De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

Uma questão ética: Hicheur deve ser condenado eternamente por “terrorismo”?

adlenehicheur

Ministro da Educação diz que Brasil errou ao aceitar na UFRJ um físico de ponta, que foi julgado na França e cumpriu pena; quais as implicações dessa visão de Justiça?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Existem crimes imperdoáveis, em um país que rejeita a pena de morte e aposta na reabilitação dos criminosos? Para o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, sim: o físico francês (nascido na Argélia) Adlène Hicheur não deveria ter sido aceito no Brasil para trabalhar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por causa de condenação anterior por “terrorismo”, na França. Ele trocou emails onde se falava de assassinato de lideranças. Cumpriu a pena.

Hicheur nega as acusações. Mas admitamos que elas sejam verdadeiras. Estará ele condenado a não mais exercer sua profissão, na qual ele é reconhecido internacionalmente, como um físico especialista em partículas elementares, pós-doutorado na Suíça? Se fosse um pedreiro, ele poderia trabalhar como pedreiro? Ele não pode trabalhar como pesquisador em uma universidade de ponta, sendo um pesquisador de ponta? Continuar lendo