Com a filha de Roberto Jefferson, “O Povo na TV” chega ao Ministério do Trabalho

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Presidente do PTB era um dos protagonistas de programa de baixarias na TVS; ao bancar Cristiane, governo Temer referenda esse Brasil dos latifúndios midiáticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Engana-se quem pensa que Roberto Jefferson surgiu com a denúncia do mensalão. Ele já era deputado e dono (usurpador) do PTB. E por que era deputado? Porque se projetou como advogado barraqueiro de um programa chamado “O Povo na TV”, na TVS – depois SBT. Vejam só o nome: “O Povo na TV”.

O povo estava na TV, naquele início dos anos 80, para ser humilhado. E gerar audiência para um empresário sem escrúpulos: Sílvio Santos.

Imaginem um misto de Marcia Goldschmidt com Programa do Ratinho. O assistencialismo à Luciano Huck sem verniz. “O Povo na TV” era baixaria pura. E foi por causa desse programa (com Wilton Franco, Wagner Montes, Sérgio Mallandro e gente do mesmo naipe) que Roberto Jefferson foi eleito pela primeira vez deputado.

(E imaginem que, em 1982, uma mulher foi à emissora reclamar que não conseguia internar o filho de 9 meses, com tumor nos olhos. Foi parar nas telas de “O Povo na TV“. O bebê agonizante morreu diante das câmeras.)

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É essa a filiação política da nova ministra do Trabalho. (O avô Roberto Francisco, o Betão, era do PTB, mas parece que a canalhice se projetou mesmo com Jefferson, que foi filiado ao MDB e ao PDS, durante a ditadura, e entrou no PTB justamente na época do programa.)

O sobrenome Brasil de Cristiane Brasil Francisco é tão representativo como o nome daquele programa asqueroso. Insisto: “O Povo na TV”.

"O Povo na TV", com Roberto Jefferson. (Foto: Reprodução)

“O Povo na TV”, com Roberto Jefferson. (Foto: Reprodução)

O povo não está representado na TV como deveria porque o Brasil tem um sistema plutocrata de concessão de meios de comunicação. Silvio Santos e Roberto Marinho eram servis em relação aos milicos torturadores. Depois ganharam biografias dóceis e renovações automáticas de suas concessões televisivas. Para continuarem no centro de nossa desordem, no centro do escárnio.

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Se Chacrinha atirava bacalhaus e hordas de apresentadores de TV se projetaram humilhando o povo (até os níveis mais disfarçados da atual cena global) foi porque a esses senhores – os donos da mídia – não convém dar voz efetiva aos trabalhadores, camponeses, aos excluídos. Convém apresentar caricaturas. Despolitizar.

Tudo a partir de concessões públicas, não custa insistir. Os irmãos Marinho se tornaram bilionários, Silvio Santos manda, gargalha e desmanda, e uma de suas crias mais sórdidas (Roberto Jefferson) agora emplaca uma ministra do Trabalho. Uma ministra, finalmente!

Cristiane Brasil não representa somente o DNA dos corruptos boquirrotos, portanto. Ela é filha dessa violência midiática, descende dessa forma televisiva, dessa estrutural condição da TV brasileira de perpetuadora de desigualdades e elaboradora de farsas, de simulacros.

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Por isso tudo sua chegada à pasta do Trabalho multiplica seus significados. Como símbolo de nossas subtrações. “Obrigada, papai”, disse ela, enquanto papai dava bênção à indicação da filhota – diante do presidente mais impopular da história, Michel Temer.

No fundo ela deveria agradecer a outro papito, a Sílvio Santos, esse alpinista que sempre enganou a população, a começar da narrativa cínica, a de que sempre foi um “camelô”. (Raul Seixas o definiu para a eternidade ao falar daquele “riso franco e puro para um filme de terror”.)

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A população brasileira enganada por gente como Temer, Abravanel e Marinho assiste agora à televisão – com protagonistas talvez menos patéticos – como filha de todas essas enganações, de toda essa somatória. Essas burlas estão na retrospectiva da Globo, que defendeu as reformas que promovem a miséria, estão no Caldeirão do Huck, estão no Criança Esperança.

E estavam na defesa incondicional que William Waack fazia da “reforma trabalhista”. Pior: ele defendia algo ainda mais radical que a destruição de direitos promovida pelo governo Temer. Ele defendia uma implosão ainda maior. (E agora anda com advogado a tiracolo nos corredores da Globo para exigir seus direitos…)

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Gente como Cristiane, Waack e Bob Jefferson, não nos enganemos, são apenas os instrumentos. Úteis, sem serem inocentes. O escárnio vem de cima – dessa aliança histórica entre os donos do poder, os donos do capital e os donos dos meios de comunicação.

A indicação da deputada para o ministério é apenas mais um entre os milhares de escárnios que estamos vendo nos últimos meses. Mas é representativa. Com ela, finalmente “O Povo na TV” ganhou um ministério.

Cristiane Brasil tinha apenas 9 anos quando aquele bebê com tumor morreu diante das câmeras. Aos 44 anos, assume uma pasta atropelada, um ministério infeccionado, moribundo. Síntese deste país que andou para trás.

Temer e os latifúndios midiáticos. (Foto: Reprodução)

Temer e os latifúndios midiáticos. (Foto: Reprodução)

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Outros bebês morrerão diariamente sem que as câmeras transmitam. Como consequência da reafirmação da política brasileira como instância genocida, do simulacro midiático como violador de consciências.

Cristiane e Jefferson representam o Brasil dos capitães midiáticos do mato. Acima deles estão os donos desse fazendão, dos latifúndios televisivos à cleptocracia política.

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“O Povo na TV”. “Obrigada, papai”. Um presidente que distribui ministérios como se atirasse bacalhaus. A história do Brasil se repete como mofo.

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