Resposta ao delegado deputado: somos todos “famosos quem”

Coronel Telhada (PSDB) e Delegado Olim (PP) dão show de truculência na Assembleia Legislativa de SP; o segundo perguntou a quem discordava: “Você é o famoso quem?”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A sequência inicial do vídeo acima mostra o deputado estadual Coronel Telhada (PSDB) sendo enfrentado por uma das estudantes que ocupam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A postura corporal e o tom de voz dele já dizem tudo. O deputado é machão, o deputado é viril, e o deputado diz que vai prendê-la. Por quê? Porque ela está pedindo legitimamente uma CPI para apurar os desvios de merenda no governo paulista? “Sim, é por isso mesmo”, balbucia ele.

Mas eis que surge seu colega Delegado Olim (PP) e consegue deixar o palanque dos parlamentares (não chamemos de picadeiro, em consideração aos profissionais do circo) ainda mais barulhento. “E você, é o famoso quem?”, grita. O deputado chama um homem de louco, invoca a autoridade – vocês-pensam-que-estão-falando-com-quem-aqui – e quase consegue tornar Telhada o deputado bonzinho ao lado do deputado malvado. E repete: “Você é o famoso quem? Aqui quem fala é deputado.”

Pois é isso que os nobres deputados ainda não entenderam. Nós somos todos os Famosos Quem.

Desde 1985, instaurou-se no Brasil um regime chamado de democracia. Ainda que diariamente maltratado. Nele, quem tem a soberania é uma entidade chamada “povo”. O deputado deve estar desinformado, mas esse tal de povo é famosíssimo. Seus colegas, por exemplo, sempre o invocam para pedir votos. Delegado Olim, com esse vozeirão, talvez consiga persuadir brasileiros de outra forma. Mas quase todos os demais políticos precisam disfarçar sua agressividade e pedir a bênção para os eleitores.

Nós, os Famosos Quem. Com nossas qualidades e nossos defeitos. Mas não um dos piores deles: a desumanização. Nós somos Famosos e somos Quem. Sujeitos. (Com licença.) Não somos deputados desumanizados.

Os Famosos Quem pretendem estar inseridos em um contexto mundial de valorização do ser humano. São filhos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, uma resposta àqueles que praticaram sistematicamente a desumanização. Os que achavam que judeus bons eram judeus mortos; ciganos bons eram ciganos mortos; portadores de necessidades especiais bons eram portadores de necessidades especiais mortos.

Os nazistas (eles que tinham também tantas necessidades) não gostavam dos Famosos Quem. É que nós, os Famosos Quem, não nos enfileiramos para marchar, mas para reivindicar direitos. Inclusive o de estar na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, falando de igual para igual com um “representante do povo”.

“Onde vocês pensam que estão?”, berrava Telhada, apoplético, diante da jovem corajosa. Ela responde sem piscar: “Na Casa do Povo”. A casa dos Famosos Quem.

As casas dos Famosos Quem não são quartéis. Sei que é difícil para a dobradinha de deputados entender, mas os Famosos Quem ainda conseguem arrumar espaços para morar e espaços para debater, apesar de terem sido historicamente tungados por outros representantes do povo. Milhões são descendentes de escravos, que mantiveram a condição humana apesar dos esforços sistemáticos de desumanização. Outros milhões descendem dos indígenas e camponeses expulsos do campo no último século.

Somos duas centenas de milhões de Famosos Quem. Meu tio mais velho, quando bebê, era amarrado em um pé de café para que meu avô e minha avó pudessem trabalhar – e engordar o cofre de algum fazendeiro. Meu tio João era um Famoso Quem. Não sei o nome do fazendeiro. Devia ser um Famoso Alguma Coisa. Desumanizado. Entre os irmãos dele que sobreviveram está a minha mãe. Famosíssima. Chama-se Maria José.

Somos Marias e Josés e Joões. Alceus, Álvaros, Marcos. Sem algum penduricalho no nome. Ela não é Delegada Maria, assim como meu pai não era Coronel José. Não nos elegemos deputados. Pois preferimos continuar como Famosos Quem. Quando um deputado qualquer enfiar um dedo na minha cara não sei se terei tanta presença de espírito como a jovem que o enfrentou. Mas espero dizer a ele que não converso com dedos.

Eu sou um Famoso Quem e gostaria muito que esses dedos não atrapalhassem a conversa. E também estou entre aqueles Famosos Quem que não são surdos. Se os nobres deputados baixarem a voz, quem sabe possamos convidá-los para a Grande Festa da Democracia, muito bem frequentada por Famosos Quem e Famosas Quem. Só sugerimos um pouco de compostura, para que talvez não sejam totalmente ignorados. No casarão ao lado, dizem, poderão gritar e uivar.

2 ideias sobre “Resposta ao delegado deputado: somos todos “famosos quem”

  1. Prezado Alceu,

    Adorei suas colocações. Esses tempos nervosos produzem boas reflexões, não é mesmo? Nós, Famosos Quem, agradecemos a homenagem. Abraços

  2. Nas eleições vote em um Famoso Quem do seu bairro, que VC conheça ha muito tempo e tenha historia sem truculência e limpa. Pode ser um comum. Mas tente examinar a quantidade de vergonha na
    cara. Tiririca enganou muita gente nessa.

    Limpe os lixos e cuidado com os novos. Pode ser um infiltrado da direita. Não vote em cara da Mídia.

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