Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia. Continuar lendo

“Temos vários Carandirus por ano”, diz pesquisadora sobre presídios no Brasil

País tem entre duas e três mortes por dia no Brasil no sistema penitenciário. Boa parte por doenças contraídas na prisão, como a tuberculose. A matança é sistêmica.

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) | Foto: João Wainer

Autora de “Violência e Cidadania” (Ática, 2001), a pesquisadora Regina Célia Pedroso resolveu se debruçar sobre a realidade dos presídios brasileiros. E já adianta, para começo de conversa: “Temos ao longo do ano vários Carandirus, que não chegam ao conhecimento da população”. Ela se refere ao massacre de 111 presos em São Paulo, em 1992, e às mortes nos presídios. Por homicídios e suicídios, mas também por doenças. A causa mais comum é a tuberculose. São entre duas e três mortes por dia. Com doenças, em boa parte, contraídas na prisão, pelas condições insalubres. O sistema que se propõe a regenerar, na prática, mata. Ou massacra.

Regina prepara livro sobre o tema. E adiantou alguns dados nesta quinta-feira (19), em seminário sobre doenças e espaços de exclusão realizado na Universidade de São Paulo pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) – onde ela é pesquisadora – e pelo Departamento de História da USP. Regina é pessimista. Diz que a situação tende a piorar, diante da mentalidade de exclusão conservadora vigente. “Caminhamos para ter 1 milhão de presos e 80% de reincidência no Brasil”. Hoje são 650 mil presos e 70% de reincidência.
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