Entrudo midiático, “show dos atrasados” é a nova jabuticaba brasileira

entrudo

Sadismo em relação a atrasados no Enem é filho direto da cobertura espetacularizada da imprensa, que agora retroalimenta essa implosão ética e estética

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Esse sadismo em relação aos atrasados do Enem é filho direto da dramatização irresponsável feita anualmente pelos veículos de imprensa. Ano a ano fomos vendo essa reprodução de imagens (fotógrafos e cinegrafistas invadindo as vidas dos estudantes, em nome da notícia-mercadoria), banalizando-as, até que pessoas suficientemente canalhas construíram o tal “show dos atrasados”.

O tema esteve entre os destaques mundiais do Twitter, no domingo. Com a ajuda da imprensa, consolida-se o hábito de zombar de quem chega atrasado no vestibular. O drama pessoal dos demais – um ano inteiro de estudos, os planos profissionais adiados – se torna apenas um motivo para diversão. Uma diversão baseada na humilhação. Em São Paulo, em Porto Alegre, os sádicos se multiplicam. Continuar lendo

O golpismo na época de sua reprodutibilidade técnica

amarcord-duce

“Amarcord”, de Fellini, e os curiosos sonhos da adolescência política

À ausência de limites éticos soma-se nestes tempos sombrios certa regressão estética; dos memes às manifestações, das citações cafajestes a dancinhas cafonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ninguém terá descrito melhor a face ridícula do fascismo que Federico Fellini. Como seria bom que todo mundo se recordasse de uma de suas obras-primas, “Amarcord” (1973), no que ela expressa de sarcasmo absoluto em relação aos seguidores de Benito Mussolini. Não só pelo desastre político, por aquela ética indefensável, mas pela coleção de aberrações estéticas, pela falta de noção (uniformizadora e cafona) dos que reverenciavam os símbolos patéticos do regime. Pelo culto medíocre a figuras brutas no país do Renascimento.

Outro cineasta italiano expôs, de certa forma, o componente estético desse mal estar por negação, ao exaltar a delicadeza de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em “Um Dia Muito Especial” (1977). No momento em que ele a ensinava a dançar rumba como em um jogo de amarelinha fazia algo – assim eu imagino as intenções do diretor Ettore Scola – que a multidão fascista em marcha não se disporia a fazer. Desindividualizada, a massa estava destinada a vestir tristemente as mesmas camisas e a assistir como se estivesse diante de um grande orador à gestualidade cafajeste do Duce. Continuar lendo

Ana Paula do BBB, a cotovelada no gremista e a aceitação do vale-tudo

bolaños

Jogador do Grêmio teve a mandíbula dividida; caso nos convida a refletir sobre a aceitação conveniente das violências e desvios que venham dos nossos aliados

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não estou entre aqueles que simplesmente decidem ignorar o Big Brother Brasil como fenômeno cultural. Sempre achei relevante. Em outros anos tivemos a vitória de participantes truculentos e machistas, como Diego Alemão e Marcelo Dourado. Neste ano a participante mais popular, Ana Paula Renault, era também a mais descontrolada. Só não vencerá o reality show porque deu dois tapas em outro concorrente e foi expulsa. Mas a massa de fãs se sente órfã – porque precisa de protagonistas que consideram “fortes”: com carisma, voluntariosos e… autoritários.

E é por isso que o programa traduz certo momento da sociedade brasileira, como já alertara o crítico de TV do UOL, Maurício Stycer. Por essa projeção e pela tolerância ao vale-tudo, que podemos observar também em outras arenas. O grande assunto na semana no Rio Grande do Sul foi a cotovelada recebida pelo equatoriano Bolaños, do Grêmio. Ele terá de usar placas e parafusos para reconstruir o rosto. Mesmo assim, há quem minimize a agressão. Principalmente entre torcedores do Inter. Seriam “coisas do jogo”. E, afinal, tal jogador do Grêmio deu também tal entrada violenta e.. Continuar lendo

Política nacional se torna um grande Programa do Ratinho

camara

Os caçadores de impeachment. (Foto: Antonio Augusto / Câmara dos Deputados)

À evidente regressão ética e ausência de debates sérios no Congresso soma-se uma sequência inglória de aberrações estéticas; a arte política agoniza em praça pública

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que nada disso é ético, sabemos. E já seria motivo para ficarmos pessimistas. Mas essa overdose de tremeliques expressionistas no Congresso assusta também por sua face estética; ou pela mais absoluta ausência de senso estético, de senso do ridículo na expressão verbal e gestual desses personagens sinistros. O Parlamento brasileiro está tendo seu cabelo pintado de acaju e sua face pública embebida num botox barato – e ainda nem estamos a falar de cafajestagens e traições. É a corrupção do bom gosto, o atentado à compostura mínima; a apologia da náusea; um tsunami de decadências sem a mais elementar elegância.

O inovador parlamentarismo secreto online protagonizado por esses senhores aposta tanto na eficácia do grotesco que faz qualquer personagem caricatural de Fellini parecer o mais elegante e arguto dos imortais. E assim vemos a imprensa oferecer closes ao Eduardo Cunha como se estivéssemos admirando uma Gioconda às avessas; fotos em diversos ângulos de Michel Temer como se ele tivesse mais que uma expressão no rosto e algum pensamento próprio capaz de ser detectado; a eloquência beócia de Leonardo Picciani como se fosse um misto de Shakespeare e Churchill; Marco Feliciano como galã; Paulinho da Força balbuciando algo sobre ética.

Em que momento exato a política brasileira se tornou um grande Programa do Ratinho? Continuar lendo