Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Esquerda não está imune ao risco de datenização do debate político

datena

Caso do estupro coletivo no Rio inunda redes sociais e nos convida a uma reflexão sobre banalização da violência; não estamos repetindo a lógica imediatista do jornalismo cão?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ontem eu passava por um ponto de táxi e tinha uma TV transmitindo o programa do Datena. E lá estava ele, narrando uma cena de um frentista sendo massacrado por um bando. Muitos chutes na cabeça. Covardia pura – e replicada “n” vezes pelo programa, sob o pretexto de promover a indignação coletiva. Mas com pelo menos um efeito contrário: a banalização da violência. A edição repete a cena, voltam os pontapés, e apresentamos à sociedade (e com o nome de jornalismo) a nossa cota diária de barbárie televisionada. Nem mortes a TV se poupa mais de transmitir. “Veja agora o momento do tiro”. E assim por diante.

E fiquei pensando no Datena. Observando. Pela primeira vez percebi que suas sobrancelhas lembram muito a de um grande ídolo meu, o cineasta Federico Fellini. Nada menos. E somente elas, claro. De qualquer forma, a figura do apresentador me intriga. Não somente ela, mas o seu sucesso. Ou talvez, guardadas as proporções, ele tenha outra característica do diretor italiano: o carisma. Ainda que às avessas, com outros propósitos, outras referências. E o desafio reflexivo passa a ser o seguinte: o quanto não resvalamos – cognitivamente ou emocionalmente – com posições dignas de José Luiz Datena? Continuar lendo

As “belas, recatadas e do lar” da história do cinema

Sylvia Kristel. Maria Schneider. Marilyn Monroe. Victoria Abril. Dezenas de mulheres em filmes de Fellini, musas de Almodóvar. Uma história da tradicional família mundial

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Sou suspeito. Como fã de cinema italiano, diria que nenhum cineasta terá retratado tão bem as mulheres “belas, recatadas e do lar” como Federico Fellini. (A expressão foi consagrada pela revista Veja de uma forma que se propunha a ser séria, ao falar de Marcela Temer, mas foi ironicamente revertida em seu sentido original pelos internautas. A enumeração, por sinal, remete a um clássico do cinema italiano, os “Feios, Sujos e Malvados” de Ettore Scola.)

O vídeo acima exibe Saraghina, a personagem de Eddra Gale dançando rumba em um dos filmes mais importantes do cinema, o “Oito e Meio” de Fellini. Mas o cineasta – que se fartaria de fazer caricaturas no Congresso brasileiro – apresenta também Volpina (Josiane Tanzilli) e a a moça da tabacaria (Maria Antonietta Beluzzi) em “Amarcord”, ou um verdadeiro desfile de recatadas em “Cidade das Mulheres”. (Fellini estava à frente do seu tempo, ao eleger uma prostituta como protagonista nos anos 50, em “Noites de Cabíria”.) Continuar lendo

Escolinha do Professor Cunha expôs ao Brasil sua face bizarra e violenta

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Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Edição especial da aula no Congresso foi didática em relação ao potencial expressivo dos nobres deputados; de certos tiques e esquisitices, de certas farsas e farras

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O dia 17 de abri foi uma aula de Congresso. Macabra. Com Eduardo Cunha à frente (e sua eterna ironia de cantinho de boca), os deputados puderam se expor à sociedade brasileira em uma espécie de dramaturgia sincera. A hora do voto foi a mais falada, pela sucessão de falas constrangedoras. E já simbolizaria o show de horrores caso o fundo fosse neutro – pensemos num azulzinho básico. Mas não. Ao fundo, o Brasil assistiu a um painel humano extremamente representativo de certa grosseria, de uma vulgaridade atroz. Ou alguém acreditava que Felicianos e Bolsonaros eram pontos fora da curva nesta nossa bufocracia?

Aqueles papagaios de pirata não impressionaram somente pelo oportunismo, pela disputa abjeta por alguns centímetros de tela, enquanto os colegas votavam. Aos poucos eles foram se soltando, e ao painel inicial de faces irrelevantes foi se sucedendo uma sequência de fotografias de cinismo explícito, como se aqueles senhores (ao final, também duas senhoras) fizessem questão de apresentar ao país em poucos segundos – como se fossem uns Enéas das imagens – uma síntese de suas expressões mais vergonhosas, desprovidas de algum senso de ética e beleza. Continuar lendo

Fascismo no Brasil se manifesta também por sua face machista

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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Das ofensas de um desqualificado a Letícia Sabatella à médica que não quis atender uma mãe petista, multiplicam-se casos em que barbárie política sobra para a mulher

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome do cidadão que ofendeu a atriz Letícia Sabatella – e teve milhares de compartilhamentos no Facebook – não merece ser exposto. Seria alimentação de trolls. Mas o fenômeno que ele representa é mais amplo: o do machismo que emerge junto com a onda fascista de ódio e desprezo por quem se declare contra o golpe.

