Sobre moradores de rua, sem-teto, Olimpíadas e o higienismo nosso de cada dia

Exclusões de moradores de rua, sem-teto ou indígenas são feitas pelo poder público a pedido do poder econômico; mas e quando são solicitadas pelo cidadão comum?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos duas notícias aparentemente díspares reunidas pelo Observatório do Autoritarismo.

1) “A pedido de moradores do Centro, Brigada Militar retira população de rua do viaduto na Borges” (Sul 21). Em Porto Alegre. Continuar lendo

Matheus, 5 anos; Ana Beatriz, 5 anos; Ryan, 4 anos; descansaremos em paz?

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Matheus tinha 5 anos e jogava bolinha de gude quando foi baleado (Reprodução: Arquivo Pessoal)

Todos foram baleados; Matheus jogava bolinha de gude quando foi morto, no sábado, sob a clássica alegação policial de que havia “confronto”; família nega

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Três casos recentes de crianças baleadas e mortas em municípios do Rio.

Matheus Santos Moraes, 5 anos. Jogava bolinha de gude na rua quando foi baleado, no sábado, em Magé. Enterro foi no domingo. Os policiais descansarão em paz?

Ryan Gabriel, 4 anos. Estava na porta da casa do avô, em Madureira, na capital, em pleno domingo de Páscoa. O governador do Rio descansará em paz?

Ana Beatriz Duarte e Sá, 5 anos. Atingida por bala perdida no dia 10, em São Gonçalo. Descansaremos em paz? Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

Eles começaram a criar asinhas em 2013 e se espalham pelo país, sob o olhar complacente da mídia, da polícia e do Ministério Público; até onde vão chegar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um tipo que se multiplica: um rubrofóbico. Ele tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo. E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto. Continuar lendo

Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

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Reivindicações justas do movimento negro da USP são prejudicadas pela humilhação a um professor que sempre estudou os excluídos; métodos são autoritários

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

José de Souza Martins não nasceu em família rica. Trabalhava como operário  enquanto, à noite, cursava Ciências Sociais na USP. Décadas depois tornou-se professor emérito, com extensa contribuição ao estudo das dinâmicas da exclusão, especialmente no campo. Bastaria mencionar um clássico: “O Cativeiro da Terra” (1979). Ou suas contribuições mundiais à reflexão sobre escravidão contemporânea. Nada disso contou na hora de ser enxovalhado por ativistas do movimento negro, no dia 17, em plena Universidade de São Paulo. Ele foi impedido de proferir a aula magna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O método de calar a boca alheia não deveria nem ser qualificado como estratégia possível. E sim como puro autoritarismo. É condenável em qualquer situação – de Eduardo Suplicy a Yoani Sánchez, de Lula a FHC. Tamanha truculência combina melhor com atitude de fascistas. E não de movimentos sociais com causas nobres, no caso o Ocupação Preta, com o aval do DCE Livre da USP. A dificuldade de perceberem que repetem métodos opressores preocupa duplamente, já que os ativistas parecem comemorar algo que não significa nem uma vitória de Pirro. Fosse uma vitória, os fins (repito, necessários) não justificariam os meios. Continuar lendo

Reflexões sobre fascismo (IV) – Sartre, Brecht, Sabato, Monsalve

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Venezuelano cita Sartre (o motivo de combater o fascismo), Brecht (que o associa ao capitalismo) e aponta papel da mídia ao questionar violência de direita em seu país

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Frases de Jean-Paul Sartre e Bertolt Brecht iniciam e finalizam artigo do venezuelano Tulio Monsalve sobre fascismo, publicado no site chavista Aporrea, em 2013, no contexto de uma chacina de 11 pessoas – duas delas, crianças – ocorridas em abril daquele ano, em seu país. Como o próprio autor tece algumas frases impactantes sobre o tema (como aquelas sobre o papel das notícias e dos jornais), publico o artigo na íntegra, em tradução livre. Título e link original: “… de pronto se despertó y descubrió que era fascista… fin“.

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Logo acordou e descobriu que era fascista. Fim

Tulio Monsalve

“Não se combate o fascismo porque se possa ganhar dele; se combate porque é fascista” (Jean-Paul Sartre, 1945, “A Idade da razão”) Continuar lendo

Linchadores de esquerda têm no caso da fantasia de Abu sua Escola Base

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Cena de entrudo em 1880, em desenho de Angelo Agostini

Diferença em relação ao escândalo dos anos 90 é que não é preciso mais jornalistas ou delegados afoitos para expor alguém indevidamente; internautas fazem tudo sozinhos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Este texto será escrito sem imagens do menino negro que, em Belo Horizonte, estava fantasiado de Abu. Ou dos pais, um casal de atores que saiu para a folia vestido de Alladin e Jasmine. E não será acompanhado de fotos porque as considera uma brutal violação dos direitos dessa criança – ou mesmo de seus pais. Estes, acusados de racismo. Pois Abu, no desenho da Disney, é um macaco.

