Entrudo midiático, “show dos atrasados” é a nova jabuticaba brasileira

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Sadismo em relação a atrasados no Enem é filho direto da cobertura espetacularizada da imprensa, que agora retroalimenta essa implosão ética e estética

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Esse sadismo em relação aos atrasados do Enem é filho direto da dramatização irresponsável feita anualmente pelos veículos de imprensa. Ano a ano fomos vendo essa reprodução de imagens (fotógrafos e cinegrafistas invadindo as vidas dos estudantes, em nome da notícia-mercadoria), banalizando-as, até que pessoas suficientemente canalhas construíram o tal “show dos atrasados”.

O tema esteve entre os destaques mundiais do Twitter, no domingo. Com a ajuda da imprensa, consolida-se o hábito de zombar de quem chega atrasado no vestibular. O drama pessoal dos demais – um ano inteiro de estudos, os planos profissionais adiados – se torna apenas um motivo para diversão. Uma diversão baseada na humilhação. Em São Paulo, em Porto Alegre, os sádicos se multiplicam. Continuar lendo

De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

Imprensa alternativa precisa somar forças para resistir e avançar

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Veículos contra-hegemônicos têm agido de forma atomizada nos anos 2010; chegou a hora de resgatar parcerias que marcaram outras épocas; a começar do financiamento

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como financiar a imprensa alternativa? Com a palavra, o leitor. Também o leitor. E, para mostrar a esse leitor que depende dele a própria sobrevivência de uma rede de veículos independentes, os editores desses veículos precisam rever alguns valores. Ou cacoetes, vícios. Principalmente, precisam refletir sobre a tendência ao atomismo que se afirmou nos anos 2010. A do “cada um por si” – nada condizente a com a perspectiva política de todos. É preciso promover a união e a sinergia.

Diante de um governo golpista, alguns veículos que, em boa parte, viviam de verbas do governo também começaram a olhar para o financiamento coletivo. Outros nunca quiseram essas verbas e, igualmente sem verbas de outros mecenas (como fundações estrangeiras), já enxergavam no crowdfunding – ou em um sistema de assinaturas – a solução para pagar as contas. A mão de obra, os gastos básicos. Até mesmo advogados, quando necessário. Continuar lendo

120 mil na Praça São Pedro, diz o Fantástico. E na Avenida Paulista?

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Globo divulgou estimativa do Vaticano sem pestanejar, como verdade absoluta; o mesmo critério não foi utilizado para informar sobre o que acontecia em São Paulo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A canonização de Madre Tereza de Calcutá reuniu 120 mil pessoas, neste domingo, na Praça São Pedro. É o que informou o Fantástico, ontem, na Globo. Reproduzindo – como um número inquestionável – a estimativa feita pelo próprio Vaticano. Observem a foto.

E agora observem a imagem da manifestação contra o governo Temer, também ontem, na Avenida Paulista:

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Foto: Rede Brasil Atual/ Marcia Minillo

Pergunta: quando vale a estimativa dos organizadores e quando não vale?

Qual o critério jornalístico? É visual? Ou de confiança em determinada instituição?

Se a correspondente italiana vier cobrir uma manifestação em São Paulo ela cravará a estimativa dos organizadores, sem questionar? (E sem pontuar que foi feita pelos organizadores?) Ou a estatística do Vaticano se perpetua como dogma? Continuar lendo

Sim, era açúcar; caso Imbassahy ilustra o quanto perdemos o bom senso

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Espécie de “Blow-Up” às avessas, investigação nas redes não passou de suposição; apego excessivo a um detalhe ocorre enquanto ocorre um golpe, estrutural

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos caçadores de imagens fugidias. Durante a sessão de anteontem no Senado, subitamente decidiu-se, nas redes sociais, que o deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA), postado logo atrás do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). portava um papelote de cocaína. E essas conclusões súbitas têm-se tornado irrevogáveis. Como se fossem a verdade absoluta e como se fossem… relevantes.

Um olhar atento para o vídeo do G1, em alta resolução, mostra que o objeto que o deputado batuca na mesa é retangular – e branco. Compatível com um sachê de açúcar. E não com um papelote de cocaína. (Droga muito consumida em Brasília, no Congresso e fora dele, e em todo o Brasil.) O leitor mais teimoso poderá ter certeza do contrário. Mas estará sendo leviano se acusar sem provas. Continuar lendo

Um juiz, um desembargador, um ministro: três faces da Justiça brasileira

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Sérgio da Silva, fotógrafo cego pela PM. Para a Justiça, “culpado exclusivo”

Juiz diz que fotógrafo baleado em protesto foi o culpado por ficar cego; desembargador boquirroto vendia sentenças; Moraes quer menos pesquisas, mais armamentos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos três notícias.

