Da literatura à história, legião de traidores prenunciou nossas versões infames

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Tullius Detritus, conspirador genial da série Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo

De Iago a Calabar, de Judas a Amaury Kruel, personagem tem centralidade em narrativas diversas; na política brasileira atual, traição é comemorada pela mídia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A frase de Júlio César a Brutus provavelmente nunca foi dita: “Até tu, meu filho?” Hoje, na cena brasileira, seria impensável. Pois a presidente traída precisa comunicar à imprensa a reação ao vice-presidente traidor, que, por sua vez, terá exposto pela imprensa a própria traição. Sem diálogo direto entre os protagonistas. Vivemos em tempos de traição mediada, onde os meios de comunicação são utilizados como instrumento político. A própria mídia, que gosta de se apresentar como defensora da democracia, aparece como Judas central dessa história.

Michel Temer faz parte de uma tradição – palavra que tem a mesma origem latina de traição – de personagens melífluos e ardilosos. Ainda que sem a mesma capacidade de fingimento que a literatura ou o cinema costumam atribuir aos conspiradores. Seu esboço inacabado de sorriso dificilmente convidaria a uma confiança absoluta. Mas foi colocado lá, na vice-presidência, num sistema político onde o exercício da traição já foi assimilado como linguagem, entre tapinhas nas costas e vazamentos para jornalistas que julgam estar dando furos na mesma medida em que participam da trama. Continuar lendo

O que escrever sobre o PMDB, quando os cartunistas já desenharam tudo?

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Chargistas foram ao mesmo tempo proféticos e incisivos, auxiliados pelo show de horrores intrínseco à história recente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Amigo da Onça. Polvo. Verdugo. Satanás. Ogro. Vampiro. Fantasma. O PMDB é um problema para quem lida com palavras. Pois o partido é um convite explícito à caricatura. Ao longo das últimas décadas, os principais chargistas do país perceberam isso e fizeram centenas de retratos, em boa parte surreais, mas nem por isso descolados da realidade. Ganância e capilaridade são dois temas recorrentes, expressos quase sempre em diálogo com o grotesco.

Daria para fazer uma coletânea somente com o maior dos nossos chargistas, Angeli. Tem PMDB como algo perdido numa área de musgo. PMDB comparado a baratas (essas resistentes): “Estão pensando que somos o quê?” PMDB saqueando a Funasa. PMDB como Monstro da Lagoa. E não é que a primeira charge de Angeli na Folha, em 1975, era sobre o antepassado direto do partido, o MDB? (Eram outros tempos: o jornal falava da divisão interna no partido.) Continuar lendo

Crônicas do Golpe: “A Patada” x “A Patranha”

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Em plena ditadura, redatores brasileiros utilizavam jornal do Tio Patinhas para questionar papel da mídia; na democracia, jornais de verdade perpetuam status quo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muito antes da Veja, uma revista decidiu a sorte e a fortuna da editora Abril: chamava-se Pato Donald. Foi com os direitos de reproduzir o gibi da Disney que o italiano Victor Civita começou a erigir seu império de comunicação.

Quac, quac, mil vezes quac! As exclamações suscetíveis do pato fizeram parte de muitas infâncias. E de muita teoria marxista da conspiração. Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreviam um clássico apocalíptico: “Para ler o Pato Donald”. Sobre a ideologia da Disney, portadora das maldades do capitalismo. Mickey era descrito como agente da CIA. Tio Patinhas era o símbolo do sistema, a nadar em seu mar de moedas. Continuar lendo

Menção ao Amigo da Onça valoriza a grande comédia política da HQ brasileira

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Fagundes, da Laerte; Skrotinhos, do Angeli; Rango, do Edgar Vasques; Fradim, do Henfil; alto nível dos quadrinhos brasileiros faz jus à menção por um titular do MEC

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A menção do Amigo da Onça por um ministro da Educação, Aloizio Mercadante, diz menos sobre seu alvo, o senador Delcídio do Amaral (PT-SP), e mais sobre a riqueza dos personagens das histórias em quadrinhos brasileiros. O personagem de Péricles continua extremamente atual, não só para políticos graúdos (que possuem uma ética própria), mas para a sociedade como um todo, em tempos de esfacelamento das relações de confiança. Não é o único. Cartunistas brasileiros compuseram uma grande comédia humana, que tem na política um de seus braços mais poderosos.

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