Não verão aqui nem a foto original, com os três sorridentes, nem a foto editada pelo jornal Extra, com a imagem do menino borrada. Pois a criança não cometeu nenhum crime. Não é suspeita de nada. Ao mesmo tempo, não pode ser exposta porque o linchamento virtual ocorrido nos últimos dias definiu a atitude dos pais – a de desfilar com a criança – como racista. Sem que se respeitasse o Estatuto da Criança e do Adolescente. Continuar lendo

Luceno, de 14 anos, está desaparecido na floresta; quem contará a história de Luceno?

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Terra Indígena Tenharim Marmelos, no sul do Amazonas (Foto: Alceu Castilho)

Adolescente Tenharim está perdido na Terra Indígena; história está diretamente relacionada às tragédias ocorridas há dois anos, no sul do Amazonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Luceno tem 14 anos. Está desaparecido na floresta amazônica desde o dia 9 de janeiro. Há 25 dias. Seus parentes, da etnia Tenharim, têm feito buscas pela mata densa. Ele sumiu logo após uma pescaria. Oitenta homens de todas as aldeias da região se mobilizaram para fazer um pente fino na Terra Indígena Tenharim, em Manicoré, no sul do Amazonas. Missão difícil: trata-se de floresta primária, densa. Luceno tem leve problema mental.

Foram encontrados sinais de vida: um chinelo, a cama de palha onde ele teria dormido. Os homens têm apoio da Funai e de amigos, que fornecem o combustível – para navegação no Rio Marmelos – e alimentação. A busca é feita com sol ou com chuva – a chuva da floresta equatorial. Por um período curto, o Exército também deu apoio. Foram percorridas centenas de quilômetros. Até agora a varredura não surtiu efeito. Os parentes não desistem. Continuar lendo

Não, não está legal a capa da Galileu com um “bandido morto”

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Por mais que revista da Globo se posicione contra linchamento de negros e pobres, edição parte de pressupostos mais do que questionáveis, que naturalizam distorções

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não. Nem por hipótese é possível aceitar a ignomínia da frase “bandido bom é bandido morto”. A revista Galileu deste mês propõe uma abordagem mais progressista para o tema que a média da grande imprensa, é bem verdade. Mas com vários senões. Que muito defensor de direitos humanos ainda não percebeu. A própria manchete traz pressupostos perigosos: “O bandido está morto. E agora?” (Com a imagem de um modelo negro amarrado – linchado – e morto, cheio de sangue.)

E quais seriam esses pressupostos? Implícitos ou explícitos?

1) Quem mata é a população.

Sim, também vivemos no país dos linchamentos. O sociólogo José de Souza Martins detalhou o tema em livro recente (Editora Contexto, 2015). Mas quem mais mata no Brasil esses que o senso comum chama de “bandidos” não são os populares. É a polícia. Particularmente a Polícia Militar. São os grupos de extermínio, as milícias – formadas também por policiais.
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Relatório da Human Rights Watch para o Brasil prima pela superficialidade

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Violações bárbaras e sistemáticas de direitos humanos ganham resumo anódino da organização internacional; imprensa repercute por protocolo, “para americano ver”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A vantagem de uma organização internacional de direitos humanos fazer um relatório por país é que a imprensa brasileira não se atreve a esnobar. E arruma um espaçozinho para os mesmos temas que costuma ignorar durante o ano. É o que ocorre nesta quarta-feira com o relatório da Human Rights Watch, que aponta violações de direitos por todo o mundo. A apresentação dos dados anuais, em tese bem-vinda, é feita com pompa. Mas os dados sobre o Brasil são extremamente superficiais.

Quem acompanha regularmente os temas sente falta de mais detalhes e de mais contundência. O texto em português chega a ser tão cuidadoso que quase pede desculpas por expor alguns de nossos horrores – da violência policial ao trabalho escravo. E como resumir a violência no campo em dois parágrafos? As violações de direitos das crianças em outros dois? Casos relativos a orientação sexual e identidade de gênero, mais dois? Continuar lendo