FHC, Alckmin, Serra, Blairo Maggi e o Vale das Notícias Ignoradas

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Governador recebeu o ex-presidente e os dois ministros no Palácio dos Bandeirantes; em pauta, a defesa do agronegócio; mas leitores não deram bola

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornalista deve ter sua lista de notícias-que-não-emplacaram. Você vai lá, apura, descobre algo, sente aquele comichão de repórter, algo entre o orgulho e a expectativa de que repercuta, e… simplesmente a notícia não vinga. Até é publicada, não necessariamente desprovida de destaque. Mas ninguém dá bola. E a notícia não precisa ser sua. Às vezes você percebe que um colega deu algo importante. Espera que aquilo vá rodar o país. Mas nada.

Acaba de acontecer comigo. Duplamente. Lia distraidamente a Coluna do Estadão, nesta terça-feira (07/02), quando me deparei com a seguinte informação: o governador Geraldo Alckmin recebeu em pleno Palácio dos Bandeirantes o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros José Serra e Blairo Maggi. Em pauta, o agronegócio. O ministro da Agricultura queixa-se da percepção da sociedade em relação ao setor. E FHC se dispôs a abrir o espaço de seu blog, em prol da causa.

Não vi ninguém – absolutamente ninguém – comentar a notícia. E escrevi a seguinte nota, no De Olho nos Ruralistas, observatório sobre agronegócio que coordeno: “Alckmin recebeu FHC, Serra e Blairo Maggi para defender agronegócio“. Mas novamente… nada. Uma das piores repercussões da história do site. O leitor não se interessou. E fiquei pensando…

… no Vale das Notícias Ignoradas. Um imenso vale com notícias soterradas, ignoradas ou instantaneamente esquecidas (o Vale das Notícias Esquecidas é outro, contém notícias que ao menos foram destaque por algum tempo), criaturas natimortas. Notícias que atravessaram algum Rubicão, driblaram os muros de pauteiros e editores, interesses dos patrões, foram estampadas. O leitor que as rejeitou.

Sim, bem sei que leitores são induzidos. Que as notícias que se repetem, sistematicamente, que aparecem nos editoriais e nas colunas dos articulistas, que ganham suítes, têm muito mais chance de entrar na memória coletiva, de fazer parte do debate público efetivo. Mas não estou a falar do Vale das Notícias Censuradas, rejeitadas, derrubadas, vetadas. E sim de notícias que saíram.

Qual a importância, então, de um governador receber – em pleno Palácio dos Bandeirantes – um ex-presidente da República, estrela de seu partido, um dos intelectuais mais influentes de certas décadas do século 20, junto com dois ministros de um governo golpista, um deles de seu partido, o conhecidíssimo José Serra? O outro, o vice-rei da soja, cotado em alguns círculos até mesmo para a Presidência da República?

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

Eu não estou louco. Vejo relevância do encontro no contexto da própria nomeação de um tucano, Alexandre de Moraes, outro ministro do constitucionalista Michel Temer (nesta terra de constitucionalistas distraídos), para o Supremo Tribunal Federal. Vejo relevância na reunião de três grão-tucanos nesse lugar específico – mesmo que fossem só eles. Vejo importância política na costura entre governo estadual (e entre outro presidenciável, Alckmin) e ministros de Temer.

Por fim, e como editor de um site sobre o universo dos ruralistas, vejo com certa perplexidade Fernando Henrique Cardoso abrir o espaço de seu blog – tradicionalmente reservado para a defesa da legalização da maconha – para promover um setor econômico que se vende por um preço muitíssimo maior do que aquilo que realmente oferece. Ultrasubsidiado, com uma fatia do PIB muito menor do que sugere sua auto-estima nas alturas, patrocinador de violências históricas no campo e de uma das desigualdades estruturais da sociedade brasileira, a que diz respeito ao acesso à terra.

“FHC vai abrir seu blog para defender o agronegócio”. Esse foi outro título que pensei. Será que daria certo? A notícia subiria para algum morro, eventualmente o Morro das Notícias Sobre Tucanos, ou o Pico dos Leitores que Odeiam FHC (ou o Planalto das Notícias sobre Agronegócio, ou sobre Blairo Maggi), ou continuaria no Vale das Notícias Ignoradas? Não sei.

