Esquerda sem mea culpa ignora julgamento simbólico do Congresso, em SP

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IV Tribunal Tiradentes julga parlamentares nesta segunda, às 19 h, no Tucarena, mas falta apoio: forças de resistência fazem de conta que problema está apenas na direita

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

É impressionante a falta de entusiasmo diante da realização do IV Tribunal Tiradentes, nesta segunda-feira (25/09), às 19 horas, em São Paulo. O evento que, em 1983, julgou a Lei de Segurança Nacional, no ano seguinte o Colégio Eleitoral e, em 2014, a Lei de Anistia, julgará agora o Congresso.

Mas não vejo os setores de resistência abraçados à causa.

Como se todas essas trevas que vivemos não fossem diretamente obra direta de deputados e senadores. (O escroque MIchel Temer, por exemplo, presidiu a Câmara.)

Em 2014 avisamos tanto sobre a necessidade de se prestar mais atenção à renovação das bancadas. Ela não veio. Sempre essa atenção única para o Executivo. Que depende do Congresso. Governo eleito caiu e governo golpista se mantém por intervenção direta dos deputados.

Ainda não aprendemos a identificar aqueles que mais atacam o país. E por quê? Porque talvez tenhamos também de avaliar algumas das opções políticas dos últimos anos. As temáticas foram se privatizando – isto no campo da esquerda – e o acompanhamento de dinâmicas cruciais ganha apenas contornos episódicos.

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Como convidado para ser uma das três testemunhas no tribunal (vou falar sobre o papel da bancada ruralista), acompanhei de perto a organização do evento. E ela deveria ser um exemplo para todos nós – nós que não vivemos plenamente a própria contemporaneidade.

Porque ela foi feita majoritariamente por senhores em torno dos 80 anos (cito Chico Whitaker, por exemplo), na maior parte das vezes reunidos na casa de uma senhora de mais de 90 anos (Margarida Genevois). Pessoas ligadas a Dom Paulo Evaristo Arns, nos anos 80, que lutaram contra a ditadura e mostram aos mais jovens que não é conveniente ficar calado.

E, no entanto, não nos movemos, nós que nascemos décadas depois e fomos beneficiários dessas lutas. Ou nos movemos a esmo, como eleitores tontos – ou desmemoriados – e fiscalizadores omissos.

A situação é ainda mais grave se pensarmos nas investidas específicas da caserna neste ambiente já pouco democrático do Brasil. Não temos um golpe militar, mas temos coturnos mais folgados. E, portanto, a conexão com as edições anteriores do Triibunal Tiradentes deveria ser um motivo a mais para prestigiarmos o evento.

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PERDE-SE A NOÇÃO DE QUAIS ADVERSÁRIOS SÃO MAIS PODEROSOS

Em tempos de redes sociais celebram-se os linchamentos virtuais. Eles costumam se voltar contra figuras bastante insignificantes para os rumos do país. Vez ou outra um parlamentar vira a bola da vez. Por alguma fala caricata, alguma decisão estapafúrdia. Mas isoladamente. Atacamos os espasmos bolsonaristas como se com isso já estivéssemos cumprindo o nosso papel.

Na hora de avaliarmos a instituição como um todo, nos distraímos. Como se não fosse muito mais importante entender o sistema. Montado – em boa parte a partir do Congresso – para proteger os patrões de sempre, os netos dos escravistas e pais dos próximos banqueiros.

“Ah, mas não fiquei sabendo”. Bem, este tipo de crítica não é, necessariamente, individual. Muita gente não está sabendo do evento justamente porque setores inteiros que deveriam ter feito a divulgação – e, sim, ficaram sabendo – não perceberam a importância do evento. Lavaram as mãos. Ou agiram com pouco entusiasmo.

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De qualquer forma, a necessidade de fiscalizar o Congresso não se restringe a essa cerimônia – embora pudesse ter nele uma referência importante. A falta de mobilização é mais ampla. E desproporcional em relação ao papel de deputados e senadores na retirada de direitos sociais e ambientais.

O sangue no Brasil é derramado também a partir de ternos e gravatas. E o que estamos fazendo a respeito? Esperando que o Congresso se renove automaticamente, por osmose, sem que façamos alertas, sem que o investiguemos, sem que evadamos seu cotidiano cínico?

Julgar o Congresso é entender também nossa omissão. Por isso talvez esse descaso, essa gigantesca enfiada de cabeça em nossa terra espoliada, como se fôssemos avestruzes orgulhosos da própria alienação.

E isto nos ditos setores progressistas. Que, claro, dirão que apenas os direitistas não conseguem perceber os temas prioritários do país.

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A cada bobagem dita pelo enésimo distraído sinto saudades dos tempos de verdadeira resistência democrática, aqueles que eu nunca vivi.

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2 ideias sobre “Esquerda sem mea culpa ignora julgamento simbólico do Congresso, em SP

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