Esquerda sem mea culpa ignora julgamento simbólico do Congresso, em SP

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IV Tribunal Tiradentes julga parlamentares nesta segunda, às 19 h, no Tucarena, mas falta apoio: forças de resistência fazem de conta que problema está apenas na direita

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

É impressionante a falta de entusiasmo diante da realização do IV Tribunal Tiradentes, nesta segunda-feira (25/09), às 19 horas, em São Paulo. O evento que, em 1983, julgou a Lei de Segurança Nacional, no ano seguinte o Colégio Eleitoral e, em 2014, a Lei de Anistia, julgará agora o Congresso.

Mas não vejo os setores de resistência abraçados à causa.

Como se todas essas trevas que vivemos não fossem diretamente obra direta de deputados e senadores. (O escroque MIchel Temer, por exemplo, presidiu a Câmara.) Continuar lendo

A esquerda no Brasil: dividida ou adesista?

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Racha no PSTU, um partido sem representação no Congresso, e costura petista com deputados que derrubaram Dilma não deixam de ser duas faces da mesma moeda

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da USP, costuma citar uma frase da qual desconheço o autor original, sobre as divisões no campo da esquerda: “A esquerda no Brasil não existe. Mas já está dividida”.

É uma blague. Uma piada. Mas significativa. Não é que a esquerda não exista, claro. Apenas se reafirma como minoritária. Com dificuldades para obter hegemonia. Para não dizer derrotada. Mesmo que se chame de esquerda o projeto petista que chegou ao poder – e foi derrubado em abril e maio pelo Congresso. Continuar lendo

Ettore Scola fez no cinema a melhor psicanálise da esquerda

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“Nós é que nos Amávamos Tanto” (1974): Antonio é personagem chave da cinematografia de Scola

Morte do cineasta convida a uma reflexão sobre o aspecto político de seus filmes; a crítica feroz a regimes totalitários convivia com uma profunda formação humanista

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não, ele não falou só de esquerda. Era um cineasta completo. Mas a obra do italiano Ettore Scola (1931- 2016) pode também ser analisada pelo que refletiu sobre os rumos da esquerda. Não necessariamente os grandes rumos do Partido Comunista Italiano, ou da esquerda mundial. Ele retratava uma espécie de microesquerda. Personagens comuns, do cotidiano, em seus dilemas éticos – ou neuroses. Apresentados com um misto de afeto e amargura. Com um fio de esperança a desafiar a sensação de impotência.

Em “O Terraço” (1980), os protagonistas vagam em uma festa em meio a problemas pessoais e à busca de algum sentido para a luta. Estamos na Itália pós-Aldo Moro, executado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas. Não à toa há um personagem depressivo, um antigo apresentador da RAI. O personagem de Vittorio Gassman (Mario) é um deputado do PCI. Numa cena clássica ele discute com a personagem de Stefania Sandrelli (Giovanna). Ela diz que é mais de esquerda do que ele. Ele reage com ironia: “Que hora é a revolução?Continuar lendo

Esquerda indiferente a golpe maximiza Dilma e relativiza democracia

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É preocupante ver a proliferação de um pensamento conformista em relação às manobras da direita; como se defeitos da presidente justificassem o retrocesso

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Está em curso um raciocínio distorcido, à esquerda do espectro político. São enumerados todos os incontáveis defeitos do governo Dilma Rousseff (o horror das políticas indígena, agrária e ambiental, a conivência com mineradoras, sua truculência pessoal, a política econômica, as traições de campanha) para em seguida se dizer: não importa, portanto, que ela caia; ela não representa a mim e nem os excluídos, e sim aquela nossa velha plutocracia de sempre.

Essa percepção ignora o decisivo fato de que estamos em uma democracia. Imberbe, um arremedo, mas uma democracia. E traz embutida uma certa ingenuidade. Como se vivêssemos em uma curiosa espécie de parlamentarismo onde só esses setores da esquerda apitassem. Um jogo de xadrez só com as nossas peças. “Não gostamos?” – pensam esses indignados veementes subitamente transformados em indignados blasé. “Que troquem – pois não faz diferença mesmo”. Continuar lendo