Amigos da terceirização de presídios são mais perigosos que Família do Norte

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Foto: EBC

Ao eximir agentes estatais, discurso de Temer legitima barbárie nos presídios brasileiros, que vai muito além do massacre de 60 pessoas em Manaus

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A entrada em cena do presidente Michel Temer no caso do massacre de Manaus deveria acender todos os alertas da sociedade civil. O Brasil está em risco. E não somente pela ação do crime organizado (sem colarinho branco) e de suas facções, como o PCC e a Família do Norte, que apareceram midiaticamente como protagonistas do conflito.

Mas pela confusão deliberada entre público e privado. É irônico que caiba a um presidente jurista – que já vem rasgando sistematicamente a Constituição, durante o golpe e depois do golpe – escancarar essa confusão, ao tentar eximir o Estado de sua responsabilidade direta no episódio do presídio Anísio Jobim:

– Em Manaus, o presídio era terceirizado e privatizado e, portanto, não houve uma responsabilidade objetiva, clara e definida dos agentes estatais. Continuar lendo

25 considerações sobre a lista de políticos de Sérgio Machado

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Um olhar inicial para citados em delação homologada convida a reflexão sobre “elite branca”; reflexão posterior questiona quais desses serão convenientemente rifados

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Estadão desta quinta-feira traz na capa o rosto dos 25 políticos mencionados por Sérgio Machado na lista de delação homologada. Seriam aqueles envolvidos em esquema de corrupção da Transpetro. Seguem algumas considerações:

1) A lista é significativa, mesmo que consideremos – como deve ser – cada um daqueles brasileiros inocentes, até prova em contrário, em relação aos crimes apontados pelo ex-presidente da Transpetro. Simbolicamente significativa.

2) Está lá o que o ex-governador paulista Cláudiio Lembo já definiu como “elite branca”. Mesmo que alguns deles (Heráclito, Garibaldi, Sarney) dificilmente sejam identificados como brancos em um país europeu.

3) A lista é masculina. E a presença de duas mulheres (uma do PT e uma do PCdoB) apenas confirma a regra. Continuar lendo

Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Kátia Abreu volta ao Senado sob aplauso da base de Temer

Ministra de Dilma foi recebida com mesura pelos tucanos Aloysio Nunes e Antonio Anastasia, relator do impeachment; pais de ministros também a elogiaram

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro*)

De volta ao senado, após 1 ano e quatro meses, Kátia Abreu (PMDB-TO) ganhou nesta semana fartos elogios de senadores que votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Aloysio Nunes (PSDB-SP), produtor de látex em São Paulo, disse que teve seus pleitos atendidos por ela. Garibaldi Alves (PMDB-RN), Fernando Bezerra (PSB-PE), Ana Amélia (PP-RS), Waldemir Moka (PMDB-RS) e o relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia (PSDB-MG), participaram do beija-mão.

Bezerra e Alves são pais de deputados que foram nomeados ministros pelo interino Michel Temer: Fernando Filho, da Integração Nacional, e Henrique Eduardo Alves, do Turismo. Valdir Raupp (PMDB-RO) disse que ela foi uma ministra “completa”. “Todas as regiões estão satisfeitas. Blairo Maggi assume um ministério redondo”, afirmou. “Vossa Excelência revolucionou aquela pasta”, arriscou Anastasia. Continuar lendo

Temer, o maquiavélico: “fazer o mal de uma só vez”, fins a justificar os meios

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Michel Temer, o interino, começa o governo inspirado em Maquiavel e em FHC; atropelo em poucos dias era previsível e conta com amplo apoio da grande imprensa

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

“Quando você tiver de fazer algum mal a alguém, faça-o todo de uma só vez. A dor será intensa, mas apenas uma. Já o bem, faça-o em parcelas. O favorecido ficará alegre e grato a você várias vezes” (Nicolau Maquiavel).

Ainda são desconhecidos os atos “de bem” do presidente interino. Mas salta aos olhos a estratégia maquiavélica de “fazer o mal” de uma só vez. Fernando Henrique Cardoso, prefaciador de “O Príncipe” no Brasil, conhecia bem essa máxima. Podia-se prever que Michel Temer faria isso. E fez. Talvez com uma fúria e uma desfaçatez maiores do que se podia esperar, mas fez. Está fazendo, em poucos dias. Continuar lendo

Arenistas e filhos da Arena foram decisivos para a queda de Dilma

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Ministro do TCU que rejeitou pedaladas foi arenista, assim como 7 senadores e 13 deputados que apoiaram impeachment; PP, PSB e PSDB abrigam filhos da Arena

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A derrubada de Dilma Rousseff teve a ação direta de ex-integrantes da Arena, o partido da ditadura. Seja na linha de frente do impeachment (ministro Augusto Nardes, deputado Heráclito Fortes), seja nas votações na Câmara e no Senado. Pelo menos 13 deputados e 7 senadores que votaram “sim” nos dias 17 de abril e 11 de maio foram da sigla inventada pelos militares, fundada no dia 4 de abril de 1966. Cinquenta anos atrás.

Esses sete votos no Senado, por exemplo, seriam suficientes para reverter o impeachment, após o afastamento por seis meses da presidente.

No mínimo outros 15 deputados e 7 senadores são parentes (filhos, sobrinhos, netos ou cônjuges) de deputados e senadores arenistas. Ou de governadores biônicos, igualmente da Arena. Michel Temer chega ao poder não somente pela força do antigo MDB, portanto. O principal desmembramento do PMDB, aliás, o PSDB, é o segundo partido no Congresso que mais abriga os descendentes de arenistas, atrás do PP.

