Haddad vai continuar tirando os cobertores da população de rua?

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Lei de Ocupação do Solo está acima dos direitos humanos? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Padre Julio Lancelotti afirma-se como voz isolada contra barbárie da GCM; defesa de outras iniciativas da prefeitura não pode significar silêncio diante dessa violência

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O padre Julio Lancelotti tem larga trajetória na defesa da população de rua. Nesta terça-feira, após mais uma madrugada fria em São Paulo, ele publicou mais um protesto, em sua página no Facebook, contra a política executada pela Guarda Civil Metropolitana:

– Nestes dias mais frios e com chuva causa indignação ver a GCM tirando os cobertores da população de rua e destruindo as barraquinhas que são sua única proteção para a chuva e o frio. Junto levam cobertas, colchões, comida, água, remédios e documentos. Até quando a prefeitura agirá desta forma desumana, cruel e torturante?

Vale repetir a pergunta, direcionando-a ao prefeito: até quando, Fernando Haddad? E estendemos a pergunta ao secretário municipal de Direitos Humanos, Felipe de Paula (que sucedeu Eduardo Suplicy): até quando se permitirá essa tortura?

Padre Julio coordena a Pastoral da População de Rua. Não é a primeira vez que ele relata esse tipo de violência contra moradores de rua. Em entrevista à Ponte Jornalismo, no ano passado, ele contou que as ações ocorrem desde as gestões Serra/Kassab e que foram intensificadas na gestão Haddad: “Há ações para espantar, ameaçar, retirar, perseguir e bater nos moradores de rua”.

Não se trata de algo isolado. A repressão é no atacado: “Em muitos pontos da cidade. Parque Dom Pedro, Sé, Glicério, largo Santa Cecília, Vila Leopoldina, Mooca, Largo São Francisco, região de Santana, no viaduto Alcântara Machado. A situação é de muita violência. No Anhangabaú não se vê mais crianças”.

E, mesmo assim, se faz silêncio. Mesmo assim aqueles que se dizem de esquerda – ou os defensores do governo de Fernando Haddad – se fazem de distraídos em relação a essa barbárie. Por quê? Tudo bem espancar moradores de rua, desde que tenhamos ciclovias e corredores de ônibus?

HIGIENIZAÇÃO

Em 2013, Haddad determinou a retirada das barracas de camping, distribuídas por “uma entidade”, segundo o prefeito, aos moradores de rua. Motivo: são proibidas pela Lei Municipal de Uso e Ocupação do Solo. (Aguarda-se ação similar contra os grileiros urbanos.) A prefeitura disse que isso seria feito de modo “humanizado e aberto ao diálogo”: “Gestão Haddad orienta retirada de barracas de moradores de rua“.

Não é que o padre relata: “Imagine só, você cozinha um pouco de feijão, vem o GCM e chuta a comida?” Ele fala de uma higienização sistemática, como se os moradores de rua não fossem seres humanos. Conta que eles são ameaçados. Que se alega, como motivo para repressão, o tráfico. “Mas e o tráfico dos condomínios, escolas, universidades, esse ninguém vê”.

Não custa lembrar que direitos humanos elementares precisam estar acima dos interesses partidários. Reconhecer que a prefeitura tem, em várias outras áreas, políticas mais inclusivas, não significa fechar os olhos para a truculência da GCM. Significa que precisamos ser coerentes.

Ou concordamos com a retirada pura e simples de cobertores e barracas, e com a destruição de comida, água e remédios da população de rua (mulheres, crianças e idosos)? Só se gritará contra isso quando a violência for cometida pela polícia de Geraldo Alckmin?

Ou quando algum guarda mais descontrolado matar diretamente um morador de rua? (Em vez de deixá-lo morrer de frio?)

Basta de conivência.

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20 ideias sobre “Haddad vai continuar tirando os cobertores da população de rua?

  1. Cada dia que passa, nos deparamos com atitudes como essa, covarde, enquanto os políticos enchem o bolso com.a roubalheira que se vê, essas pessoas são tratadas desta forma,
    Triste….

  2. Eu gostaria de ter um pronunciamento do prefeito sobre essas informações. É desumano. é cruel e não condiz co muitas das atitudes do Haddad. Por isso, é preciso que ele se pronucie. Se ficar no silêncio, assina embaixo. Afinal, prefeito, você trabalha pra quem?

  3. A solidariedade dos trogloditas é deixar morrer ou incentivar a morte dos seus semelhantes desprovidos das mínimas condições e vivendo nas ruas. É inacreditável o depoimento do padre Lancelotti e a forma com que a Prefeitura de São Paulo vem tratando estas pessoas. Em vez de atuarem nas causas, atuam nos efeitos da falta de cérebro administrativo e com ações que lembram os animais que se guiam pelo instinto característico destas espécies. Mas não é só em São Paulo, o Brasil e perto de 100% dos municípios não têm políticas públicas de reinserção.
    5 morreram de frio nesta passagem de noite de 13 para 14 de junho de 2016; em pleno século XXI, em que investimos em pesquisas espaciais e procuramos vida inteligente em outros planetas – talvez porque esteja em falta cá na Terra. Lastimável, deplorável; atitude de um poder público inepto para resolver e que depõe negativamente sobre toda a espécie humana !

  4. Eu trabalho próxima a igreja da Sé no centro da cidade é muito comum ver a GCM agredir o morar de rua e tirar deles suas roupas coberta comida. Outro dia eles queriam levar um carrinho de mercado com as coisas pessoas do morador e graças a uma advogada que viu a ação e interferiu eles nao levaram. Gostaria de saber mais sobre a causa do padre e de alguma modo poder ajudar

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