Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

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Reivindicações justas do movimento negro da USP são prejudicadas pela humilhação a um professor que sempre estudou os excluídos; métodos são autoritários

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

José de Souza Martins não nasceu em família rica. Trabalhava como operário  enquanto, à noite, cursava Ciências Sociais na USP. Décadas depois tornou-se professor emérito, com extensa contribuição ao estudo das dinâmicas da exclusão, especialmente no campo. Bastaria mencionar um clássico: “O Cativeiro da Terra” (1979). Ou suas contribuições mundiais à reflexão sobre escravidão contemporânea. Nada disso contou na hora de ser enxovalhado por ativistas do movimento negro, no dia 17, em plena Universidade de São Paulo. Ele foi impedido de proferir a aula magna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O método de calar a boca alheia não deveria nem ser qualificado como estratégia possível. E sim como puro autoritarismo. É condenável em qualquer situação – de Eduardo Suplicy a Yoani Sánchez, de Lula a FHC. Tamanha truculência combina melhor com atitude de fascistas. E não de movimentos sociais com causas nobres, no caso o Ocupação Preta, com o aval do DCE Livre da USP. A dificuldade de perceberem que repetem métodos opressores preocupa duplamente, já que os ativistas parecem comemorar algo que não significa nem uma vitória de Pirro. Fosse uma vitória, os fins (repito, necessários) não justificariam os meios.

Mas a escolha de Souza Martins como alvo chama a atenção pela incomensurável distração histórica. Esses ativistas cheios de certezas (algo curioso, quando se pensa na associação entre pós-modernismo e multiculturalismo) simplesmente desconhecem a biografia do professor, que se define como afrodescendente; desconhecem sua contribuição decisiva, por exemplo, para a sociologia agrária. Ali mesmo, na Geografia da USP (ao lado do auditório onde tentaram humilhar o sociólogo), vêm da linha desenvolvida por ele pesquisas sobre a opressão no campo contra povos tradicionais, como camponeses, pescadores, quilombolas – e não somente estes últimos são negros.

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Questões são legítimas; mas por que calar o professor? (Foto: Beatriz Rodrigues Sanches)

Não estou dizendo que seja legítimo calar a boca de alguém em uma universidade. Do Delfim Netto, por exemplo, que deu a aula magna dias antes, na Faculdade de Economia, sem ser incomodado. E sim que a truculência, no caso de José de Souza Martins, ganha um agravante específico. E duplamente irônico, já que o penúltimo livro do sociólogo trata exatamente de linchamentos – os reais, não os virtuais. É dele, portanto, um dos principais documentos que temos sobre uma prática que atinge neste país exatamente os pobres, vítimas de certas justiças paralelas – e quem se considera de esquerda deveria temer justiças paralelas. Entre essas vítimas, claro, estão os negros.

Tudo ocorre, mais uma vez, em nome de causas legítimas. Justas. No caso, a ampliação da presença negra na USP, a reivindicação por cotas na maior universidade pública do país. Sim, uma universidade elitista. Com estruturas discriminatórias. Não soa muito hábil, porém, desqualificar os momentos de diálogo possível – como diz a nota de desagravo a Martins feita pela Congregação da FFLCH. Bem conhecemos, todos os que estudamos na USP (e não só na USP), as histórias de opressões em sala de aula, de professores que humilham, que dizem barbaridades – e que devem ser questionados sempre que se caracterizarem como opressores. Mas a ideia, afinal, é repetir as práticas ou rejeitá-las?

Alguns ativistas (e não somente de setores do movimento negro) optaram pelo chamado argumento ad hominem – o que desqualifica a pessoa, em vez de debater seus argumentos. Trata-se de um anti argumento, uma negação do debate. É utilizado nas redes sociais, muitas vezes de forma raivosa, e cada vez mais ao vivo, em desqualificações (“o omibranco”) e escrachos, sessões de esmagamento de determinados vilões de plantão (tenham eles cometido ou não algum crime ou deslize), acusados sem direito ao contraditório. Essas desqualificações não são debates intelectuais; são monólogos. Quando não, massacres.

Algo curioso desse tipo de movimentação é que se atribui a quem critica esses métodos adesão instantânea às práticas dos opressores. Como o racismo ou o machismo. Nenhum articulista estará a salvo desse reducionismo – ou dessa manipulação escancarada. Como se toda mulher e todo negro concordasse com os métodos utilizados por extremistas de determinados movimentos sociais. Ocorre que não se está aqui a criticar o direito à manifestação, e a legitimidade de se exigir uma universidade mais diversa – com negros e pobres e operários, com mais pesquisas relativas ao mundo dos excluídos e a eles dirigidas. (E não às corporações, ao poder econômico.)

