E não é que nos tornamos todos uns convenientes Árbitros de Vídeo?

A tecnologia e... os homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Esquecemos que a tecnologia é gerida por… homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Polêmica em torno do VAR na Copa ilustra nossa crença absoluta na tecnologia e nossa sede justiceira, enquanto enxugamos diariamente o gelo das injustiças

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos todos Árbitros de Vídeo. Corajosíssimos. E não somente em relação à Copa do Mundo. Foi o que nos restou, neste mundo de violências e desigualdades brutais: julgar casos pontuais de cidadãos flagrados – diante de câmeras – dando cotoveladas, cometendo uma sequência de faltas machistas, impedindo uma criança de comer. A partir dessa crença inabalável na tecnologia, em uma Grande Verdade das Cenas Registradas, satisfazemos nossa sede de justiça, imaginando um combate adequado à Fome, ao Patriarcado e a cada lance profundamente injusto (ou que julgamos profundamente injustos) de um jogo de futebol.

Os alvos dessa sanha virtual representam o novo ápice da maldade imputável. Mesmo que o movimento de massa seja movido pela mesma lógica medieval das chibatadas imediatistas. A lógica é a de crucificar apenas o segurança que impediu a criança de comer (como se os patrões não o instruíssem a isso, e como se não houvesse previsão de aumento da mortalidade infantil por fome nos próximos anos), empalar o árbitro do jogo do Brasil em praça pública – todos subitamente muito entendidos em regras de futebol – e aguardar uma punição exemplar do Vladimir Putin em relação aos inglórios machistas brasileiros em Moscou. Continuar lendo

Uma das reações ao terror político precisa ser a valorização do Legislativo

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Ocupação de cargos parlamentares será uma resistência ao “cala a boca” embutido na ofensiva da direita; esquerda precisa parar de girar apenas em torno do Executivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vereadora Marielle? Presente. Deputadas Marielles? Presentes. Senadoras Marielles? Presentes. Defendo esta versão utópica do cenário político sem exemplos do Executivo porque a sociedade brasileira precisa se dar conta da importância do Legislativo. Marielle Franco foi executada no Rio, ao que tudo indica, por falar. Por defender direitos de gente que vive em territórios ocupados por militares ou paramilitares, mas também – literalmente – por empunhar microfones.

E uma das melhores homenagens possíveis a ela, portanto, é a tomada das Câmaras e Assembleias por centenas de resistentes. Em nome de milhões de brasileiros que não aceitam essa desproporção nos cargos parlamentares, ocupados há séculos pelas elites econômicas, quando muito por elites partidárias. Em março de 2018 a sociedade ainda pode se mobilizar para que seja incluída – e mais gente levante bandeiras como a que a vereadora carioca levantou. Continuar lendo

Massacre de Pau D’Arco e Massacre de Brasília: duas faces de um país que regride

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

O assassinato de dez camponeses no Pará remete o Brasil aos anos 90; o Exércico reprimindo manifestações na capital, aos anos de chumbo; tudo no mesmo dia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em Pau D’Arco, no Pará, dez camponeses foram mortos pela polícia, nesta quarta-feira. O mesmo número do Massacre de Corumbiara, em Rondônia, em 1995. No ano seguinte foram mortos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, também no Pará. As duas matanças marcaram o governo de Fernando Henrique Cardoso. Por isso é preciso que se dê o nome de massacre, com todas as letras: o Massacre de Pau D’Arco já passa a ser uma das marcas do governo de Michel Temer.

Outra marca desse presidente transitório ficará gravada para sempre na história brasileira da infâmia. A indefensável e intempestiva decisão – curiosamente corroborada por um ministro que já foi de um partido comunista, Raul Jungmann – de autorizar o uso do Exército para reprimir uma manifestação. Isto em um país supostamente democrático. Ocorreu ontem, em Brasília. Mas demorará a ser esquecido. Continuar lendo

Dorialândia, essa terra de dependentes do desprezo

dorialandia

Uma terra que necessita de despejos. (Foto: Tiago Macambira/Jornalistas Livres)

É um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta; terra de gente que posa de bacana, mas precisa soterrar alguém para saciar a própria fissura

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dorialândia é um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta. Uma terra onde as pessoas se matam nas Marginais, porque-a-cidade-precisa-andar e, conforme a definição de seu guru, por “excesso de otimismo”. Terra de gente que posa.

Consumidores de dorias viajam para Campos do Jordão para testemunhar araucárias dizimadas (eles são os netos dos bandeirantes e dos plantadores de café) e, quem sabe, a casa do prefeito paulistano – aquela com uma área pública invadida.

Na administração de Dorialândia o guru leva uma garrafa pet com guaraná quente à mesa. Começa a reunião. Quem fala uma bobagem, na definição dos dependentes de doria, é obrigado a tomar o purgante. Todos riem e acham m-o-d-e-r-n-o.

Continuar lendo

Brasil agora tem uma esquerda “valente”, caçadora de estagiários

estagiario

Estudante de Engenharia foi demitido da empresa após escrever contra feministas

Em vez de defender trabalhadores e debater temas econômicos, vem aí a “esquerda que pede a cabeça de pecadores”; combater o capitalismo ou o Estado, nem pensar

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante a ditadura de 64, milhares de jovens, senhores e senhoras ousaram desafiar os tanques e coturnos. Foram exilados, torturados, assassinados. Não que o enfrentamento revolucionário fosse o único caminho. Houve quem desafiasse o sistema de outra forma. Com um jornal, com textos, com músicas. Foi também por essa legião de resistentes que pudemos voltar ao esboço de democracia que vivemos (com todos os seus defeitos) durante 30 anos. E que hoje é um títere na mão leve de farsantes.

