De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

Sim, era açúcar; caso Imbassahy ilustra o quanto perdemos o bom senso

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Espécie de “Blow-Up” às avessas, investigação nas redes não passou de suposição; apego excessivo a um detalhe ocorre enquanto ocorre um golpe, estrutural

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos caçadores de imagens fugidias. Durante a sessão de anteontem no Senado, subitamente decidiu-se, nas redes sociais, que o deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA), postado logo atrás do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). portava um papelote de cocaína. E essas conclusões súbitas têm-se tornado irrevogáveis. Como se fossem a verdade absoluta e como se fossem… relevantes.

Um olhar atento para o vídeo do G1, em alta resolução, mostra que o objeto que o deputado batuca na mesa é retangular – e branco. Compatível com um sachê de açúcar. E não com um papelote de cocaína. (Droga muito consumida em Brasília, no Congresso e fora dele, e em todo o Brasil.) O leitor mais teimoso poderá ter certeza do contrário. Mas estará sendo leviano se acusar sem provas. Continuar lendo

Comentários a respeito de José Luiz Penna

O tempo andou mexendo com o presidente do PV, ex-comunista (e compositor da música de Belchior), agora nomeado secretário da Cultura de Geraldo Alckmin

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decida a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Por que bate lá meu coração

Sonho e escrevo em letras grandes (de novo)
Pelos muros do país
João, o tempo andou mexendo com a gente sim

José Luiz Penna assina com Belchior uma das obras-primas do compositor cearense: “Comentários a respeito de John”. Era uma homenagem a John Lennon. Corria o ano de 1979 – um ano antes do assassinato do beatle por um louco de pedra. Continuar lendo

Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Novo filme dos Irmãos Taviani nos convida a refletir sobre nossas pestes

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Kim Rossi Stuart julga-se invisível em “Maravilhoso Boccaccio”, de Paolo e Vittorio Taviani

“Maravilhoso Boccaccio” se inspira nos contos do escritor florentino para refletir sobre males contemporâneos; discriminação, violência e invisibilidade estão entre os temas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Paolo Taviani avisa: “Maravilhoso Bocaccio” (2015) é um filme sobre a peste. Não apenas a peste do século 14, retratada no “Decameron” de Giovanni Boccaccio, mas aquela contemporânea. O mais novo dos Taviani (Vittorio está com 86, ele com 84) está de olho no que acontece na Itália, claro, mas o filme que estreou ontem em São Paulo nos convida a refletir sobre as diversas aplicações possíveis da metáfora no cenário brasileiro.

Cineastas do porte de Paolo e Vittorio Taviani certamente estão fazendo referência à “Peste” de Albert Camus (1947), onde o flagelo representava diretamente o fascismo. E, se há neofascismo na Europa, há também no Brasil. E como reagir a ele? Os dois diretores – comunistas – sempre propuseram a arte como um dos antídotos. (Nesse sentido, chega a ser desolador ver a sala vazia em plena estreia de um filme de dois dos maiores cineastas vivos.) Continuar lendo

As “belas, recatadas e do lar” da história do cinema

Sylvia Kristel. Maria Schneider. Marilyn Monroe. Victoria Abril. Dezenas de mulheres em filmes de Fellini, musas de Almodóvar. Uma história da tradicional família mundial

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Sou suspeito. Como fã de cinema italiano, diria que nenhum cineasta terá retratado tão bem as mulheres “belas, recatadas e do lar” como Federico Fellini. (A expressão foi consagrada pela revista Veja de uma forma que se propunha a ser séria, ao falar de Marcela Temer, mas foi ironicamente revertida em seu sentido original pelos internautas. A enumeração, por sinal, remete a um clássico do cinema italiano, os “Feios, Sujos e Malvados” de Ettore Scola.)

O vídeo acima exibe Saraghina, a personagem de Eddra Gale dançando rumba em um dos filmes mais importantes do cinema, o “Oito e Meio” de Fellini. Mas o cineasta – que se fartaria de fazer caricaturas no Congresso brasileiro – apresenta também Volpina (Josiane Tanzilli) e a a moça da tabacaria (Maria Antonietta Beluzzi) em “Amarcord”, ou um verdadeiro desfile de recatadas em “Cidade das Mulheres”. (Fellini estava à frente do seu tempo, ao eleger uma prostituta como protagonista nos anos 50, em “Noites de Cabíria”.) Continuar lendo

Da literatura à história, legião de traidores prenunciou nossas versões infames

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Tullius Detritus, conspirador genial da série Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo

De Iago a Calabar, de Judas a Amaury Kruel, personagem tem centralidade em narrativas diversas; na política brasileira atual, traição é comemorada pela mídia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A frase de Júlio César a Brutus provavelmente nunca foi dita: “Até tu, meu filho?” Hoje, na cena brasileira, seria impensável. Pois a presidente traída precisa comunicar à imprensa a reação ao vice-presidente traidor, que, por sua vez, terá exposto pela imprensa a própria traição. Sem diálogo direto entre os protagonistas. Vivemos em tempos de traição mediada, onde os meios de comunicação são utilizados como instrumento político. A própria mídia, que gosta de se apresentar como defensora da democracia, aparece como Judas central dessa história.