O que se abomina aqui, e sempre se criticará (embora muitos comunicadores e ativistas confortavelmente nunca se atrevam a dizer), é a multiplicação das práticas opressoras por setores específicos dos grupos que, historicamente, estão entre os primeiros a combatê-las. O que se lamenta é essa desinformação, esses quarteirões de debates arrasados, essa confusão básica entre o direito de reivindicar, protestar, pressionar, radicalizar (que a direita não reconhecerá) e o dever de causar a qualquer custo, de gerar notícias a partir do achincalhamento e da suspensão da voz dos demais – que defensores de direitos não podem avalizar. Ocupar, sim. Calar, não.

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42 ideias sobre “Ativistas calam José de Souza Martins na USP; mas eles conhecem sua história?

  1. Bom, pelo que no vídeo aqui postado, os alunos ocupantes não me pareceram truculentos e tão pouco desrespeitosos com o professor em questão. Pelo que entendi a ocupação ocorreria com qualquer professor que estivesse ali naquele momento, ou seja , não há ali um ato contra um professor em específico e sim em chamar a atenção da universidade, o que descaracteriza um desrespeito ao currículo e a história do ´professor.

      • Ou seja, c/ Delfim Neto vcs não tiveram ombridade de fazer manifestação, pois lá sabiam que não seriam bem recebidos pelos estudantes. Raciocínio raso.

    • Concordo com a observação. Não vi desrespeito algum. Pelo que se pode ver nesse vídeo postado (assisti ao vídeo inteiro e com atenção), os ativista se manifestaram de maneira democrática. Quem se assusta, não entende de democracia. Quem achar que eles não fizeram direito, podem se aproximar o movimento, afinal, não é demais lembrar, a universidade continua sendo pública. A propósito, mantida com dinheiro dos contribuintes (eu, você e todos que ali estão). Como os próprios ativistas mencionaram, o racismo é um problema do Brasil. Portanto, meu, seu e deles. Todos estamos ‘convocados’ para o debate. O terreno democrático é um campo de embates. Algumas discordâncias são duras mesmo. O professor, por exemplo, nos instantes finais do vídeo, discorda veementemente de algumas expressões empregadas pelos ativistas e diz isso com todas as letras. Democracia é isso. Discordar, falar, ouvir, refutar, aplaudir, vaiar, mudar, manter e tantas outras posturas, atitudes, ações e reações. Se só um fala e se todos concordam, fingem ou são coagidos a fingirem concordar, não estamos num ambiente democrático.

    • Marcelo, desculpe, mas não concordo com você (você, claro, não perde nada por isto). Suave, respeitoso, suasório, o fato de impedirem o professor de proferir sua aula magna é, de fato, um desrespeito. Por mais importantes, candentes, justos e oportunos os protestos, as críticas e a causa, deveria haver, certamente, ocasião e lugar para as manifestações a respeito. Cercear o direito do professor em dar sua aula programada, isto é intolerável e constitui mesmo uma violência.

    • Houve desrespeito sim, na medida em que, após discursarem por mais de 10 minutos, e sendo ouvidos pelos integrantes da mesa e pela plateia, sem interrupção, não deixaram o prof. José Martins apresentar deu ponto de vista. É exatamente disso, aliás, que o texto trata: eles se fazem ouvir, mas não ouvem os demais. A síntese, com eles, não é possível, de modo que a discussão nunca avançará, dentro desse comportamento.

  2. O texto é, no mínimo, desleal com o acontecimento. Foi uma manifestação contra a presença de negros na aula magna, e não contra José de Souza Martins. Segundo, a aula magna, muito menos a aula de José de Souza, foi proibida de acontecer. Foi apenas interrompida para uma intervenção destinada aos novos estudantes. Tem um vídeo com o protesto no próprio texto. Enfim, estes dois pontos desfazem todo o argumento. Sim, há problemas nos movimentos sociais por práticas com teor fascista, mas isto não se enquadra neste acontecimento. O que ficou ao final foi tentativa de dar lição civilizatória ao movimento negro. Aulinha de boas maneiras. Sinceramente, este rapaz não teria coragem de fazer o mesmo com um movimento feminista.

