120 mil na Praça São Pedro, diz o Fantástico. E na Avenida Paulista?

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Globo divulgou estimativa do Vaticano sem pestanejar, como verdade absoluta; o mesmo critério não foi utilizado para informar sobre o que acontecia em São Paulo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A canonização de Madre Tereza de Calcutá reuniu 120 mil pessoas, neste domingo, na Praça São Pedro. É o que informou o Fantástico, ontem, na Globo. Reproduzindo – como um número inquestionável – a estimativa feita pelo próprio Vaticano. Observem a foto.

E agora observem a imagem da manifestação contra o governo Temer, também ontem, na Avenida Paulista:

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Foto: Rede Brasil Atual/ Marcia Minillo

Pergunta: quando vale a estimativa dos organizadores e quando não vale?

Qual o critério jornalístico? É visual? Ou de confiança em determinada instituição?

Se a correspondente italiana vier cobrir uma manifestação em São Paulo ela cravará a estimativa dos organizadores, sem questionar? (E sem pontuar que foi feita pelos organizadores?) Ou a estatística do Vaticano se perpetua como dogma? Continuar lendo

Geraldo Alckmin afirma SP como vanguarda da repressão

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Trabalhadores sem-teto tentam resistir aos jatos d’água (Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres)

Invasões da polícia sem mandados judiciais; repressões seletivas a manifestações, conforme a orientação política; “golpe do pato” tem sua face bandeirante

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dizem que não é golpe porque a tomada do poder sem voto não teve força bruta. O que já seria uma falácia. Mas o que está acontecendo em São Paulo mostra que o golpe do pato – esse que levou Michel Temer ao poder – possui, sim, um braço armado. Ao reprimir protestos de modo seletivo, a Polícia Militar paulista está se afirmando como polícia política. Ao permitir invasões disfarçadas de “reintegração de posse”, o governo estadual patrocina um Estado de exceção.

Os últimos minutos do domingo, 22 de maio, e o início desta segunda-feira podem ser considerados o símbolo desse avanço repressor, ao escancará-lo. Manifestantes contra o governo Temer não puderam ficar acampados em uma praça próxima da casa do interino, no Alto de Pinheiros – bairro rico da capital. Mesmo após negociação feita anteriormente para que trocassem o local. Eles foram expulsos pela polícia com jatos d’água e bombas: bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo. Continuar lendo

Votação do impeachment no Senado expõe cobranças e ressentimentos

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Ela tem um voto somente. Mas é a notícia em pessoa. (Foto: Agência Senado)

De escracho indevido contra Cristovam Buarque à perplexidade diante das novas companhias de Marta Suplicy, vive-se raro momento de memória em relação ao voto

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Diante do número superlativo de deputados na Câmara, e de uma certa amnésia coletiva em relação aos votos em 2014, está do lado côncavo do Congresso – o Senado – o acompanhamento mais estreito da posição e coerência dos parlamentares. Nos últimos dias, tanto Marta Suplicy como Cristovam Buarque foram alvo dessas cobranças de eleitores. Em alguns casos, abusivas. Em outros, não só legítimas, como saudáveis. Como se homenageássemos a democracia aos 43 minutos do segundo tempo de seu jogo de despedida.

A senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) costuma ser um mata-borrão de diatribes. Sejam da própria lavra, sejam contra ela. Até dramalhão familiar compõe a saga midiática da senadora, que pediu “respeito” ao ex-marido Eduardo Suplicy (PT-SP) após ele sugerir que ela consultasse os eleitores sobre seu voto – declarado – a favor do impeachment de Dilma Rousseff. (A palavra respeito vem do latim “respicere”, particípio passado de “respectus”. Significa “olhar outra vez”.) Continuar lendo

Meus professores (lembranças a partir do massacre de Curitiba)

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Duzentos feridos durante repressão a professores em Curitiba (Agência Paraná/ Fotos Públicas)

Batalha do Centro Cívico, em Curitiba, ou Massacre do 29 de Abril, completou um ano; blog relembra texto publicado na época em homenagem aos professores

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Ministério Público chama de Batalha do Centro Cívico. Os professores, de Massacre do 29 de abril. Centenas deles foram espancados em Curitiba, há um ano, durante protesto contra o governo de Beto Richa (PSDB). Duzentas pessoas ficaram feridas.

No dia seguinte escrevi em minha página de Facebook o texto abaixo. Título: “Meus professores”.

Lembro-me do Seu Deusdedit, de português. No ginásio. Sou do tempo do 1º grau, mas falávamos ginásio, lá em São Carlos, sempre em escolas públicas. (E como tenho saudades delas.) Se hoje concateno um pouco melhor as palavras devo muito a ele e à Dona Ângela, do colegial. Misto natural de professora e psicóloga. Uma motivadora. Nunca entendeu por que eu fui estudar exatas, antes de trilhar o caminho das humanas. Continuar lendo

31 de Março de 2016

Já deu pra sentir qual a trama
Quando eu nasci já tinha calor (...)
Quando eu nasci tinha, sim senhor,
Águia, paturi, camelo, condor
E as águas do Amazonas, os ratos, as rãs, ratazanas
Quando eu nasci já tinha terror
(Itamar Assumpção, "Já deu pra Sentir", 1980)

Hoje é dia de ter memória, de ter esperança e medo, prudência e coragem, de resistirmos aos usurpadores de sempre e ao poder avassalador das picuinhas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Hoje é dia de ter memória. De lembrar que essa democracia (esse arquipélago de democracia) foi conquistada de forma dramática, entre heróis e cadáveres. De recordar que usurpadores cobram caro. Que o que vem aí não é uma revolução, mas uma reação de nossas elites a uma terrível ameaça: a de que ela não seja a protagonista. De lembrar que tudo pode ser pior. Que não temos as barbas do Estadão e a cafonice da Fiesp. Que não precisamos de um pajem, de um Paulo Skaf, de uma paulocracia.

