Massacre de Pau D’Arco e Massacre de Brasília: duas faces de um país que regride

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

O assassinato de dez camponeses no Pará remete o Brasil aos anos 90; o Exércico reprimindo manifestações na capital, aos anos de chumbo; tudo no mesmo dia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em Pau D’Arco, no Pará, dez camponeses foram mortos pela polícia, nesta quarta-feira. O mesmo número do Massacre de Corumbiara, em Rondônia, em 1995. No ano seguinte foram mortos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, também no Pará. As duas matanças marcaram o governo de Fernando Henrique Cardoso. Por isso é preciso que se dê o nome de massacre, com todas as letras: o Massacre de Pau D’Arco já passa a ser uma das marcas do governo de Michel Temer.

Outra marca desse presidente transitório ficará gravada para sempre na história brasileira da infâmia. A indefensável e intempestiva decisão – curiosamente corroborada por um ministro que já foi de um partido comunista, Raul Jungmann – de autorizar o uso do Exército para reprimir uma manifestação. Isto em um país supostamente democrático. Ocorreu ontem, em Brasília. Mas demorará a ser esquecido. Continuar lendo

Geraldo Alckmin afirma SP como vanguarda da repressão

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Trabalhadores sem-teto tentam resistir aos jatos d’água (Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres)

Invasões da polícia sem mandados judiciais; repressões seletivas a manifestações, conforme a orientação política; “golpe do pato” tem sua face bandeirante

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dizem que não é golpe porque a tomada do poder sem voto não teve força bruta. O que já seria uma falácia. Mas o que está acontecendo em São Paulo mostra que o golpe do pato – esse que levou Michel Temer ao poder – possui, sim, um braço armado. Ao reprimir protestos de modo seletivo, a Polícia Militar paulista está se afirmando como polícia política. Ao permitir invasões disfarçadas de “reintegração de posse”, o governo estadual patrocina um Estado de exceção.

Os últimos minutos do domingo, 22 de maio, e o início desta segunda-feira podem ser considerados o símbolo desse avanço repressor, ao escancará-lo. Manifestantes contra o governo Temer não puderam ficar acampados em uma praça próxima da casa do interino, no Alto de Pinheiros – bairro rico da capital. Mesmo após negociação feita anteriormente para que trocassem o local. Eles foram expulsos pela polícia com jatos d’água e bombas: bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo. Continuar lendo

Protagonistas contra ditadura de 64 se calam diante da repressão atual em SP

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Reação da sociedade civil está tímida à violência do governo estadual contra o livre direito à manifestação; país perde sua memória e as referências sobre resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Onde está a OAB? A Fenaj? A Igreja? Onde estão os sindicatos? E as lideranças que protagonizaram a luta contra a ditadura? De Lula a FHC, de Dilma Rousseff a José Serra? Acadêmicos, intelectuais? Por que se calam? O que mais a PM de São Paulo precisa fazer para motivar uma nota institucional, a organização de atos, uma fala contundente contra a repressão à livre manifestação, contra as agressões a pessoas que se manifestavam ou simplesmente estavam na rua, em São Paulo, nesta terça-feira?

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo informa que nove repórteres ficaram feridos em ação na Avenida Paulista. Isso não basta para a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) se pronunciar? O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, decisivo na luta pela redemocratização, informou ontem que vai enviar uma nota de protesto ao Governo do Estado, exigindo o fim da violência contra manifestantes e jornalistas. Será suficiente? Continuar lendo