Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia. Continuar lendo

Mortos por causa da chuva? Que um jornalismo sério discuta o direito à terra

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Apresentadores com caras compungidas poderiam convencer seus chefes a pautar os temas que poderiam, nos próximos anos, ajudar a salvar outras vidas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A matança de brasileiros pobres por soterramento e afogamento continua. E a imprensa tergiversa. Como se fosse a chuva a culpada. Tivéssemos um jornalismo sério, bem informado, comprometido com os direitos humanos elementares, estaríamos discutindo o direito à terra – na cidade e no campo. Pois é pela não efetivação desse direito que essas pessoas morreram. E outras centenas vão morrer, nos próximos anos, em São Paulo, Petrópolis ou na próxima encosta ocupada por espoliados. Não é tragédia. É massacre.

De nada adianta apresentadores da Globo fazerem caras compungidas, soltarem exclamações de falsa surpresa. Como se essas cenas não fossem previsíveis. Como se o direito de cada ser humano a um pedaço de terra não tivesse sido usurpado – como já nos ensinava Rousseau – por um punhado de espertalhões. Como se os camponeses não tivessem sido expulsos do campo, seja por pressão econômica, seja a bala, por jagunços ou policiais, em um processo histórico escandaloso de grilagem de terras. Que continua. Continuar lendo

Polícia irritadinha de Alckmin disfarça objetivos eleitorais e planificadores

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Garantia de paz durante protesto em SP, segundos antes das bombas (Reprodução/ TV Drone)

Comportamento irracional de PMs está a serviço de um projeto para 2018; governador quer ser terceira via para setor mais conservador e intolerante da sociedade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

São Paulo tem uma polícia irritadinha. Estourada. Suscetível, cheia de quereres. “Eu não quero, eu não quero, eu não quero que a manifestação seja por ali, tá?” Uma polícia com profissionais impulsivos, vingativos. Comandantes traiçoeiros, que prometem paz enquanto a alguns metros outros estouram bombas. Uma antítese do que deveria ser uma polícia, portanto. Antropoformizada, alienista radical – somente ela é que está certa. Sob o argumento de proteger a população, que se cubra ela de porradas, que se ameace sua vida. Paradoxal.

Mas toda essa característica temperamental da Polícia Militar do Estado de São Paulo esconde cada vez mais um movimento inverso – frio e eleitoreiro – do governador do Estado de São Paulo. Sujeito apenas a punições etéreas (alguma condenação do Brasil na Corte Interamericana dos Direitos Humanos, em um futuro distante), ele se vê no direito de usar a tradição truculenta da corporação e a formação precária dos PMs para seus objetivos mesquinhos. O Caldeirão de Hamburgo – o cerco covarde a manifestantes – desafia a democracia, mas dá votos. A irracionalidade é aparente. Continuar lendo