A primeira: “Fotógrafo cego por PM em SP teve ‘culpa exclusiva’ diz juiz em sentença“.

Trata-se de Sérgio Andrade da Silva, que ficou cego do olho esquerdo ao ser baleado pela PM em junho de 2013, durante as manifestações por passe livre. Três anos após a bala de borracha, ele terá de pagar R$ 2 mil em honorários à Justiça, por ter perdido uma ação que movia contra o Estado. Vejamos a justificativa de Olavo Zampol Júnior, juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo:

– No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto.

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Paola Carossella: “Elite também come agrotóxicos”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Conhecida como jurada do Masterchef, argentina aponta comunicação como questão-chave no combate ao uso de venenos na comida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A chef argentina Paola Carossella defendeu nesta sexta-feira a comunicação com os consumidores como forma de combater o uso de agrotóxicos. “As pessoas não sabem o que está acontecendo”, disse ela, durante seminário promovido pela Comissão Especial sobre Fitossanitários da Câmara dos Deputados. “Existe uma enorme desinformação. O que a gente pode fazer é comunicar”.

Jurada do Masterchef, reality show sobre gastronomia da Band, contou que, ao se tornar mais conhecida, as pessoas começaram a perguntar sobre a viabilidade do consumo de comida orgânica. E a falar que se trataria de uma comida elitista. “Será? Conheço restaurantes caríssimos que não servem orgânicos. Não creio que as pessoas que produzem agrotóxicos estejam comprando cesta orgânica”. Continuar lendo

Idec: Brasil importa frutas com agrotóxicos ilegais

Dados constam de última pesquisa do governo; pesquisadora Ana Paula Bortoletto diz que Brasil trabalha com amostras insuficientes para tamanho do problema

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Da Espanha vem a uva. Com agrotóxicos proibidos, no Brasil, para a produção dessa fruta – em todas as amostras analisadas pelo governo brasileiro. Da Itália, o kiwi: quatro entre as cinco amostras apontam utilização de agrotóxicos não permitidos. Do Uruguai, a maçã. Igualmente envenenada, com quantidade de pesticidas acima do limite tolerável. Todos os dados constam de um levantamento divulgado em junho pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que passou despercebido da imprensa.

“Os alimentos que a gente está importando para consumir no Brasil também estão contaminados, e com alimentos impróprios para a cultura”, aponta Ana Paula Bortoletto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ela analisou os dados do Ministério da Agricultura em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Continuar lendo

Idec avisa: consumidor pode ser outra vítima do governo Temer

Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, Ana Paula Bortoletto diz que riscos ambientais e para saúde são maiores com governo interino e instabilidade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O direito do consumidor à informação está ameaçado. No Senado, um projeto de lei – relatado pelo suplente do Ministro da Agricultura – pode retirar a obrigatoriedade dos rótulos para produtos transgênicos. Confirmando o que foi aprovado, em 2015, na Câmara dos Deputados. Uma pesquisadora do Idec, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, diz que a instabilidade política joga a favor da aprovação – e convida a sociedade a se mobilizar contra.

Para Ana Paula Bortoletto, que também faz parte de um grupo de pesquisa na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), são grandes as chances de retrocesso em relação aos direitos sociais, em meio ao governo interino de Michel Temer. “E isso inclui o direito do consumidor à informação clara, correta, sobre o que está sendo ofertado no mercado e quais os riscos que os produtos apresentam para a saúde, ou o impacto ambiental dos alimentos”. Continuar lendo

Crianças envenenadas: nem bebês estão a salvo dos agrotóxicos

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Pesquisa da USP traz detalhes sobre distribuição etária da contaminação por pesticidas no Brasil; 40% dos casos até 14 anos em MG e MT atingem faixa até 4 anos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Crianças e adolescentes até 14 anos estão entre as vítimas – e entre as vítimas fatais – de pesticidas no país. E não há limite de idade. Em Estados como Minas Gerais e Mato Grosso, a incidência entre crianças de 0 a 4 anos supera 40% do total de crianças e adolescentes envenenados.

Esses são alguns dados organizados pela professora Larissa Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), e que farão parte da Geografia do Uso dos Agrotóxicos no Brasil, uma pesquisa que será finalizada e divulgada neste semestre. Continuar lendo