Sobre Alceu Castilho

Alceu Luís Castilho é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo (USP). É autor do livro "Partido da Terra - como os políticos conquistam o território brasileiro" (Editora Contexto, 2012). Acompanha com atenção temas ligados à questão agrária e aos direitos humanos.

Dorialândia, essa terra de dependentes do desprezo

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Uma terra que necessita de despejos. (Foto: Tiago Macambira/Jornalistas Livres)

É um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta; terra de gente que posa de bacana, mas precisa soterrar alguém para saciar a própria fissura

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dorialândia é um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta. Uma terra onde as pessoas se matam nas Marginais, porque-a-cidade-precisa-andar e, conforme a definição de seu guru, por “excesso de otimismo”. Terra de gente que posa.

Consumidores de dorias viajam para Campos do Jordão para testemunhar araucárias dizimadas (eles são os netos dos bandeirantes e dos plantadores de café) e, quem sabe, a casa do prefeito paulistano – aquela com uma área pública invadida.

Na administração de Dorialândia o guru leva uma garrafa pet com guaraná quente à mesa. Começa a reunião. Quem fala uma bobagem, na definição dos dependentes de doria, é obrigado a tomar o purgante. Todos riem e acham m-o-d-e-r-n-o.

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“Eles não sabem o valor de uma nota de cem”

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Preso no trânsito, taxista de Belo Horizonte faz uma reflexão sobre dinheiro e poder, a partir do caso JBS e do valor concreto ou desconhecido de uma nota de R$ 100

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A jornalista Constança Guimarães contou esta história nas redes sociais. Ela pegou um táxi em Belo Horizonte. Era o começo da noite de sexta-feira, 19 de maio. Um dia após estourarem as notícias sobre a JBS. O trânsito estava lento. “Mas melhor que ontem”, disse o taxista. “Porque em dia de manifestação fica muito parado mesmo”.

Constança disse a ele que manifestações precisam provocar desconforto, interferir no cotidiano para motivar reflexão. Em muitas outras vezes já havia se posicionado dessa maneira e sua colocação fora recebida com arroubos “a esmo”, como ela disse, ou dirigidos a ela “com muita, muita ênfase”. Algumas dessas ênfases, violentas.

Foi quando o taxista disse: “Mas é claro. Senão vira piquenique.” Continuar lendo

Imprensa alternativa precisa somar forças para resistir e avançar

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Veículos contra-hegemônicos têm agido de forma atomizada nos anos 2010; chegou a hora de resgatar parcerias que marcaram outras épocas; a começar do financiamento

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como financiar a imprensa alternativa? Com a palavra, o leitor. Também o leitor. E, para mostrar a esse leitor que depende dele a própria sobrevivência de uma rede de veículos independentes, os editores desses veículos precisam rever alguns valores. Ou cacoetes, vícios. Principalmente, precisam refletir sobre a tendência ao atomismo que se afirmou nos anos 2010. A do “cada um por si” – nada condizente a com a perspectiva política de todos. É preciso promover a união e a sinergia.

Diante de um governo golpista, alguns veículos que, em boa parte, viviam de verbas do governo também começaram a olhar para o financiamento coletivo. Outros nunca quiseram essas verbas e, igualmente sem verbas de outros mecenas (como fundações estrangeiras), já enxergavam no crowdfunding – ou em um sistema de assinaturas – a solução para pagar as contas. A mão de obra, os gastos básicos. Até mesmo advogados, quando necessário. Continuar lendo

“Carne Fraca”: por que a imprensa blinda Blairo Maggi?

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(Foto: EBC)

PF fez busca a apreensão no gabinete do ministro, em sala que abriga responsáveis por contato com o Congresso; em agosto ele reduziu fiscalização sanitária

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

De Olho nos Ruralistas informa: ““Carne Fraca”: PF fez busca e apreensão no gabinete de Blairo Maggi“. Não na sala específica do ministro da Agricutura, mas no gabinete, no mesmo andar – na sala onde ficam os responsáveis pela articulação política e pela relação com o Congresso. A grande imprensa não deu, embora a informação (com endereço e tudo) esteja escancarada na lista de busca e apreensões divulgada pela Polícia Federal.

Não deu porque é distraída ou porque há interesse de patrões e editores em blindar o ministro?

Em agosto, Maggi anunciou que reduziria a fiscalização sanitária. Foi uma das medidas anunciadas no plano Agro+. A imprensa também ignorou. É novamente o De Olho nos Ruralistas – um observatório sobre agronegócio no Brasil – que informa, em notícia na semana de inauguração do site, em setembro: “Maggi reduz fiscalização sanitária: ‘É o mercado que vai punir quem faz coisas erradas'”. Continuar lendo

Brasil merece conhecer relações entre “senador da chalana” e Carlinhos Cachoeira

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Wilder de Morais, dono do barco-boate onde esteve Alexandre de Moraes, foi investigado na CPI do bicheiro; seu sócio no Hotel Nacional foi sócio de Cachoeira

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A imprensa vai blindar Wilder de Morais (PP-GO) e os demais senadores que estavam na chalana de sua propriedade, o barco-boate onde ele recebeu, para uma sabatina muito peculiar, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes? Ou serão expostas as conexões entre Morais e o bicheiro Carlinhos Cachoeira? E entre ele e o senador cassado Demóstenes Torres, de quem foi suplente por ser um empresário milionário? E entre Sandro Mabel, assessor especial de Temer, e Cachoeira?