SP, RJ, RS, PR e SC têm 60% das feiras orgânicas do país

 

Mapa de Feiras Orgânicas do Idec mostra necessidade de políticas públicas para se atingir lugares mais pobres; movimento atual do governo é no sentido oposto

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Entre 490 feiras identificadas pelo Mapa de Feiras Orgânicas do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (idec), 60% delas (292) ficam em apenas cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. No restante do país há Unidades da Federação com apenas uma feira conhecida, como Amapá, Amazônia e Rondônia.

A pesquisadora Ana Paula Bortoletto, do Idec, diz que para se fazer uma melhor distribuição geográfica são necessárias políticas públicas. E é aí que mora um dos problemas. O governo interino de Michel Temer tem feito sinalizações no sentido contrário. Com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e medidas que estimulam ainda mais o setor do agronegócio, e não a agricultura familiar. Continuar lendo

Quem financiará a mídia alternativa para que ela seja “livre e independente”?

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Esquerda brasileira ainda não acordou para a necessidade de bancar projetos de comunicação contra-hegemônicos, como multiplicadores de uma agenda da resistência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh, baby, oh baby
A gente ainda nem começou

(Raul Seixas, “Cachorro Urubu”)

Estas reflexões partem de uma situação muito concreta: a campanha de arrecadação de um projeto jornalístico alternativo, o De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil. Esse projeto que eu coordeno – uma parceria de jornalistas com o Outras Palavras e a TV Drone – está em pleno processo de financiamento coletivo. O que me torna suspeito em relação ao tema, parte diretamente interessada. Mas as reflexões oriundas dessa saga (fazer crowdfunding no Brasil é uma saga) nos permitem refletir sobre alguns rumos dos projetos de comunicação independentes. Independentes de quem? Continuar lendo

Golpe de 2016 se afirma também como um golpe ruralista

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Assim como em 1964, combate à reforma agrária ganha centralidade na chegada direta das oligarquias ao poder; não à toa, medidas de Temer alegram agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O filme brasileiro com a premiação mais badalada da história, “O Pagador de Promessas” (1962) é um belo exemplo de como a reforma agrária era apresentada, nos anos 60, como um bicho de sete cabeças. Como se fosse algo comunista – e não algo do próprio capitalismo. Resultado: foi um dos principais motivos para a derrubada de João Goulart, em 1964. O que mudou de lá para cá? Troquemos a palavra “latifundiários” por “agronegócio” e teremos uma das chaves para entender o golpe de 2016.

O golpe de 2016 é também um golpe ruralista. Continuar lendo

Kátia Abreu volta ao Senado sob aplauso da base de Temer

Ministra de Dilma foi recebida com mesura pelos tucanos Aloysio Nunes e Antonio Anastasia, relator do impeachment; pais de ministros também a elogiaram

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro*)

De volta ao senado, após 1 ano e quatro meses, Kátia Abreu (PMDB-TO) ganhou nesta semana fartos elogios de senadores que votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Aloysio Nunes (PSDB-SP), produtor de látex em São Paulo, disse que teve seus pleitos atendidos por ela. Garibaldi Alves (PMDB-RN), Fernando Bezerra (PSB-PE), Ana Amélia (PP-RS), Waldemir Moka (PMDB-RS) e o relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia (PSDB-MG), participaram do beija-mão.

Bezerra e Alves são pais de deputados que foram nomeados ministros pelo interino Michel Temer: Fernando Filho, da Integração Nacional, e Henrique Eduardo Alves, do Turismo. Valdir Raupp (PMDB-RO) disse que ela foi uma ministra “completa”. “Todas as regiões estão satisfeitas. Blairo Maggi assume um ministério redondo”, afirmou. “Vossa Excelência revolucionou aquela pasta”, arriscou Anastasia. Continuar lendo

O desabafo de uma indígena: “Eu não quero ser como vocês”

Silvia Nobre Waiãpi reage ao assassinato do bebê Vitor Kaingang com discurso emocionado; atriz, fisioterapeuta, tenente do Exército, ela cobra governo e sociedade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Qual o lugar de Vítor Kaingang? Ele foi assassinado aos 2 anos no dia 30 de dezembro, na rodoviária de Imbituba (SC). Qual o lugar dos indígenas em nossa sociedade? O desabafo emocionado da tenente (atriz, fisioterapeuta) Sílvia Nobre Waiãpi sobre a morte de Vítor traz embutida essa reflexão – ou a denúncia de que nós, brancos, não oferecemos nenhum lugar aos povos indígenas. Na cidade, não pode. E, no campo, as terras são tomadas. Por exemplo, pelo agronegócio.

