“Eles não sabem o valor de uma nota de cem”

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Preso no trânsito, taxista de Belo Horizonte faz uma reflexão sobre dinheiro e poder, a partir do caso JBS e do valor concreto ou desconhecido de uma nota de R$ 100

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A jornalista Constança Guimarães contou esta história nas redes sociais. Ela pegou um táxi em Belo Horizonte. Era o começo da noite de sexta-feira, 19 de maio. Um dia após estourarem as notícias sobre a JBS. O trânsito estava lento. “Mas melhor que ontem”, disse o taxista. “Porque em dia de manifestação fica muito parado mesmo”.

Constança disse a ele que manifestações precisam provocar desconforto, interferir no cotidiano para motivar reflexão. Em muitas outras vezes já havia se posicionado dessa maneira e sua colocação fora recebida com arroubos “a esmo”, como ela disse, ou dirigidos a ela “com muita, muita ênfase”. Algumas dessas ênfases, violentas.

Foi quando o taxista disse: “Mas é claro. Senão vira piquenique.”

A jornalista ficou quieta. E ouviu a seguinte interpretação sobre o escândalo político e o Brasil:

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Imagem ilustrativa. (Divulgação/Prefeitura de BH)

– Estou acompanhando pelo rádio as notícias. E os caras falam de tantos milhões pra lá, mais outros tantos de muitos milhões pra cá. É só conversar e abrir a carteira e saem dezenas de milhões de reais de lavada. Cheguei à conclusão que não é dinheiro o que interessa pra esses caras, porque eles não sabem mais contar um real. Eles não sabem o valor do dinheiro. O que interessa é o poder. O quanto de poder cada transação dessas garante pra eles. Esses caras não têm ideia do valor do dinheiro. Eles não têm a menor ideia de quando vale uma nota de cem. Olha, uma nota de cem vale muito menos do que deveria valer. Mas tem família que come com cem reais um mês inteiro. Não come bem, mas não morre de fome. A senhora sabe, tem gente que morre de frio e fome na rua. Cem reais investidos nessa pessoa salva ela de morrer. Eu fico dirigindo, ouvindo as notícias e pensando: esses caras não sabem quanto vale uma nota de cem, eles não têm ideia do que a gente faz com cinquenta, com dez contos. E isso me dá certeza de que eles não têm a menor ideia e nenhum interesse em saber como a gente vive. Ou não vive, né? Porque eles também não querem saber por que a gente morre.

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