    • Olá, Pedro. A aula magna seria proferida exatamente por Souza Martins. E não houve condições para isso. É um exercício de abstração querer dissociá-lo do acontecimento. Os problemas que você reconhece acontecem em diversos movimentos, como mencionado nesse texto e naquele sobre o Abu. Se eu não tivesse coragem de mencionar as feministas eu não as citaria (exatamente para não passar a impressão de que se persegue este ou aquele movimento) em textos motivados por acontecimentos relacionados ao movimento negro, certo? Seria mais cômodo. Nos dois casos houve motivo para isso: defesa dos direitos da criança (caso Abu), defesa do Souza Martins/liberdade de dar aula nesse último caso. Se houver algum acontecimento relevante relacionado a excessos do movimento feminista (ou de seus setores extremistas), escreverei. O blog não deixará de discutir temas relativos a direitos humanos porque isso possa desagradar a muitos/as. Não é minha função bajular ninguém. Discordar da abordagem (que reconhece a importância das causas defendidas), aí sim, é saudável.

      • Dúvida cruel ! Os direitos é para os humanos ou para alguns poucos humanos ? Qual o direito mais importante o de Souza Martins ou o direito da população negra deste País ?

        • Não faz sentido o que você disse. Os direitos do professor e os da população negra não são conflitantes, não é preciso anular os direitos de um para garantir os direitos dos outros. Como disse o autor, essa atitude é própria de fascistas, daquele tipo que acha que para proteger os direitos do “cidadão de bem” é preciso negar direitos aos “marginais”.

        • Que comentário tolo e desonesto. Desde quando interromper uma aula ou palestra tem a ver com os direitos da população negra do país? Por um acaso a exposição que faria o professor traria algum prejuízo pra alguma parcela da população negra do Brasil? Pois bem, aconteceu o que aconteceu e nosso país continua sendo um lugar racista, a polícia continua matando e agredindo e as universidades públicas continuam sendo elitistas. Falta humildade, respeito e noção de realidade pra muitos dos militantes dos diversos movimentos sociais brasileiros.

      • Caro Alceu, você tem todo direito de manifestar-se, ninguém está impedindo, só estamos exercendo o direito de discordar, e, mais, apresentar fatos concretos, inclusive com nomes e sobrenomes. Não é comentário fascista e anônimo do Uol. Não tem ameaça, se quer a repercussão do fato associada a atingir a reputação de José de Souza. De Brasília, fiquei sabendo por você, posteriormente ao protesto, a composição da mesa. Por isso, o primeiro passo é reconhecer que não teve nenhum elemento fascista nesta manifestação. Segundo, a manifestação foi promovida contra um ato da reitoria, e, o sr. José de Souza Martins tem sido associado a sua imagem, com defesas conservadoras, entre as quais uma suposta discordância das cotas. Ok? Ainda assim, ele não foi o alvo preferencial., conforme já expliquei.
        Isso é protesto, amigo. É democracia, exercer o contraditório e externar suas posições. Assuma as suas, José Martins as deles, e assim caminhamos. Só não coloque isso ao lado do fascismo.
        Att

  3. Foi muito ruim o autor comparar as ações dos ocupantes ao “fascismo”. Que falta de conhecimento histórico e francamente ofensivo à memoria das vítimas de fascismo. Não houve nenhuma agressão física aos professores na mesa. Os ocupantes não escolheram Professor Martins como alvo; escolheram a Aula Magna que previamente o Diretor da FFLCH tinha prometida que seria sobre o tema de cotas. Porém, o Diretor não cumpriu a promessa. Esse artigo é mais um exemplo do falso e hipócrita “decoro” da USP que mascara o desmonte da universidade pública pelas elites de quais Martins et. al. pertence. Ninguém despreza a contribuição que Martins fez à sociologia brasileira. Porém, além de ser contra cotas ele sempre fica no lado da reitoria e as elites da USP em toda questão política…

  4. Sou professor do departamento de história da USP, portanto o ato foi no prédio que trabalho, gostaria de dizer que o texto acima é uma vergonha! Foi um ato legítimo em defesa das cotas e se o movimento negro estivesse esperando por um convite da universidade os negros ainda estariam nas senzalas.
    A capacidade da USP em ouvir as demandas dos movimentos sociais ou mesmo dos estudantes é zero! E causa espanto que na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais tenha professores mais indignados com a interrupção de uma aula magna do que com a exclusão dos negros da universidade.
    Por fim, a reação do palestrante e da diretoria da FFLCH também não ajudou muito, convidar os manifestantes para assistir uma aula sobre o “homem simples” só poderia ser entendida como: aqui vocês são objeto de estudo e não interlocutores válidos!

