E não é que nos tornamos todos uns convenientes Árbitros de Vídeo?

A tecnologia e... os homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Esquecemos que a tecnologia é gerida por… homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Polêmica em torno do VAR na Copa ilustra nossa crença absoluta na tecnologia e nossa sede justiceira, enquanto enxugamos diariamente o gelo das injustiças

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos todos Árbitros de Vídeo. Corajosíssimos. E não somente em relação à Copa do Mundo. Foi o que nos restou, neste mundo de violências e desigualdades brutais: julgar casos pontuais de cidadãos flagrados – diante de câmeras – dando cotoveladas, cometendo uma sequência de faltas machistas, impedindo uma criança de comer. A partir dessa crença inabalável na tecnologia, em uma Grande Verdade das Cenas Registradas, satisfazemos nossa sede de justiça, imaginando um combate adequado à Fome, ao Patriarcado e a cada lance profundamente injusto (ou que julgamos profundamente injustos) de um jogo de futebol.

Os alvos dessa sanha virtual representam o novo ápice da maldade imputável. Mesmo que o movimento de massa seja movido pela mesma lógica medieval das chibatadas imediatistas. A lógica é a de crucificar apenas o segurança que impediu a criança de comer (como se os patrões não o instruíssem a isso, e como se não houvesse previsão de aumento da mortalidade infantil por fome nos próximos anos), empalar o árbitro do jogo do Brasil em praça pública – todos subitamente muito entendidos em regras de futebol – e aguardar uma punição exemplar do Vladimir Putin em relação aos inglórios machistas brasileiros em Moscou. Continuar lendo

Com a filha de Roberto Jefferson, “O Povo na TV” chega ao Ministério do Trabalho

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Presidente do PTB era um dos protagonistas de programa de baixarias na TVS; ao bancar Cristiane, governo Temer referenda esse Brasil dos latifúndios midiáticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Engana-se quem pensa que Roberto Jefferson surgiu com a denúncia do mensalão. Ele já era deputado e dono (usurpador) do PTB. E por que era deputado? Porque se projetou como advogado barraqueiro de um programa chamado “O Povo na TV”, na TVS – depois SBT. Vejam só o nome: “O Povo na TV”.

O povo estava na TV, naquele início dos anos 80, para ser humilhado. E gerar audiência para um empresário sem escrúpulos: Sílvio Santos.

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Entrudo midiático, “show dos atrasados” é a nova jabuticaba brasileira

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Sadismo em relação a atrasados no Enem é filho direto da cobertura espetacularizada da imprensa, que agora retroalimenta essa implosão ética e estética

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Esse sadismo em relação aos atrasados do Enem é filho direto da dramatização irresponsável feita anualmente pelos veículos de imprensa. Ano a ano fomos vendo essa reprodução de imagens (fotógrafos e cinegrafistas invadindo as vidas dos estudantes, em nome da notícia-mercadoria), banalizando-as, até que pessoas suficientemente canalhas construíram o tal “show dos atrasados”.

O tema esteve entre os destaques mundiais do Twitter, no domingo. Com a ajuda da imprensa, consolida-se o hábito de zombar de quem chega atrasado no vestibular. O drama pessoal dos demais – um ano inteiro de estudos, os planos profissionais adiados – se torna apenas um motivo para diversão. Uma diversão baseada na humilhação. Em São Paulo, em Porto Alegre, os sádicos se multiplicam. Continuar lendo

De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

Imprensa alternativa precisa somar forças para resistir e avançar

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Veículos contra-hegemônicos têm agido de forma atomizada nos anos 2010; chegou a hora de resgatar parcerias que marcaram outras épocas; a começar do financiamento

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como financiar a imprensa alternativa? Com a palavra, o leitor. Também o leitor. E, para mostrar a esse leitor que depende dele a própria sobrevivência de uma rede de veículos independentes, os editores desses veículos precisam rever alguns valores. Ou cacoetes, vícios. Principalmente, precisam refletir sobre a tendência ao atomismo que se afirmou nos anos 2010. A do “cada um por si” – nada condizente a com a perspectiva política de todos. É preciso promover a união e a sinergia.

Diante de um governo golpista, alguns veículos que, em boa parte, viviam de verbas do governo também começaram a olhar para o financiamento coletivo. Outros nunca quiseram essas verbas e, igualmente sem verbas de outros mecenas (como fundações estrangeiras), já enxergavam no crowdfunding – ou em um sistema de assinaturas – a solução para pagar as contas. A mão de obra, os gastos básicos. Até mesmo advogados, quando necessário. Continuar lendo

120 mil na Praça São Pedro, diz o Fantástico. E na Avenida Paulista?

