As 70 milhões de crianças que vão morrer e o recall das cômodas assassinas

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Relatório do Unicef diz ainda que 750 milhões de mulheres se casarão ainda crianças, até 2030; notícia sobre cômodas assassinas ganhou quase o mesmo espaço

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Li as duas notícias ao lado uma da outra, na home do UOL. 1) “70 milhões de crianças morrerão até 2030 se o mundo não agir, diz Unicef“. Antes de completarem 5 anos. 2) “Gigante de móveis Ikea fará recall de 29 milhões de cômodas após mortes“. (Mortes de crianças. Pelo menos seis crianças morreram desde 1989.)

E fiz a conexão singela entre elas: em que momento faremos um recall desse sistema?

As cômodas estão caindo. Elas vão cair. O sistema que permite 70 milhões de mortes de crianças e é naturalizado diariamente pelos meios de comunicação… precisa mudar. E esta não é apenas uma questão revolucionária. Pode ser uma questão para quem tem formação religiosa (mais ou menos conservadora), ou em direitos humanos – direitos humanos nasceram no capitalismo, não são coisa de comunista.

Para quem tenha compaixão. Algum código de princípios. Pois boa parte desses milhões de crianças vai morrer. Fora as que têm mais de 5 anos. Quantas, exatamente? Quantas ainda podem ser salvas? (E que editorial de jornal está tratando deste tema, hoje?) Continuar lendo

Matheus, 5 anos; Ana Beatriz, 5 anos; Ryan, 4 anos; descansaremos em paz?

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Matheus tinha 5 anos e jogava bolinha de gude quando foi baleado (Reprodução: Arquivo Pessoal)

Todos foram baleados; Matheus jogava bolinha de gude quando foi morto, no sábado, sob a clássica alegação policial de que havia “confronto”; família nega

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Três casos recentes de crianças baleadas e mortas em municípios do Rio.

Matheus Santos Moraes, 5 anos. Jogava bolinha de gude na rua quando foi baleado, no sábado, em Magé. Enterro foi no domingo. Os policiais descansarão em paz?

Ryan Gabriel, 4 anos. Estava na porta da casa do avô, em Madureira, na capital, em pleno domingo de Páscoa. O governador do Rio descansará em paz?

Ana Beatriz Duarte e Sá, 5 anos. Atingida por bala perdida no dia 10, em São Gonçalo. Descansaremos em paz? Continuar lendo

A execução de adolescentes no Rio e o vídeo do Unicef que ninguém viu

O que separa o assassinato de cinco jovens por policiais, no Rio, e o depoimento de mães de adolescentes mortos? Como a opinião pública percebe esses dramas?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante 95 segundos, três mães – três mães negras – falam sobre seus filhos. Sorrindo. “Eu nunca vi uma pessoa igual a ele”, diz a mãe de Hítalo Gabriel, de 12 anos. “Todos os dias ele falava pra mim: ‘Você é a melhor mãe do mundo, te amo'”. A mãe de Cristian, de 13 anos, lembra que ele praticava vários esportes, era brincalhão, difícil vê-lo de cara feia. Queria estudar e ser bombeiro, como o tio. “Ele trabalhava, com 17 anos já tinha emprego registrado”, conta a mãe de Christian. “Era um menino cheio de sonhos. Era o primeiro em matemática. Era o primeiro na minha vida”.

Os depoimentos fazem parte de uma campanha que o Unicef – o Fundo das Nações Unidas para a Infância – lançou no dia 20, o Dia da Consciência Negra. Nos 40 segundos finais do vídeo, as mães baixam a cabeça. Fecham os olhos. Choram. Enquanto isso lemos que, todos os dias, 28 crianças e adolescentes morrem assassinados no Brasil. E que a maioria são meninos negros, pobres e moradores da periferia. A mãe de Christian completa: “Ele já tinha namorada. Já tinha emprego. E eu só tinha ele”. Continuar lendo