2015 – Rio teve apartheid na zona sul e execução de crianças

Cidade que recebe a Olimpíada teve um ano para se esquecer em termos de violência policial; crianças foram executadas; adolescentes pobres, revistados e ofendidos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Rio de Janeiro continua violento. E é um dos símbolos da barbárie policial no Brasil, o país das mortes em “tiroteios”. Ou das execuções. De negros, descendentes de indígenas, pobres. E de crianças e adolescentes. Como Eduardo de Jesus, em abril. Herinaldo Santana e Cristan Andrade, em setembro. Eles tinham 10, 11 e 13 anos:

10/04 (Rio): Menino de 10 anos é morto no Alemão; moradores acusam policial
10/04 (Rio): Moradores do Complexo do Alemão relatam abusos e violações de policiais
23/09 (Rio): Morre criança baleada por PM em favela do Caju
08/09 (Rio): ‘Rapaz estudioso e bom’, diz tio sobre morto em tiroteio em Manguinhos

Em outubro, a ONU denunciou o elevado número de mortes extrajudiciais de crianças como uma tentativa de “limpar” o Rio para a Olimpíada de 2016:

08/10 (Rio): ONU denuncia mortes de crianças como forma de ‘limpar’ Rio

Os jornais, porém, não fizeram editoriais sistemáticos a respeito. Os articulistas (de política, economia, cronistas) acham que não é com eles. E a violência se espalha sem gerar comoção, a não ser nos programas sensacionalistas – que costumam bancar as versões policiais.

APARTHEID

A imprensa tem um papel decisivo na definição desse apartheid. Mas a discriminação contra adolescentes pobres, no Rio, teve sua tradução mais visível nas revistas policiais feitas em ônibus que iam para a zona sul. Muitos adolescentes foram impedidos de chegar ao destino:

24/08 (Rio): PM aborda ônibus e recolhe adolescentes a caminho das praias da Zona Sul do Rio

Diante da evidente inconstitucionalidade, a Justiça teve de intervir:

10/09 (RIo): Vara da Infância e Juventude proíbe PM de apreender adolescentes sem flagrante

Não bastasse a polícia, adolescentes foram espancados por moradores na zona sul:

20/09 (Rio): Moradores de Copacabana agridem adolescentes em via do bairro e jovens que seguiam em ônibus

Na Gávea, a atriz Letícia Sabatella foi obrigada a assinar um termo de responsabilidade para que a polícia liberasse três adolescentes. Ela acabara de dar autógrafo a eles e viu que tinham sido parados por PMs, que se propunham a “escoltá-los para a Rocinha”:

Ainda no Rio, dois adolescentes brincavam. Um policial aparece em vídeo disparando loucamente pela janela. O motorista percebe que não eram bandidos (se fossem, só poderiam motivar disparos caso estivessem enfrentando os PMs) e para a viatura. Pergunta por que eles correram:

10/07 (Rio): “A gente tava brincando, senhor”, diz jovem após ser baleado por policial

CIDADE DE EXECUÇÕES

Em agosto, a Anistia Internacional lançou um relatório sobre as execuções extrajudiciais, homicídios e outras violações de direitos humanos cometidos pela Polícia Militar no Estado governado por Luiz Antonio Pezão (PMDB): Registros de homicídios decorrentes de intervenção policial encobrem fortes indícios de execuções extrajudiciais.

Segundo a organização, 5.132 pessoas foram mortas por policiais em serviço apenas na cidade do Rio de Janeiro, entre 2005 e 2014. A grande maioria, negros. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançou em novembro uma campanha contra a execução de crianças e adolescentes negros: A execução de adolescentes no Rio e o vídeo do Unicef que ninguém viu.

rio-lagartixa

Na mesma semana, cinco jovens negros (foto acima) eram fuzilados na zona norte. Levaram 111 tiros. Eram eles: Carlos Eduardo da Silva de Souza, 16 anos; Roberto de Souza Penha, 16 anos; Cleiton Corrêa de Souza, de 18 anos; Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos; e Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos.

A pesquisa do blog sobre casos de violência ocorridos em 2015 em todo o Brasil (baseada principalmente no acervo da página Observatório do Autoritarismo, no Facebook) desembocou em muitas notícias cariocas – à frente de todas as demais Unidades da Federação. Por ser um dos centros da imprensa brasileira ou pela saliência de seus conflitos? Provavelmente as duas coisas.

O fato é que as execuções continuam banalizadas:

03/05 (Campo Grande, RJ): PM será investigado por atirar no rosto de jovem, que engoliu projétil
29/06 (Rio): ‘Meu filho foi baleado pelo Bope’, afirma pai de homem assassinado na Z. Norte

Em outubro, dois mototaxistas foram executados porque os policiais confundiram o macaco hidráulico que o garupa carregava com uma arma:

30/10 (Rio): PM confunde macaco hidráulico com arma, atira e mata 2 mototaxistas no Rio

A palavra “confusão” aparece em outra notícia, desta vez no Leblon. Os policias confundiram um skate – um skate – com uma arma e atiraram. O adolescente de 15 anos sobreviveu:

05/11 (Rio): PM pode ter confundido skate com arma ao atirar em jovem no Rio

TEVE ATÉ AGRESSÃO A JUÍZA

Não que a cidade não tenha outros problemas relacionados à repressão policial, como mostra esta reintegração de posse, em junho:

03/06 (Rio): Desapropriação termina com feridos e confusão na Vila Autódromo

Mas uma cidade que executa crianças e onde policiais presos agridem uma juíza precisa, definitivamente, acender o sinal de alerta:

01/10 (Rio): Após agressão a juíza, Justiça determina fechamento de prisão da PM no Rio

Enquanto isso, segundo a ONG Viva Rio, os presos comuns ficaram atrás das grades por 101 dias, em média, antes de terem direito a um julgamento.

15/09 (Rio): 54% dos presos no RJ ficaram atrás das grades indevidamente, diz estudo

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