Enquanto Obama chora, Brasil vê risco de retrocesso no desarmamento

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País vai na contramão dos Estados Unidos e discute revisão do porte de armas, 12 anos após lei que salvou 160 mil vidas; grande imprensa aceita agenda da direita

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Apontar apenas hipocrisia no choro de Barack Obama, por causa da saliência bélica dos Estados Unidos, talvez não explique toda a dimensão do fenômeno: a liderança mais influente do mundo às lágrimas ao anunciar plano que restringe as armas de fogo em seu país. Pode ser que, daqui a uma geração, o gesto abra o caminho para um presidente americano que, de fato, mereça o Prêmio Nobel da Paz.

Vejo problema maior em nossa própria hipocrisia. O rosto de Obama ocupa nesta quarta-feira a capa dos principais jornais brasileiros. E que sinalização o Brasil está fazendo hoje, em relação ao desarmamento? Do ponto de vista externo, somos o quarto maior exportador de armas. Internamente, corremos o risco de um retrocesso histórico, patrocinado pela bancada da bala e por uma crescente mentalidade da bala.

Refiro-me aos movimentos pela revogação do Estatuto do Desarmamento. Em outubro, uma comissão na Câmara aprovou projeto de lei que facilita a obtenção de posse de armas. Falta ir a plenário. Para o governador pernambucano Paulo Câmara, a mudança pode significar o maior retrocesso da história política recente do Brasil. Um estudo mostra que o estatuto, aprovado em 2003, já salvou 160 mil vidas.

Vejo o choro de Obama e penso no choro da deputada Maria do Rosário (PT-RS), umas das principais defensoras de direitos humanos na Câmara. Mais especificamente, na utilização de seu choro pela direita mais tosca e desonesta deste país, que associa a defesa de direitos à “dó de bandidos”, como se a defesa de um mínimo de civilização significasse conivência com crimes.

E o problema não se restringe aos defensores de figuras tristes como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), neste país que fez da frase “homem não chora” um de seus principais sucessos musicais em 2015. O problema está na incorporação pelo centro e pela centro-direita (o que inclui a imprensa) de ideias que deveriam estar no limbo da política; na conivência, na falta de uma defesa mais vigorosa dos direitos humanos.

Estes começam a ser tomados como se fosse uma questão de defendê-los ou atacá-los, como se a democracia fosse isso, essa disputa – e não algo que depende diretamente da defesa sistemática desses direitos elementares. A imprensa age da forma que o cineasta francês Jean-Luc Godard definiu, em relação à suposta objetividade jornalística: “Um minuto para Hitler, um minuto para os judeus“.

UM MINUTO PARA HITLER, UM MINUTO PARA OS JUDEUS

Ou seja, ela consegue a façanha de dar um verniz de democracia a um debate regressivo, implosivo. Até que todo mundo seja capaz de fazer sofismas como o Bolsonaro: “Vocês, lobotomizados pelo Datena, aterrorizados pelo Marcelo Rezende, desinformados por nós mesmos, veículos de comunicação irresponsáveis e promotores da paranoia, vocês querem levar os bandidos para casa?”

A mesma pergunta prevê um contraponto, como se fosse uma concessão: “Os especialistas em Segurança Pública, com dados sérios sobre políticas efetivas de redução da violência, poderão também dar suas opiniões, em meio aos esbravejamentos, distorções e desejos de vingança. Os professores dos Núcleos de Estudos sobre Violência poderão curtir e compartilhar eventuais opiniões embasadas.”

Em seguida os mesmos jornais estarão aptos a fazer outras perguntas e enquetes pseudodemocráticas, em meio a um reducionismo populista. “Segundo vocês, a pena de morte poderá ou não ter requintes de crueldade?”. Ou: “A corrupção (mas atenção, somente esta corrupção seletiva que a gente mostra diariamente) deve ser considerada um crime hediondo?”

E assim por diante, até a nossa imbecilização total. Até que a nossa democracia pareça cada vez mais com um paredão. Ou com aquela famosa brincadeira do Silvio Santos: “Vocês trocam esta linda bicicleta cromada por… este pente quebrado?!!”

Ou: “Vocês trocam esta nossa democracia cheia de defeitos, com sua imensa dificuldade intrínseca para tecer uma justiça de longo prazo, essa democracia lenta, dependente de dezenas de políticas públicas simultâneas e repleta de direitos fundamentais por… por uma lógica do linchamento?!!! Por uma lógica da eliminação? Por um país cheio de armas?”

E as criancinhas no Domingo no Parque gritarão: “Sim!!!! Sim!!!”

E a nossa imprensa e a nossa elite racista seguirão rindo o seu riso franco e puro para um filme de terror.

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