As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas

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Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?) Continuar lendo

Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Do roubo de merenda em SP à dentista que fura gengivas de crianças

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Ocupação de secundaristas em SP (Foto: Marco Estrella/ Jornalistas Livres)

Estudantes de Odontologia da USP torturam pacientes para “acalmá-los”; enquanto isso, secundaristas enfrentam corajosamente policiais da Tropa de Choque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A crise é ética. E está do lado dos mais fortes. O que têm em comum os ladrões de merenda em São Paulo e as estudantes de Odontologia da USP que não veem problemas em furar gengivas de crianças para “acabar com a birra”? Poder, claro. E um profundo desprezo pelos direitos específicos dessas pessoas, como se elas fossem meros objetos, ou números (no consultório ou na dança dos orçamentos públicos).

A história das torturadoras de crianças está circulando pela internet. Não é o caso de colocar o nome delas. Quem sabe o Ministério Público tenha interesse. Um pouco mais do que certas feministas que cobraram sororidade (solidariedade entre mulheres) como motivo para não expor as estudantes. Não é o caso porque não se deve fazer linchamentos virtuais. Nem de homens nem de mulheres. Mas as crianças, sim, essas devem ser protegidas. Continuar lendo

Matheus, 5 anos; Ana Beatriz, 5 anos; Ryan, 4 anos; descansaremos em paz?

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Matheus tinha 5 anos e jogava bolinha de gude quando foi baleado (Reprodução: Arquivo Pessoal)

Todos foram baleados; Matheus jogava bolinha de gude quando foi morto, no sábado, sob a clássica alegação policial de que havia “confronto”; família nega

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Três casos recentes de crianças baleadas e mortas em municípios do Rio.

Matheus Santos Moraes, 5 anos. Jogava bolinha de gude na rua quando foi baleado, no sábado, em Magé. Enterro foi no domingo. Os policiais descansarão em paz?

Ryan Gabriel, 4 anos. Estava na porta da casa do avô, em Madureira, na capital, em pleno domingo de Páscoa. O governador do Rio descansará em paz?

Ana Beatriz Duarte e Sá, 5 anos. Atingida por bala perdida no dia 10, em São Gonçalo. Descansaremos em paz? Continuar lendo

Hiperevasão: o país que, como Moro, expõe e sentencia

Há 20 anos Kieslowski discutia no filme “Rouge” a compulsão de um juiz em espionar a vida alheia; era das redes sociais expandiu e radicalizou a exposição indevida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Lembram-se quando o Brasil vivia na hiperinflação? Pois hoje vivemos no país da hiperevasão: essa evasão hipertrofiada e sem limites da privacidade alheia, sempre sob o signo das “melhores intenções”. A cada dia estamos vendo um punhado de gente sendo crucificada na internet por algo que disse, por um dia de fúria ou porque, supostamente, teria feito tal coisa no passado e isso precisa ser replicado – acreditam esses brasileiros – imediatamente. Para todos.

Estamos todos virando um grande Sérgio Moro. Um juiz que quebra o sigilo, expõe e depois vê – midiaticamente – no que dá. Claro que essas exposições são seletivas. Ninguém expõe seus pares, seus parceiros de causa. É preciso escolher um inimigo definido: “os corruptos”, “os machistas”, sempre algo absolutizado como o primeiro dos males do planeta, o pecado original. A partir daí a culpa pela superexposição do outro estará zerada – como se tivéssemos obtido um salvo conduto para o linchamento de cada dia. Continuar lendo

Já são cinco os casos de mães com bebê agredidas por uso de vermelho

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Macacão da Minnie: motivo para agressão no Rio (Arquivo: Monique Ranauro)

Em SP, uma mãe recebeu uma pedrada, na altura da criança; outra foi acuada em um supermercado; no Rio, motoqueiro disse que ia dar um tiro na mãe e na bebê

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo teve na semana passada dois casos em que as mães estavam vestidas de vermelho, com bebê no colo, e mesmo assim foram agredidas. Uma delas foi acuada. Outra viu uma pedra ser atirada na altura da criança. No Rio, mais um caso envolvendo a ira criminosa de fascistas. A diferença é que o próprio bebê era quem estava vestido de vermelho.

