Dorialândia, essa terra de dependentes do desprezo

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Uma terra que necessita de despejos. (Foto: Tiago Macambira/Jornalistas Livres)

É um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta; terra de gente que posa de bacana, mas precisa soterrar alguém para saciar a própria fissura

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dorialândia é um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta. Uma terra onde as pessoas se matam nas Marginais, porque-a-cidade-precisa-andar e, conforme a definição de seu guru, por “excesso de otimismo”. Terra de gente que posa.

Consumidores de dorias viajam para Campos do Jordão para testemunhar araucárias dizimadas (eles são os netos dos bandeirantes e dos plantadores de café) e, quem sabe, a casa do prefeito paulistano – aquela com uma área pública invadida.

Na administração de Dorialândia o guru leva uma garrafa pet com guaraná quente à mesa. Começa a reunião. Quem fala uma bobagem, na definição dos dependentes de doria, é obrigado a tomar o purgante. Todos riem e acham m-o-d-e-r-n-o.

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“Eles não sabem o valor de uma nota de cem”

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Preso no trânsito, taxista de Belo Horizonte faz uma reflexão sobre dinheiro e poder, a partir do caso JBS e do valor concreto ou desconhecido de uma nota de R$ 100

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A jornalista Constança Guimarães contou esta história nas redes sociais. Ela pegou um táxi em Belo Horizonte. Era o começo da noite de sexta-feira, 19 de maio. Um dia após estourarem as notícias sobre a JBS. O trânsito estava lento. “Mas melhor que ontem”, disse o taxista. “Porque em dia de manifestação fica muito parado mesmo”.

Constança disse a ele que manifestações precisam provocar desconforto, interferir no cotidiano para motivar reflexão. Em muitas outras vezes já havia se posicionado dessa maneira e sua colocação fora recebida com arroubos “a esmo”, como ela disse, ou dirigidos a ela “com muita, muita ênfase”. Algumas dessas ênfases, violentas.

Foi quando o taxista disse: “Mas é claro. Senão vira piquenique.” Continuar lendo

Brasil agora tem uma esquerda “valente”, caçadora de estagiários

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Estudante de Engenharia foi demitido da empresa após escrever contra feministas

Em vez de defender trabalhadores e debater temas econômicos, vem aí a “esquerda que pede a cabeça de pecadores”; combater o capitalismo ou o Estado, nem pensar

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante a ditadura de 64, milhares de jovens, senhores e senhoras ousaram desafiar os tanques e coturnos. Foram exilados, torturados, assassinados. Não que o enfrentamento revolucionário fosse o único caminho. Houve quem desafiasse o sistema de outra forma. Com um jornal, com textos, com músicas. Foi também por essa legião de resistentes que pudemos voltar ao esboço de democracia que vivemos (com todos os seus defeitos) durante 30 anos. E que hoje é um títere na mão leve de farsantes.

Antes, durante a era Vargas, outros brasileiros corajosos arriscaram seus pescoços em nome de ideais. E de compromissos perenes. Basta pensar nos homens descritos por Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere” para se ter uma ideia da tenacidade, da capacidade de resignação, da necessidade de desenvolvimento de códigos (e de silêncios), de respeito aos companheiros – pois se sabia que a luta era longa e que qualquer vacilo podia ser fatal. Falhava-se, sim, sem dúvida – mas não sem um certo senso de disciplina. Continuar lendo

Sobre moradores de rua, sem-teto, Olimpíadas e o higienismo nosso de cada dia

Exclusões de moradores de rua, sem-teto ou indígenas são feitas pelo poder público a pedido do poder econômico; mas e quando são solicitadas pelo cidadão comum?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos duas notícias aparentemente díspares reunidas pelo Observatório do Autoritarismo.

1) “A pedido de moradores do Centro, Brigada Militar retira população de rua do viaduto na Borges” (Sul 21). Em Porto Alegre. Continuar lendo

SP, RJ, RS, PR e SC têm 60% das feiras orgânicas do país

 

Mapa de Feiras Orgânicas do Idec mostra necessidade de políticas públicas para se atingir lugares mais pobres; movimento atual do governo é no sentido oposto

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Entre 490 feiras identificadas pelo Mapa de Feiras Orgânicas do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (idec), 60% delas (292) ficam em apenas cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. No restante do país há Unidades da Federação com apenas uma feira conhecida, como Amapá, Amazônia e Rondônia.

