120 mil na Praça São Pedro, diz o Fantástico. E na Avenida Paulista?

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Globo divulgou estimativa do Vaticano sem pestanejar, como verdade absoluta; o mesmo critério não foi utilizado para informar sobre o que acontecia em São Paulo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A canonização de Madre Tereza de Calcutá reuniu 120 mil pessoas, neste domingo, na Praça São Pedro. É o que informou o Fantástico, ontem, na Globo. Reproduzindo – como um número inquestionável – a estimativa feita pelo próprio Vaticano. Observem a foto.

E agora observem a imagem da manifestação contra o governo Temer, também ontem, na Avenida Paulista:

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Foto: Rede Brasil Atual/ Marcia Minillo

Pergunta: quando vale a estimativa dos organizadores e quando não vale?

Qual o critério jornalístico? É visual? Ou de confiança em determinada instituição?

Se a correspondente italiana vier cobrir uma manifestação em São Paulo ela cravará a estimativa dos organizadores, sem questionar? (E sem pontuar que foi feita pelos organizadores?) Ou a estatística do Vaticano se perpetua como dogma? Continuar lendo

Elite paulista escarnece do povo de rua ao exibir cobertores abandonados

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Leitura cínica de decreto do prefeito (que proíbe apreensão) e bandeirantismo midiático visam compor imagem de moradores de rua como “feios, sujos e ingratos”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O antropólogo José Ribamar Bessa Freire cunhou no fim de semana a expressão “agrobandeirantes“, em referência à matança de indígenas no Mato Grosso do Sul. Dos excluídos do campo aos excluídos da cidade, temos em São Paulo a matança – real e simbólica – de pessoas em situação de rua. Centenas deles morrem por ano. E, para completar, ainda são vítimas de mortes simbólicas, de assassinatos de reputação. Para esta tarefa existem os bandeirantes midiáticos.

Como definir de outra forma a capa do Estadão de hoje? Ao fundo, o Pátio do Colégio. Em primeiro plano, cobertores. “Cobertores abandonados”, diz o jornal. “Após fim de semana de doações para moradores de rua”. Continuar lendo

Haddad e os moradores de rua; ele fala de “hipocrisia”; falemos de cinismo

Prefeito demonstra ao mesmo tempo arrogância e ignorância em relação a aspectos elementares da comunicação com cidadão e imprensa; seria melhor ouvir conselhos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Prefiro acreditar que as pessoas que cuidam do setor de comunicação da prefeitura paulistana tentem alertar Fernando Haddad sobre aspectos básicos do tema. E que apenas ele – sem ouvir os conselhos – seja o responsável pela sequência de falas desastrosas, no caso da morte de moradores de rua em São Paulo.

Digo isto a propósito de um post de ontem no Facebook, intitulado “mentira e hipocrisia“. Sim, ele começa falando da grande imprensa. Que, de fato, é hipócrita. Com agenda mais eleitoral que humanista. Mas encerra falando de “romantização da permanência na rua em situação de risco extremo”, e associando-a à hipocrisia.

Falemos, então, de hipocrisia. E de cinismo. Muito boa a aula do professor Haddad sobre a diferença entre as duas palavras. Ao falar – cinicamente – de hipocrisia. Continuar lendo

Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia. Continuar lendo

Prefeitura de SP diz que vai investigar e punir coerção a moradores de rua

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“Ações de cuidado com a cidade não justificam recolhimento de pertences”, diz assessoria de Fernando Haddad, em resposta a acusações do padre Julio Lancelotti

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há dois dias o blog publicou o seguinte artigo: “Haddad vai continuar tirando os cobertores da população de rua?” Baseado em informações do padre Julio Lancelotti (e confirmada por várias outras fontes) de que a Guarda Civil Metropolitana age há vários anos – desde as gestões de Gilberto Kassab e José Serra –  com violência contra moradores de rua, retirando deles cobertores, as barracas de camping e outros pertences, como alimentos e até remédios.

Em resposta, a assessoria de imprensa da prefeitura enviou a seguinte nota, que republicamos na íntegra: Continuar lendo

Haddad vai continuar tirando os cobertores da população de rua?

