Esquerda sem mea culpa ignora julgamento simbólico do Congresso, em SP

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IV Tribunal Tiradentes julga parlamentares nesta segunda, às 19 h, no Tucarena, mas falta apoio: forças de resistência fazem de conta que problema está apenas na direita

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

É impressionante a falta de entusiasmo diante da realização do IV Tribunal Tiradentes, nesta segunda-feira (25/09), às 19 horas, em São Paulo. O evento que, em 1983, julgou a Lei de Segurança Nacional, no ano seguinte o Colégio Eleitoral e, em 2014, a Lei de Anistia, julgará agora o Congresso.

Mas não vejo os setores de resistência abraçados à causa.

Como se todas essas trevas que vivemos não fossem diretamente obra direta de deputados e senadores. (O escroque MIchel Temer, por exemplo, presidiu a Câmara.) Continuar lendo

Geraldo Alckmin afirma SP como vanguarda da repressão

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Trabalhadores sem-teto tentam resistir aos jatos d’água (Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres)

Invasões da polícia sem mandados judiciais; repressões seletivas a manifestações, conforme a orientação política; “golpe do pato” tem sua face bandeirante

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dizem que não é golpe porque a tomada do poder sem voto não teve força bruta. O que já seria uma falácia. Mas o que está acontecendo em São Paulo mostra que o golpe do pato – esse que levou Michel Temer ao poder – possui, sim, um braço armado. Ao reprimir protestos de modo seletivo, a Polícia Militar paulista está se afirmando como polícia política. Ao permitir invasões disfarçadas de “reintegração de posse”, o governo estadual patrocina um Estado de exceção.

Os últimos minutos do domingo, 22 de maio, e o início desta segunda-feira podem ser considerados o símbolo desse avanço repressor, ao escancará-lo. Manifestantes contra o governo Temer não puderam ficar acampados em uma praça próxima da casa do interino, no Alto de Pinheiros – bairro rico da capital. Mesmo após negociação feita anteriormente para que trocassem o local. Eles foram expulsos pela polícia com jatos d’água e bombas: bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo. Continuar lendo

Resposta ao delegado deputado: somos todos “famosos quem”

Coronel Telhada (PSDB) e Delegado Olim (PP) dão show de truculência na Assembleia Legislativa de SP; o segundo perguntou a quem discordava: “Você é o famoso quem?”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A sequência inicial do vídeo acima mostra o deputado estadual Coronel Telhada (PSDB) sendo enfrentado por uma das estudantes que ocupam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A postura corporal e o tom de voz dele já dizem tudo. O deputado é machão, o deputado é viril, e o deputado diz que vai prendê-la. Por quê? Porque ela está pedindo legitimamente uma CPI para apurar os desvios de merenda no governo paulista? “Sim, é por isso mesmo”, balbucia ele.

Mas eis que surge seu colega Delegado Olim (PP) e consegue deixar o palanque dos parlamentares (não chamemos de picadeiro, em consideração aos profissionais do circo) ainda mais barulhento. “E você, é o famoso quem?”, grita. O deputado chama um homem de louco, invoca a autoridade – vocês-pensam-que-estão-falando-com-quem-aqui – e quase consegue tornar Telhada o deputado bonzinho ao lado do deputado malvado. E repete: “Você é o famoso quem? Aqui quem fala é deputado.”

Pois é isso que os nobres deputados ainda não entenderam. Nós somos todos os Famosos Quem. Continuar lendo

Konder Comparato: Sérgio Moro, “o major Vidigal”, será o próximo presidente

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Salão Nobre da USP-Direito lotado (Foto: Helio Carlos Mello/ Jornalistas Livres)

“infelizmente”, completou o professor emérito da USP-Direito, em ato pela legalidade e democracia; isto a se continuar o atual “desprezo pela política e pelas instituições”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Um homem foi aplaudido de pé por um Salão Nobre lotado, ontem à noite, na Faculdade de Direito da USP: o professor emérito Fábio Konder Comparato, 79 anos. Um nome, vaiado: o do juiz Sérgio Moro, 43. Este foi comparado pelo jurista com o Major Vidigal, personagem central de “Memórias de um Sargento de Milícias” (1854), de Manuel Antônio de Almeida. “Infelizmente, se continuar esse desprezo pela política e pelas instituições, será ele o próximo presidente”, afirmou Comparato, pessimista em relação ao futuro imediato do país. “Os partidos de oposição já devem tê-lo convidado, e será difícil ele resistir”.

Ele acabara de mencionar o Major Vidigal – um chefe de polícia – como símbolo de autoritarismo, ao abrir o Ato de Juristas pela Legalidade e pela Democracia. No clássico de Almeida, três senhoras vão à casa do major para pedir sua condescendência em relação ao deslize de um soldado. Vidigal alega que existe uma lei, não pode fazer nada. Uma delas retruca: “Ora a lei, a lei é o que senhor major quiser”. O escritor conta que o major “sorriu-se com cândida inocência”. Continuar lendo

Vivemos um arquipélago de democracia – e mesmo esse arremedo corre hoje sério risco

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Flerte dos jornais e da opinião pública com o golpe apenas acelera processo de erosão dos valores que avançaram de modo titubeante desde 1985

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não temos uma democracia plena no Brasil. E sim algumas ilhas. Cada vez menores e mais escassas na medida em que se diminui a renda e se avança para as periferias – da cidade e do campo. Moradores de favelas, indígenas e camponeses experimentam menos os sabores de um regime que se propõe a respeitar direitos, oferecer alguma estabilidade, menos medo de que sejamos alvos de arbitrariedades.

