De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

120 mil na Praça São Pedro, diz o Fantástico. E na Avenida Paulista?

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Globo divulgou estimativa do Vaticano sem pestanejar, como verdade absoluta; o mesmo critério não foi utilizado para informar sobre o que acontecia em São Paulo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A canonização de Madre Tereza de Calcutá reuniu 120 mil pessoas, neste domingo, na Praça São Pedro. É o que informou o Fantástico, ontem, na Globo. Reproduzindo – como um número inquestionável – a estimativa feita pelo próprio Vaticano. Observem a foto.

E agora observem a imagem da manifestação contra o governo Temer, também ontem, na Avenida Paulista:

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Foto: Rede Brasil Atual/ Marcia Minillo

Pergunta: quando vale a estimativa dos organizadores e quando não vale?

Qual o critério jornalístico? É visual? Ou de confiança em determinada instituição?

Se a correspondente italiana vier cobrir uma manifestação em São Paulo ela cravará a estimativa dos organizadores, sem questionar? (E sem pontuar que foi feita pelos organizadores?) Ou a estatística do Vaticano se perpetua como dogma? Continuar lendo

As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas

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Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?) Continuar lendo

Quem financiará a mídia alternativa para que ela seja “livre e independente”?

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Esquerda brasileira ainda não acordou para a necessidade de bancar projetos de comunicação contra-hegemônicos, como multiplicadores de uma agenda da resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh, baby, oh baby
A gente ainda nem começou

(Raul Seixas, “Cachorro Urubu”)

Estas reflexões partem de uma situação muito concreta: a campanha de arrecadação de um projeto jornalístico alternativo, o De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Esse projeto que eu coordeno – uma parceria de jornalistas com o Outras Palavras e a TV Drone – está em pleno processo de financiamento coletivo. O que me torna suspeito em relação ao tema, parte diretamente interessada. Mas as reflexões oriundas dessa saga (fazer crowdfunding no Brasil é uma saga) nos permitem refletir sobre alguns rumos dos projetos de comunicação independentes. Independentes de quem? Continuar lendo

Elite paulista escarnece do povo de rua ao exibir cobertores abandonados

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Leitura cínica de decreto do prefeito (que proíbe apreensão) e bandeirantismo midiático visam compor imagem de moradores de rua como “feios, sujos e ingratos”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O antropólogo José Ribamar Bessa Freire cunhou no fim de semana a expressão “agrobandeirantes“, em referência à matança de indígenas no Mato Grosso do Sul. Dos excluídos do campo aos excluídos da cidade, temos em São Paulo a matança – real e simbólica – de pessoas em situação de rua. Centenas deles morrem por ano. E, para completar, ainda são vítimas de mortes simbólicas, de assassinatos de reputação. Para esta tarefa existem os bandeirantes midiáticos.

Como definir de outra forma a capa do Estadão de hoje? Ao fundo, o Pátio do Colégio. Em primeiro plano, cobertores. “Cobertores abandonados”, diz o jornal. “Após fim de semana de doações para moradores de rua”. Continuar lendo

Massacre de indígenas no MS é também um massacre midiático

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Estadão noticiou em 77 palavras um atentado de fazendeiros que deixou um morto e vários feridos, entre eles um menino de 12 anos; em 2013, mataram Denilson, de 15

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O Estadão traz no pé da página A8, hoje, lá no cantinho direito, a seguinte notícia: “Ataque deixa um índio morto e cinco feridos”. Contei 77 palavras na notícia, incluídos, os artigos, preposições e palavras inevitáveis, como “Mato Grosso do Sul” e “terra indígena Dourados Amambaipeguá I”. Não encontrei o nome do morto. “Uma liderança indígena”. Deu tempo de registrar o “o ataque de 70 fazendeiros armados em 60 veículos”.

Quase uma palavra para cada fazendeiro.