    • Que categoria acadêmica é essa, professor, a da “vergonha”? Quer que o articulista ajoelhe no milho por pensar diferente? Até entenderia essa palavra vinda do militante do PSTU, mas como deu carteirada como professor da USP ela soa bastante estranha. Sou totalmente a favor da própria intervenção, do ato em si, da ocupação, do aumento da participação negra na USP etc – como o próprio texto informa. Sou contra a inviabilização da aula, um fato. Portanto dispenso distorções do texto – que igualmente não cabem bem em um acadêmico. Também não está proposto em lugar nenhum que os protestos sejam feitos com licença prévia, como ironizou em outro post. Reduzir o tema da aula de Souza Martins, o “homem simples”, a uma objetificação dos manifestantes poderia apenas ser considerado injusto em relação à biografia do sociólogo (seu colega), não fosse algo extremamente anacrônico – já que ele não sabia do ato. Por fim, discordo com veemência do próprio Martins quando, em entrevista, ele exclui a possibilidade de que intelectuais sejam ativistas. Mas diria que essas atividades devam ser mais bem coordenadas, como sugere o seu exclamativo destempero.

      • Eu só falei que sou professor da USP para deixar bem claro que estou acompanhando profundamente o episódio e não estou comentando algo alheio que por acaso li na internet e, aliás, quem tenta dar “carteirada” no ato dos estudantes é quem evoca a condição do professor José de Souza Martins. Os estudantes teriam interrompido qualquer aula, ainda que fosse Deus em pessoa! E ser militante de um pequeno partido não me desqualifica, como o colunista tenta fazer. Sim é uma vergonha que você se solidarize com a nota da FFLCH, sim é uma vergonha que você compare o ato com tudo que você disse. Por fim, queria dizer que a imensa maioria da plateia da aula magna ficou no debate promovido pelo movimento quando os professores foram embora, sinal que estes entenderam muito bem o que estava acontecendo naquele momento, coisa que muito que pegaram a notícia pela nota da FFLCH foram enganados, se deixaram enganar ou simplesmente aproveitaram a situação!

  5. De longe e tendo conhecimento do caso ao lê-lo aqui, só tenho a dizer que o conteúdo do texto foi simplesmente desmontado pelas imagens e sobretudo pelos comentários.

  6. Acho que o autor do texto exagerou demais na tinta ao comentar o ato do movimento negro. Até acho que os membros da mesa ficaram menos incomodados com o ato do que ele.

    • Concordo.
      Em nenhum momento os manifestantes desrespeitaram o Sr Martins.
      E se ele é tudo o que o autor do texto falou deve lutar para mudar uma realidade que é FATO. Poucos negros tem acesso aos cursos da USP.
      E textos tendenciosos como esse só servem para tumultuar o assunto, muito mais do que fizeram os manifestantes.

  7. Alceu, pode negar, espernear, escrever outro texto enorme se defendendo, mas sua tentativa de ser imparcial (se é que houve tentativa, mas pelo que li você se defendeu argumentando isso) falhou! Sua reportagem é desconexa com o acontecimento, relata o que não aconteceu. Tenho certeza de que o Professor José de Souza não se sentiu ofendido como você insiste na matéria. Inclusive, um bom redator de verdade convidaria o Professor a uma rápida entrevista para descobrir a opinião dele sobre uma opinião sua formada sem base ou fundamentos. Não foi o que aconteceu. Você simplesmente lançou essa ideia no blog! E comparar a atitude dos alunos como fascistas… Degradante. Infelizmente essa não foi boa.. Mas entendo, você se atrapalhou com o que quis dizer.

    • E caso o professor tenha se ofendido com esse ato legítimo, penso que seria uma momento em que ele negaria sua obra, haja vista que como se disse ele tem um histórico respeitável no que tange ao tema abordado pelo grupo que fez a intervenção…

