Uma das reações ao terror político precisa ser a valorização do Legislativo

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Ocupação de cargos parlamentares será uma resistência ao “cala a boca” embutido na ofensiva da direita; esquerda precisa parar de girar apenas em torno do Executivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vereadora Marielle? Presente. Deputadas Marielles? Presentes. Senadoras Marielles? Presentes. Defendo esta versão utópica do cenário político sem exemplos do Executivo porque a sociedade brasileira precisa se dar conta da importância do Legislativo. Marielle Franco foi executada no Rio, ao que tudo indica, por falar. Por defender direitos de gente que vive em territórios ocupados por militares ou paramilitares, mas também – literalmente – por empunhar microfones.

E uma das melhores homenagens possíveis a ela, portanto, é a tomada das Câmaras e Assembleias por centenas de resistentes. Em nome de milhões de brasileiros que não aceitam essa desproporção nos cargos parlamentares, ocupados há séculos pelas elites econômicas, quando muito por elites partidárias. Em março de 2018 a sociedade ainda pode se mobilizar para que seja incluída – e mais gente levante bandeiras como a que a vereadora carioca levantou.

E isto também por defesa, por defesa pessoal e defesa coletiva. Por defesa de outras Marielles, pois é mais fácil eliminar vozes isoladas, e por defesa de toda a população – que tem e precisa ter seu histórico diário de violências narrado por esses porta-vozes, para que essa visibilidade (nacional e internacional) funcione como uma espécie de blindagem contra algumas das atrocidades das quais somos vítimas.

O VÍCIO NO EXECUTIVO

Não se discute a importância dos cargos no Executivo. Mas a overdose da discussão política em torno dos postulantes a um cargo único (o de Presidência da República) nos faz esquecer que batalhas não se ganham somente com generais, muito menos generais cada vez mais distanciados dos soldados, daqueles que vivem o cotidiano do país, o dos fuzis e das explosões – sociais, ambientais.

Note-se que o próprio impeachment da presidente Dilma Rousseff só ocorreu por causa da articulação do Legislativo. Da Câmara, do Senado. Mesmo assim, em 2018, as lideranças políticas que deveriam ter algum senso de resistência – não em defesa de um partido, mas da democracia – vêm cometendo os mesmos erros de 2014, os mesmos erros de 2010, 2006, 2002: dar pouca trela para as eleições parlamentares.

Dessa forma, as bancadas conservadoras nadam de braçada. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) prevê que, em 2018, as bancadas ruralista e evangélica vão crescer. Isto para citar apenas dois exemplos de bancadas conservadoras. Por quê? Porque esses setores se articulam. Porque a direita sabe da importância do parlamento.

EM NOME DA RESISTÊNCIA

 

Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Espaço de quem?

Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Espaço de quem?

Com todos os defeitos que tenha a representação parlamentar e com todos os vícios que possua o sistema eleitoral brasileiro, esse caminho precisa ser valorizado. Sabemos que a batalha é desigual. Mas não precisamos torná-la ainda mais desigual do que já é. A comoção pela morte de Marielle Franco mostra que algo ainda está aceso, ainda temos capacidade de indignação.

Em nome dessa voz e da dor de cada brasileiro assassinado, humilhado e oprimido (inclusive por leis aprovadas por parlamentares), que em outubro sejam eleitos homens e mulheres que defendam esse conjunto da sociedade, essa maioria ainda silenciosa e ainda silenciada a bala. Que ela se manifeste. Que parta para o contra-ataque.

Que as ruas expressem esse sentimento de revolta e essa tomada de posição política (com estratégia, com táticas), mas também as urnas. Que cada bala desviada da Polícia Federal tenha o efeito de um bumerangue político. Somos muitos, somos centenas de milhões – e que cada partido distraído dê licença a novas levas de gente corajosa.

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