A degola de Vítor não motivou grande comoção no país. O principal jornal do país, a Folha, só descobriu nesta terça-feira o assassinato, em texto seco sobre o pai do bebê Kaingang: Acabou com o meu mundo, diz índio pai de bebê esfaqueado no litoral de SC. E é exatamente essa indiferença um dos temas do desabafo de Sílvia, da etnia Waiãpi, do Amapá, que já fez pontas como atriz na Globo, é fisioterapeuta e tenente do Exército:

“Eu não quero ser como vocês. Não. Não assim. Que silencia diante de tanta dor e que não tem coragem pra ficar do lado daquilo que é certo”. Continuar lendo

De Paris a Fortaleza: um olhar sobre o clima “para francês ver”

Imprensa cearense deu destaque à COP 21, mas ignorou mobilização de mais de 2.000 pessoas em Fortaleza; organizadores reclamam da invisibilidade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Foi capa de jornal em O Povo, na segunda-feira (30): “Nunca esteve tão quente em Fortaleza”. Com direito a quatro páginas nesse que é um dos principais jornais cearenses. Estaria a imprensa brasileira, então, de fato interessada em mudanças estruturais na nossa relação com o ambiente e padrão de consumo? Não exatamente. Uma mobilização com 2.000 pessoas em Fortaleza, no dia anterior, parte da Mobilização Mundial pelo Clima, simplesmente não motivou nenhuma linha em nenhum jornal.

Dela participaram cinco etnias indígenas e mais de vinte coletivos e movimentos socioambientais, de 15 municípios cearenses, da Praça do Centro Cultural Dragão do Mar até a Praia do Náutico. Entre os temas, a luta contra a exploração da mina de urânio em Santa Quitéria, o fim da devastação dos ecossistemas costeiros, “água para as pessoas e não para o agronegócio e as termelétricas”, punição para os crimes da Samarco. Continuar lendo

A ajuda de Kátia Abreu às vítimas de Mariana: “Enviar roupas”

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Ministra da Agricultura não se pronunciou sobre a catástrofe durante a viagem de 13 dias à Ásia, mas agora aposta na “solidariedade” das empresas do agronegócio

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Após 13 dias de viagem pela Ásia, onde emagreceu 3,5 quilos (e postou inúmeras fotos de viagem), a ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB), está de volta ao Brasil. E decidiu utilizar seu perfil no Twitter – bastante ativo – para falar, finalmente, sobre a catástrofe ocorrida a partir de Mariana (MG), ocorrida no dia 5 de novembro.

Os resíduos lamacentos da Samarco impactaram também a vida de camponeses. Seja pela destruição de dois povoados com pequenos produtores, seja pelo impacto ambiental. Este ainda é incalculável, mas tem na poluição da bacia hidrográfica uma de suas expressões mais emblemáticas. Continuar lendo

E se fosse a lama da Petrobras na Praia de Ipanema?

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Impacto da barragem destruída gera uma Escola Base às avessas; imprensa brasileira perde ímpeto acusatório quando casos emblemáticos envolvem as elites econômicas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A maior catástrofe ambiental do século 21 no Brasil ganha novo ícone com a chegada da lama da Samarco (Vale, BHP) no Oceano Atlântico. Mas quem se importa com a avalanche gosmenta de resíduos na Praia de Regência, no Espírito Santo? Em um litoral que o biólogo André Ruschi define como “a Amazônia marinha do planeta“? Pouco após a barragem da mineradora se romper, no dia 5, houve quem perguntasse, diante da desatenção inicial da grande imprensa: “E se fosse com a Petrobras?” Cabe agora atualizar a pergunta: “E se essa lama estivesse chegando na Praia de Copacabana? Ou Ipanema, Leblon, Barra? Ganharia a capa de Veja?”

As revistas seguem alienadas. Tivemos três fins de semana após o crime socioambiental, ocorrido no dia 5 de novembro. Nem por isso o tema mereceu alguma manchete de Veja, Época ou IstoÉ. Claro que o tema está lá, mas de forma protocolar. Os jornais até acordaram um pouco, diante da viralização do tema na internet. E estão cumprindo (ainda que em fragmentos, com peças isoladas de um quebra-cabeças) parte de sua função. As nossas revistas panfletárias, porém, não estão interessadas em contar à nossa classe média distraída – mas contar com todas as letras – que estamos diante de um dos episódios mais emblemáticos deste nosso capitalismo sôfrego, particularmente inconsequente. E violento. Continuar lendo