Imprensa alternativa precisa somar forças para resistir e avançar

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Veículos contra-hegemônicos têm agido de forma atomizada nos anos 2010; chegou a hora de resgatar parcerias que marcaram outras épocas; a começar do financiamento

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como financiar a imprensa alternativa? Com a palavra, o leitor. Também o leitor. E, para mostrar a esse leitor que depende dele a própria sobrevivência de uma rede de veículos independentes, os editores desses veículos precisam rever alguns valores. Ou cacoetes, vícios. Principalmente, precisam refletir sobre a tendência ao atomismo que se afirmou nos anos 2010. A do “cada um por si” – nada condizente a com a perspectiva política de todos. É preciso promover a união e a sinergia.

Diante de um governo golpista, alguns veículos que, em boa parte, viviam de verbas do governo também começaram a olhar para o financiamento coletivo. Outros nunca quiseram essas verbas e, igualmente sem verbas de outros mecenas (como fundações estrangeiras), já enxergavam no crowdfunding – ou em um sistema de assinaturas – a solução para pagar as contas. A mão de obra, os gastos básicos. Até mesmo advogados, quando necessário.

Não são poucos esses gastos. E, diante do gigantismo dos veículos hegemônicos, a mídia alternativa não pode apequenar-se. Unida, ela pode significar muito. Alguém já disse, no entanto, que a esquerda no Brasil não existe, “mas já está dividida”. A tendência à disputa fratricida é imensa. E a questão passa a ser: quais os grandes temas capazes de unir esses veículos, com propostas editoriais diferentes, temas diferentes, causas políticas diversas? Poderíamos começar com dois deles: 1) o jornalismo; 2) o financiamento.

Vejamos alguns veículos que, neste momento, estão com campanha de assinaturas. Em ordem alfabética:

  • De Olho nos Ruralistas. Foco: cobertura crítica do agronegócio. Assinaturas a partir de R$ 12 mensais.
  • Forum. Temas políticos variados. Assinaturas a partir de R$ 9,90 mensais.
  • Opera Mundi. Acontecimentos globais, sob uma perspectiva brasileira. Assinaturas a partir de R$ 12 mensais.
  • Outras Palavras. Comunicação compartilhada e pós-capitalismo. Artigos consistentes. Assinaturas a partir de R$ 12 mensais.
  • Ponte Jornalismo. Direitos humanos, justiça e segurança pública. Crowdfunding com doações a partir de R$ 10.

Spoiler: eu sou suspeito. Coordeno um desses veículos, o De Olho nos Ruralistas. Que está em plena campanha de assinaturas, para poder caminhar até 2018. Ao longo do planejamento dessa campanha, ouvi de muitas vozes de esquerda: “Vai ser difícil. Tem muita gente captando. Tem o Opera Mundi. Tem a Ponte. Até a Carta Capital está fazendo campanha de sócios”. Entre outras frases nessa linha. “Será difícil, muito difícil”. Algo quase no limite do impossível, portanto.

Mas vejo o cenário de modo muito diverso. Enxergo milhões de brasileiros com disposição e poder aquisitivo suficiente para sustentar um veículo alternativo. Ou um pool de veículos alternativos. Sim, pode ficar difícil para a maioria doar R$ 10 por mês para um e para outro e outro, numa lógica do saco sem fundo. Mas e se doar uma quantia mensal para um pool de veículos? “Doe R$ 30 e ajude De Olho nos Ruralistas, Ponte Jornalismo, Outras Palavras e Opera Mundi”. Por exemplo.

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Nos anos 70, apoio mútuo. (Reprodução: Versus)

Isto como apenas um dos exemplos possíveis. Há fartas possibilidades no campo da sinergia, não só do conteúdo (às vezes praticada de uma forma mecânica, copiar e colar, nem sempre com o crédito muito à vista), mas do dia a dia administrativo das redações. Algumas funções específicas poderiam ser feitas por profissionais que trabalhem para diversos veículos. Não dá para toda redação ter estúdio e profissionais do audiovisual, por exemplo.

E não estou a falar sob uma perspectiva capitalista, naturalmente. De corte de gastos, lucro. Exatamente porque enxergo uma possibilidade de multiplicação, de um grande salto na captação de recursos de cada um desses veículos. Com milhões de leitores críticos não deveríamos estar pensando numa lógica de fundo de quintal. A imprensa alternativa pode ser mais profissionalizada. Desde que convença o leitor de que isso é possível. E necessário.

A sinergia não será uma novidade. Nos anos 70, veículos da imprensa alternativa faziam propaganda um dos outros. As páginas do Versus, por exemplo, o Versus de Marcos Faerman, traziam propaganda do Pasquim, do Nós, Mulheres, do Movimento, do Ovelha Negra. Todos tinham plena consciência de que se tratava de um jogo de ganha-ganha. E não uma casa com quartos separados, na qual cada um mal se olhe na hora de tomar um café.

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Marcos Faerman divulgava os parceiros no Versus. Não eram “concorrentes”. (Reprodução)

2 ideias sobre “Imprensa alternativa precisa somar forças para resistir e avançar

  1. Como vai, Alceu? Achei muito bom você estar trabalhando o tema desse artigo. Salve, Alceu. Você sabe que constituímos a Associação Profissão Jornalista há pouco. Estamos trabalhando agora no nosso planejamento estratégico. Uma das iniciativas que tenho pensando é a de uma campanha geral para que leitores e internautas fiquem conscientes da necessidade de sustentar os veículos jornalísticos com os quais se identificam. A ideia é atingir um público maior do que o público de esquerda, mas acho que há uma grande área comum para trabalharmos juntos. Pense nisso e vamos nos falar. Aproveito a oportunidade para te convidar à confraternização do dia do jornalista nesta quarta, 5 de abril, no Tubaína Bar, a partir das 18h. Superabraço.

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