Mesmo esse arremedo está em risco, neste março lúgubre de 2016. E muita gente não percebeu que defender algumas ilhas de legalidade não significa compactuar com quem usufrui dessas ilhas; e sim evitar que o processo seja ainda mais corrosivo. Que, no mínimo, esse arquipélago encolha, ou mesmo que seja solenemente eliminado, conforme as conveniências das elites que permitiram esses espaços de respiro. Continuar lendo

O golpismo na época de sua reprodutibilidade técnica

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“Amarcord”, de Fellini, e os curiosos sonhos da adolescência política

À ausência de limites éticos soma-se nestes tempos sombrios certa regressão estética; dos memes às manifestações, das citações cafajestes a dancinhas cafonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ninguém terá descrito melhor a face ridícula do fascismo que Federico Fellini. Como seria bom que todo mundo se recordasse de uma de suas obras-primas, “Amarcord” (1973), no que ela expressa de sarcasmo absoluto em relação aos seguidores de Benito Mussolini. Não só pelo desastre político, por aquela ética indefensável, mas pela coleção de aberrações estéticas, pela falta de noção (uniformizadora e cafona) dos que reverenciavam os símbolos patéticos do regime. Pelo culto medíocre a figuras brutas no país do Renascimento.

Outro cineasta italiano expôs, de certa forma, o componente estético desse mal estar por negação, ao exaltar a delicadeza de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em “Um Dia Muito Especial” (1977). No momento em que ele a ensinava a dançar rumba como em um jogo de amarelinha fazia algo – assim eu imagino as intenções do diretor Ettore Scola – que a multidão fascista em marcha não se disporia a fazer. Desindividualizada, a massa estava destinada a vestir tristemente as mesmas camisas e a assistir como se estivesse diante de um grande orador à gestualidade cafajeste do Duce. Continuar lendo

Bela Gil “reverte” consulta sobre agrotóxico; bem-vindos à teledemocracia

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Só não estaríamos trocando o sisudo mundo das decisões técnicas por um tempero de opiniões de celebridades porque a Anvisa já fez mais de mil consultas públicas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Uma disputa emocionante. No placar, 66% das pessoas estão a favor do agrotóxico carbofurano. Mas eis que a apresentadora Bela Gil reverte o placar: com a ajuda de seus seguidores no Facebook, agora somente 29% são favoráveis; 69%, contra. E o placar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não para. Neymar entra na disputa em defesa do veneno: agora 53% dos brasileiros aprovam sua utilização. Mas a grama está pesada. José de Abreu volta para o Twitter para reprovar o pesticida. E empata o placar! Quem desempatará esse jogo? Luciano Huck? Lobão? Olavo de Carvalho? (Haverá morte súbita?) Gregório Duvivier? Gabriel Jesus? Jout Jout?

Apenas o primeiro trecho do parágrafo acima é verídico. Neymar, José de Abreu e Jout Jout não participaram desse levantamento eletrônico, encerrado no dia 24, diretamente dos computadores da Anvisa, em Brasília. Bela Gil, sim. Mas eles bem poderiam ter participado. Afinal, lá estava uma questão relevante, que diz respeito a dezenas de milhões de brasileiros: a utilização ou não de um veneno que pode ser prejudicial à saúde. Por que não convocar uma celebridade para dar opinião, ou os seguidores de Tamiel ou Dona Geralda, do Big Brother Brasil? Continuar lendo

Quantas pessoas foram feridas pela polícia de SP nas manifestações de 2016?

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Juliano Vieira, da TV Drone, jornalista ferido na manifestação de 22/01 em SP (Foto: TV Drone)

É preciso quantificar as agressões policiais durante os protestos; investigar os responsáveis e denunciar internacionalmente esses atentados à democracia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

É preciso registrar. Quantificar. Quantas pessoas foram feridas pela polícia paulista nos protestos democráticos pela redução das tarifas de transporte? Quem vai reunir essas informações? Advogados ativistas? O MPL? O Ministério Público?

Não se trata de naturalizar a violência policial. Muito pelo contrário. E sim de respeitar cada vítima. E de utilizar os dados como instrumento para denunciar o Estado como violador de direitos humanos elementares.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) já está fazendo algo parecido com os jornalistas. No protesto de quinta-feira sete jornalistas foram atacados pela polícia do governador Geraldo Alckmin. No ano, 21. Pelo menos um deles foi ferido. Ontem. É Juliano Vieira, da TV Drone, internado com queimaduras de segundo grau. Continuar lendo

Maria Lúcia, vítima de fascistas em BH, tem a coragem que nos falta

Pedagoga vai com criança protestar contra golpe e é expulsa por manifestantes fascistas; esquerda indiferente tem certeza que as coisas não vão piorar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Observem o vídeo acima. A pedagoga e sindicalista Maria Lúcia Barcelos estava numa manifestação a favor do impeachment, no domingo, em Belo Horizonte. Em sua camiseta branca, uma frase: “Xô, golpe”. É expulsa, quase linchada. E é linchada verbalmente. Os manifestantes de verde e amarelo a xingam de “vagabunda”, “filha da puta”, “lixo”, “petista de merda”.

Pouco antes das agressões, como mostra reportagem do jornal Hoje em Dia, Maria Lúcia estava de mãos dadas com uma menina de uns 4 anos. Sua filha? Não sabemos. O que dá para saber é que, enquanto a polícia retirava a pedagoga do tumulto (sem nenhum esforço de rechaçar os fascistas mais agressivos), a menina não mais lá estava. Terá assistido a tudo aquilo? Continuar lendo