Confira aqui essa história que conecta diretamente 2016 aos ares que se respirava entre 1964 e 1985. Continuar lendo

Sete dos 23 ministros de Temer possuem ou controlam rádio e TV

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Romero Jucá e Renan Calheiros: coronelismo eletrônico (Foto: Pedro França/ Agência Senado)

Golpe jurídico-midiático foi feito também por políticos com concessão; Jucá, Mendonça e Coelho têm parentes no comando; Barbalho, Alves, Barros e Sarney Filho são donos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Helder Barbalho é o novo ministro da Integração Nacional e dono de TVs no Pará, retransmissoras da Band. Sarney Filho, dono da TV Mirante, no Maranhão, afiliada da Globo, volta a ser ministro do Meio Ambiente. É também para retransmitir imagens globais que Henrique Eduardo Alves retorna à Esplanada dos Ministérios, agora na pasta do Turismo. Ricardo Barros, nomeado por Michel Temer como ministro da Saúde, possui a Rádio Jornal de Maringá, no Paraná.

Eles não são os únicos políticos a controlar rádios e TVs – prática contestada por dez entre dez especialistas em direito à comunicação e, mais recentemente, pelo Ministério Público Federal, que pretende cassar as concessões de congressistas. Outros três ministros do presidente interino têm rádios e TVs em nome de parentes. São eles: o eterno Romero Jucá, do Planejamento/ e os oligarcas Mendonça Filho, da Educação (e da Cultura), e Fernando Coelho, das Minas e Energia. Continuar lendo

Ministros de Temer possuem R$ 200 milhões e 250 mil hectares

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Blairo Maggi: um dos maiores plantadores de soja do mundo. (Foto: Moreira Mariz/ Agência Senado)

Apenas 5 dos 23 escolhidos não são milionários; fortunas estão principalmente na agropecuária; vários deles descendem de tradicionais famílias da oligarquia do NE

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dezoito dos 23 ministros escolhidos pelo presidente interino Michel Temer declararam à Justiça Eleitoral possuir R$ 198 milhões. Os outros cinco não concorreram a cargos eletivos nos últimos anos e ainda não divulgaram a relação de bens. Vejam a relação:

Blairo Maggi (PP) – Agricultura – R$ 143.272.924,99*
Henrique Eduardo Alves (PMDB) – Turismo – R$ 12.414.019,98
Leonardo Picciani (PMDB) – Esporte – R$ 7.259.014,81
Gilberto Kassab (PSD) – Comunicação, Ciência – R$ 6.536.140,32
Geddel Vieira Lima (PMDB) – Secretaria de Governo – R$ 5.971.124,61
Sarney Filho (PV) – Meio Ambiente – R$ 4.752.376,77
Bruno Araújo (PSDB) – Cidades – R$ 3.156.779,35
Fernando Coelho (PSB) – Minas e Energia – R$ 1.140.034,91
Eliseu Padilha (PMDB) – Casa Civil – R$ 2.688.415,73*
Helder Barbalho (PMDB) – Integração Nacional – R$ 2.337.676,77
Ricardo Barros (PP) – Saúde – R$ 1.821.481,39
Mendonça Filho (DEM) – Educação, Cultura – R$ 1.649.203,71
José Serra (PSDB) – Relações Exteriores – R$ 1.553.822,22
Maurício Quintella (PR) – Transportes – R$ 959.940,12
Romero Jucá (PMDB) – Planejamento – R$ 607.901,41
Osmar Terra (PMDB) – Desenvolvimento Social e Agrário – R$ 421.901,69
Ronaldo Nogueira (PTB) – Trabalho – R$ 86.030,00
Raul Jungmann (PPS) – Defesa – R$ 38.459,47 Continuar lendo

Da literatura à história, legião de traidores prenunciou nossas versões infames

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Tullius Detritus, conspirador genial da série Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo

De Iago a Calabar, de Judas a Amaury Kruel, personagem tem centralidade em narrativas diversas; na política brasileira atual, traição é comemorada pela mídia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A frase de Júlio César a Brutus provavelmente nunca foi dita: “Até tu, meu filho?” Hoje, na cena brasileira, seria impensável. Pois a presidente traída precisa comunicar à imprensa a reação ao vice-presidente traidor, que, por sua vez, terá exposto pela imprensa a própria traição. Sem diálogo direto entre os protagonistas. Vivemos em tempos de traição mediada, onde os meios de comunicação são utilizados como instrumento político. A própria mídia, que gosta de se apresentar como defensora da democracia, aparece como Judas central dessa história.

Michel Temer faz parte de uma tradição – palavra que tem a mesma origem latina de traição – de personagens melífluos e ardilosos. Ainda que sem a mesma capacidade de fingimento que a literatura ou o cinema costumam atribuir aos conspiradores. Seu esboço inacabado de sorriso dificilmente convidaria a uma confiança absoluta. Mas foi colocado lá, na vice-presidência, num sistema político onde o exercício da traição já foi assimilado como linguagem, entre tapinhas nas costas e vazamentos para jornalistas que julgam estar dando furos na mesma medida em que participam da trama. Continuar lendo

17 de Abril: um golpe marcado para o dia do massacre de Eldorado dos Carajás

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Vinte anos após o assassinato de 19 sem-terra na Curva do S, no Pará, ruralistas estão entre principais apoiadores de deposição que beneficia um deles: Michel Temer

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A história brasileira da infâmia se repete como data: 17 de abril. Há 20 anos, exatamente nessa data, policiais militares a mando do governo paraense executavam 19 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) na Curva do S, na estrada que liga Marabá a Eldorado dos Carajás.

Será também no dia 17 de abril (Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária) a votação, na Câmara, do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ou seja, a elite política e econômica brasileira – essa quatrocentona – não se contenta somente com violência. Precisa do escárnio. Continuar lendo