Hoje é dia de esperança. Não de uma esperança absoluta, maiúscula, rumo a uma sociedade igualitária, justa, mas ao menos uma esperança de que não haja retrocesso. De que sigamos aos trancos, sem cair no barranco do casuísmo. Nas ruas, brasileiros que não aceitam entregar este país ao PMDB, sem votos, em nome de um pato. Em nome do governo, do PT? Muitos de nós, não. Em nome de muito mais que isso: da rejeição das subtrações. Do princípio de que não podem sequestrar nossa soma. Continuar lendo

Já são cinco os casos de mães com bebê agredidas por uso de vermelho

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Macacão da Minnie: motivo para agressão no Rio (Arquivo: Monique Ranauro)

Em SP, uma mãe recebeu uma pedrada, na altura da criança; outra foi acuada em um supermercado; no Rio, motoqueiro disse que ia dar um tiro na mãe e na bebê

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo teve na semana passada dois casos em que as mães estavam vestidas de vermelho, com bebê no colo, e mesmo assim foram agredidas. Uma delas foi acuada. Outra viu uma pedra ser atirada na altura da criança. No Rio, mais um caso envolvendo a ira criminosa de fascistas. A diferença é que o próprio bebê era quem estava vestido de vermelho.

Dois desses casos foram relatados pela imprensa, mas isoladamente. Um pelo portal R7, outro pelo blog do Luis Nassif. Não se tornaram um tema nacional. O caso da blogueira Rafaela Freitas, em São Paulo, ainda não foi divulgado. Vejamos seu relato:
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Casos de agressão por uso de vermelho se multiplicam; por que autoridades se calam?

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Intolerância tipicamente fascista ganha vista grossa de políticos e operadores do Direito; blog reuniu dez casos, entre prováveis centenas ou milhares pelo país

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

1 Fortaleza. Sexta-feira. Produtor é vítima de agressão por usar boné vermelho. O boné era de um time americano de baseball. Mas pensaram que era do PT. O produtor Marcelo Street chegou a ouvir: “Você não é brasileiro?”

2) São Paulo. Quarta-feira. Warley Alves é hostilizado por estar com um boné vermelho onde estava escrito: “Zona sul“.

3) Curitiba. Quinta-feira. Manifestantes agridem rapaz e ateiam fogo em camiseta do Che. O relato é do El País Brasil:

Em Curitiba, um casal foi agredido porque vestia camisetas vermelhas, o que provocou a ira dos manifestantes anti-Dilma, que se caracterizaram por vestir roupas verde e amarela. A camiseta do rapaz, que tinha uma imagem de Che Guevara estampada, foi arrancada do seu corpo e, depois, incendiada. O rapaz tomou socos e chutes dos presentes.
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“Parecia petista”: na Paulista, dois casos de violência fascista

Fã de Bolsonaro decretou, antes de comandar agressão no Metrô: “Se não gritar fora Lula é petista”; no Masp, dois jovens foram agredidos por “parecerem petistas”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um casal de amigos sendo ameaçado e agredido por uma turba. A acusação: “Parecem petistas”. A prova: ele estava com uma bicicleta vermelha. Não foi o único caso, ontem, durante a manifestação na Avenida Paulista pela derrubada de Dilma Rousseff e contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro. No Metrô, um estudante teve de sair correndo porque não gritou “fora Lula”. “Se não gritar fora Lula é petista”, decretaram.

O vídeo fala por si só. Vejamos o relato de Klismann Matos, estudante de Geografia na USP:

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O som e a náusea – a face sonora do fascismo brasileiro, março de 2016

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“O Grito” (Edvard Munch, 1893)

E não é que agora os golpistas querem ganhar na buzina? Não somente na panela reativa, mas no barulho, no ruído militante, desestabilizador, enlouquecedor?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

E não é que agora querem ganhar na buzina? Não somente na panela reativa, mas no barulho, no ruído militante? (Enquanto um juiz vaza outros sons; vaza o áudio da presidente da República e a imprensa faz de conta que tudo se passa em termos republicanos.)

Eu andava no bairro de Perdizes, em São Paulo, quando comecei a escutar as buzinas. Estava calmo e fui ficando cada vez mais irritado – como fico quando os motoqueiros estão com os dedos na buzina particularmente irrequietos. E fiquei pensando nos sons da minha vida. Continuar lendo

Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor

Eles começaram a criar asinhas em 2013 e se espalham pelo país, sob o olhar complacente da mídia, da polícia e do Ministério Público; até onde vão chegar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra um tipo que se multiplica: um rubrofóbico. Ele tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo. E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto. Continuar lendo