“Eles não sabem o valor de uma nota de cem”

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Preso no trânsito, taxista de Belo Horizonte faz uma reflexão sobre dinheiro e poder, a partir do caso JBS e do valor concreto ou desconhecido de uma nota de R$ 100

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A jornalista Constança Guimarães contou esta história nas redes sociais. Ela pegou um táxi em Belo Horizonte. Era o começo da noite de sexta-feira, 19 de maio. Um dia após estourarem as notícias sobre a JBS. O trânsito estava lento. “Mas melhor que ontem”, disse o taxista. “Porque em dia de manifestação fica muito parado mesmo”.

Constança disse a ele que manifestações precisam provocar desconforto, interferir no cotidiano para motivar reflexão. Em muitas outras vezes já havia se posicionado dessa maneira e sua colocação fora recebida com arroubos “a esmo”, como ela disse, ou dirigidos a ela “com muita, muita ênfase”. Algumas dessas ênfases, violentas.

Foi quando o taxista disse: “Mas é claro. Senão vira piquenique.” Continuar lendo

25 considerações sobre a lista de políticos de Sérgio Machado

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Um olhar inicial para citados em delação homologada convida a reflexão sobre “elite branca”; reflexão posterior questiona quais desses serão convenientemente rifados

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Estadão desta quinta-feira traz na capa o rosto dos 25 políticos mencionados por Sérgio Machado na lista de delação homologada. Seriam aqueles envolvidos em esquema de corrupção da Transpetro. Seguem algumas considerações:

1) A lista é significativa, mesmo que consideremos – como deve ser – cada um daqueles brasileiros inocentes, até prova em contrário, em relação aos crimes apontados pelo ex-presidente da Transpetro. Simbolicamente significativa.

2) Está lá o que o ex-governador paulista Cláudiio Lembo já definiu como “elite branca”. Mesmo que alguns deles (Heráclito, Garibaldi, Sarney) dificilmente sejam identificados como brancos em um país europeu.

3) A lista é masculina. E a presença de duas mulheres (uma do PT e uma do PCdoB) apenas confirma a regra. Continuar lendo

Por que a corrupção em Belo Monte não ganha o mesmo destaque que a da Petrobras?

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Porque não se trata somente de combate à corrupção; interesses econômicos na demonização da estatal são os mesmos que naturalizam modelo predador de usinas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quando veremos uma capa de revista sobre a corrupção na usina de Belo Monte?

Embora o projeto originado na ditadura militar seja uma das maiores obras de infraestrutura já feitas no país, as notícias sobre corrupção na hidrelétrica não chegam aos rodapés das notícias sobre corrupção na Petrobras. Por quê? Continuar lendo

Reflexões sobre corrupção “organizada” e “imprópria”

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Pensata de FHC precisa ser mais bem detalhada; reflitamos, então, sobre organicidade e acaso, e sobre as características centrais dessa palavra-fetiche, “corrupção”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O príncipe Fernando Henrique Cardoso admite que em seu governo a corrupção existia, mas não era “organizada“. À tentação de imaginar a Mancha Verde, a Gaviões da Fiel e a Jovem Fla como símbolos do que seria algo “organizado”, permito-me mais uma vez pesquisar a origem do termo. Ele vem de “orgânico”, “que possui órgãos cujo funcionamento determina a vida”. Desconhecíamos até então essa influência naturalista – biológica – na visão do sociólogo.

O Dicionário Houaiss descreve este sentido para a palavra organizado:

que constitui um conjunto definido, estruturado, fundamentado

E este para a palavra orgânico:

relativo ou pertencente à constituição ou estrutura (de qualquer conjunto, totalidade etc.); caracterizado pelo arranjo sistemático de suas partes; estrutural
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