Que o engenheiro Wilder Pedro de Morais esteve na CPMI do Cachoeira, em 2012, na época como suplente de Demóstenes Torres (DEM-GO), há algumas referências tímidas na mídia, aqui e ali – em 2017, poucas. Mas falta relembrar que ele mereceu um item inteiro no relatório da CPI. Os nobres parlamentares concluíram que não havia ligação dele com a organização criminosa, mas os diálogos que conectam os dois personagens talvez possam ser resgatados pela eventualmente curiosa imprensa brasileira. Continuar lendo

Brasil agora tem uma esquerda “valente”, caçadora de estagiários

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Estudante de Engenharia foi demitido da empresa após escrever contra feministas

Em vez de defender trabalhadores e debater temas econômicos, vem aí a “esquerda que pede a cabeça de pecadores”; combater o capitalismo ou o Estado, nem pensar

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante a ditadura de 64, milhares de jovens, senhores e senhoras ousaram desafiar os tanques e coturnos. Foram exilados, torturados, assassinados. Não que o enfrentamento revolucionário fosse o único caminho. Houve quem desafiasse o sistema de outra forma. Com um jornal, com textos, com músicas. Foi também por essa legião de resistentes que pudemos voltar ao esboço de democracia que vivemos (com todos os seus defeitos) durante 30 anos. E que hoje é um títere na mão leve de farsantes.

Antes, durante a era Vargas, outros brasileiros corajosos arriscaram seus pescoços em nome de ideais. E de compromissos perenes. Basta pensar nos homens descritos por Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere” para se ter uma ideia da tenacidade, da capacidade de resignação, da necessidade de desenvolvimento de códigos (e de silêncios), de respeito aos companheiros – pois se sabia que a luta era longa e que qualquer vacilo podia ser fatal. Falhava-se, sim, sem dúvida – mas não sem um certo senso de disciplina. Continuar lendo

FHC, Alckmin, Serra, Blairo Maggi e o Vale das Notícias Ignoradas

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Governador recebeu o ex-presidente e os dois ministros no Palácio dos Bandeirantes; em pauta, a defesa do agronegócio; mas leitores não deram bola

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornalista deve ter sua lista de notícias-que-não-emplacaram. Você vai lá, apura, descobre algo, sente aquele comichão de repórter, algo entre o orgulho e a expectativa de que repercuta, e… simplesmente a notícia não vinga. Até é publicada, não necessariamente desprovida de destaque. Mas ninguém dá bola. E a notícia não precisa ser sua. Às vezes você percebe que um colega deu algo importante. Espera que aquilo vá rodar o país. Mas nada.

Acaba de acontecer comigo. Duplamente. Lia distraidamente a Coluna do Estadão, nesta terça-feira (07/02), quando me deparei com a seguinte informação: o governador Geraldo Alckmin recebeu em pleno Palácio dos Bandeirantes o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros José Serra e Blairo Maggi. Em pauta, o agronegócio. O ministro da Agricultura queixa-se da percepção da sociedade em relação ao setor. E FHC se dispôs a abrir o espaço de seu blog, em prol da causa.

Não vi ninguém – absolutamente ninguém – comentar a notícia. E escrevi a seguinte nota, no De Olho nos Ruralistas, observatório sobre agronegócio que coordeno: “Alckmin recebeu FHC, Serra e Blairo Maggi para defender agronegócio“. Mas novamente… nada. Uma das piores repercussões da história do site. O leitor não se interessou. E fiquei pensando…

… no Vale das Notícias Ignoradas. Um imenso vale com notícias soterradas, ignoradas ou instantaneamente esquecidas (o Vale das Notícias Esquecidas é outro, contém notícias que ao menos foram destaque por algum tempo), criaturas natimortas. Notícias que atravessaram algum Rubicão, driblaram os muros de pauteiros e editores, interesses dos patrões, foram estampadas. O leitor que as rejeitou.

Sim, bem sei que leitores são induzidos. Que as notícias que se repetem, sistematicamente, que aparecem nos editoriais e nas colunas dos articulistas, que ganham suítes, têm muito mais chance de entrar na memória coletiva, de fazer parte do debate público efetivo. Mas não estou a falar do Vale das Notícias Censuradas, rejeitadas, derrubadas, vetadas. E sim de notícias que saíram.