Michel Temer faz parte de uma tradição – palavra que tem a mesma origem latina de traição – de personagens melífluos e ardilosos. Ainda que sem a mesma capacidade de fingimento que a literatura ou o cinema costumam atribuir aos conspiradores. Seu esboço inacabado de sorriso dificilmente convidaria a uma confiança absoluta. Mas foi colocado lá, na vice-presidência, num sistema político onde o exercício da traição já foi assimilado como linguagem, entre tapinhas nas costas e vazamentos para jornalistas que julgam estar dando furos na mesma medida em que participam da trama. Continuar lendo

O que escrever sobre o PMDB, quando os cartunistas já desenharam tudo?

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Chargistas foram ao mesmo tempo proféticos e incisivos, auxiliados pelo show de horrores intrínseco à história recente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Amigo da Onça. Polvo. Verdugo. Satanás. Ogro. Vampiro. Fantasma. O PMDB é um problema para quem lida com palavras. Pois o partido é um convite explícito à caricatura. Ao longo das últimas décadas, os principais chargistas do país perceberam isso e fizeram centenas de retratos, em boa parte surreais, mas nem por isso descolados da realidade. Ganância e capilaridade são dois temas recorrentes, expressos quase sempre em diálogo com o grotesco.

Daria para fazer uma coletânea somente com o maior dos nossos chargistas, Angeli. Tem PMDB como algo perdido numa área de musgo. PMDB comparado a baratas (essas resistentes): “Estão pensando que somos o quê?” PMDB saqueando a Funasa. PMDB como Monstro da Lagoa. E não é que a primeira charge de Angeli na Folha, em 1975, era sobre o antepassado direto do partido, o MDB? (Eram outros tempos: o jornal falava da divisão interna no partido.) Continuar lendo

Crônicas do Golpe: “A Patada” x “A Patranha”

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Em plena ditadura, redatores brasileiros utilizavam jornal do Tio Patinhas para questionar papel da mídia; na democracia, jornais de verdade perpetuam status quo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muito antes da Veja, uma revista decidiu a sorte e a fortuna da editora Abril: chamava-se Pato Donald. Foi com os direitos de reproduzir o gibi da Disney que o italiano Victor Civita começou a erigir seu império de comunicação.

Quac, quac, mil vezes quac! As exclamações suscetíveis do pato fizeram parte de muitas infâncias. E de muita teoria marxista da conspiração. Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreviam um clássico apocalíptico: “Para ler o Pato Donald”. Sobre a ideologia da Disney, portadora das maldades do capitalismo. Mickey era descrito como agente da CIA. Tio Patinhas era o símbolo do sistema, a nadar em seu mar de moedas. Continuar lendo

Hiperevasão: o país que, como Moro, expõe e sentencia

Há 20 anos Kieslowski discutia no filme “Rouge” a compulsão de um juiz em espionar a vida alheia; era das redes sociais expandiu e radicalizou a exposição indevida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Lembram-se quando o Brasil vivia na hiperinflação? Pois hoje vivemos no país da hiperevasão: essa evasão hipertrofiada e sem limites da privacidade alheia, sempre sob o signo das “melhores intenções”. A cada dia estamos vendo um punhado de gente sendo crucificada na internet por algo que disse, por um dia de fúria ou porque, supostamente, teria feito tal coisa no passado e isso precisa ser replicado – acreditam esses brasileiros – imediatamente. Para todos.

Estamos todos virando um grande Sérgio Moro. Um juiz que quebra o sigilo, expõe e depois vê – midiaticamente – no que dá. Claro que essas exposições são seletivas. Ninguém expõe seus pares, seus parceiros de causa. É preciso escolher um inimigo definido: “os corruptos”, “os machistas”, sempre algo absolutizado como o primeiro dos males do planeta, o pecado original. A partir daí a culpa pela superexposição do outro estará zerada – como se tivéssemos obtido um salvo conduto para o linchamento de cada dia. Continuar lendo