Filho de Ernesto Sabato rejeita homenagem que eliminaria nome de Kirchner

kirchner-sabato02

Cristina Kirchner, José Saramago e Ernesto Sabato

Cineasta não aceita troca de nome de túnel; diz que nome do escritor não deve ser usado para dividir ainda mais os argentinos, “para vingança ou revanche”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O cineasta Mario Sabato recebeu na sexta-feira uma mensagem de um grupo de moradores de Santos Lugares, na Grande Buenos Aires, onde seu pai, o escritor Ernesto Sabato, viveu por décadas até a sua morte, em 2011, e onde fica o museu em homenagem ao argentino, a Casa de Ernesto Sabato. Os vizinhos comunicavam  iniciativa de trocar o nome de um túnel que une o bairro ao vizinho Caseros. O nome atual homenageia o ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010).

A homenagem foi concebida apenas um mês após a chegada ao poder do antiperonista Mauricio Macri, que sucedeu Cristina Kirchner. Possui, portanto, um contexto revisionista. Mario Sabato recusou a homenagem. Continuar lendo

De Paris a Fortaleza: um olhar sobre o clima “para francês ver”

Imprensa cearense deu destaque à COP 21, mas ignorou mobilização de mais de 2.000 pessoas em Fortaleza; organizadores reclamam da invisibilidade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Foi capa de jornal em O Povo, na segunda-feira (30): “Nunca esteve tão quente em Fortaleza”. Com direito a quatro páginas nesse que é um dos principais jornais cearenses. Estaria a imprensa brasileira, então, de fato interessada em mudanças estruturais na nossa relação com o ambiente e padrão de consumo? Não exatamente. Uma mobilização com 2.000 pessoas em Fortaleza, no dia anterior, parte da Mobilização Mundial pelo Clima, simplesmente não motivou nenhuma linha em nenhum jornal.

Dela participaram cinco etnias indígenas e mais de vinte coletivos e movimentos socioambientais, de 15 municípios cearenses, da Praça do Centro Cultural Dragão do Mar até a Praia do Náutico. Entre os temas, a luta contra a exploração da mina de urânio em Santa Quitéria, o fim da devastação dos ecossistemas costeiros, “água para as pessoas e não para o agronegócio e as termelétricas”, punição para os crimes da Samarco. Continuar lendo

Por que 200 soterrados por uma mina em Mianmar não geram catarse?

mianmar-mina

Ocidente minimiza catástrofe no Sudeste Asiático motivada por ganância de mineradoras; qualquer semelhança com Minas Gerais não será mera coincidência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Tome-se a editoria de Internacional do Estadão nesta segunda-feira. Ela que já foi a mais completa do jornalismo brasileiro. Procure-se a última notícia. Lá está: “Deslizamento de mina deixa pelo menos 100 mortos em Mianmar”. Mas há outros 100 trabalhadores desaparecidos. Ou seja, soterrados. Observem a matemática do crime: são duzentos assassinados por falta sistemática de segurança nas minerações de jade – a pedra preciosa. Certamente pendurada em alguns pescoços elegantes pelo planeta.

Mas não haverá luto mundial. Se não há impacto na notícia, não há comoção. Mark Zuckerberg não sugerirá a bandeira de Mianmar (ainda chamado de Birmânia em Portugal e outros países) em nossos perfis no Facebook. E por que essas outras vítimas da mineração não são notícia, ao menos não aquelas notícias que promovem catarse? Porque são trabalhadores pobres do Sudeste Asiático, num país que perdeu 100 mil pessoas – 100 mil pessoas – em 2008, após a passagem de um ciclone. E nem por isso entra pela porta da frente no noticiário sobre catástrofes. Continuar lendo

Kátia Abreu na Ásia, entre mármores, lustres e tapete “feito por mil mulheres”

katiaabreu-mesquita

Ministra da Agricultura está desde o dia 7 em missão comercial pelo Brasil; confira algumas impressões de viagem da dama de ferro do agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB), está desde o dia 7 em viagem pela Ásia. Começou na Arábia Saudita, passou pelos Emirados Árabes Unidos, pela Índia e foi – não é a primeira vez – para a China. O perfil dela no Twitter, “Ministra Kátia Abreu” (@KatiaAbreu), é bastante ilustrativo de suas preocupações nestes dez dias. Inúmeras fotos da missão comercial brasileira, das visitas a lugares turísticos (alguns, nababescos), um único comentário sobre o atentado em Paris. Sobre Mariana (MG), silêncio. Segue um resumo. Continuar lendo

De Paris ao Rio Doce: do horror político ao horror econômico

eiffel

Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muita gente no Brasil está falando sobre os atentados em Paris, com mais de cem mortos, em comparação com a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI, o rompimento de barragens em Mariana (MG), com mais de 20 mortos e desaparecidos e uma destruição incalculável do ambiente, entre espécies extintas, impacto por décadas e ameaça direta à sobrevivência de um rio importante, o Rio Doce.

Existe a percepção de que a tragédia francesa abafará a tragédia brasileira. E a verbalização dessa percepção gera um ruído: como se quem dissesse isso fosse indiferente a cada francês morto e ao horror específico dos massacres em Paris, à covardia e ao fanatismo. Com isso se cria um falso problema. Ou, no mínimo, secundário: a nossa suposta insensibilidade. A dos cidadãos, a dos internautas. Continuar lendo