedes aegypti; sem-terra e sem-teto sempre estiveram certos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Estadão de hoje mostra, ao lado da manchete, agentes de saúde e soldados do Exército visitando casas em São Paulo em busca de focos do Aedes aegypti. O jornal informa que, desde ontem, a Medida Provisória 712 autoriza ingresso à força em imóveis abandonados “públicos e particulares”. O plural disfarça o objetivo da MP: os imóveis particulares parasitas. E que oferecem risco à população. Ao bem comum.

Está demonstrada a função social da propriedade.

Ela está prevista na Constituição. E costuma ser ignorada pelos cínicos de plantão, que invocam certo “direito sagrado à propriedade”, uma evocação mística e sem base na história das propriedades. Estas não podem estar acima do bem público. E nem se trata do debate entre propriedades “produtivas e improdutivas”. E sim que há limites para a percepção de que são intocáveis. Continuar lendo