  8. Sobre o professor José de Souza Martins, o que sei é que foi contra a histórica ocupação da reitoria de 2007, que teve muita força e foi onde mais se pôde vislumbrar alguma chance de vitória na luta pela democratização da USP. Publicou no Estadão uma coluna absolutamente conservadora, reacionária inclusive, desqualificando o movimento de modo bastante desinformado, de fora. Sei também que tem o hábito de reforçar sua posição de poder narrando incansável e repetidamente sua trajetória (trabalhou em uma fábrica de azulejos em São Caetano do Sul). A USP se abriu na marra, pela luta de pessoas com trajetória muito mais adversas. Pessoas que vêm de muito mais longe que a cidade do ABC mais rica e mais próxima de São Paulo. Ele não fez nada de errado. Só estava ali ocupando o lugar de poder de fala em que se sente confortável. E, além disso, não foi cortado pelo movimento negro nenhum canal de diálogo, com certeza. Quem conhece as palestras e aulas magnas sabe que elas são qualquer coisa bem pavoneada, mas não são nenhum exemplo de horizontalidade, diálogo e debate. O debate se pôs. De outro modo haveria apenas uma exibição, um regozijo intelectual. E vivam os movimentos sociais!

    • É injusta e revela desconhecimento a afirmação, por Weslei, de que José de Souza Martins “tem o hábito de reforçar sua posição de poder narrando incansável e repetidamente sua trajetória” operária. Como estudante, professor e pesquisador, acompanhei por mais de trinta anos a trajetória de Martins, lendo livros seus, assistindo a aulas e palestras, sem que esse fato fosse jamais mencionado. Apenas em 2011, quando lançou sua autobiografia, o professor Martins deu a conhecer os fatos de sua trajetória pessoal, que ainda hoje a maior parte de seu público (falo por meus muitos colegas e alunos) desconhece. Para além de discordâncias intelectuais e políticas com José de Souza Martins (das quais, inclusive compartilho parcialmente), sugiro: aprenda a argumentar, por favor.

  9. O protesto seria feito com qualquer professor, mas nem por isso deixa de ser um desrespeito ao Professor que tanto lutou para que alunos pobres e pretos pudessem participar desse tipo de espaço.

    O fato de encerrar a força um debate é sempre um desrespeito as pessoas envolvidas, a questão é determinar quais pessoas merecem esse tipo de desrespeito e quais não merecem.

    No caso específico, o Professor não merece, e pelo contrário, mereceria uma homenagem.

    Galera oportunista é o que não falta nesse mundo.

  10. Esse vídeo desmonta muito o texto.

    Me parece que ninguém se sentiu desrespeitado ali.

    O professor que responde aos manifestantes (não sei exatamente se era o Souza Martins) não me pareceu descontente, parece até que ele achou plausível e necessária a discussão, só achou a forma e alguns termos exagerados.

    Eu não vi tom de fascismo e talvez realmente nem seja o melhor momento e lugar para uma manifestação tão intensa e prolongada, poderia por exemplo ter deixado a aula magna rolar depois do jogral, mas parece também que passou da hora da USP ser menos elitista.

    O texto ficou muito fraco em relação ao vídeo e em relação aos comentários do autor. Pareceu um breve chiliquinho pela ordem e pelas celebridades acadêmicas. Cabe a crítica e cabe repensar essas intervenções, mas desse jeito é muito fla-flu, né?

  11. “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” (Bertolt Brecht).
    Esse texto está bem elaborado. E, justamente, reconhece a importância do professor José de Souza Martins. Seus livros e sua contribuição é, de fato, digna de ser mencionada. Porém, como outros que se pronunciaram aqui, não vi que a manifestação se dirigiu diretamente ao professor. A manifestação se reportou às estruturas excludentes da USP. E, o momento escolhido não poderia ser mais oportuno – uma aula magna. Não tem eficácia um protesto que não quebre rotinas, que não exponha as feridas e que não cause um mal-estar. Agora, é preciso registrar que o silêncio é também violento, que a invisibilidade é também violenta, que as margens que oprimem os rios são também violentas. Então, é preciso acolher essa manifestação como produto também da violência das estruturas excludentes da Universidade de São Paulo. O que não é uma exclusividade num país em que os negros e as minorias sempre foram relegadas a viver no subsolo. Eu me manifesto em apoio aos manifestantes.

  12. Desrespeito à opinião alheia, linchamento, ad hominem… como assim? Eu nunca vi isso na USP. E ainda os espertinhos ficam melindrados quando dizem que isso é fascismo. Não tolerar a existência de oposição política é a exata definição de fascismo. Os fascistas de ontem chamavam os que a eles se opunham de “reacionários” (é engraçado, mas é verdade), os fascistas de hoje chamam de “racista”, “machista”, “homofóbico” ou, ironicamente, de “fascista”. Os ditos “movimentos sociais” têm a audácia de se propor a representar grupos gigantescos de pessoas que, ligados por uma linha tênue (raça, sexo, preferência sexual) se veem alijadas de sua individualidade. Fazem isso e não suportam oposição, não suportam oposição nem vinda de “dentro”, quanto mais vinda de “fora”. Agora comportam-se de maneira animalesca e desrespeitosa e exigem “inclusão”. Sinto muito, se inclusão significa incluir a selvageria na universidade prefiro a exclusão.

