O golpismo na época de sua reprodutibilidade técnica

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“Amarcord”, de Fellini, e os curiosos sonhos da adolescência política

À ausência de limites éticos soma-se nestes tempos sombrios certa regressão estética; dos memes às manifestações, das citações cafajestes a dancinhas cafonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ninguém terá descrito melhor a face ridícula do fascismo que Federico Fellini. Como seria bom que todo mundo se recordasse de uma de suas obras-primas, “Amarcord” (1973), no que ela expressa de sarcasmo absoluto em relação aos seguidores de Benito Mussolini. Não só pelo desastre político, por aquela ética indefensável, mas pela coleção de aberrações estéticas, pela falta de noção (uniformizadora e cafona) dos que reverenciavam os símbolos patéticos do regime. Pelo culto medíocre a figuras brutas no país do Renascimento.

Outro cineasta italiano expôs, de certa forma, o componente estético desse mal estar por negação, ao exaltar a delicadeza de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em “Um Dia Muito Especial” (1977). No momento em que ele a ensinava a dançar rumba como em um jogo de amarelinha fazia algo – assim eu imagino as intenções do diretor Ettore Scola – que a multidão fascista em marcha não se disporia a fazer. Desindividualizada, a massa estava destinada a vestir tristemente as mesmas camisas e a assistir como se estivesse diante de um grande orador à gestualidade cafajeste do Duce. Continuar lendo

Ettore Scola fez no cinema a melhor psicanálise da esquerda

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“Nós é que nos Amávamos Tanto” (1974): Antonio é personagem chave da cinematografia de Scola

Morte do cineasta convida a uma reflexão sobre o aspecto político de seus filmes; a crítica feroz a regimes totalitários convivia com uma profunda formação humanista

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não, ele não falou só de esquerda. Era um cineasta completo. Mas a obra do italiano Ettore Scola (1931- 2016) pode também ser analisada pelo que refletiu sobre os rumos da esquerda. Não necessariamente os grandes rumos do Partido Comunista Italiano, ou da esquerda mundial. Ele retratava uma espécie de microesquerda. Personagens comuns, do cotidiano, em seus dilemas éticos – ou neuroses. Apresentados com um misto de afeto e amargura. Com um fio de esperança a desafiar a sensação de impotência.

Em “O Terraço” (1980), os protagonistas vagam em uma festa em meio a problemas pessoais e à busca de algum sentido para a luta. Estamos na Itália pós-Aldo Moro, executado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas. Não à toa há um personagem depressivo, um antigo apresentador da RAI. O personagem de Vittorio Gassman (Mario) é um deputado do PCI. Numa cena clássica ele discute com a personagem de Stefania Sandrelli (Giovanna). Ela diz que é mais de esquerda do que ele. Ele reage com ironia: “Que hora é a revolução?Continuar lendo