Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia.

Boa parte da sociedade que demoniza moradores de rua – ou que tenha em relação a eles profunda indiferença – é a mesma que idolatra seus animais de estimação. O que dirão essas senhoras-e-senhores-de-bem em relação a esse direito específico, o de que esses seres humanos possam conviver com seus cachorros? (Ou entre si. É pedir demais?)

Os moradores de rua dizem que são obrigados a sair dos albergues às 6 horas. É um dos fatores de rejeição. Imaginemos, então, que, nestes dias frios, tenhamos de acordar às 5 horas para voltar à rua (já que é disso que se trata, voltar). Só que nosso instrumento de trabalho, digamos uma carroça, não estará lá – muito menos o cachorro que nos acompanha. Uma rua nada engraçada. Sem teto e sem nada.

Existem motivos práticos, portanto, para que as pessoas se arrisquem a dormir na rua. E motivos subjetivos. Existenciais. Do medo de morrer de tuberculose (seja ele comprovável estatisticamente ou não) ao desejo de liberdade, temos uma rejeição a lugares supostamente públicos – os abrigos – que possuem regras draconianas, por um lado; e que não oferecem a sensação de segurança (em termos de saúde), por outro.

Ou seja, o puxadinho inventado pelo poder público para remendar a situação de rua não contempla o interesse concreto de boa parte do público-alvo (em São Paulo, 15.905 pessoas). Por anos nos acostumamos a criticar as pessoas que oferecem sopa. Porque o assistencialismo não é solução. E, diariamente, há quem esteja percorrendo as ruas da cidade para servir bebida quente. Quem está sendo mais humano, elas ou os representantes do poder público?

O Estadão de hoje noticia na capa: “Em meio a recorde de frio, GCM tira colchão de morador de rua”. O jornalão tem lá seus interesses políticos, e não deve estar tão preocupado (a não ser os repórteres) com a população de rua, e sim em não reeleger o prefeito Fernando Haddad. Mas se trata de um fato, relatado há tempos pelo padre Julio Lancelotti e repercutido aqui mesmo neste blog: “Haddad vai continuar tirando os cobertores da população de rua?

Claro que há um problema de escala aí. A ação de voluntários ou da Pastoral da Rua não dará conta de cada ser humano desabrigado. Mas temos também uma encruzilhada civilizatória. Filosófica. A rua é um risco e também o afago de um animal. Pode significar as mãos dadas com o companheiro, durante a noite de frio. Que sociedade é essa – representada pelo Estado – que oferece calor com uma mão e o retira com a outra?

A MÃO QUE BALANÇA O CAPITAL

Sim, como imaginar o Estado sem regras? A prefeitura alega que parte delas é acordada pelos próprios moradores. Ou seja, os albergues abrigam a fatia do povo de rua que concorda com essas regras. Mas e os demais? No limite, temos no caso dos moradores de rua um microcosmo dos limites (políticos, éticos) do Estado, da própria existência do Estado: e quem não concorda com a coerção, como fica? Qual a rota de fuga possível?

O que nos leva também ao poder econômico. Gosto do conceito de “liberdade negativa” de Jean-Paul Gaudemar. Essa suposta liberdade que a gente tem de vender a força de trabalho – para quem tem o controle sobre o capital. Uma liberdade aparente. Ou seja, não temos terra (o direito a ela nos foi usurpado) e, para sobreviver, precisamos trabalhar para terceiros. Mas não há emprego para todo mundo. E as contas não fecham.

Ou seja, nossa sociedade prevê uma legião de excluídos. Eles estão nas periferias (do campo e das cidades) e também nas ruas do centro – gritando sua existência. Curioso pensar que a prefeitura alega que está retirando os colchões do povo de rua para evitar a “privatização” do espaço público. Vejam só a ironia. “Privatização”. Como se os espaços não estivessem privatizados, para poucos. Como se o Estado realmente perseguisse (no país da grilagem) aqueles que privatizam espaços públicos.

Trata-se de uma dobradinha. Poder político e econômico promovem essa exclusão estrutural com fartas doses de cinismo e mal conseguem disfarçar (com fartas doses de higienismo) o desejo de extermínio. José Sarney e Joseph Safra são também responsáveis por aquele morador de rua que treme de frio – ainda que não necessariamente com o mesmo amor por animais ou outros seres humanos.

8 ideias sobre “Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

  1. Seria interessante questionar a prefeitura e os abrigos sobre a flexibilização das regras?
    Há médicos que avaliam a saúde dos abrigados?
    Quais as sugestões que poderiam ser encaminhadas á prefeitura relativas ao problema?