      • A meu ver a aula aconteceu, mas não nos moldes “clássicos”, com que já nos acomodamos. Se tivesse acontecido, o Alceu não teria comentado e não haveria movimento, debate. Isso foi positivo.
        Quanto ao Professor Martins, ele é um excepcional sociólogo voltado ao estudo dos conflitos e sabe muito bem considerar a História. Não há porque temer o conflito, pois ele é inerente às relações sociais e à História.

  13. E alguém perguntou o que ele achou da intervenção? Se o cara tem uma história de vida voltada pra questões sociais, as vezes até achou interessante que foi impedido de falar frente a uma plateia branca, em uma aula magna que ” apresenta” o curso (leia-se a realidade) aos novatos. E no mais, tem mais que cacoalhar o rascismo da usp e não esperar a hora apropriada!

  14. Me incomoda muito mais a desonestidade em textos que finjem sutilmente ser respeitosos do que a desonestidade em textos escancaradamente enviesados.

    Alegar que o histórico de um professor deveria servir-lhe de blindagem, como se o fato do Martins ter uma importância academica para a discussão social o tornasse inatingivel, acima de critica, é absurdo. Dizer que interromper a aula magna dele é um erro por causa da biografia dele é, no minimo, ridiculo. Afirmar que os ativistas desconhecem a biografia do professor é uma pressuposição estupida, arrogante e sem base, e tratar isso com condescendência (eles são muito bem intencionados mas não conhecem livros) é um comportamento, na melhor das hipóteses, colonizador.

    Não houve nenhuma tentativa de calar a boca do professor, como o articulista distorce em seu texto. Dizer isso é achar que a interrupção se deu por causa do professor, e não por causa da aula magna e de todas as outras atividades já realizadas pela Ocupação Preta.

    Não seinse a intenção desse texto era apenas defender toscamente um professsor que não foi atacado ou se a ideia era só deslegitimar a Ocupação Preta, chamando seus militantes de ignorantes (ainda que”nobres”) e comparando o protesto ao fascismo da direit. Dificil dizer se isso é recalque do autor contra o movimento negro ou apenas uma idolatria servil à Santa Academia. A questão é que é um texto manipulador e desonesto, e foi bastante mal sucedido em seu objetivo, haja visto os muitos comentários dizendo o mesmo.

    • Realmente, Plínio, “não houve nenhuma tentativa de calar a boca do professor”. O que houve foi coerção para que ele se posicionasse sobre uma questão que nunca será rasa a ponto de ser respondida com meros sim ou não. Não se limite ao vídeo presente no texto. Existem outros na rede…

  15. O Professor Martins é um excepcional sociólogo voltado ao estudo dos conflitos e sabe muito bem considerar os conflitos. Não há porque temer o conflito, pois ele é inerente às relações sociais e à História. Eu temo é o silêncio das instituições públicas. Talvez nossa academia esteja acostumada demais às cátedras, títulos e nobrezas e tenha esquecido que ela é formada de servidores públicos, ou seja, trabalhadores.

  16. É impressionante a quantidade de comentários defendendo ou justificando a manifestação autoritária e desrespeitosa dos integrantes do movimento negro. Aliás, há muito tempo me chama a atenção a blindagem que existe em torno desse movimento. Parece que é proibido criticá-lo. Comecei a acompanhar este blog há pouco tempo, e, até agora, as postagens mais comentadas, com larga vantagem sobre as demais, tratavam de excessos cometidos pelo movimento negro (a outra foi sobre o infame caso Abu). Tenho certeza de que isso não ocorreu por acaso.

    Essa militância cheia de certezas, avessa ao diálogo e adepta de linchamentos tem sido associada, pelos direitistas, à imagem da esquerda como um todo. Não é à toa que os Bolsonaros da vida conquistam cada vez mais notoriedade política. Nessa disputa entre posições extremistas, a sociedade acaba optando por aquela que lhe parece mais familiar.

  17. Pequena constatação: Martins começa a falar, é aplaudido, quando começa a discordar dos manifestantes é interrompido duas vezes, quando começa o bate-boca entre professor e manifestantes o vídeo é cortado.

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