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Globo divulgou estimativa do Vaticano sem pestanejar, como verdade absoluta; o mesmo critério não foi utilizado para informar sobre o que acontecia em São Paulo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A canonização de Madre Tereza de Calcutá reuniu 120 mil pessoas, neste domingo, na Praça São Pedro. É o que informou o Fantástico, ontem, na Globo. Reproduzindo – como um número inquestionável – a estimativa feita pelo próprio Vaticano. Observem a foto.

E agora observem a imagem da manifestação contra o governo Temer, também ontem, na Avenida Paulista:

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Foto: Rede Brasil Atual/ Marcia Minillo

Pergunta: quando vale a estimativa dos organizadores e quando não vale?

Qual o critério jornalístico? É visual? Ou de confiança em determinada instituição?

Se a correspondente italiana vier cobrir uma manifestação em São Paulo ela cravará a estimativa dos organizadores, sem questionar? (E sem pontuar que foi feita pelos organizadores?) Ou a estatística do Vaticano se perpetua como dogma? Continuar lendo

Sim, era açúcar; caso Imbassahy ilustra o quanto perdemos o bom senso

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Espécie de “Blow-Up” às avessas, investigação nas redes não passou de suposição; apego excessivo a um detalhe ocorre enquanto ocorre um golpe, estrutural

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos caçadores de imagens fugidias. Durante a sessão de anteontem no Senado, subitamente decidiu-se, nas redes sociais, que o deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA), postado logo atrás do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). portava um papelote de cocaína. E essas conclusões súbitas têm-se tornado irrevogáveis. Como se fossem a verdade absoluta e como se fossem… relevantes.

Um olhar atento para o vídeo do G1, em alta resolução, mostra que o objeto que o deputado batuca na mesa é retangular – e branco. Compatível com um sachê de açúcar. E não com um papelote de cocaína. (Droga muito consumida em Brasília, no Congresso e fora dele, e em todo o Brasil.) O leitor mais teimoso poderá ter certeza do contrário. Mas estará sendo leviano se acusar sem provas. Continuar lendo

Um juiz, um desembargador, um ministro: três faces da Justiça brasileira

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Sérgio da Silva, fotógrafo cego pela PM. Para a Justiça, “culpado exclusivo”

Juiz diz que fotógrafo baleado em protesto foi o culpado por ficar cego; desembargador boquirroto vendia sentenças; Moraes quer menos pesquisas, mais armamentos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos três notícias.

A primeira: “Fotógrafo cego por PM em SP teve ‘culpa exclusiva’ diz juiz em sentença“.

Trata-se de Sérgio Andrade da Silva, que ficou cego do olho esquerdo ao ser baleado pela PM em junho de 2013, durante as manifestações por passe livre. Três anos após a bala de borracha, ele terá de pagar R$ 2 mil em honorários à Justiça, por ter perdido uma ação que movia contra o Estado. Vejamos a justificativa de Olavo Zampol Júnior, juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo:

– No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto.

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Paola Carossella: “Elite também come agrotóxicos”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Conhecida como jurada do Masterchef, argentina aponta comunicação como questão-chave no combate ao uso de venenos na comida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A chef argentina Paola Carossella defendeu nesta sexta-feira a comunicação com os consumidores como forma de combater o uso de agrotóxicos. “As pessoas não sabem o que está acontecendo”, disse ela, durante seminário promovido pela Comissão Especial sobre Fitossanitários da Câmara dos Deputados. “Existe uma enorme desinformação. O que a gente pode fazer é comunicar”.

Jurada do Masterchef, reality show sobre gastronomia da Band, contou que, ao se tornar mais conhecida, as pessoas começaram a perguntar sobre a viabilidade do consumo de comida orgânica. E a falar que se trataria de uma comida elitista. “Será? Conheço restaurantes caríssimos que não servem orgânicos. Não creio que as pessoas que produzem agrotóxicos estejam comprando cesta orgânica”. Continuar lendo

Idec: Brasil importa frutas com agrotóxicos ilegais

Dados constam de última pesquisa do governo; pesquisadora Ana Paula Bortoletto diz que Brasil trabalha com amostras insuficientes para tamanho do problema

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Da Espanha vem a uva. Com agrotóxicos proibidos, no Brasil, para a produção dessa fruta – em todas as amostras analisadas pelo governo brasileiro. Da Itália, o kiwi: quatro entre as cinco amostras apontam utilização de agrotóxicos não permitidos. Do Uruguai, a maçã. Igualmente envenenada, com quantidade de pesticidas acima do limite tolerável. Todos os dados constam de um levantamento divulgado em junho pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que passou despercebido da imprensa.

“Os alimentos que a gente está importando para consumir no Brasil também estão contaminados, e com alimentos impróprios para a cultura”, aponta Ana Paula Bortoletto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ela analisou os dados do Ministério da Agricultura em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Continuar lendo