O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

O sistema precisa de medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, quando se está fazendo apenas um remendo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Com o Inter de Porto Alegre praticamente rebaixado no Brasileirão, as piadas de adversários tomaram as redes sociais. A melhor delas – e a mais inquietante – é a seguinte: “O Inter precisa contratar o Celso Roth para substituir o Celso Roth”.

Celso Roth comandou o time – que nunca caiu – durante a maior parte do campeonato. Não é um técnico conhecido pela criatividade, ou por um vasto repertório de jogadas, pelo conhecimento tático. Mas como aquele que vai “dar um jeito”, nem que seja na base do grito, da pressão. Por isso ficou conhecido como técnico que salva times do rebaixamento. Paradoxalmente, participou do rebaixamento do Vasco, no ano passado, e do provável rebaixamento do Inter.

Sim, estou tomando Celso Roth como metáfora para entendermos o sistema. Embora parte da esquerda costume omitir a palavra, ele atende (e essa não é uma definição de esquerda, diga-se) pelo nome de capitalismo. É nosso modo de produção. Há quem diga que ele está em crise. Há quem diga que está em sua crise final. E há quem diga que ele vive em crise, as crises são a ele intrínsecas.

É como se o capitalismo precisasse de Celso Roth para substituir o Celso Roth.

De medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, em aparente reviravolta, quando se está fazendo apenas um remendo. Enquanto o sistema continua a rolar ladeira abaixo. Algo como chamar novamente o Mailson da Nóbrega para cuidar da inflação, embora o ex-ministro da Fazenda tenha sido uma das faces visíveis da hiperinflação.

O capitalismo está em crise? Que volte o liberalismo. Ou o neoliberalismo. Sistemas que já deram mostra que não dão resultados – ou que se revelaram simplesmente instrumentos do cinismo, já que o Estado nunca deixou de ser aliado da burguesia, nunca deixou de socorrê-la. Dos subsídios agrícolas ao socorro financeiro a bancos bilionários. Celso Roth está sempre lá para enfiar o dedo no dique.

A economia está em crise? Por motivos estruturais, cíclicos, próprios do sistema? Não importa: façamos uma grande encenação. Atribuamos o problema ao governante de plantão, ao partido tal, ao fulano tal, ao jogador que estava arrumando a chuteira (e que, dizem, devia estar marcando um grandalhão), a qualquer bode expiatório que não nos faça discutir o que é estrutural. Escondam nossas ruínas circulares. E chamem o Celso Roth. Ou o Romero Jucá.

É uma lógica do bombeiro bonachão como sebastianismo. Donald Trump não deixa de ser um Celso Roth, ao se tentar repetir Ronald Reagan como farsa. Ou Margareth Tatcher, ou soluções autoritárias. Sim, o capitalismo nada tem de apaixonado pela democracia, apenas apela a ela quando convém. Lida muito bem com regimes autoritários, golpes. E a eles apela quando necessário. Como se tivesse à disposição Celsos Roth de verde-e-oliva e Celsos Roths engravatados, com discursos mais emotivos ou mais tenocratas, conforme as opções do mercado – ou os humores da opinião pública.

Vale destacar que talvez Celso Roth seja um cara muito melhor do que todos os personagens aqui mencionados ou insinuados. Um bom pai, um grande amigo. A metáfora está sendo aqui utilizada pelo que ele tem simbolizado como técnico, muito bem remunerado. Pelo que ele significa como mobilizador de esperanças fugidias, uma espécie de Cândido (ou de Doutor Pangloss, conforme o clássico de Voltaire) de metas tímidas, de apenas mais um empurrãozinho com a barriga.

O capitalismo, claro, é mais elaborado que Celso Roth. Precisa de gente acima dele a quem convenha culpar o Celso Roth. Ou o Argel, o Falcão – aliás, há também quem adore culpar os mais técnicos, mais criativos. Acima do Celso Roth há dirigentes desnorteados e empresários oportunistas (os adjetivos podem ser invertidos, conforme o gosto do leitor), há um modo de produção essencialmente espoliador, promotor de desigualdades, ou de crises, mas lá vem um Celso Roth no fim do túnel, demitam o Celso Roth para que se possa recontratá-lo com urgência.

Uma ideia sobre “O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

  1. Tanto para um time ameaçado de rebaixamento quanto para o sistema, um Celso Roth é melhor que um Dunga. Coisa que a gente às vezes tem dificuldade de enxergar.

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