Um juiz, um desembargador, um ministro: três faces da Justiça brasileira

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Sérgio da Silva, fotógrafo cego pela PM. Para a Justiça, “culpado exclusivo”

Juiz diz que fotógrafo baleado em protesto foi o culpado por ficar cego; desembargador boquirroto vendia sentenças; Moraes quer menos pesquisas, mais armamentos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos três notícias.

A primeira: “Fotógrafo cego por PM em SP teve ‘culpa exclusiva’ diz juiz em sentença“.

Trata-se de Sérgio Andrade da Silva, que ficou cego do olho esquerdo ao ser baleado pela PM em junho de 2013, durante as manifestações por passe livre. Três anos após a bala de borracha, ele terá de pagar R$ 2 mil em honorários à Justiça, por ter perdido uma ação que movia contra o Estado. Vejamos a justificativa de Olavo Zampol Júnior, juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo:

– No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto.

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Paola Carossella: “Elite também come agrotóxicos”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Conhecida como jurada do Masterchef, argentina aponta comunicação como questão-chave no combate ao uso de venenos na comida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A chef argentina Paola Carossella defendeu nesta sexta-feira a comunicação com os consumidores como forma de combater o uso de agrotóxicos. “As pessoas não sabem o que está acontecendo”, disse ela, durante seminário promovido pela Comissão Especial sobre Fitossanitários da Câmara dos Deputados. “Existe uma enorme desinformação. O que a gente pode fazer é comunicar”.

Jurada do Masterchef, reality show sobre gastronomia da Band, contou que, ao se tornar mais conhecida, as pessoas começaram a perguntar sobre a viabilidade do consumo de comida orgânica. E a falar que se trataria de uma comida elitista. “Será? Conheço restaurantes caríssimos que não servem orgânicos. Não creio que as pessoas que produzem agrotóxicos estejam comprando cesta orgânica”. Continuar lendo

Idec: Brasil importa frutas com agrotóxicos ilegais

Dados constam de última pesquisa do governo; pesquisadora Ana Paula Bortoletto diz que Brasil trabalha com amostras insuficientes para tamanho do problema

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Da Espanha vem a uva. Com agrotóxicos proibidos, no Brasil, para a produção dessa fruta – em todas as amostras analisadas pelo governo brasileiro. Da Itália, o kiwi: quatro entre as cinco amostras apontam utilização de agrotóxicos não permitidos. Do Uruguai, a maçã. Igualmente envenenada, com quantidade de pesticidas acima do limite tolerável. Todos os dados constam de um levantamento divulgado em junho pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que passou despercebido da imprensa.

“Os alimentos que a gente está importando para consumir no Brasil também estão contaminados, e com alimentos impróprios para a cultura”, aponta Ana Paula Bortoletto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ela analisou os dados do Ministério da Agricultura em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Continuar lendo

Quem financiará a mídia alternativa para que ela seja “livre e independente”?

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Esquerda brasileira ainda não acordou para a necessidade de bancar projetos de comunicação contra-hegemônicos, como multiplicadores de uma agenda da resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh, baby, oh baby
A gente ainda nem começou

(Raul Seixas, “Cachorro Urubu”)

Estas reflexões partem de uma situação muito concreta: a campanha de arrecadação de um projeto jornalístico alternativo, o De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Esse projeto que eu coordeno – uma parceria de jornalistas com o Outras Palavras e a TV Drone – está em pleno processo de financiamento coletivo. O que me torna suspeito em relação ao tema, parte diretamente interessada. Mas as reflexões oriundas dessa saga (fazer crowdfunding no Brasil é uma saga) nos permitem refletir sobre alguns rumos dos projetos de comunicação independentes. Independentes de quem? Continuar lendo

Aviso aos navegantes: Marco Antonio Villa não é o dono da Jovem Pan

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Trote do prefeito Fernando Haddad no historiador panfletário anima quem conhece poder de manipulação da rádio; mas ninguém menciona os nomes de que manda

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em poucas palavras: o historiador Marco Antonio Villa é um subordinado. Perfeitamente substituível. Indefensável como jornalista, diante do caráter panfletário de suas análises. O trote que levou do prefeito Fernando Haddad (que divulgou a agenda de Alckmin como se fosse dele, para que Villa a atacasse) mostra que ele atira – verbalmente – no que vem pela frente. Desde que tenha relação com o PT, Haddad, Dilma, Lula. Mas quem disse que é ele quem manda na rádio?

A esquerda brasileira anda distraída em relação aos patrões. Particularmente em relação aos donos dos meios de comunicação. Esses que escolhem os Villas e as Sheherazades, os Waacks e Mervais. Estes obtêm os cargos e espaços que têm porque dizem exatamente o que os patrões gostariam de dizer. Mas deveriam ser os principais alvos de quem critica essa mídia parcial e abjeta? Não. E sim quem está acima deles. Esses estão rindo de tudo. Continuar lendo

Sete dos 23 ministros de Temer possuem ou controlam rádio e TV

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Romero Jucá e Renan Calheiros: coronelismo eletrônico (Foto: Pedro França/ Agência Senado)

Golpe jurídico-midiático foi feito também por políticos com concessão; Jucá, Mendonça e Coelho têm parentes no comando; Barbalho, Alves, Barros e Sarney Filho são donos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Helder Barbalho é o novo ministro da Integração Nacional e dono de TVs no Pará, retransmissoras da Band. Sarney Filho, dono da TV Mirante, no Maranhão, afiliada da Globo, volta a ser ministro do Meio Ambiente. É também para retransmitir imagens globais que Henrique Eduardo Alves retorna à Esplanada dos Ministérios, agora na pasta do Turismo. Ricardo Barros, nomeado por Michel Temer como ministro da Saúde, possui a Rádio Jornal de Maringá, no Paraná.