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Lei de Ocupação do Solo está acima dos direitos humanos? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Padre Julio Lancelotti afirma-se como voz isolada contra barbárie da GCM; defesa de outras iniciativas da prefeitura não pode significar silêncio diante dessa violência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O padre Julio Lancelotti tem larga trajetória na defesa da população de rua. Nesta terça-feira, após mais uma madrugada fria em São Paulo, ele publicou mais um protesto, em sua página no Facebook, contra a política executada pela Guarda Civil Metropolitana:

– Nestes dias mais frios e com chuva causa indignação ver a GCM tirando os cobertores da população de rua e destruindo as barraquinhas que são sua única proteção para a chuva e o frio. Junto levam cobertas, colchões, comida, água, remédios e documentos. Até quando a prefeitura agirá desta forma desumana, cruel e torturante?
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Geraldo Alckmin afirma SP como vanguarda da repressão

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Trabalhadores sem-teto tentam resistir aos jatos d’água (Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres)

Invasões da polícia sem mandados judiciais; repressões seletivas a manifestações, conforme a orientação política; “golpe do pato” tem sua face bandeirante

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dizem que não é golpe porque a tomada do poder sem voto não teve força bruta. O que já seria uma falácia. Mas o que está acontecendo em São Paulo mostra que o golpe do pato – esse que levou Michel Temer ao poder – possui, sim, um braço armado. Ao reprimir protestos de modo seletivo, a Polícia Militar paulista está se afirmando como polícia política. Ao permitir invasões disfarçadas de “reintegração de posse”, o governo estadual patrocina um Estado de exceção.

Os últimos minutos do domingo, 22 de maio, e o início desta segunda-feira podem ser considerados o símbolo desse avanço repressor, ao escancará-lo. Manifestantes contra o governo Temer não puderam ficar acampados em uma praça próxima da casa do interino, no Alto de Pinheiros – bairro rico da capital. Mesmo após negociação feita anteriormente para que trocassem o local. Eles foram expulsos pela polícia com jatos d’água e bombas: bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo. Continuar lendo

Aviso aos navegantes: Marco Antonio Villa não é o dono da Jovem Pan

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Trote do prefeito Fernando Haddad no historiador panfletário anima quem conhece poder de manipulação da rádio; mas ninguém menciona os nomes de que manda

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em poucas palavras: o historiador Marco Antonio Villa é um subordinado. Perfeitamente substituível. Indefensável como jornalista, diante do caráter panfletário de suas análises. O trote que levou do prefeito Fernando Haddad (que divulgou a agenda de Alckmin como se fosse dele, para que Villa a atacasse) mostra que ele atira – verbalmente – no que vem pela frente. Desde que tenha relação com o PT, Haddad, Dilma, Lula. Mas quem disse que é ele quem manda na rádio?

A esquerda brasileira anda distraída em relação aos patrões. Particularmente em relação aos donos dos meios de comunicação. Esses que escolhem os Villas e as Sheherazades, os Waacks e Mervais. Estes obtêm os cargos e espaços que têm porque dizem exatamente o que os patrões gostariam de dizer. Mas deveriam ser os principais alvos de quem critica essa mídia parcial e abjeta? Não. E sim quem está acima deles. Esses estão rindo de tudo. Continuar lendo

Torcida única nos estádios esconde omissão policial e premia intolerância

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Jogo de Copa do Mundo, na Arena Corinthians (Foto: meutimao.com.br)

Poder público deseduca ao perpetuar o pensamento binário excludente; proibição do governo paulista naturaliza lógica do “nós ou eles”, presente também na política

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Nove entre dez analistas sérios de futebol rejeitam a decisão do governo paulista de impor a torcida única nos estádios. Mas a medida é ainda mais preocupante se pensarmos que ela não apenas reprime de forma irresponsável as torcidas organizadas (e não suas facções violentas), para eleitor ver. Pois ela, na prática, naturaliza a intolerância, torna-a a baliza para nossas formas mais elementares de organização, de expressão popular. E não estamos a falar aqui apenas de lazer, o que já seria muito; mas também de política.

Eu, palmeirense, aprendi a admirar a torcida do Corinthians em um jogo no Morumbi, nos anos 90. Ela pulava tanto do outro lado que o estádio tremia. E se tratava de uma festa, da alegria de torcedores (terrivelmente equivocados em suas escolhas clubísticas) apaixonados por um time que não é o meu. Para os sábios que comandam com jogo de cena a Secretaria de Segurança Pública, a solução para as brigas de torcedores – que ocorrem fora, e não dentro, dos estádios – é acabar com essa alteridade. Continuar lendo