Uma das reações ao terror político precisa ser a valorização do Legislativo

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Ocupação de cargos parlamentares será uma resistência ao “cala a boca” embutido na ofensiva da direita; esquerda precisa parar de girar apenas em torno do Executivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vereadora Marielle? Presente. Deputadas Marielles? Presentes. Senadoras Marielles? Presentes. Defendo esta versão utópica do cenário político sem exemplos do Executivo porque a sociedade brasileira precisa se dar conta da importância do Legislativo. Marielle Franco foi executada no Rio, ao que tudo indica, por falar. Por defender direitos de gente que vive em territórios ocupados por militares ou paramilitares, mas também – literalmente – por empunhar microfones.

E uma das melhores homenagens possíveis a ela, portanto, é a tomada das Câmaras e Assembleias por centenas de resistentes. Em nome de milhões de brasileiros que não aceitam essa desproporção nos cargos parlamentares, ocupados há séculos pelas elites econômicas, quando muito por elites partidárias. Em março de 2018 a sociedade ainda pode se mobilizar para que seja incluída – e mais gente levante bandeiras como a que a vereadora carioca levantou. Continuar lendo

Brecht: “De quem depende que a opressão prossiga? De nós”

“O que é esmagado que se levante! O que está perdido, lute!”, dizia o dramaturgo alemão, em 1931; “Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã”

Por Bertolt Brecht

ELOGIO DA DIALÉTICA*

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

* 1931

 

 

Protagonistas contra ditadura de 64 se calam diante da repressão atual em SP

ditadura

Reação da sociedade civil está tímida à violência do governo estadual contra o livre direito à manifestação; país perde sua memória e as referências sobre resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Onde está a OAB? A Fenaj? A Igreja? Onde estão os sindicatos? E as lideranças que protagonizaram a luta contra a ditadura? De Lula a FHC, de Dilma Rousseff a José Serra? Acadêmicos, intelectuais? Por que se calam? O que mais a PM de São Paulo precisa fazer para motivar uma nota institucional, a organização de atos, uma fala contundente contra a repressão à livre manifestação, contra as agressões a pessoas que se manifestavam ou simplesmente estavam na rua, em São Paulo, nesta terça-feira?

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo informa que nove repórteres ficaram feridos em ação na Avenida Paulista. Isso não basta para a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) se pronunciar? O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, decisivo na luta pela redemocratização, informou ontem que vai enviar uma nota de protesto ao Governo do Estado, exigindo o fim da violência contra manifestantes e jornalistas. Será suficiente? Continuar lendo