A pesquisadora Ana Paula Bortoletto, do Idec, diz que para se fazer uma melhor distribuição geográfica são necessárias políticas públicas. E é aí que mora um dos problemas. O governo interino de Michel Temer tem feito sinalizações no sentido contrário. Com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e medidas que estimulam ainda mais o setor do agronegócio, e não a agricultura familiar. Continuar lendo

Questão agrária: movimentos sociais apontam ofensiva do governo Temer

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De Olho nos Ruralistas promoveu debate sobre governo Temer e questão agrária (Foto: TV Drone)

Greenpeace diz que bancada ruralista esperava um “padrinho” para emplacar agenda de retrocessos; ONG aponta 20 projetos prontos para aprovação no Congresso

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Trezentos projetos de lei que atingem diretamente o ambiente e os povos do campo aguardam na fila do Congresso, em uma agenda do retrocessos. Desses, 20 estão prontos para a aprovação. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (06/07) por Marcio Astrini, diretor de políticas públicas do Greenpeace, durante um debate em São Paulo sobre questão agrária e o governo de Michel Temer.

O evento foi organizado por um observatório do agronegócio chamado De Olho nos Ruralistas. Contou também com representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Eles foram unânimes em criticar as políticas agrárias e socioambientais dos governos anteriores, mas destacaram a ofensiva do governo interino. Continuar lendo

As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas

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Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?) Continuar lendo

Elite paulista escarnece do povo de rua ao exibir cobertores abandonados

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Leitura cínica de decreto do prefeito (que proíbe apreensão) e bandeirantismo midiático visam compor imagem de moradores de rua como “feios, sujos e ingratos”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O antropólogo José Ribamar Bessa Freire cunhou no fim de semana a expressão “agrobandeirantes“, em referência à matança de indígenas no Mato Grosso do Sul. Dos excluídos do campo aos excluídos da cidade, temos em São Paulo a matança – real e simbólica – de pessoas em situação de rua. Centenas deles morrem por ano. E, para completar, ainda são vítimas de mortes simbólicas, de assassinatos de reputação. Para esta tarefa existem os bandeirantes midiáticos.

Como definir de outra forma a capa do Estadão de hoje? Ao fundo, o Pátio do Colégio. Em primeiro plano, cobertores. “Cobertores abandonados”, diz o jornal. “Após fim de semana de doações para moradores de rua”. Continuar lendo

Haddad e os moradores de rua; ele fala de “hipocrisia”; falemos de cinismo

Prefeito demonstra ao mesmo tempo arrogância e ignorância em relação a aspectos elementares da comunicação com cidadão e imprensa; seria melhor ouvir conselhos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Prefiro acreditar que as pessoas que cuidam do setor de comunicação da prefeitura paulistana tentem alertar Fernando Haddad sobre aspectos básicos do tema. E que apenas ele – sem ouvir os conselhos – seja o responsável pela sequência de falas desastrosas, no caso da morte de moradores de rua em São Paulo.

Digo isto a propósito de um post de ontem no Facebook, intitulado “mentira e hipocrisia“. Sim, ele começa falando da grande imprensa. Que, de fato, é hipócrita. Com agenda mais eleitoral que humanista. Mas encerra falando de “romantização da permanência na rua em situação de risco extremo”, e associando-a à hipocrisia.

Falemos, então, de hipocrisia. E de cinismo. Muito boa a aula do professor Haddad sobre a diferença entre as duas palavras. Ao falar – cinicamente – de hipocrisia. Continuar lendo

Massacre de indígenas no MS é também um massacre midiático

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Estadão noticiou em 77 palavras um atentado de fazendeiros que deixou um morto e vários feridos, entre eles um menino de 12 anos; em 2013, mataram Denilson, de 15

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O Estadão traz no pé da página A8, hoje, lá no cantinho direito, a seguinte notícia: “Ataque deixa um índio morto e cinco feridos”. Contei 77 palavras na notícia, incluídos, os artigos, preposições e palavras inevitáveis, como “Mato Grosso do Sul” e “terra indígena Dourados Amambaipeguá I”. Não encontrei o nome do morto. “Uma liderança indígena”. Deu tempo de registrar o “o ataque de 70 fazendeiros armados em 60 veículos”.

Quase uma palavra para cada fazendeiro.

Esse descaso da imprensa representa uma metralhadora às avessas. O pé de página é a vala – quando muito – onde os jornais brasileiros enterram as centenas de Guarani Kaiowá mortos nos últimos anos, entre assassinados, atropelados, mortos por problemas básicos de saúde e os que, em meio ao confinamento histórico do qual são vítimas, se suicidaram. Cada uma das 77 palavras significa o silêncio entre cada bala assassina. Continuar lendo