Antes, durante a era Vargas, outros brasileiros corajosos arriscaram seus pescoços em nome de ideais. E de compromissos perenes. Basta pensar nos homens descritos por Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere” para se ter uma ideia da tenacidade, da capacidade de resignação, da necessidade de desenvolvimento de códigos (e de silêncios), de respeito aos companheiros – pois se sabia que a luta era longa e que qualquer vacilo podia ser fatal. Falhava-se, sim, sem dúvida – mas não sem um certo senso de disciplina. Continuar lendo

Amigos da terceirização de presídios são mais perigosos que Família do Norte

anisiojobim

Foto: EBC

Ao eximir agentes estatais, discurso de Temer legitima barbárie nos presídios brasileiros, que vai muito além do massacre de 60 pessoas em Manaus

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A entrada em cena do presidente Michel Temer no caso do massacre de Manaus deveria acender todos os alertas da sociedade civil. O Brasil está em risco. E não somente pela ação do crime organizado (sem colarinho branco) e de suas facções, como o PCC e a Família do Norte, que apareceram midiaticamente como protagonistas do conflito.

Mas pela confusão deliberada entre público e privado. É irônico que caiba a um presidente jurista – que já vem rasgando sistematicamente a Constituição, durante o golpe e depois do golpe – escancarar essa confusão, ao tentar eximir o Estado de sua responsabilidade direta no episódio do presídio Anísio Jobim:

– Em Manaus, o presídio era terceirizado e privatizado e, portanto, não houve uma responsabilidade objetiva, clara e definida dos agentes estatais. Continuar lendo

Um juiz, um desembargador, um ministro: três faces da Justiça brasileira

sergiodasilva

Sérgio da Silva, fotógrafo cego pela PM. Para a Justiça, “culpado exclusivo”

Juiz diz que fotógrafo baleado em protesto foi o culpado por ficar cego; desembargador boquirroto vendia sentenças; Moraes quer menos pesquisas, mais armamentos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos três notícias.

A primeira: “Fotógrafo cego por PM em SP teve ‘culpa exclusiva’ diz juiz em sentença“.

Trata-se de Sérgio Andrade da Silva, que ficou cego do olho esquerdo ao ser baleado pela PM em junho de 2013, durante as manifestações por passe livre. Três anos após a bala de borracha, ele terá de pagar R$ 2 mil em honorários à Justiça, por ter perdido uma ação que movia contra o Estado. Vejamos a justificativa de Olavo Zampol Júnior, juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo:

– No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto.

Continuar lendo

Paola Carossella: “Elite também come agrotóxicos”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Conhecida como jurada do Masterchef, argentina aponta comunicação como questão-chave no combate ao uso de venenos na comida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A chef argentina Paola Carossella defendeu nesta sexta-feira a comunicação com os consumidores como forma de combater o uso de agrotóxicos. “As pessoas não sabem o que está acontecendo”, disse ela, durante seminário promovido pela Comissão Especial sobre Fitossanitários da Câmara dos Deputados. “Existe uma enorme desinformação. O que a gente pode fazer é comunicar”.

Jurada do Masterchef, reality show sobre gastronomia da Band, contou que, ao se tornar mais conhecida, as pessoas começaram a perguntar sobre a viabilidade do consumo de comida orgânica. E a falar que se trataria de uma comida elitista. “Será? Conheço restaurantes caríssimos que não servem orgânicos. Não creio que as pessoas que produzem agrotóxicos estejam comprando cesta orgânica”. Continuar lendo

Idec: Brasil importa frutas com agrotóxicos ilegais

Dados constam de última pesquisa do governo; pesquisadora Ana Paula Bortoletto diz que Brasil trabalha com amostras insuficientes para tamanho do problema

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Da Espanha vem a uva. Com agrotóxicos proibidos, no Brasil, para a produção dessa fruta – em todas as amostras analisadas pelo governo brasileiro. Da Itália, o kiwi: quatro entre as cinco amostras apontam utilização de agrotóxicos não permitidos. Do Uruguai, a maçã. Igualmente envenenada, com quantidade de pesticidas acima do limite tolerável. Todos os dados constam de um levantamento divulgado em junho pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que passou despercebido da imprensa.

“Os alimentos que a gente está importando para consumir no Brasil também estão contaminados, e com alimentos impróprios para a cultura”, aponta Ana Paula Bortoletto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ela analisou os dados do Ministério da Agricultura em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Continuar lendo

Sobre moradores de rua, sem-teto, Olimpíadas e o higienismo nosso de cada dia

Exclusões de moradores de rua, sem-teto ou indígenas são feitas pelo poder público a pedido do poder econômico; mas e quando são solicitadas pelo cidadão comum?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos duas notícias aparentemente díspares reunidas pelo Observatório do Autoritarismo.

1) “A pedido de moradores do Centro, Brigada Militar retira população de rua do viaduto na Borges” (Sul 21). Em Porto Alegre. Continuar lendo