O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

O sistema precisa de medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, quando se está fazendo apenas um remendo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Com o Inter de Porto Alegre praticamente rebaixado no Brasileirão, as piadas de adversários tomaram as redes sociais. A melhor delas – e a mais inquietante – é a seguinte: “O Inter precisa contratar o Celso Roth para substituir o Celso Roth”.

Celso Roth comandou o time – que nunca caiu – durante a maior parte do campeonato. Não é um técnico conhecido pela criatividade, ou por um vasto repertório de jogadas, pelo conhecimento tático. Mas como aquele que vai “dar um jeito”, nem que seja na base do grito, da pressão. Por isso ficou conhecido como técnico que salva times do rebaixamento. Paradoxalmente, participou do rebaixamento do Vasco, no ano passado, e do provável rebaixamento do Inter. Continuar lendo

Esquerda erra ao minimizar “Deus e a família”

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Plenário da Câmara? Não: “Cristo Carregando a Cruz” (Bosch, início do século 16)

Direita nada de braçadas no que se refere ao convencimento direto de setores majoritários da população; votos pelo “sim” no impeachment precisam ser estudados

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Onde a direita acerta? Há tempos penso em escrever algo nessa linha. Tentando identificar alguma fundamentação – ainda que tortuosa – em argumentos e fatos por ela utilizados em seu discurso. Ou estará ela errada o tempo todo, sob todos os aspectos? A esquerda precisa ignorar o papel do medo, por exemplo, na definição das opções políticas de cada cidadão? Por que deixar a direita nadar de braçadas em relação a determinados temas que interessam a todos os brasileiros?

Fiquei pensando nisso ao tentar rever a votação de domingo, em meio ao show de horrores na Câmara. Ainda que seja mais fácil maximizar uma fala especialmente grotesca, como a de Jair Bolsonaro (de certa forma bancando sua estratégia violenta), talvez falte refletir sobre o papel de Deus e da família na conquista de mentes e corações – e no quanto sair demonizando as duas palavras pode significar mais uma compra do jogo do adversário. Continuar lendo

Torcida única nos estádios esconde omissão policial e premia intolerância

meutimao

Jogo de Copa do Mundo, na Arena Corinthians (Foto: meutimao.com.br)

Poder público deseduca ao perpetuar o pensamento binário excludente; proibição do governo paulista naturaliza lógica do “nós ou eles”, presente também na política

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Nove entre dez analistas sérios de futebol rejeitam a decisão do governo paulista de impor a torcida única nos estádios. Mas a medida é ainda mais preocupante se pensarmos que ela não apenas reprime de forma irresponsável as torcidas organizadas (e não suas facções violentas), para eleitor ver. Pois ela, na prática, naturaliza a intolerância, torna-a a baliza para nossas formas mais elementares de organização, de expressão popular. E não estamos a falar aqui apenas de lazer, o que já seria muito; mas também de política.

Eu, palmeirense, aprendi a admirar a torcida do Corinthians em um jogo no Morumbi, nos anos 90. Ela pulava tanto do outro lado que o estádio tremia. E se tratava de uma festa, da alegria de torcedores (terrivelmente equivocados em suas escolhas clubísticas) apaixonados por um time que não é o meu. Para os sábios que comandam com jogo de cena a Secretaria de Segurança Pública, a solução para as brigas de torcedores – que ocorrem fora, e não dentro, dos estádios – é acabar com essa alteridade. Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Hipertrofia do debate sobre babá abafa incitação golpista da mídia

Debate à esquerda sobre cena política é atropelado pela era da imagem e pela necessidade de se eleger vilões anônimos; donos do Estadão e da Globo agradecem

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Fato 1: um casal caminha de verde e amarelo com seu cachorro, durante protesto anti Dilma no Rio, ao lado da babá negra (de branco), a conduzir um carrinho com dois bebês. A fotos em rede social viralizam. Fato 2: um dos maiores jornais do país pede “Basta!”, nesse mesmo domingo, com as mesmíssimas palavras do Correio da Manhã no dia 31 de março de 1964. Fazendo coro à torcida explícita da grande imprensa – Globo à Frente – por uma derrubada de governo incitada por gente como Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro.

Qual dos dois fatos motivou desde ontem o grande debate nacional, à esquerda? O primeiro. E o que isso significa? Continuar lendo