Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Do roubo de merenda em SP à dentista que fura gengivas de crianças

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Ocupação de secundaristas em SP (Foto: Marco Estrella/ Jornalistas Livres)

Estudantes de Odontologia da USP torturam pacientes para “acalmá-los”; enquanto isso, secundaristas enfrentam corajosamente policiais da Tropa de Choque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A crise é ética. E está do lado dos mais fortes. O que têm em comum os ladrões de merenda em São Paulo e as estudantes de Odontologia da USP que não veem problemas em furar gengivas de crianças para “acabar com a birra”? Poder, claro. E um profundo desprezo pelos direitos específicos dessas pessoas, como se elas fossem meros objetos, ou números (no consultório ou na dança dos orçamentos públicos).

A história das torturadoras de crianças está circulando pela internet. Não é o caso de colocar o nome delas. Quem sabe o Ministério Público tenha interesse. Um pouco mais do que certas feministas que cobraram sororidade (solidariedade entre mulheres) como motivo para não expor as estudantes. Não é o caso porque não se deve fazer linchamentos virtuais. Nem de homens nem de mulheres. Mas as crianças, sim, essas devem ser protegidas. Continuar lendo

Meus professores (lembranças a partir do massacre de Curitiba)

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Duzentos feridos durante repressão a professores em Curitiba (Agência Paraná/ Fotos Públicas)

Batalha do Centro Cívico, em Curitiba, ou Massacre do 29 de Abril, completou um ano; blog relembra texto publicado na época em homenagem aos professores

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Ministério Público chama de Batalha do Centro Cívico. Os professores, de Massacre do 29 de abril. Centenas deles foram espancados em Curitiba, há um ano, durante protesto contra o governo de Beto Richa (PSDB). Duzentas pessoas ficaram feridas.

No dia seguinte escrevi em minha página de Facebook o texto abaixo. Título: “Meus professores”.

Lembro-me do Seu Deusdedit, de português. No ginásio. Sou do tempo do 1º grau, mas falávamos ginásio, lá em São Carlos, sempre em escolas públicas. (E como tenho saudades delas.) Se hoje concateno um pouco melhor as palavras devo muito a ele e à Dona Ângela, do colegial. Misto natural de professora e psicóloga. Uma motivadora. Nunca entendeu por que eu fui estudar exatas, antes de trilhar o caminho das humanas. Continuar lendo

Torcida única nos estádios esconde omissão policial e premia intolerância

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Jogo de Copa do Mundo, na Arena Corinthians (Foto: meutimao.com.br)

Poder público deseduca ao perpetuar o pensamento binário excludente; proibição do governo paulista naturaliza lógica do “nós ou eles”, presente também na política

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Nove entre dez analistas sérios de futebol rejeitam a decisão do governo paulista de impor a torcida única nos estádios. Mas a medida é ainda mais preocupante se pensarmos que ela não apenas reprime de forma irresponsável as torcidas organizadas (e não suas facções violentas), para eleitor ver. Pois ela, na prática, naturaliza a intolerância, torna-a a baliza para nossas formas mais elementares de organização, de expressão popular. E não estamos a falar aqui apenas de lazer, o que já seria muito; mas também de política.

Eu, palmeirense, aprendi a admirar a torcida do Corinthians em um jogo no Morumbi, nos anos 90. Ela pulava tanto do outro lado que o estádio tremia. E se tratava de uma festa, da alegria de torcedores (terrivelmente equivocados em suas escolhas clubísticas) apaixonados por um time que não é o meu. Para os sábios que comandam com jogo de cena a Secretaria de Segurança Pública, a solução para as brigas de torcedores – que ocorrem fora, e não dentro, dos estádios – é acabar com essa alteridade. Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Menção ao Amigo da Onça valoriza a grande comédia política da HQ brasileira

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Fagundes, da Laerte; Skrotinhos, do Angeli; Rango, do Edgar Vasques; Fradim, do Henfil; alto nível dos quadrinhos brasileiros faz jus à menção por um titular do MEC

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A menção do Amigo da Onça por um ministro da Educação, Aloizio Mercadante, diz menos sobre seu alvo, o senador Delcídio do Amaral (PT-SP), e mais sobre a riqueza dos personagens das histórias em quadrinhos brasileiros. O personagem de Péricles continua extremamente atual, não só para políticos graúdos (que possuem uma ética própria), mas para a sociedade como um todo, em tempos de esfacelamento das relações de confiança. Não é o único. Cartunistas brasileiros compuseram uma grande comédia humana, que tem na política um de seus braços mais poderosos.