Qual a importância, então, de um governador receber – em pleno Palácio dos Bandeirantes – um ex-presidente da República, estrela de seu partido, um dos intelectuais mais influentes de certas décadas do século 20, junto com dois ministros de um governo golpista, um deles de seu partido, o conhecidíssimo José Serra? O outro, o vice-rei da soja, cotado em alguns círculos até mesmo para a Presidência da República?

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

Eu não estou louco. Vejo relevância do encontro no contexto da própria nomeação de um tucano, Alexandre de Moraes, outro ministro do constitucionalista Michel Temer (nesta terra de constitucionalistas distraídos), para o Supremo Tribunal Federal. Vejo relevância na reunião de três grão-tucanos nesse lugar específico – mesmo que fossem só eles. Vejo importância política na costura entre governo estadual (e entre outro presidenciável, Alckmin) e ministros de Temer.

Por fim, e como editor de um site sobre o universo dos ruralistas, vejo com certa perplexidade Fernando Henrique Cardoso abrir o espaço de seu blog – tradicionalmente reservado para a defesa da legalização da maconha – para promover um setor econômico que se vende por um preço muitíssimo maior do que aquilo que realmente oferece. Ultrasubsidiado, com uma fatia do PIB muito menor do que sugere sua auto-estima nas alturas, patrocinador de violências históricas no campo e de uma das desigualdades estruturais da sociedade brasileira, a que diz respeito ao acesso à terra.

“FHC vai abrir seu blog para defender o agronegócio”. Esse foi outro título que pensei. Será que daria certo? A notícia subiria para algum morro, eventualmente o Morro das Notícias Sobre Tucanos, ou o Pico dos Leitores que Odeiam FHC (ou o Planalto das Notícias sobre Agronegócio, ou sobre Blairo Maggi), ou continuaria no Vale das Notícias Ignoradas? Não sei.

Amigos da terceirização de presídios são mais perigosos que Família do Norte

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Foto: EBC

Ao eximir agentes estatais, discurso de Temer legitima barbárie nos presídios brasileiros, que vai muito além do massacre de 60 pessoas em Manaus

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A entrada em cena do presidente Michel Temer no caso do massacre de Manaus deveria acender todos os alertas da sociedade civil. O Brasil está em risco. E não somente pela ação do crime organizado (sem colarinho branco) e de suas facções, como o PCC e a Família do Norte, que apareceram midiaticamente como protagonistas do conflito.

Mas pela confusão deliberada entre público e privado. É irônico que caiba a um presidente jurista – que já vem rasgando sistematicamente a Constituição, durante o golpe e depois do golpe – escancarar essa confusão, ao tentar eximir o Estado de sua responsabilidade direta no episódio do presídio Anísio Jobim:

– Em Manaus, o presídio era terceirizado e privatizado e, portanto, não houve uma responsabilidade objetiva, clara e definida dos agentes estatais. Continuar lendo

Placar da PEC 55 no Senado: R$ 836 milhões x R$ 16 milhões

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Diferença dos bens entre blocos de senadores é ainda maior que a do impeachment de Dilma; lado do “não” despencou de R$ 35 milhões para R$ 16 milhões

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Total de bens dos senadores que votaram pela PEC 55: R$ 836.956.237,46. Total de bens dos senadores que votaram contra: R$ 15.897.590,85. Isto conforme as declarações de bens entregues na última eleição disputada pelos políticos.

A diferença é desproporcional em relação à quantidade de senadores que votaram pelo “sim” (53 senadores) e pelo “não” (16 senadores).

Em relação à votação do impeachment de Dilma Rousseff, a desproporção aumentou. Entre os que votaram contra a queda da presidente, no dia 31 de agosto, a soma dos bens era de R$ 35 milhões. O total entre os favoráveis ao impeachment era de R$ 876 milhões. Mais senadores votaram naquela votação (81) do que nesta (69).

Vejamos a relação dos que votaram contra a PEC 55, que limita os gastos sociais por 20 anos: Continuar lendo

Pergunta à Frente Parlamentar da Agropecuária: quem manda na bancada?

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Michel Temer e ministros já participaram das reuniões-almoço, numa mansão em Brasília; mas repórteres foram expulsos pelo diretor executivo por fazer perguntas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

As reuniões-almoço da Frente Parlamentar da Agropecuária ocorrem há vários anos numa mansão no Lago Sul, em Brasília. Costumam ser fartamente divulgadas pela bancada ruralista, com menção a veículos de imprensa e jornalistas. A imprensa alternativa sempre se perguntou: quem banca esses almoços, dos quais já participaram vários ministros (entre eles o da Agricultura, Blairo Maggi) e o próprio presidente da República, Michel Temer?

Na terça-feira (29/11), mistério resolvido: um homem se apresentou como dono da casa. Sem que houvesse acontecido nada – a não ser entrevistas jornalísticas com dois deputados -, sem pedido prévio, ele se julgou no direito de pegar um repórter pelo braço (este editor do De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil), com força, e empurrá-lo em direção à saída, aos berros: “Saia já desta casa! Você invadiu minha casa! Se não sair vou chamar a polícia”. Continuar lendo