Esse descaso da imprensa representa uma metralhadora às avessas. O pé de página é a vala – quando muito – onde os jornais brasileiros enterram as centenas de Guarani Kaiowá mortos nos últimos anos, entre assassinados, atropelados, mortos por problemas básicos de saúde e os que, em meio ao confinamento histórico do qual são vítimas, se suicidaram. Cada uma das 77 palavras significa o silêncio entre cada bala assassina. Continuar lendo

Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Esquerda não está imune ao risco de datenização do debate político

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Caso do estupro coletivo no Rio inunda redes sociais e nos convida a uma reflexão sobre banalização da violência; não estamos repetindo a lógica imediatista do jornalismo cão?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ontem eu passava por um ponto de táxi e tinha uma TV transmitindo o programa do Datena. E lá estava ele, narrando uma cena de um frentista sendo massacrado por um bando. Muitos chutes na cabeça. Covardia pura – e replicada “n” vezes pelo programa, sob o pretexto de promover a indignação coletiva. Mas com pelo menos um efeito contrário: a banalização da violência. A edição repete a cena, voltam os pontapés, e apresentamos à sociedade (e com o nome de jornalismo) a nossa cota diária de barbárie televisionada. Nem mortes a TV se poupa mais de transmitir. “Veja agora o momento do tiro”. E assim por diante.

E fiquei pensando no Datena. Observando. Pela primeira vez percebi que suas sobrancelhas lembram muito a de um grande ídolo meu, o cineasta Federico Fellini. Nada menos. E somente elas, claro. De qualquer forma, a figura do apresentador me intriga. Não somente ela, mas o seu sucesso. Ou talvez, guardadas as proporções, ele tenha outra característica do diretor italiano: o carisma. Ainda que às avessas, com outros propósitos, outras referências. E o desafio reflexivo passa a ser o seguinte: o quanto não resvalamos – cognitivamente ou emocionalmente – com posições dignas de José Luiz Datena? Continuar lendo

Aviso aos navegantes: Marco Antonio Villa não é o dono da Jovem Pan

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Trote do prefeito Fernando Haddad no historiador panfletário anima quem conhece poder de manipulação da rádio; mas ninguém menciona os nomes de que manda

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em poucas palavras: o historiador Marco Antonio Villa é um subordinado. Perfeitamente substituível. Indefensável como jornalista, diante do caráter panfletário de suas análises. O trote que levou do prefeito Fernando Haddad (que divulgou a agenda de Alckmin como se fosse dele, para que Villa a atacasse) mostra que ele atira – verbalmente – no que vem pela frente. Desde que tenha relação com o PT, Haddad, Dilma, Lula. Mas quem disse que é ele quem manda na rádio?

A esquerda brasileira anda distraída em relação aos patrões. Particularmente em relação aos donos dos meios de comunicação. Esses que escolhem os Villas e as Sheherazades, os Waacks e Mervais. Estes obtêm os cargos e espaços que têm porque dizem exatamente o que os patrões gostariam de dizer. Mas deveriam ser os principais alvos de quem critica essa mídia parcial e abjeta? Não. E sim quem está acima deles. Esses estão rindo de tudo. Continuar lendo

Temer, o maquiavélico: “fazer o mal de uma só vez”, fins a justificar os meios

maquiavel

Michel Temer, o interino, começa o governo inspirado em Maquiavel e em FHC; atropelo em poucos dias era previsível e conta com amplo apoio da grande imprensa

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

“Quando você tiver de fazer algum mal a alguém, faça-o todo de uma só vez. A dor será intensa, mas apenas uma. Já o bem, faça-o em parcelas. O favorecido ficará alegre e grato a você várias vezes” (Nicolau Maquiavel).

Ainda são desconhecidos os atos “de bem” do presidente interino. Mas salta aos olhos a estratégia maquiavélica de “fazer o mal” de uma só vez. Fernando Henrique Cardoso, prefaciador de “O Príncipe” no Brasil, conhecia bem essa máxima. Podia-se prever que Michel Temer faria isso. E fez. Talvez com uma fúria e uma desfaçatez maiores do que se podia esperar, mas fez. Está fazendo, em poucos dias. Continuar lendo