O golpismo na época de sua reprodutibilidade técnica

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“Amarcord”, de Fellini, e os curiosos sonhos da adolescência política

À ausência de limites éticos soma-se nestes tempos sombrios certa regressão estética; dos memes às manifestações, das citações cafajestes a dancinhas cafonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ninguém terá descrito melhor a face ridícula do fascismo que Federico Fellini. Como seria bom que todo mundo se recordasse de uma de suas obras-primas, “Amarcord” (1973), no que ela expressa de sarcasmo absoluto em relação aos seguidores de Benito Mussolini. Não só pelo desastre político, por aquela ética indefensável, mas pela coleção de aberrações estéticas, pela falta de noção (uniformizadora e cafona) dos que reverenciavam os símbolos patéticos do regime. Pelo culto medíocre a figuras brutas no país do Renascimento.

Outro cineasta italiano expôs, de certa forma, o componente estético desse mal estar por negação, ao exaltar a delicadeza de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em “Um Dia Muito Especial” (1977). No momento em que ele a ensinava a dançar rumba como em um jogo de amarelinha fazia algo – assim eu imagino as intenções do diretor Ettore Scola – que a multidão fascista em marcha não se disporia a fazer. Desindividualizada, a massa estava destinada a vestir tristemente as mesmas camisas e a assistir como se estivesse diante de um grande orador à gestualidade cafajeste do Duce. Continuar lendo

Política nacional se torna um grande Programa do Ratinho

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Os caçadores de impeachment. (Foto: Antonio Augusto / Câmara dos Deputados)

À evidente regressão ética e ausência de debates sérios no Congresso soma-se uma sequência inglória de aberrações estéticas; a arte política agoniza em praça pública

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que nada disso é ético, sabemos. E já seria motivo para ficarmos pessimistas. Mas essa overdose de tremeliques expressionistas no Congresso assusta também por sua face estética; ou pela mais absoluta ausência de senso estético, de senso do ridículo na expressão verbal e gestual desses personagens sinistros. O Parlamento brasileiro está tendo seu cabelo pintado de acaju e sua face pública embebida num botox barato – e ainda nem estamos a falar de cafajestagens e traições. É a corrupção do bom gosto, o atentado à compostura mínima; a apologia da náusea; um tsunami de decadências sem a mais elementar elegância.

O inovador parlamentarismo secreto online protagonizado por esses senhores aposta tanto na eficácia do grotesco que faz qualquer personagem caricatural de Fellini parecer o mais elegante e arguto dos imortais. E assim vemos a imprensa oferecer closes ao Eduardo Cunha como se estivéssemos admirando uma Gioconda às avessas; fotos em diversos ângulos de Michel Temer como se ele tivesse mais que uma expressão no rosto e algum pensamento próprio capaz de ser detectado; a eloquência beócia de Leonardo Picciani como se fosse um misto de Shakespeare e Churchill; Marco Feliciano como galã; Paulinho da Força balbuciando algo sobre ética.

Em que momento exato a política brasileira se tornou um grande Programa do Ratinho? Continuar lendo