Bolsonaro com 20% dos votos e os crentes em intervenção militar “temporária”

Bolsonaro com o pós-golpista General Mourão.

Bolsonaro com o pós-golpista General Mourão.

Distraídos de todo o Brasil imaginam umas “Forças Armadas do Bem”, capaz de entregar o país novamente limpo da corrupção; desconhecem profundamente a história

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Impressionante como começo a ver gente do campo supostamente progressista defender a intervenção das Forças Armadas contra essa corja golpista e corrupta que tomou o país de assalto. Imaginam (o que é curioso) umas Forças Armadas do Bem, que retirariam essa quadrilha sem maiores conflitos – e devolveriam uma eleição “limpinha” em 2018. Algo do tipo “lavôtánovo”.

Só que não é assim que funciona a política. Não é assim que funciona a história. Não é assim que funcionam as Forças Armadas. Não é assim que funciona o mundo.

Não à toa, ontem, no programa do Pedro Bial, o comandante do Exército negou a hipótese de que general golpista Antonio Hamilton Mourão seja punido: “Comandante do Exército descarta punir general que sugeriu intervenção“.

Isso acontece no mesmo momento em que outro grupo político, o dos apoiadores perenes de militares no poder, empresta 20% das intenções de voto à Presidência da República a um desqualificado limítrofe, um capitão machista, truculento e hipócrita chamado Jair Bolsonaro.

Somando os dois grupos, quanto teremos? Entre militaristas assumidos e aqueles temporários e (já não tão) envergonhados? 25% do eleitorado? 30%? Ora, onde foi que enterramos nossa memória?

É por isso que falo em um Pato de Troia. Introduzido junto com o Golpe do Pato. Em captura. E por isso falo em sequestro do bom senso. E da necessidade de ler o país sem as referências – imediatistas e repletas de puxadinhos – dos próprios golpistas.

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Paulo Skaf e o Congresso: o Golpe do Pato como Ensaio Sobre a Cegueira.

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Difícil, em um momento como esse, não lembrar da Velhinha de Taubaté. O personagem de Luis Fernando Verissimo – sintomaticamente demitido há alguns dias da RBS, após 45 anos – consistia numa idosa panglossiana que era a última a acreditar nos militares e no presidente João Baptista Figueiredo.

Em pleno ano de 2017, uns querem uma variação abobada do general Figueiredo no poder: o capitão Bolsonaro. E nem são tão velhinhos assim. Outros já imaginam as tais Forças Armadas do bem. (É uma memória amarelada das forças verde-oliva. Uma Memória do Pato.)

Ora, quanto excesso de ingenuidade. E quanta overdose de falta de memória. Militares no poder são corruptos. Extremamente corruptos. Com o agravante de que não há liberdade de imprensa (sem falar no controle do Judiciário) e essa corrupção não pode – durante a intervenção – ser devidamente evadida.

Militares no poder são genocidas. Destruíram populações indígenas (em ritmo mais acelerado do que os arremedos de democratas, anteriores e posteriores), mataram camponeses mais do que mataram a classe media revolucionária ou resistente.

Expulsaram artistas. Expulsaram políticos, intelectuais. Expulsaram (em 1964, quando alguns argumentos eram parecidos com os atuais, não em 1967) até o Josué de Castro, um herói nacional que lutava contra a fome, que morreu de desgosto no exílio.

Censuraram. E torturaram. Torturaram muito. (E torturaram a história e a educação, por isso ainda nos torturam.)

Ainda estamos com os ouvidos despedaçados por causa da técnica do “telefone”, aquela técnica de tortura que consistia em espalmar violentamente os ouvidos das vítimas. Ainda estamos assim, meio surdos, traumatizados. Mesmo os que nasceram depois. Ou os que éramos crianças nessa fase animalesca.

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É isso que acontece. Estamos atordoados. Eu que ouvia o sargento Castro descrever carismaticamente torturas no Tiro de Guerra de São Carlos (e estapear o atirador Éden, por onde andará o Éden?), no fim dos anos 80, vejo agora uma fileira de atordoados relativizar tudo isso, neste ensaio oliva sobre a cegueira.

É um massacre. Cuidadosamente alimentado por farsantes, do MBL (que de liberal tem muito pouco, claro) aos apresentadores de programas de jornalismo cão, das PMs aos governadores que toleram milícias e grupos de extermínio, todos a serviço de pessoas (entre eles os donos dos meios de comunicação) comprometidas com o livre exercício do capital – e não com as liberdades democráticas.