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Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

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Reivindicações justas do movimento negro da USP são prejudicadas pela humilhação a um professor que sempre estudou os excluídos; métodos são autoritários

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

José de Souza Martins não nasceu em família rica. Trabalhava como operário  enquanto, à noite, cursava Ciências Sociais na USP. Décadas depois tornou-se professor emérito, com extensa contribuição ao estudo das dinâmicas da exclusão, especialmente no campo. Bastaria mencionar um clássico: “O Cativeiro da Terra” (1979). Ou suas contribuições mundiais à reflexão sobre escravidão contemporânea. Nada disso contou na hora de ser enxovalhado por ativistas do movimento negro, no dia 17, em plena Universidade de São Paulo. Ele foi impedido de proferir a aula magna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O método de calar a boca alheia não deveria nem ser qualificado como estratégia possível. E sim como puro autoritarismo. É condenável em qualquer situação – de Eduardo Suplicy a Yoani Sánchez, de Lula a FHC. Tamanha truculência combina melhor com atitude de fascistas. E não de movimentos sociais com causas nobres, no caso o Ocupação Preta, com o aval do DCE Livre da USP. A dificuldade de perceberem que repetem métodos opressores preocupa duplamente, já que os ativistas parecem comemorar algo que não significa nem uma vitória de Pirro. Fosse uma vitória, os fins (repito, necessários) não justificariam os meios. Continuar lendo

Ocupações de escolas em GO têm perseguição e espancamento de adolescentes

Pela versão de estudantes e de testemunhas, policiais retiraram ocupantes sem mandado de reintegração de posse; jovens são intimidados; um foi atropelado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Policiais à paisana acompanharam pessoas que se apresentaram como pais de alunos e espancaram adolescentes que ocupavam desde o dia 17 de dezembro o Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus, em Goiânia. A ação ocorreu nesta segunda-feira, conforme o relato dos estudantes. Eles estavam dormindo quando acordaram, às 5h40, levando chutes e cadeiradas. “Acorda vadia, acorda vagabunda“, diziam. Uma adolescente que tem tatuagem na perna foi espancada. Pois decidiram que a imagem era de um palhaço – o que policiais consideram uma ofensa.

Um estudante conta no vídeo acima que os populares não eram pais – o que caracterizaria a formação de milícia. E que, em seguida, policiais em cinco viaturas entraram na escola e retiraram os alunos à força. Algumas pessoas estavam com pedaços de pau, outras com cadeira. Armas foram apontadas. O advogado Hugo Hescer conta que os policiais não tinham mandado de reintegração de posse. Ou seja, participaram de um ato completamente ilegal. A Secretaria de Educação do Estado de Goiás sustenta que somente pais entraram na escola. Continuar lendo

2015 – Mais um ano de naturalização da violência policial

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Agressão a professores em Curitiba (Foto: José Gabriel Tramontin / Lente Quente)

Tortura, chacinas, grupos de extermínio, execução de crianças, repressão a protestos; show de horrores da PM ganha noticiário, mas de forma dispersa, sem coesão

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

As chacinas ainda ganham algum destaque na imprensa – em ciclos. Em 2015, a matança em Osasco em Barueri foi uma das principais notícias de segurança publica, ao lado da tradicional truculência em manifestações de estudantes, professores e movimentos sociais. Esta, disfarçada em “confronto”. De um modo geral, porém, a sociedade brasileira segue assimilando a violência policial. Sem que ela apareça – apesar da ampla escala – nas retrospectivas televisivas ou impressas de fim de ano.

Esta sequência diz muito sobre o que aconteceu em Osasco:

14/08 (Osasco, Barueri, SP): Série de ataques deixa ao menos 18 mortos e 6 feridos na Grande SP
27/08 (Osasco): Adolescente morre em hospital e é a 19ª vítima de chacina na Grande SP (Letícia tinha 15 anos.)
28/10 (Osasco e Barueri): PMs queriam vingança e mataram 23 inocentes na Grande SP, diz secretário
07/11 (Osasco): Principal testemunha de chacinas é assassinada a tiros na Grande SP
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SP: a quem interessam as notícias sobre “depredação” nas escolas?

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EE Fernão Dias Paes, em Pinheiros, na 1ª semana de ocupação (Foto: Alceu Castilho)

Existe risco de alunos que se mobilizaram em SP serem responsabilizados por um problema de segurança pública anterior às ocupações, que foram pacíficas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como jornalista, sou a favor da liberdade de expressão e da circulação de informações de interesse público. Se houve algum tipo de destruição em escolas, que isso seja noticiado. Mas com responsabilidade. Não de forma a culpar os estudantes que as ocuparam; muito menos todos os estudantes que ocuparam todas as escolas. Até porque a versão dos alunos é bem diferente. Interessa muito aos derrotados políticos passar à população a ideia de que as ocupações não foram tão pacíficas e politizadas (e artísticas, culturais) como vimos nas últimas semanas.

Vejamos o caso de Osasco, neste sábado. Foi o segundo caso em uma semana. Título no G1: “Osasco registra novo caso de escola estadual depredada“. Subtítulo: “Governo culpa manifestantes por vandalismo na escola Francisca Peralta. Alunos que ocupavam o espaço afirmam que não fizeram depredação”. Atentem a um detalhe: não é que eles somente afirmam que não fizeram depredação. Eles acusam diretamente um grupo de jovens que entrou nas escolas e os ameaçou. Continuar lendo