Dorialândia, essa terra de dependentes do desprezo

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Uma terra que necessita de despejos. (Foto: Tiago Macambira/Jornalistas Livres)

É um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta; terra de gente que posa de bacana, mas precisa soterrar alguém para saciar a própria fissura

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dorialândia é um lugar violento, com gente violenta, mas que não se diz violenta. Uma terra onde as pessoas se matam nas Marginais, porque-a-cidade-precisa-andar e, conforme a definição de seu guru, por “excesso de otimismo”. Terra de gente que posa.

Consumidores de dorias viajam para Campos do Jordão para testemunhar araucárias dizimadas (eles são os netos dos bandeirantes e dos plantadores de café) e, quem sabe, a casa do prefeito paulistano – aquela com uma área pública invadida.

Na administração de Dorialândia o guru leva uma garrafa pet com guaraná quente à mesa. Começa a reunião. Quem fala uma bobagem, na definição dos dependentes de doria, é obrigado a tomar o purgante. Todos riem e acham m-o-d-e-r-n-o.

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(Foto: Helio Carlos Mello/Jornalistas Livres)

Fuma-se empáfia em Dorialândia. Aspira-se o imenso desprezo por outros dependentes, como se uma única dependência fosse possível – a desse espírito de “empreendimento”, predador e obsessivo-compulsivo, catapultado pela proteção midiática.

Esses dependentes precisam fazer tudo sorrindo e com a barba feita. Mesmo que os temas das reuniões sejam sórdidos, e que os acordos políticos sejam pouco republicanos, com parceiros pouco republicanos. E que as decisões promovam exclusão.

Dorialândia é a terra dos engomados e dos enganados. Anos depois seus fanáticos dirão: “Eu fui iludido”. Ou: “Eu não sabia”. “Fiz pelo bem da cidade”. Terra de zumbis urbanos, de autômatos do capitalismo – na versão rasteira propagada pelo guru.

Terra de traficantes de simulacros, vendedores de gentrificação – vendilhões, portanto. Loucos por pedra, por cimento, por prédios e muros cinzas, por estacionamentos (onde serão estacionados os carros assassinos e otimistas das marginais).

Em Dorialândia se concebe que aqueles a serem eliminados devam vagar por suas ruas. Sua paisagem entorpecida incorporou de tal forma a violência que promove identidades a partir da destruição – visível – do que se pretendia invisível.

Dorialândia retroalimenta esse desejo mórbido. Como se toda a cidade fosse obrigada a virar um litrão de guaraná quente. Não por ter dito alguma bobagem, mas por não ter aderido – não ter feito o pacto, não compor o clube dos iludidos.

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René Magritte: “Isto não é um cachimbo”.

Dorialândia odeia o que chama de Cracolândia. Odeia a pobreza e qualquer sinal de solidariedade entre desesperados, pois seu desespero não pode ser solidário – muito pelo contrário. Urge que se soterre alguém para saciar sua fissura.

Dorialândia é a terra do desespero engomado, da próxima selfie almofadinha, da realização irônica da profecia de Magritte: “Isto não é um cachimbo”. Como se não fosse. Com seus vícios indisfarçáveis (o carro, o café, o guaraná quente), com suas cinzas e sua alma poluída.

2 ideias sobre “Dorialândia, essa terra de dependentes do desprezo

  1. O que primeiro se deve esperar de um governante, administrador, é humanidade, é conhecimento e compreensão sobre a realidade de vida das nossas populações mais empobrecidas, em situação de vulnerabilidade e ao menos buscar incansavelmente um caminho que não atropele essas pessoas, mas que as leve em consideração. O prefeito Doria demonstra o oposto a isso. Belo texto.

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