Não é o único caso. Relatamos aqui as agressões a mães que estavam de vermelho, acompanhadas de seus bebês. Eles fariam isso se fossem pais fortões? E a pediatra que se recusou a atender o filho de uma petista? Quantos códigos ela terá rasgado (e não somente como médica) para exercitar sua intolerância? Continuar lendo

Já são cinco os casos de mães com bebê agredidas por uso de vermelho

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Macacão da Minnie: motivo para agressão no Rio (Arquivo: Monique Ranauro)

Em SP, uma mãe recebeu uma pedrada, na altura da criança; outra foi acuada em um supermercado; no Rio, motoqueiro disse que ia dar um tiro na mãe e na bebê

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo teve na semana passada dois casos em que as mães estavam vestidas de vermelho, com bebê no colo, e mesmo assim foram agredidas. Uma delas foi acuada. Outra viu uma pedra ser atirada na altura da criança. No Rio, mais um caso envolvendo a ira criminosa de fascistas. A diferença é que o próprio bebê era quem estava vestido de vermelho.

Dois desses casos foram relatados pela imprensa, mas isoladamente. Um pelo portal R7, outro pelo blog do Luis Nassif. Não se tornaram um tema nacional. O caso da blogueira Rafaela Freitas, em São Paulo, ainda não foi divulgado. Vejamos seu relato:
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Relatório da Human Rights Watch para o Brasil prima pela superficialidade

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Violações bárbaras e sistemáticas de direitos humanos ganham resumo anódino da organização internacional; imprensa repercute por protocolo, “para americano ver”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A vantagem de uma organização internacional de direitos humanos fazer um relatório por país é que a imprensa brasileira não se atreve a esnobar. E arruma um espaçozinho para os mesmos temas que costuma ignorar durante o ano. É o que ocorre nesta quarta-feira com o relatório da Human Rights Watch, que aponta violações de direitos por todo o mundo. A apresentação dos dados anuais, em tese bem-vinda, é feita com pompa. Mas os dados sobre o Brasil são extremamente superficiais.

Quem acompanha regularmente os temas sente falta de mais detalhes e de mais contundência. O texto em português chega a ser tão cuidadoso que quase pede desculpas por expor alguns de nossos horrores – da violência policial ao trabalho escravo. E como resumir a violência no campo em dois parágrafos? As violações de direitos das crianças em outros dois? Casos relativos a orientação sexual e identidade de gênero, mais dois? Continuar lendo

Maria Lúcia, vítima de fascistas em BH, tem a coragem que nos falta

Pedagoga vai com criança protestar contra golpe e é expulsa por manifestantes fascistas; esquerda indiferente tem certeza que as coisas não vão piorar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Observem o vídeo acima. A pedagoga e sindicalista Maria Lúcia Barcelos estava numa manifestação a favor do impeachment, no domingo, em Belo Horizonte. Em sua camiseta branca, uma frase: “Xô, golpe”. É expulsa, quase linchada. E é linchada verbalmente. Os manifestantes de verde e amarelo a xingam de “vagabunda”, “filha da puta”, “lixo”, “petista de merda”.

Pouco antes das agressões, como mostra reportagem do jornal Hoje em Dia, Maria Lúcia estava de mãos dadas com uma menina de uns 4 anos. Sua filha? Não sabemos. O que dá para saber é que, enquanto a polícia retirava a pedagoga do tumulto (sem nenhum esforço de rechaçar os fascistas mais agressivos), a menina não mais lá estava. Terá assistido a tudo aquilo? Continuar lendo

“Temos vários Carandirus por ano”, diz pesquisadora sobre presídios no Brasil

País tem entre duas e três mortes por dia no Brasil no sistema penitenciário. Boa parte por doenças contraídas na prisão, como a tuberculose. A matança é sistêmica.

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) | Foto: João Wainer

Autora de “Violência e Cidadania” (Ática, 2001), a pesquisadora Regina Célia Pedroso resolveu se debruçar sobre a realidade dos presídios brasileiros. E já adianta, para começo de conversa: “Temos ao longo do ano vários Carandirus, que não chegam ao conhecimento da população”. Ela se refere ao massacre de 111 presos em São Paulo, em 1992, e às mortes nos presídios. Por homicídios e suicídios, mas também por doenças. A causa mais comum é a tuberculose. São entre duas e três mortes por dia. Com doenças, em boa parte, contraídas na prisão, pelas condições insalubres. O sistema que se propõe a regenerar, na prática, mata. Ou massacra.

Regina prepara livro sobre o tema. E adiantou alguns dados nesta quinta-feira (19), em seminário sobre doenças e espaços de exclusão realizado na Universidade de São Paulo pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) – onde ela é pesquisadora – e pelo Departamento de História da USP. Regina é pessimista. Diz que a situação tende a piorar, diante da mentalidade de exclusão conservadora vigente. “Caminhamos para ter 1 milhão de presos e 80% de reincidência no Brasil”. Hoje são 650 mil presos e 70% de reincidência.
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Algo acontece em São Paulo, na #OcupaFernão

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Ocupação em Pinheiros virou ponto de encontro de estudantes e movimentos sociais e influencia novos protestos contra fechamento de escolas pelo governo Alckmin

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O bandeirante está amordaçado. Mais exatamente, envolto em sacos de lixo, na Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, uma das regiões mais antigas da cidade de São Paulo. A escola está ocupada desde terça-feira por estudantes secundaristas, que protestam contra a decisão do governo estadual de fechar 94 escolas no Estado, sob o eufemismo da “reorganização”.

A estátua de Fernão Dias Paes compõe um cenário singular na Rua Pedroso de Moraes, que leva o nome de outro bandeirante, “o terror dos índios”. Uma das duas faixas da avenida foi fechada para carros e outros estudantes passam o dia mobilizados, entoando palavras de ordem contra o governo, sob o som de uma bateria. Algo acontece em São Paulo entre a política e a estética. Continuar lendo