Bolsonaristas bancarem essa sintonia sórdida com o passado – e, paradoxalmente, com os crimes que eles dizem combater – já é difícil de aceitar. Pois é preciso ter algum orgulho da própria ignorância histórica (e do ódio decorrente dessa falta de formação) para apoiar esse canalha e esse tipo de discurso falso e violento.

A Velhinha era a última a acreditar no regime militar.

A Velhinha era a última a acreditar no regime militar.

Agora, estar supostamente no campo democrático, abominar esse patife e assumir essa Síndrome de Estocolmo soa até ridículo. (Como se a Velhinha de Taubaté tivesse ido fazer um pós-doc em Estocolmo e voltado com técnicas avançadas de marketing.)

Embora também esse fenômeno possa ser explicado com as próprias luzes da história que essas pessoas começam a ler com olhos distorcidos

(como se daquela operação para colorir os olhos, ao se retirar a camada de olhos castanhos, emergisse não o azul, mas o verde-oliva)

e com olhos torturados.

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Geraldo Alckmin afirma SP como vanguarda da repressão

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Trabalhadores sem-teto tentam resistir aos jatos d’água (Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres)

Invasões da polícia sem mandados judiciais; repressões seletivas a manifestações, conforme a orientação política; “golpe do pato” tem sua face bandeirante

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dizem que não é golpe porque a tomada do poder sem voto não teve força bruta. O que já seria uma falácia. Mas o que está acontecendo em São Paulo mostra que o golpe do pato – esse que levou Michel Temer ao poder – possui, sim, um braço armado. Ao reprimir protestos de modo seletivo, a Polícia Militar paulista está se afirmando como polícia política. Ao permitir invasões disfarçadas de “reintegração de posse”, o governo estadual patrocina um Estado de exceção.

Os últimos minutos do domingo, 22 de maio, e o início desta segunda-feira podem ser considerados o símbolo desse avanço repressor, ao escancará-lo. Manifestantes contra o governo Temer não puderam ficar acampados em uma praça próxima da casa do interino, no Alto de Pinheiros – bairro rico da capital. Mesmo após negociação feita anteriormente para que trocassem o local. Eles foram expulsos pela polícia com jatos d’água e bombas: bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo. Continuar lendo

Muro do impeachment é o Brasil que expõe paradoxos e vísceras

Cerca construída por presidiários ainda será estudada por sua multiplicidade de símbolos; povo revê sua percepção de cordialidade enquanto elite faz as contas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Está nos jornais de hoje: presidiários (improvisando para se protegerem do sol) construíram no domingo o que a imprensa chamou de “muro do impeachment“. Uma grande barreira de ferro que separará os manifestantes pró-impeachment (à direita da Esplanada dos Ministérios) e contra o impeachment (à esquerda, olhando de frente para o Congresso). É, desde já, uma das imagens do ano. E uma prova de que o processo em curso ultrapassou os limites da irresponsabilidade, ao pressionar pelo impeachment em um país tenso e dividido.

Lúcio Costa e Oscar Niemeyer já tinham se revirado no túmulo com a invasão da paisagem de Brasília por um pato gigante. Agora, estrebucham. À tentativa de infantilização da política brasileira, pela Fiesp (algo como chamar ecstasy de “bala”, ácido de “doce”, fascistas de coxinhas), se sucede esse símbolo da dissensão – e do risco. Curiosamente, o golpista Movimento Brasil Livre vem desafiando o próprio nome ao ameaçar – com outra leitura da palavra “muro” – os deputados que faltarem à votação: Continuar lendo

Golpe do Pato: a face absurda da cena política brasileira

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Da Fiesp à Praça da Paz, agora com os olhos abertos (Autoria desconhecida)

Fiesp criou o pato cego para protestar contra aumento de impostos; mas ele já faz parte da paisagem do golpismo; o pato é nosso ensaio sobre a cegueira política

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quem disse que o golpe de 2016 – em plena execução – não tem um símbolo?

O papel da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) esteve claro em 1964 e está claro em 2016. Como observamos aqui no blog – sobre o fator Fiesp – e como observou o jurista Fábio Konder Comparato, em ato pela legalidade na Faculdade de Direito da USP. Falta ainda esmiuçar o papel do pato: o símbolo utilizado pela entidade patronal nos protestos na Avenida Paulista. Como em tantos outros casos, o humor se adianta à análise política. E percebe que se trata de um símbolo e tanto. Estamos vivendo o desenrolar do que podemos chamar de um Golpe do Pato. Continuar lendo