Dois desses casos foram relatados pela imprensa, mas isoladamente. Um pelo portal R7, outro pelo blog do Luis Nassif. Não se tornaram um tema nacional. O caso da blogueira Rafaela Freitas, em São Paulo, ainda não foi divulgado. Vejamos seu relato:
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Linchadores de esquerda têm no caso da fantasia de Abu sua Escola Base

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Cena de entrudo em 1880, em desenho de Angelo Agostini

Diferença em relação ao escândalo dos anos 90 é que não é preciso mais jornalistas ou delegados afoitos para expor alguém indevidamente; internautas fazem tudo sozinhos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Este texto será escrito sem imagens do menino negro que, em Belo Horizonte, estava fantasiado de Abu. Ou dos pais, um casal de atores que saiu para a folia vestido de Alladin e Jasmine. E não será acompanhado de fotos porque as considera uma brutal violação dos direitos dessa criança – ou mesmo de seus pais. Estes, acusados de racismo. Pois Abu, no desenho da Disney, é um macaco.

Não verão aqui nem a foto original, com os três sorridentes, nem a foto editada pelo jornal Extra, com a imagem do menino borrada. Pois a criança não cometeu nenhum crime. Não é suspeita de nada. Ao mesmo tempo, não pode ser exposta porque o linchamento virtual ocorrido nos últimos dias definiu a atitude dos pais – a de desfilar com a criança – como racista. Sem que se respeitasse o Estatuto da Criança e do Adolescente. Continuar lendo

Luceno, de 14 anos, está desaparecido na floresta; quem contará a história de Luceno?

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Terra Indígena Tenharim Marmelos, no sul do Amazonas (Foto: Alceu Castilho)

Adolescente Tenharim está perdido na Terra Indígena; história está diretamente relacionada às tragédias ocorridas há dois anos, no sul do Amazonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Luceno tem 14 anos. Está desaparecido na floresta amazônica desde o dia 9 de janeiro. Há 25 dias. Seus parentes, da etnia Tenharim, têm feito buscas pela mata densa. Ele sumiu logo após uma pescaria. Oitenta homens de todas as aldeias da região se mobilizaram para fazer um pente fino na Terra Indígena Tenharim, em Manicoré, no sul do Amazonas. Missão difícil: trata-se de floresta primária, densa. Luceno tem leve problema mental.

Foram encontrados sinais de vida: um chinelo, a cama de palha onde ele teria dormido. Os homens têm apoio da Funai e de amigos, que fornecem o combustível – para navegação no Rio Marmelos – e alimentação. A busca é feita com sol ou com chuva – a chuva da floresta equatorial. Por um período curto, o Exército também deu apoio. Foram percorridas centenas de quilômetros. Até agora a varredura não surtiu efeito. Os parentes não desistem. Continuar lendo

A criança que não sorria

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“Menino com pião” (Cândido Portinari, 1947)

“Poderia estar com meus filhos”, pensou o desembargador, voluntário em um hospital, “mas estou contando histórias para uma criança que não reage”

Por Alceu Luís Castilho* (@alceucastilho)
* publicado originalmente no site da Agência Repórter Social, em 2007

O desembargador Antonio Carlos Malheiros contou esta história em Brasília, durante um seminário do Movimento Nacional de Direitos Humanos. Ele utilizou boa parte de seu tempo para motivar os militantes presentes.

Falou do trabalho de conscientização dos jovens “e arrogantes” juízes em São Paulo e de sua história na Comissão de Justiça e Paz – decisiva no combate à ditadura.

Em seguida contou um pouco do seu trabalho como voluntário em hospitais paulistas. É quando ele invoca um lado palhaço para contar histórias às crianças internadas.

Um dia soube do caso de um menino com o rosto desfigurado. Uma criança “sem rosto”, como definiu. Continuar lendo

Relatório da Human Rights Watch para o Brasil prima pela superficialidade

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Violações bárbaras e sistemáticas de direitos humanos ganham resumo anódino da organização internacional; imprensa repercute por protocolo, “para americano ver”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A vantagem de uma organização internacional de direitos humanos fazer um relatório por país é que a imprensa brasileira não se atreve a esnobar. E arruma um espaçozinho para os mesmos temas que costuma ignorar durante o ano. É o que ocorre nesta quarta-feira com o relatório da Human Rights Watch, que aponta violações de direitos por todo o mundo. A apresentação dos dados anuais, em tese bem-vinda, é feita com pompa. Mas os dados sobre o Brasil são extremamente superficiais.

Quem acompanha regularmente os temas sente falta de mais detalhes e de mais contundência. O texto em português chega a ser tão cuidadoso que quase pede desculpas por expor alguns de nossos horrores – da violência policial ao trabalho escravo. E como resumir a violência no campo em dois parágrafos? As violações de direitos das crianças em outros dois? Casos relativos a orientação sexual e identidade de gênero, mais dois? Continuar lendo