Eles não são os únicos políticos a controlar rádios e TVs – prática contestada por dez entre dez especialistas em direito à comunicação e, mais recentemente, pelo Ministério Público Federal, que pretende cassar as concessões de congressistas. Outros três ministros do presidente interino têm rádios e TVs em nome de parentes. São eles: o eterno Romero Jucá, do Planejamento/ e os oligarcas Mendonça Filho, da Educação (e da Cultura), e Fernando Coelho, das Minas e Energia. Continuar lendo

Ameaças contra Sakamoto são um alerta para jornalistas de todo o Brasil

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O jornalista na ONU, em 2015, falando sobre trabalho escravo (Foto: ONU/Divulgação)

Blogueiro do UOL e líder da ONG Repórter Brasil não é uma vítima isolada entre jornalistas; mas pode ser símbolo de um movimento necessário pela democracia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Leonardo Sakamoto costuma encarar as violências verbais de seus leitores com uma dose de humor. Desta vez está sendo impossível. Após ter um texto sobre aposentados distorcido em um arremedo de jornal mineiro, está sofrendo ameaças de morte. “A situação tem piorado bastante”, escreveu, nesta quarta-feira. Os difusores de ódio querem vingança. Não por causa da mentira que foi propagada por pseudoprofissionais. Mas por sua defesa sistemática dos direitos humanos.

O caso diz respeito a todos os jornalistas do Brasil. A categoria está sendo economicamente massacrada. Atordoada, sem rumo definido. Precisa, porém, achar forças para sair ao menos das cordas do fascismo. A redefinição dos rumos profissionais, neste novo mundo sem carteira assinada, precisa ser acompanhada pela reafirmação de seu papel na garantia dos direitos humanos fundamentais. E é por isso que o caso Sakamoto se torna um símbolo. Continuar lendo

O “uniforme para imprensa” da polícia de SP e o “BBB dos jornalistas” no Rio

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Estamos em guerra? (Foto: PSTU)

O que é pior? Jornalistas confinados na casa do Big Brother Brasil, no Rio, ou aceitando aparatos de segurança oferecidos pela PM paulista?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O que acontece com o jornalismo brasileiro? No Rio, repórteres participaram efusivamente de uma edição do Big Brother Brasil. Mais que cobrirem o entretenimento, tornam-se eles mesmos o entretenimento. Em São Paulo, representantes de diversos veículos não se acanham em aceitar um certo “uniforme de imprensa” para cobrir manifestações, oferecido pela polícia paulista.

E o troféu de aberração jornalística vai para… os repórteres paulistas. Pois eles estão entrando na notícia tanto quanto os saltitantes críticos de televisão – ainda que não tenham se dado conta disso. Do reality show ao espetáculo do espancamento. Continuar lendo

Protagonistas contra ditadura de 64 se calam diante da repressão atual em SP

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Reação da sociedade civil está tímida à violência do governo estadual contra o livre direito à manifestação; país perde sua memória e as referências sobre resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Onde está a OAB? A Fenaj? A Igreja? Onde estão os sindicatos? E as lideranças que protagonizaram a luta contra a ditadura? De Lula a FHC, de Dilma Rousseff a José Serra? Acadêmicos, intelectuais? Por que se calam? O que mais a PM de São Paulo precisa fazer para motivar uma nota institucional, a organização de atos, uma fala contundente contra a repressão à livre manifestação, contra as agressões a pessoas que se manifestavam ou simplesmente estavam na rua, em São Paulo, nesta terça-feira?

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo informa que nove repórteres ficaram feridos em ação na Avenida Paulista. Isso não basta para a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) se pronunciar? O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, decisivo na luta pela redemocratização, informou ontem que vai enviar uma nota de protesto ao Governo do Estado, exigindo o fim da violência contra manifestantes e jornalistas. Será suficiente? Continuar lendo

Multiplicação de escolas ocupadas em SP vai além de reação a Alckmin

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Fenômeno em SP já extrapola o combate ao fechamento de escolas; tornou-se expressão da periferia e do público; negação da invisibilidade e da “decadência”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) | Arte: Laerte

No começo era uma resposta à “reorganização”. Ao projeto eufemístico do governo estadual paulista que previa o fechamento de 94 escolas. Aos poucos, porém, as ocupações de escolas em São Paulo vão ganhando uma dimensão que vai muito além da resposta ao governador Geraldo Alckmin (que perdeu, fez um movimento absurdo no jogo de xadrez e perdeu), afirmando uma necessidade muito maior de milhares de adolescentes em São Paulo: a do protagonismo.

O crescimento foi viral. Em uma progressão aritmética com momentos de progressão geométrica. E, enquanto se escrevia este texto, eram mais de 170 escolas ocupadas em São Paulo. Quase o dobro das escolas que o governo queria fechar. Ou seja, por um lado há solidariedade de outros estudantes àqueles que iam perder sua escola. Por outro, uma mensagem adicional, a comunicação de que há algo mais, uma demanda dos adolescentes por expressões que a educação bancária não está dando conta. Continuar lendo