  2. infelizmente todo albergue no mundo inteiro quase ,é assim. os daqui começaram agora a flexibilizar e providenciar um local para os cachorros tb, mas é uma coisa de difícil soluçao. Primeiro porque sao muitos, e num ambiente comum a noite vão brigar, quanto a casais, nao existe proibição apenas que vão dormir separadamente pois é albergue temporário, nao motel! no que nao deixa de estar certo pois os alojamentos são comuns. Quanto a tuberculose isso é um problema de saude publica e nao do albergue, aqui por ex nao ” existe” os casos de tuberculose detectados vieram de fora, e são tratados sejam quem for o portador, desde que ele procure auxilio.Albergue nao é centro de saude, e nao da para mandar tomar banho como em piscina publica.Isso nao é motivo para nao ter, alguns sempre vão ser beneficiados é só organizar o cachorro, que realmente é o companheiro fiel e protetor do SDF ( sem domicilio fixo)

  3. Parabéns pelo texto, consegue levantar uma discussão – seguida de ação – de como enfrentar a problemática dos que passam frio e morem no desprezo da madrugada congelante…As ações diretas de solidariedade são necessárias aos que estão sem abrigo, e de fato, por si não resolvem a questão. O fundamental é como humanidade “moderna” enxerga e compreende aqueles e aquelas que não possuem recursos econômicos para habitar uma cidade privatizada, não por colchões, mas por especulados aluguéis, bilhetes de ônibus, metrô, quilo do feijão, e outros caprichos para encher os cofres das modernas Bandeiras. Cabe agora o debate e as ações! Afirmar que albergue não é motel é ter tranquilidade e total desprezo aos preconceitos para se deparar com um casal de SDF, namorando em via pública, para se aquecer do frio, parar seu carro, aumentar o aquecedor e oferecer uma carona e o pagamento de pernoite numa cama privatizada de motel!

  4. Bah, não entendo, ou melhor, entendo muito bem, essa fixação em afirmar que pessoas que se importam com animais de rua não se importam com pessoas na rua: raciocínio binário.

    Se quer ver um bom exemplo que te desmente, dê uma conferida no perfil do facebook de Luisa Mel, e verá QUE ELA REPERCUTIU notícia denunciando a morte de moradores de rua. Veja que dá para se solidarizar com pessoas e bichos, dá pra atuar e se dedicar diretamente no auxílio de pessoas, dá pra se dedicar diretamente na defesa e auxílio de bichos, dá pra não atuar diretamente, e ser jornalista, e sendo jornalista escolher um tema que também acha importante (a natureza do ruralismo brasileiro), sem que por conta disso você esteja diminuindo outras frentes de atuação, defesa das crianças, dos idosos, dos deficientes, das baleias…

    Seria massa se entendesse a crítica e não reproduzisse raciocínio simplista, que pelo menos para meu entendimento, impede que eu compartilhe o texto.

    Outro ponto. Sempre entendi e defendo que o Estado atue de forma competente e humanizada no atendimento e amparo às pessoas que vivem na rua. Aliás, já que a necessidade é escalonar crueldades, o que diferencia um ser humano morrendo de frio na rua e um cão morrendo de frio na rua é justamente o fato de que o ser humano tem todo um aparelho estatal que por meio da assistência social tem a obrigação de lhe dar abrigo, enquanto o cão depende apenas de voluntários, pois não é entendido como sujeito de direitos, situação que as pessoas que defendem animais querem melhorar, sem que pra isso precisem diminuir direitos humanos. A questão agora é perguntar o porquê dos aparelhos de assistência social não funcionarem, e permitirmos que pessoas morram de frio. Acho que questionar duramente o prefeito e quem o apóia é um começo.

    Mas seria bom pensar mais a fundo e criticar também a coisificação das pessoas, tratadas como animais, que já são coisificados. O processo de ausência de compaixão em relação ao abandono de pessoas tem muito mais semelhança com o processo de ausência de compaixão em relação ao abandono de animais do que com o processo de solidariedade a animais.

    Quem não se compadece de um homem morrendo de frio tampouco se compadece de um animal.

    E se a maioria não se compadece de um animal morrendo de frio (caramba, vc acha que protetores de animais são maioria por aí?), é corolário lógico começar a pensar que são os mesmos que já não se compadecem do sofrimento de seres humanos.

    • Só atualizando, a figura pública conhecida por defender o direito animal arrecadou doações para os moradores de rua. Lembrando que os moradores de rua costumam ser o melhor exemplo de cuidado com os seus animais de estimação, se recusando a abandoná-los. É como falei acima, as pessoas que vivem desamparadas sabem que não devemos coisificar a vida, pois sentem o mal disso na pele. Mas explicado isso, pergunto qual seria a ajuda que a grande parte da esquerda que se diz humanista está dando a essas pessoas, será que os moradores de rua vão depender apenas do PAPELÃO que esse político e sua militância estão fazendo. Já que essa esquerda parece ter abandonado a ideia de mudar a estrutura desigual da sociedade, que seria o correto a se fazer, é hora então de pelo menos fazer a conhecida e criticada caridade, que não muda muita coisa, mas pelo menos não atrapalha a vida de quem já não tem nada. Post do perfil da protetora de animais, e graças ao Kassab, agora também engajada na assitência social: https://www.facebook.com/LuisaMellOficial/photos/a.130183777026405.12618.126969100681206/1302829726428465/?type=3&theater

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